O Garoto Feito de Sol e Terra
11 Capítulo 11 — Onde a Amizade Resiste
A chuva tinha diminuído quando o carro preto de Frederico se afastou pela rua de terra, deixando para trás apenas o som distante do motor e um silêncio pesado.
Leo ficou parado no mesmo lugar, observando até que o carro desaparecesse completamente. Davi, ao seu lado, soltou um suspiro longo.
— Que merda… — murmurou.
Leo não respondeu.
Ele apenas balançou a cabeça, chutou uma pedrinha na lama e virou-se para o caminho da fazenda.
Davi não disse nada, apenas o observou se afastar.
Leo andava devagar, os chinelos afundando na lama úmida, o barulho de água respingando a cada passo. Normalmente, ele voltava para casa assoviando, chutando gravetos ou correndo sem motivo, mas não naquele dia.
A cena de Eduardo entrando no carro sem olhar para trás se repetia na sua mente.
Leo sabia que Frederico não gostava dele. Sabia que a mãe de Eduardo também tinha suas reservas. Mas nunca foi tão escancarado assim. Nunca foi tão direto.
Era como se, naquele momento, o pai de Eduardo tivesse puxado ele de volta para o mundo ao qual realmente pertencia.
E Leo ficou ali, parado na chuva, percebendo que talvez não pudesse segurá-lo ali por muito tempo.
◄☼►
O portão de madeira rangeu quando Leo passou por ele. Assim que se aproximou da varanda, sua mãe, Rita, apareceu na porta, de braços cruzados.
— Leo, pelo amor de Deus! Olha o estado que você chegou!
Leo apenas olhou para si mesmo. Estava encharcado, sujo de lama até os joelhos, o cabelo grudado na testa.
— Vai direto pro chuveiro antes de encostar em qualquer coisa aqui dentro.
Ele não discutiu. Apenas assentiu e entrou, tirando os chinelos no canto da cozinha antes de subir para o banho.
A água morna escorreu sobre seu corpo, lavando a sujeira da rua, mas o aperto no peito continuava.
Depois do banho, ele desceu as escadas vestindo roupas secas, o cabelo ainda pingando um pouco. Na cozinha, Rita estava em pé, cortando legumes para o jantar, o cheiro de cebola e alho se espalhando pelo ar.
Leo pegou uma banana da fruteira e encostou-se no balcão. Ficou ali por um instante, mexendo na casca sem realmente querer comer.
Rita notou o silêncio e lançou um olhar de soslaio para ele.
— Tá com uma cara aí… aconteceu alguma coisa? — perguntou, sem parar de cortar os legumes.
Leo suspirou, ainda mexendo na banana, sem responder.
— O que aconteceu, filho? — Rita insistiu.
— É que... o pai do Eduardo viu ele na rua comigo e Davi... ele tava muito bravo. Mandou ele entrar no carro e foi embora na hora, sem nem olhar pra gente.
Rita arqueou as sobrancelhas, mas continuou cortando.
— Nossa, mas o que vocês estavam aprontando, hein?
— A gente tava brincando na chuva. Correndo, se molhando, nada demais. Aí ele apareceu, buzinou, e mandou o Eduardo entrar no carro.
Rita parou por um instante, limpando a faca no pano de prato antes de continuar.
— E ele tava bravo mesmo?
— Sim, muito.
Ela soltou um "hmm" e voltou a cortar os legumes, agora em um ritmo mais lento.
— Aquele homem sempre me pareceu rígido.
Leo tirou um pedaço da banana e mastigou devagar.
— A mãe dele também. Acho que eles não gostam muito de mim. Ou da gente.
Rita soltou um suspiro.
— Não é questão de gostar ou não, filho. Algumas pessoas simplesmente acham que seus filhos precisam de um caminho “melhor”, como se só existisse um jeito certo de viver.
Leo ficou mexendo na casca da banana, sem saber direito o que responder.
— E se eles proibirem o Eduardo de vir aqui?
Rita finalmente olhou para ele, percebendo o que realmente estava por trás daquela conversa.
— Tá com medo disso?
Leo hesitou por um instante antes de assentir.
