O Garoto Feito de Sol e Terra

17 Capítulo 17 — Coragem Líquida


A casa estava vazia quando Leo entrou no quarto de Gustavo. Ele não deveria estar ali, mas a curiosidade foi maior. O irmão mais velho sempre guardava coisas que Leo não podia mexer, o que só tornava a ideia mais interessante.

E foi ali, entre algumas roupas jogadas e uma mochila velha, que Leo encontrou as bebidas. Três latinhas de cerveja e duas garrafas de Skol Beats.

Provavelmente Gustavo tinha pegado de alguma festa ou trazido de alguma ida ao centro da cidade.

Leo pegou duas latinhas de cerveja e uma das garrafas de Skol Beats e sentiu um arrepio de excitação.

Era agora.

Ele não ia beber sozinho, claro.

Tinha que chamar Eduardo para experimentar também.


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Eduardo chegou à fazenda no meio da tarde, com a bicicleta coberta de poeira da estrada.

— Tava demorando. — Leo disse, encostado na porteira com um meio sorriso.

— Você não disse que eu tinha horário.

Leo fez um gesto para ele segui-lo.

— Vem comigo. Tenho uma coisa pra te mostrar.

Eduardo seguiu Leo até os fundos do celeiro, onde ele revelou o pequeno tesouro ilícito.

— Você roubou isso? — Eduardo arqueou as sobrancelhas, olhando as bebidas.

— Peguei emprestado do Gustavo. — Leo corrigiu, pegando uma lata de cerveja e jogando para Eduardo.

— Isso ainda é roubo.

— Então eu devolvo depois.

Eduardo segurou a lata, hesitante.

— Se a gente for pego, tamo ferrado.

— Para com isso, tamo só se divertindo.

Eduardo olhou para a lata, ponderando.

Então Leo abriu a dele e tomou um gole, fazendo uma careta imediata.

— Ugh! Que troço ruim.

Eduardo riu.

— E você queria que eu experimentasse isso?

— Agora você vai.

Eduardo suspirou, abriu a lata e deu um gole pequeno, torcendo o nariz logo em seguida.

— Isso tem gosto de pão estragado.

— Né? Por que as pessoas bebem isso?

Leo pegou a garrafa colorida e comentou:

— Vai ver essa aqui é melhor.

Eduardo olhou para a Skol Beats, reconhecendo.

— Essa dizem que é doce.

— Ótimo, porque cerveja é um lixo.

Eles abriram a garrafa e cada um tomou um gole. Dessa vez, não fizeram careta.

— Muito melhor. — Eduardo admitiu.

— Isso desce fácil. — Leo concordou.

Eles continuaram bebendo, conversando, rindo alto sem motivo algum. O álcool começava a deixar os dois mais leves, mais soltos, sem barreiras.

E então, o pôr do sol chegou.


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Eles estavam sentados na grama, a garrafa vazia jogada ao lado.

O céu se tingia de laranja, rosa e roxo, e a luz dourada do sol se espalhava pelo campo.

Leo suspirou, apoiando os braços atrás do corpo.

— O pôr do sol aqui é sempre lindo!

Eduardo continuou olhando o horizonte.

Mas então, olhou para Leo.

O cabelo loiro dele brilhava sob a luz do fim de tarde, os olhos refletiam aquele mesmo dourado do céu. Era como se a própria paisagem tivesse se instalado dentro dele. O jeito como a brisa bagunçava os fios, como a luz banhava sua pele... Tudo parecia perfeito demais, como se aquele momento estivesse ali apenas esperando para acontecer.

E Eduardo não sabia o que estava acontecendo com ele.

Talvez fosse a coragem do álcool. Talvez fosse o próprio entardecer, que trazia uma sensação estranha de plenitude e nostalgia.

Ou talvez fosse algo que já existia dentro dele há muito tempo, mas que só agora permitia emergir.

Sem pensar, as palavras escaparam antes que pudesse segurá-las.

— É... é muito lindo.

Leo virou o rosto para ele, surpreso com o tom na voz de Eduardo.

Os olhos se encontraram.

E de repente, o mundo ao redor ficou em silêncio.

Não havia mais vento, não havia mais o barulho distante dos pássaros, nem o leve farfalhar das folhas. Só havia aquele instante suspenso entre os dois.

Eduardo não sabia o que estava fazendo, ou talvez soubesse exatamente.

Mas, pela primeira vez, não tentou resistir.

Levantou a mão devagar, hesitante, os dedos roçando a pele quente do rosto de Leo, como se precisasse sentir se aquilo era real.

E então, se aproximou.

E Leo não recuou.

Os lábios se tocaram devagar, sem pressa, como um segredo contado em silêncio. Foi um beijo incerto, como se estivessem explorando um território desconhecido, mas ao mesmo tempo carregado de algo que nem um nem outro sabia nomear.

