O Garoto Feito de Sol e Terra
14 Capítulo 14 — Doces, Salgados e Perguntas Sem Respostas
Eduardo desceu da bicicleta e respirou fundo. O cheiro familiar da terra e do campo o envolveu imediatamente, e ele sentiu um peso a menos nos ombros.
O saco de papel que carregava estava cheio de doces e salgados que sabia que Leo adorava. Coxinhas, empadinhas, brigadeiros, beijinhos… tudo do jeito que Leo gostava.
Ele não tinha avisado que viria, mas esperava que Leo gostasse da surpresa.
Ao se aproximar da varanda, ouviu vozes conhecidas.
Davi e Bruno estavam lá.
— Se for vendedor, já temos tudo que precisamos! — Davi brincou quando viu Eduardo se aproximando com as sacolas.
Leo virou-se na cadeira e arqueou uma sobrancelha, surpreso.
— Olha só. O riquinho apareceu.
Apesar do tom brincalhão, Eduardo percebeu que Leo não estava chateado. Na verdade, parecia feliz em vê-lo ali.
— Não vim de mãos vazias. — Eduardo ergueu o saco de papel. — Trouxe umas coisas que sei que você gosta.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Leo arrancou o saco das mãos dele.
— Se tiver empadinha, já valeu a pena. — disse, enfiando a mão e pegando uma empada primeiro.
Davi e Bruno atacaram os doces, enquanto Mariana e Sofia apareceram do nada, como farejadoras profissionais de guloseimas.
— Ei, esses são meus! — Davi reclamou, mas Sofia já tinha saído correndo com dois brigadeiros na mão.
— Faz parte da vida, cara. — Bruno riu.
Eduardo se sentou ao lado de Leo e viu ele devorar uma empadinha, satisfeito. Era esse tipo de cena que fazia Eduardo esquecer das diferenças entre seus mundos.
Mas então o assunto mudou.
— A gente tava falando sobre seus amigos novos. — Bruno comentou, enquanto lambia o chocolate dos dedos.
Eduardo ficou atento.
— Ah, é?
— O Leo tava contando da última vez que tentou se enturmar com eles.
Eduardo soube imediatamente do que se tratava.
— Ah.
— O tal do Tiago parece ser um babaca. — Davi disse sem rodeios.
Leo não disse nada. Apenas pegou outra empadinha e mordeu, mastigando devagar.
Eduardo tentou se explicar.
— Não foi desse jeito, pessoal…
Davi e Bruno o encararam ao mesmo tempo.
— Não? — Bruno questionou.
Eduardo passou a mão na nuca.
— Tá, foi um momento ruim. Mas eles não são assim o tempo todo. Foi só um comentário infeliz.
Leo soltou uma risada curta, sem humor.
— Engraçado, porque não parecia só um “comentário infeliz”.
— Eles são seus amigos mesmo? — Davi perguntou.
Eduardo hesitou.
Ele não queria escolher lados.
— São. Mas vocês também são.
Davi e Bruno trocaram olhares. Leo pegou a última empada e comeu sem pressa.
O silêncio pairou no ar por alguns segundos antes de Davi mudar de assunto, jogando um pedaço de papel no rosto de Bruno e começando uma guerra de bolinhas de papel amassado.
Eduardo sabia que o assunto não tinha sido resolvido.
Mas, pelo menos por enquanto, não queria lidar com aquilo.
◄☼►
Depois que Davi e Bruno foram embora, Eduardo ficou mais um tempo na fazenda. Rita pediu para ele e Leo ajudarem a organizar algumas coisas no celeiro, e os dois foram para lá.
O cheiro de feno e madeira tomou conta do ambiente. Leo segurava um saco de ração enquanto Eduardo ajeitava as ferramentas na parede.
— Esse martelo devia estar aonde? — Eduardo perguntou.
— Naquele canto.
Eduardo o colocou no lugar indicado e se encostou na parede, observando Leo.
O silêncio entre eles era confortável agora.
Foi então que Eduardo perguntou sem pensar muito:
— Leo, você já gostou de alguém?
Leo parou o que estava fazendo.
Eduardo só percebeu que a pergunta poderia ser estranha depois de ter falado.
Leo hesitou, pegando um punhado de ração e jogando no balde devagar.
— Não. — respondeu, sem encará-lo.
— Sério? Nunca?
— Nunca.
Leo então levantou a cabeça e olhou para Eduardo.
— E você, já?
Eduardo não esperava a pergunta de volta.
Ele também hesitou.
— Não... É que meus amigos na escola vivem falando disso. Sobre garotas. Sobre perder o BV, essas coisas.
Leo manteve o olhar nele.
Eduardo pensou em Kayla. Ela era bonita, todo mundo falava dela… mas ele não sentia nada de especial.
Leo ficou em silêncio por um momento, depois mudou de assunto abruptamente.
— Acho que o Davi gosta da Carla.
Eduardo franziu a testa, pego de surpresa pela mudança de assunto.
— Sério?
— Ele tava falando tanto dela hoje… Acho que rola alguma coisa aí.
Eduardo riu.
— Seria engraçado.
Leo deu de ombros e pegou outro saco de ração, cortando o papo ali.
Eduardo não insistiu.
Mas tanto ele quanto Leo sabiam que aquela conversa não tinha sido só sobre Carla e Davi.
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