— Eu sei que ele vai mudar de escola e tudo, mas… — apertou a banana sem perceber, sentindo a fruta amassar entre os dedos. — E se um dia ele parar de vir? E se eu perder meu melhor amigo?
Rita suspirou e se aproximou, pegando a banana da mão dele antes que ele destruísse de vez.
— Olha, Leo… Eduardo não é uma marionete. Ele pode ter um pai mandão, mas ele também tem vontade própria. Se ele quiser continuar vindo aqui, ele vem.
— E se ele não quiser? — Leo perguntou, a voz mais baixa.
Ela ficou pensativa por um instante antes de responder.
— Então aí não vale a pena correr atrás.
Leo ficou em silêncio.
Sua mãe voltou para os legumes e cortou o último pedaço da cebola antes de completar:
— Mas eu duvido que Eduardo seja esse tipo de gente. Ele sempre volta, não volta?
Leo não respondeu de imediato.
Mas, no fundo, queria acreditar que sim.
◄☼►
As aulas já tinham acabado. O ano letivo havia se encerrado e agora as crianças da cidade estavam de férias.
Normalmente, isso significava mais tempo para explorar os arredores da cidade, andar de bicicleta até a praça, dormir na fazenda sem pressa para acordar no dia seguinte.
Mas depois daquele dia da brincadeira na chuva, Eduardo não apareceu mais na fazenda. Não mandou recado, não apareceu de bicicleta como fazia tantas vezes, não chamou Leo para nada.
E Leo…
Leo não teve coragem de ir até a casa de Eduardo.
Ele sabia que, se fosse, provavelmente encontraria Frederico de olhos duros na porta ou Helena com sua simpatia forçada, e ele não estava disposto a passar por aquilo.
Rita percebeu o silêncio do filho nos últimos dias.
— Você não vai chamar o Eduardo pra vir aqui? — perguntou uma tarde, enquanto Leo empurrava um pedaço de pão no prato, sem vontade de comer.
Ele deu de ombros.
— Ele deve estar ocupado.
Mas a verdade é que Eduardo não estava ocupado.
Aparentemente, ele não podia vir.
◄☼►
Eduardo passou a semana inteira tentando encontrar uma brecha para sair, mas Frederico sempre estava por perto.
Cada vez que ele cogitava dizer que ia até a fazenda ou encontrar os amigos, o pai surgia com outra coisa para mantê-lo ocupado.
— Eduardo, vá para o seu quarto e revise os exercícios de matemática. Não quero que esqueça tudo nessas férias.
Ou então:
— Sente-se aqui e me ajude com essas papeladas. Você precisa começar a entender como as coisas funcionam.
As "coisas", na verdade, eram documentos que Eduardo não entendia direito. Relatórios de negócios, contratos, números que pareciam intermináveis. Ele tentava prestar atenção no que o pai explicava, mas era um tédio sem fim.
Enquanto olhava para aquelas folhas e ouvia o som monótono da voz de Frederico falando sobre "responsabilidade" e "oportunidade", tudo que Eduardo conseguia pensar era em como preferia estar na fazenda, deitado no feno, ouvindo Leo reclamar de alguma besteira qualquer.
Mas se ousasse mencionar a fazenda ou os amigos, a resposta de Frederico era sempre a mesma:
— Evite essas amizades. Isso não te leva a nada.
E Helena assentia em silêncio, sem contestar.
Eduardo sentia-se preso.
Por mais que tentasse, por mais que quisesse, ele não conseguia sair dali.
A cada dia que passava sem ver Leo, o peso no peito aumentava.
◄☼►
Os dias se arrastavam dentro de casa. Cada tentativa de sair era interrompida por Frederico com alguma desculpa para mantê-lo ocupado. Mas Eduardo já estava no limite. Precisava sair dali, nem que fosse por um tempo curto.
Foi então que, em uma tarde abafada, ele viu a oportunidade perfeita.
Helena estava na sala, folheando um catálogo de decoração, imersa nas fotos de móveis caros e combinações de cores que ela gostava de analisar antes de tomar qualquer decisão. Frederico, por outro lado, tinha saído para uma reunião importante.
