O Garoto Feito de Sol e Terra
13 Capítulo 13 — Entre Dois Mundos
Eduardo não queria pensar naquilo.
Ou, melhor dizendo, não queria lembrar.
Aquela cena voltava à sua mente sem pedir permissão — o toque rápido, o segundo em que sua mão encontrou a de Leo. Não tinha sido nada. Não deveria significar nada.
Mas, por alguma razão, a sensação ainda estava ali.
Ele balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento, tentando focar na nova realidade que tinha que enfrentar.
O dia de hoje era importante. Era seu primeiro dia na escola particular.
O prédio da nova escola era grande e bem cuidado. Diferente da escola pública, onde a quadra era meio desgastada e os corredores tinham sempre alguma parede descascada, ali tudo parecia impecável. Limpíssimo. Organizado. Elegante.
Eduardo sentia os olhares de alguns alunos conforme passava pelo pátio. O garoto novo. Todos já sabiam quem ele era, afinal, a família Castilho se tornou conhecida na cidade.
— Você que é o Eduardo?
A voz veio de um garoto de cabelos castanho escuros, bem arrumado, camisa bem passada e um sorriso de canto.
— Sou.
— Prazer, sou Tiago. Acho que meu pai conhece o seu.
Eduardo assentiu. Claro que conhecia. Seu pai fazia questão de se associar aos melhores nomes da cidade.
— Falaram que você veio da escola pública, né? — Tiago perguntou, com um tom que Eduardo não soube dizer se era de provocação ou apenas curiosidade.
— Sim.
— Corajoso, hein? — Tiago riu e colocou um braço ao redor dele, como se já fossem velhos amigos. — Vem, vou te apresentar pra galera.
E foi assim que Eduardo conheceu o grupo de Tiago.
Hugo era o mais brincalhão, sempre fazendo piadas de tudo. Giovane, o mais sério e observador. E Tiago, claro, era o líder natural. Popular, rico e acostumado a ter as atenções voltadas para ele.
— E então, o que achou da escola? — Tiago perguntou enquanto os quatro se sentavam em uma mesa do pátio, na hora do intervalo.
Eduardo deu de ombros.
— É diferente.
— Diferente? — Hugo riu. — Diz logo que é bem melhor.
Eduardo sorriu de leve, mas não disse nada.
Foi então que uma movimentação chamou a atenção dos meninos.
— Olha só quem chegou. — Giovane apontou.
Eduardo olhou na direção do grupo e reconheceu Kayla Albuquerque.
Ela vinha caminhando pelo pátio, cercada por algumas amigas, rindo de algo que uma delas dizia. O cabelo castanho claro brilhava sob o sol, e a postura confiante fazia com que todos automaticamente a notassem.
— Ela é incrível, né? — Tiago bateu no braço de Eduardo.
— A garota mais bonita da escola, fácil. — Hugo concordou.
Eduardo continuou olhando por um instante. Já conhecia Kayla. Tinha sido apresentado a ela meses atrás, na festa do senhor Albuquerque, pai dela. Mas ali, no meio da escola, vendo como ela dominava o ambiente, parecia completamente diferente.
— Você já conhecia ela, não conhecia? — Giovane perguntou.
— Já falei com ela uma vez. — Eduardo respondeu simplesmente.
Tiago riu.
— E já se apaixonou?
Eduardo foi pego de surpresa pela pergunta, mas balançou a cabeça e respondeu:
— Não.
— Sério? Vai dizer que não achou ela bonita?
Eduardo desviou o olhar e deu um meio sorriso.
— Ela é bonita, sim.
E isso foi o suficiente para que os meninos interpretassem como uma confissão.
— Eu sabia! — Tiago riu.
Eduardo não respondeu mais. Não queria prolongar aquele assunto.
◄☼►
Apesar da nova rotina, Eduardo ainda ia para a fazenda.
Nos primeiros dias, tudo parecia normal. Ele encontrava Bruno, Davi e Carla de vez em quando, jogava conversa fora e, claro, passava o tempo com Leo.
Mas, aos poucos, as coisas começaram a mudar.
Agora, além de ir à fazenda, Eduardo também passava tempo com Tiago e os outros amigos. Ele ia à casa de Tiago algumas tardes, jogava videogame, participava das conversas sobre a escola e as festas que aconteciam de vez em quando.
E Tiago também ia à sua casa. Ele havia se tornado seu melhor amigo nessa nova etapa de vida. Eduardo se perguntava se era possível ter dois melhores amigos.
Se antes, Leo era o centro da sua vida, agora Eduardo sentia que havia dois mundos diferentes que ele equilibrava.