O coração de Eduardo batia tão forte que parecia preencher todo o espaço entre eles.

Leo prendeu a respiração por um instante antes de corresponder ao beijo, inclinando-se levemente para mais perto. E, naquele momento, tudo que existia era o calor, o toque e a sensação avassaladora de que algo estava mudando.

Quando se afastaram, os olhos de ambos estavam arregalados.

O que quer que tivesse acabado de acontecer, não podia ser apagado.

O álcool de repente parecia ter evaporado, dando lugar a algo muito mais intenso, muito mais real. A realidade caiu sobre eles como um choque gelado, como se o mundo, antes silencioso e suspenso, de repente voltasse a girar.

Leo piscou, sentindo um rubor subir pelo rosto, a respiração instável.

Eduardo sentia o coração martelando forte no peito. Ainda podia sentir o gosto da Skol Beats em sua boca, mas, mais do que isso, o gosto de Leo ainda estava ali.

O vento soprava leve sobre a grama, o pôr do sol continuava lá, lindo e dourado, mas nenhum dos dois conseguia mais enxergá-lo do mesmo jeito.

Leo abaixou os olhos para o chão, passou a língua pelos lábios como se tentasse entender o que tinha acabado de acontecer.

E então, sem encará-lo, a única coisa que conseguiu dizer foi:

— Acho que a gente bebeu demais.

A voz dele não tinha tom de brincadeira.

Eduardo sentiu o estômago revirar. Ele não sabia o que dizer. Não sabia nem o que pensar. Ele se levantou de repente.

Leo ergueu o rosto para ele, a testa franzida.

— Edu?

Eduardo abriu a boca, mas nenhuma palavra veio. Porque, pela primeira vez, ele não sabia o que dizer.

Seu peito estava sufocado, um milhão de pensamentos embolados em sua cabeça, e ele não queria lidar com nenhum deles.

— Vou embora.

A voz saiu rápida, firme, quase sem emoção.

Leo franziu a testa, queria dizer algo, mas as palavras não saíam. Eduardo já estava indo em direção ao portão.

Não olhou para trás.

Não se despediu.

Ele simplesmente começou a correr.

Atravessou o gramado, passou pelo portão da fazenda, pegou a bicicleta e sumiu pela estrada de terra batida.

O vento gelado batia contra seu rosto, mas não conseguia apagar a sensação do que tinha acabado de acontecer.

O que ele fez?

O que eles fizeram?

Eduardo não sabia.

E, no momento, não queria saber.

Ele pedalou sem parar.

O vento do fim de tarde esfriava sua pele suada, mas não conseguia acalmar o turbilhão na sua mente. Cada vez que piscava, era como se voltasse para aquele momento na fazenda.

O pôr do sol.

O cheiro do mato e da terra.

O silêncio.

Leo.

Os olhos dourados, a respiração curta, o jeito como ele não recuou.

E então, o beijo.

Eduardo soltou um xingamento baixo, apertando mais o guidão da bicicleta.

O que diabos ele tinha feito?

Ele não sabia. Ou talvez soubesse, mas não queria admitir.


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Quando chegou em casa, a primeira coisa que fez foi subir direto para o quarto.

Helena gritou alguma coisa da cozinha, perguntando por que ele tinha chegado tão cedo, mas ele ignorou.

Fechou a porta e se jogou na cama. Ficou ali, de barriga para cima, tentando entender o que tinha acontecido.

Ele tinha tomado a iniciativa.

Não foi Leo.

Foi ele.

Foi ele que se aproximou.

Foi ele que se inclinou.

Foi ele que tomou a decisão de beijar Leo.

E sabia que não podia culpar o álcool. Porque, por mais que tivesse bebido, estava consciente. Quis fazer aquilo.

E se quis, isso significava o quê?

Eduardo fechou os olhos com força, passando as mãos pelo rosto.

Seu coração ainda estava disparado.

Se sentia inquieto. Perdido. Como se tivesse quebrado alguma regra invisível que nem sabia que existia. Ele tentou se convencer de que foi só o momento.

Mas sabia que não era verdade.

Porque não foi só agora.

Foi lá atrás, quando caiu sobre Leo no feno e ficou tempo demais olhando para ele.

Foi quando as mãos se seguraram naquele dia do cinema.

Foi quando Leo sorriu comendo aquela empadinha na fazenda, e Eduardo sentiu um calor estranho no peito.

E agora, esse beijo.

Ele tentou não pensar mais nisso.

Mas não conseguiu.

Porque tudo que conseguia sentir era o toque dos lábios de Leo nos seus.

E o pior de tudo… é que não sabia se queria esquecer.