Eduardo sabia que se quisesse escapar, teria que ser rápido e preciso.
Ele apareceu na porta da sala, tentando parecer casual.
— Mãe, vou só dar uma volta pela praça.
Helena ergueu os olhos por um breve momento, analisou o filho e depois voltou a olhar o catálogo.
— Hum… certo. Mas não demore.
Eduardo tentou conter o alívio na voz ao responder:
— Tá bom.
Saiu antes que ela mudasse de ideia.
Quando fechou a porta atrás de si, sentiu o coração disparar.
Agora precisava ser rápido.
Pegou a bicicleta, que estava encostada no muro, e começou a pedalar. Assim que virou a esquina da rua, não seguiu para a praça.
Seu destino era outro.
O vento quente batia no rosto enquanto ele cortava as ruas de São Tomás, passando pela praça movimentada sem nem olhar para os lados.
A cidade logo foi ficando para trás, dando lugar às estradas de terra e ao cheiro de mato.
A cada metro percorrido, Eduardo sentia algo dentro dele relaxar.
E quando finalmente avistou a entrada da fazenda, soube que, pelo menos naquele momento, estava livre.
Ele pedalou rápido, o coração acelerado pela ansiedade. Não sabia como Leo reagiria. Não sabia se ele estaria com raiva, magoado ou indiferente.
Mas precisava tentar.
◄☼►
Quando chegou, encontrou Gustavo, o irmão mais velho de Leo, na varanda.
— Olha só quem resolveu aparecer. — Gustavo brincou, cruzando os braços.
Eduardo riu, sem graça.
— O Leo tá aí?
— Tá no celeiro.
Eduardo desceu da bicicleta e foi até lá.
Leo estava sentado sobre um monte de feno, brincando de equilibrar uma pedra no joelho. Assim que viu Eduardo, arqueou uma sobrancelha.
— Olha só. O desaparecido voltou.
Eduardo engoliu seco.
— É… foi meio difícil sair de casa.
Leo não respondeu logo de cara. Apenas soltou a pedra, que caiu no chão com um pequeno ploc, e se levantou.
Então, para surpresa de Eduardo, Leo sorriu.
— Bom, já que você tá aqui, dá pra me ajudar a pegar uns ovos no galinheiro.
Eduardo piscou.
— Assim, do nada?
Leo deu de ombros.
— Você esperava o quê? Que eu te fizesse um interrogatório?
Eduardo abriu a boca para responder, mas Leo deu um soco leve no ombro dele.
— Bora, riquinho. Antes que minha mãe ache que eu tô enrolando.
Eduardo riu e o seguiu, sentindo o alívio finalmente bater no peito. Leo podia não ter dito, mas Eduardo sabia o que aquele sorriso queria dizer.
Ele tinha sido esperado ali.
E isso era tudo que ele precisava saber.
◄☼►
Eduardo seguiu Leo até o galinheiro, ainda sentindo a leveza no peito por finalmente estar ali.
— Vai querer apostar quem pega mais ovos sem levar uma bicada? — Leo perguntou, abrindo a portinhola do cercado.
Eduardo riu.
— Isso nem é competição. Você já sabe quais galinhas são mais bravas.
— Bom, eu não sou burro, né? — Leo deu de ombros, pegando um cesto de vime.
Eles entraram no galinheiro com cautela, mas logo o ambiente foi tomado por risadas e provocações. Eduardo tentou pegar um ovo de uma galinha marrom, mas ela bateu as asas e bicou sua mão.
— Ai! Essa coisa quase arrancou meu dedo! — Eduardo reclamou, balançando a mão.
Leo gargalhou.
— Você é muito mole! Pega assim, ó…
Ele se aproximou de outra galinha e, com rapidez, pegou um ovo sem que ela reagisse.
— Habilidade, meu caro.
Eduardo revirou os olhos e continuou tentando, errando algumas vezes e acertando outras. Quando terminaram, Leo fez questão de contar os ovos.
— Onze pra mim, seis pra você. Venci de novo.
— Óbvio, você já faz isso desde que nasceu.
— Desculpa se a vida no campo me deu vantagens.
