O Garoto Feito de Sol e Terra
10 Capítulo 10 — Correndo na Chuva
O cheiro da fritura do Seu Zé ainda pairava no ar quando Eduardo e Leo saíram da vendinha. O céu, que antes estava ensolarado, agora começava a despejar uma chuva fina, molhando o asfalto quente e levantando aquele cheiro de terra molhada que só as ruas de São Tomás tinham.
Leo olhou para cima, sentindo os pingos baterem em seu rosto, e sorriu.
— Tá começando a chover. Isso significa uma coisa.
Eduardo já sabia.
— Corrida na chuva?
— Óbvio.
E, sem esperar uma resposta, Leo disparou.
Eduardo riu e saiu correndo atrás dele, os chinelos respingando água e lama a cada passo.
As ruas começavam a esvaziar conforme as pessoas corriam para se proteger da chuva, mas eles não se importavam. Na verdade, aquilo tornava tudo ainda mais divertido.
Foi quando, ao passarem pela padaria da esquina, viram Davi saindo, segurando um saco de pão embrulhado em papel pardo.
— Ei, Davi! — Leo gritou.
Davi olhou para eles e franziu a testa ao ver a lama espirrando nos pés dos dois.
— O que vocês estão fazendo?!
Eduardo sorriu.
— Correndo na chuva. Vai entrar na brincadeira ou vai ficar aí segurando esse pão?
Davi revirou os olhos, mas o sorriso entregou sua resposta.
— Se eu cair e amassar o pão, minha mãe me mata.
— Se você não vir com a gente, eu mesmo amasso. — Leo provocou.
E foi o suficiente.
Davi segurou a sacola e saiu correndo junto com eles.
As ruas de São Tomás viraram um verdadeiro campo de guerra, com poças de água se misturando ao barro e transformando cada passo em uma derrapada perigosa.
Eduardo ria sem parar, sentindo a lama espirrar nas pernas e a água escorrendo pelo cabelo.
Era como se, por um instante, nada importasse além daquele momento.
Mas a realidade sempre encontra um jeito de chamar de volta.
◄☼►
Eles estavam no meio da rua, rindo e empurrando um ao outro, quando ouviram uma buzina alta cortar o barulho da chuva.
Eduardo congelou.
Um carro preto, de vidros escuros, havia parado ao lado deles. A janela do lado do motorista desceu lentamente, revelando o olhar duro e fechado de Frederico Castilho.
O pai de Eduardo não precisou dizer nada para deixar claro o que sentia naquele momento. Ele olhou para o filho de cima a baixo—roupas encharcadas, pés imundos de lama, cabelos grudados na testa pela chuva—e respirou fundo, como se segurasse a vontade de explodir.
Por fim, falou, a voz baixa e firme:
— Entre no carro.
Eduardo sentiu o peito apertar.
Ele olhou de relance para Leo e Davi, que ainda estavam parados ao lado, igualmente sujos, mas agora sérios. Por um segundo, quis dizer não. Quis fingir que não tinha ouvido e continuar correndo.
Mas sabia que não tinha escolha.
Sem olhar para os amigos, Eduardo caminhou até o carro, abriu a porta e entrou.
A porta se fechou, e o barulho da chuva foi abafado pelo silêncio tenso dentro do veículo. Sem dizer mais nada, Frederico acelerou.
Pelo retrovisor, Eduardo viu Leo e Davi parados no meio da rua, observando o carro se afastar.
E naquele momento, ele sentiu algo parecido com vergonha.
◄☼►
O trajeto até em casa foi feito em silêncio.
Frederico dirigia com o olhar fixo na estrada, a mandíbula cerrada. Eduardo mantinha os braços cruzados, a roupa ainda úmida e suja da lama da rua.
Ele sabia que o sermão viria.
Assim que chegaram, Eduardo saiu do carro e entrou em casa, passando pela porta sem olhar para trás.
Helena estava sentada na sala, folheando um livro, mas ao ver o estado do filho, arregalou os olhos.
— Meu Deus, Eduardo, o que aconteceu com você?!
Frederico fechou a porta com mais força do que o necessário e passou a mão pelo rosto, respirando fundo antes de falar.
— O que aconteceu? Eu te digo o que aconteceu. Eu encontrei nosso filho no meio da rua, parecendo um moleque de rua, brincando na lama com aqueles garotos.
Helena franziu a testa e se levantou.
— Brincando na lama? Eduardo, pelo amor de Deus!
Eduardo permaneceu calado, sentindo a água escorrer da barra da camisa para o chão de madeira impecável.
Frederico cruzou os braços e o encarou com seriedade.
— Você tem ideia do que estava fazendo? — sua voz estava firme, mas não exaltada. — Eduardo, você tem uma vida diferente. Você tem um futuro que não combina com esse tipo de coisa. E o mínimo que espero é que se comporte de acordo.
Eduardo apertou os punhos.
— Então quer dizer que eu sou melhor do que eles? — sua voz soou mais amarga do que ele gostaria.
Frederico balançou a cabeça, impaciente.
— Não é isso. — respondeu com firmeza. — Mas você não pertence a esse mundo deles. Não pode ficar agindo como se fosse um garoto qualquer.
Eduardo sentiu o estômago revirar.
Helena suspirou, cruzando os braços.
— Seu pai está certo. Você precisa parar com isso. Seu lugar não é correndo por aí, brincando na lama como se nada importasse.
Eduardo sentiu um misto de raiva e tristeza crescer dentro de si.
Porque, no fundo, ele sabia que nada do que dissesse mudaria a visão dos pais.
Ele poderia gritar, discutir, dizer que eles estavam errados, mas, no final, não faria diferença.
Então, ele apenas respirou fundo, engoliu a resposta que queria dar e virou as costas, subindo as escadas sem dizer nada.
Olhando para ele desaparecer no corredor, Frederico suspirou.
— Precisamos apertar mais as rédeas. Esse menino ainda não entendeu onde é o lugar dele.
Helena apenas assentiu, olhando para a porta do quarto do filho fechada.
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