O mundo onde corria pela lama da fazenda, sujava os pés, jogava conversa fora no campo. E o mundo onde andava pelos corredores impecáveis da escola particular, conversava sobre planos futuros, aprendia sobre política e negócios e ouvia os meninos falarem sobre as meninas mais bonitas da escola.
E seus pais?
Aprovavam completamente.
Tiago Rocha vinha de uma família importante. Tinha um futuro promissor, um nome de respeito. O oposto de Leo.
Mas, no fundo, Eduardo sabia que não queria abrir mão de nenhum dos dois mundos.
E ele não fazia ideia de até quando isso seria possível.
◄☼►
Eduardo achava que seria uma boa ideia.
Achava.
Quando soube que Tiago e os outros iriam em sua casa naquela tarde, ele pensou: Por que não chamar o Leo também?
Tinha mencionado Leo rapidamente para Tiago uma vez. Falou que era seu melhor amigo da escola antiga, que morava em uma fazenda. Tiago fez uma piada sobre ele andar a cavalo para a escola, riu, e a conversa morreu ali.
Mas agora, Eduardo achava que seria legal juntar todo mundo.
Só que, assim que Leo chegou e entrou na sala onde os outros já estavam, Eduardo percebeu que tinha cometido um erro.
Leo destoava de tudo ali.
Enquanto Tiago, Hugo e Giovane usavam roupas caras e bem alinhadas, Leo chegou com a camisa amassada, a calça um pouco surrada e os tênis já gastos pelo uso na fazenda.
Seu cabelo loiro estava bagunçado como sempre, e ele não parecia nem um pouco incomodado por isso.
Mas Eduardo percebeu os olhares dos outros garotos.
Tiago não disse nada de imediato, mas analisou Leo dos pés à cabeça, como se estivesse tentando entender o que ele estava fazendo ali.
Hugo e Giovane apenas trocaram um olhar rápido.
Foi nesse instante que Eduardo percebeu que misturar esses dois mundos não faria sentido.
Mas já era tarde demais.
— E aí. — Leo disse, jogando o corpo em uma das poltronas, como se não sentisse a tensão no ar.
Eduardo tentou quebrar o desconforto antes que alguém falasse alguma coisa.
— Senta aqui, cara. — indicou o sofá ao lado dele.
Tiago franziu ligeiramente a testa, como se estivesse tentando lembrar de onde conhecia Leo. Então olhou para Eduardo.
— Ah, então esse é o seu amigo da fazenda? O tal de Leonardo?
Leo se jogou no sofá sem cerimônia e respondeu antes mesmo que Eduardo pudesse dizer algo.
— Eu mesmo.
O silêncio que veio em seguida foi curto, mas pesado.
E Leo sentiu.
Não que isso o incomodasse — ele já estava acostumado a ser o estranho no meio dos riquinhos de São Tomás.
Mas o que incomodava era que Eduardo parecia sentir também.
Por fim, a conversa seguiu. Como se ele não estivesse ali.
— Velho, a prova de matemática foi um lixo. — Hugo reclamou. — A professora passa aquelas questões impossíveis, como se a gente fosse usar isso na vida real.
— Pior que isso, só o professor de história. — Giovane riu. — Fica falando de uns negócios que ninguém liga.
Leo tentou entrar no papo.
— Ah, história até que é legal. Se for sobre guerras e essas coisas…
Tiago olhou de canto para ele, mas ignorou completamente o comentário.
— Vocês viram o carro que o pai do Renan comprou? O negócio parece uma nave.
— Vi. Ele levou pra escola outro dia. — Hugo disse, empolgado.
— Acho que meu pai vai trocar o dele no fim do ano. — Giovane completou. — Tô tentando convencer ele a me ensinar a dirigir antes do tempo.
Leo tentou de novo.
— Meu irmão sabe dirigir trator.
Hugo riu, como se fosse uma piada.
— Trator? Sério?
Tiago apenas balançou a cabeça com um sorrisinho irônico, e ninguém puxou o assunto adiante.
Leo sentiu o estalo.
Eles não estavam interessados no que ele tinha a dizer.
Então, parou de tentar.
Ficou ali, escutando, esperando que em algum momento surgisse algo que fizesse sentido para ele.
Leo já tinha desistido de tentar entrar no papo quando Eduardo, percebendo o desconforto, tentou puxar um assunto que pudesse incluir o amigo.
— Leo, lembra daquela vez que a gente apostou corrida na lama e você caiu de cara no barranco?
Leo soltou uma risada de verdade, aliviado por finalmente se sentir parte da conversa.