Eles levaram os ovos para a cozinha, onde Rita agradeceu e já começou a preparar um lanche.
— Agora que trabalharam, podem ir brincar sem culpa.
E foi exatamente o que fizeram.
◄☼►
O sol começou a se pôr, tingindo o céu de laranja e rosa. Eduardo e Leo jogaram bola perto da cerca, desafiaram um ao outro para corridas curtas, inventaram um jogo novo com pedrinhas e até tentaram subir numa árvore atrás de goiabas, sem muito sucesso.
Quando perceberam, já estavam deitados na grama, ofegantes de tanto rir.
— Isso sim são férias. — Eduardo disse, olhando para o céu, onde as primeiras estrelas começavam a aparecer.
— Pois é. Muito melhor do que ficar enfiado em casa com aqueles livros que sua mãe te manda ler.
Eduardo suspirou.
— Nem me fale. Meu pai tá fazendo eu ajudar com um monte de papelada. Ele diz que eu preciso aprender sobre negócios.
— Negócios. — Leo repetiu, fazendo uma careta. — Você tem doze anos. Que tipo de negócios você precisa aprender?
— Exatamente! — Eduardo exclamou, gesticulando. — É um tédio. Eu queria era estar aqui.
Leo ficou em silêncio por um instante antes de soltar:
— Bom… agora você tá.
Eduardo sorriu, fechando os olhos por um momento.
Ele não queria ir embora.
A noite estava fresca, a grama cheirava a terra úmida, e ele sentia que tudo ali ainda era dele. Que a amizade deles ainda existia, firme, apesar de tudo.
Foi então que ele ouviu o som de um motor.
Os dois se sentaram de imediato, virando a cabeça para a entrada da fazenda.
Os faróis do carro iluminaram a estrada de terra.
Eduardo não precisou de mais do que um segundo para reconhecer aquele carro prateado.
Era sua mãe.
◄☼►
Rita já estava na varanda quando o carro prateado parou na entrada da fazenda. A porta se abriu, e Helena desceu com passos firmes, o rosto sério, o olhar direto para Eduardo.
— Então era aqui que você estava. — Sua voz carregava um tom de irritação controlada.
Eduardo se levantou devagar, sentindo o peito apertar. Rita, por outro lado, manteve a calma.
— Ele apareceu hoje de tarde. Tava passando um tempo com Leo.
Helena cruzou os braços.
— Ele mentiu para mim. Disse que ia passear na praça. — Ela suspirou, apertando os olhos por um segundo antes de encarar o filho. — Você tem ideia do susto que me deu, Eduardo? Você sumiu sem avisar.
Eduardo baixou a cabeça, sem saber o que dizer.
Rita soltou um suspiro leve e colocou as mãos nos bolsos do avental.
— Helena, são só crianças. Ele não fez isso por mal. Só queria um pouco de liberdade.
Helena bufou, passando a mão pela testa.
— Isso não justifica ter saído escondido.
O silêncio se instalou por um momento, apenas o som distante dos grilos preenchia o espaço entre elas.
Foi então que Rita mudou o tom, mais leve, e abriu a porta da casa.
— Entre, Helena. Tá uma noite bonita. Vou passar um café.
Helena olhou para Eduardo, que ainda estava parado ao lado de Leo, claramente tenso. Ela respirou fundo e hesitou por um instante, mas então assentiu e caminhou até a varanda.
Eduardo olhou para Leo, confuso.
Leo apenas deu de ombros, um meio sorriso no rosto.
— Acho que minha mãe tem mais jogo de cintura que a sua.
Eduardo soltou um riso nervoso e seguiu para dentro da casa.
Helena subiu os degraus da varanda com passos firmes, mas antes de entrar na casa, lançou um olhar severo para Eduardo.
— E quando chegarmos em casa, Eduardo… pode esperar pelo que vai acontecer.
Eduardo sentiu um frio na espinha, mas manteve a boca fechada. Leo, ao seu lado, espiou de canto, segurando o riso.
Rita, por sua vez, manteve-se calma e apenas empurrou a porta.
— Vem, Helena. Café fresquinho nunca fez mal pra ninguém.