— Se eu lembro? Eu quase quebrei o pescoço! Você disse que ia me ajudar e acabou rindo.
Eduardo riu também, mas os outros não pareceram compartilhar da mesma empolgação.
— Correr na lama? — Tiago franziu a testa, com um sorrisinho debochado. — Que emoção.
Hugo riu.
— Daqui a pouco ele vai contar que já tomou banho de rio, igual aqueles caras que vivem no meio do mato.
Leo sentiu a mandíbula travar.
Eduardo percebeu o tom e tentou amenizar, dizendo:
— Bom, é muito mais legal do que parece. É melhor do que ficar no celular o dia todo sem fazer nada.
Giovane arqueou as sobrancelhas.
— Você também ficava no meio da lama, Castilho?
Eduardo sentiu que se respondesse "sim", os olhares sobre ele mudariam.
— É... às vezes. — respondeu, sem muito peso.
Leo percebeu a hesitação. Não disse nada, mas sentiu o incômodo crescer.
Eduardo tentou quebrar o silêncio que se formou logo depois.
— Sei lá, gente, bora jogar alguma coisa.
Hugo tirou um baralho do bolso e sorriu.
— Ótima ideia. Vamos jogar pôquer.
Eduardo sentiu o estômago revirar. Aquilo não ia terminar bem.
Os meninos começaram a arrumar as cartas sobre a mesa. Leo olhou de canto, sem entender muito bem.
— Nunca joguei esse jogo.
Tiago riu.
— Sério? Pôquer é básico, cara.
Leo deu de ombros.
— A gente joga truco lá na fazenda.
— Truco? — Tiago riu de novo, como se aquilo fosse um conceito ridículo. — Beleza, a gente explica. Mas é fácil.
Fácil.
Só que não era tão fácil assim para Leo.
Ele demorou a pegar o jeito das rodadas. Quando achava que estava entendendo, errava na sua jogada. Os outros tentavam explicar, mas Tiago ia perdendo a paciência cada vez mais.
Até que, depois de mais uma jogada errada de Leo, Tiago bateu a carta na mesa com força e bufou.
— Cara, sério. Como você é burro!
O silêncio foi brutal.
Leo congelou.
Eduardo sentiu o impacto daquelas palavras no peito.
Os outros meninos apenas riram baixinho, sem graça.
Leo apertou os lábios e não disse nada. Apenas recostou na cadeira e cruzou os braços.
Eduardo tentou quebrar a tensão.
— Ele só não tá acostumado com esse jogo.
Tiago riu, ainda irritado.
— Tá, mas nem é tão difícil assim.
Leo não respondeu mais nada. Eduardo sabia que o estrago estava feito, e que nunca deveria ter tentado misturar os dois mundos.
◄☼►
No dia seguinte, Eduardo foi até a fazenda.
Encontrou Leo no galpão, jogando milho para as galinhas, com uma expressão fechada no rosto.
— Tá ocupado? — Eduardo perguntou.
— Não.
Eduardo se encostou na parede de madeira, sem saber como começar. Leo nem olhou para ele.
Então Eduardo soltou, direto:
— Sobre ontem… Tiago não devia ter falado aquilo.
Leo jogou o resto do milho e limpou as mãos na calça.
— Mas falou.
— Ele só se irritou.
— Porque eu sou burro, né? — Leo disse, finalmente olhando para Eduardo. O tom não era de brincadeira.
Eduardo suspirou.
— Você sabe que ele não quis dizer desse jeito.
Leo deu uma risada sem humor.
— Quis, sim. Mas tudo bem.
— Não, não tá tudo bem.
Leo pegou um banquinho e se sentou, comentando:
— Sabe o que é engraçado? Você não percebe porque tá acostumado com gente assim. Mas eles são uns riquinhos esnobes.
Eduardo ficou em silêncio.
— Eles falam como se o mundo inteiro girasse em torno do dinheiro deles. Como se quem não tivesse as mesmas coisas fosse inferior. Como se fosse piada.
Eduardo passou a mão na nuca, desconfortável.
— Não é assim…
Leo ergueu os olhos para ele.
— Não? Então me diz, Eduardo. Eu tô exagerando?
Eduardo abriu a boca para responder, mas nenhuma resposta parecia certa. Leo balançou a cabeça, soltando um suspiro.
— Deixa pra lá.
Ele se levantou e voltou a mexer nas galinhas, sem olhar mais para Eduardo. Eduardo queria dizer algo. Queria garantir que nada entre eles tinha mudado.
Mas pela primeira vez, ele não tinha certeza disso.
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