Helena hesitou por um instante, mas acabou entrando.
A cozinha da família Souza era simples, mas acolhedora. A luz amarelada iluminava a mesa de madeira rústica, e o cheiro do café recém passado misturava-se ao aroma de bolo de fubá que Rita havia feito mais cedo.
Helena sentou-se com certa hesitação, como se estivesse tentando se adaptar àquele ambiente tão diferente do seu.
Rita serviu o café e sentou-se do outro lado da mesa.
Por alguns segundos, o único som era o tilintar das colheres mexendo o líquido quente nas xícaras.
Foi Helena quem quebrou o silêncio.
— Você mora aqui faz muito tempo?
Rita soprou o café antes de responder.
— Desde que me casei. Meu marido cresceu nessa fazenda e continuamos por aqui.
Helena assentiu.
— Imagino que a vida no campo seja… pacífica.
Rita sorriu.
— Na maior parte do tempo, sim. Mas também tem seus desafios. — Ela fez um gesto leve com a mão. — Chuva demais, seca demais, bicho doente, cerca quebrada. Sempre tem algo pra resolver.
Helena tomou um gole do café, pensativa.
— Eu sempre morei em cidade grande. São Tomás é pequena. É... diferente a vida aqui.
Rita a observou por um instante antes de perguntar, num tom mais leve:
— Você tá gostando de São Tomás?
Helena pousou a xícara no pires e cruzou as mãos sobre a mesa.
— Ainda estou me acostumando. Viemos para cá pelo trabalho do meu marido. A cidade é tranquila, bonita… mas não era bem o que eu esperava para a minha vida.
Rita sorriu de canto.
— Mudança nunca é fácil.
— Não, não é.
O silêncio pairou por um momento, até que Helena soltou, de maneira quase automática:
— E seu marido? Ele também trabalha na cidade?
Por um instante, a expressão de Rita mudou sutilmente. Não era uma mudança brusca, mas Eduardo notou o brilho diferente nos olhos dela.
— Meu marido faleceu há alguns anos.
Helena ergueu as sobrancelhas, surpresa.
— Oh… me desculpe, eu não sabia.
Rita apenas balançou a cabeça.
— Tudo bem. Foi um acidente de caminhão. Ele transportava mercadorias e, numa dessas viagens, não voltou.
A cozinha ficou em silêncio.
Eduardo desviou o olhar para Leo, que estava sentado do outro lado da mesa, quieto.
O amigo estava olhando para a própria xícara, sem expressão nenhuma, mas Eduardo notou a forma como seus dedos apertavam a borda do copo.
Ele nunca tinha mencionado isso antes.
Eduardo sempre notou que o pai de Leo nunca estava por perto, mas não fazia ideia do que realmente tinha acontecido.
Agora entendia.
Ele olhou para Leo, e o amigo ergueu os olhos por um segundo, trocando um olhar rápido e silencioso com Eduardo.
Não precisava dizer nada.
O semblante de Leo carregava algo pesado. Uma tristeza silenciosa.
Rita continuou, sem demonstrar abalo:
— As meninas eram pequenas, o Leo também. Mas a gente se virou. Fazenda não para por causa de tristeza.
Helena assentiu devagar, ainda parecendo absorver a informação.
— Imagino que tenha sido difícil.
— Foi. Ainda é, às vezes. Mas a gente aprende a seguir em frente.
Por um instante, Helena olhou ao redor da cozinha, absorvendo o ambiente simples, mas cheio de vida. A verdade era que aquela casa tinha alma. Diferente da dela, onde tudo era impecável, limpo e organizado… mas às vezes frio.
Eduardo continuava observando Leo de canto, vendo a forma como ele desviava o olhar, mexendo na xícara. Sabia que, por mais que seu amigo tentasse não demonstrar, aquela conversa mexia com ele.
Mas, ao mesmo tempo, algo dizia a Eduardo que Leo não queria que ninguém percebesse isso. Então, ele apenas voltou a tomar seu café, respeitando o silêncio de Leo.
Helena, por sua vez, suspirou e voltou a pegar a xícara, agora mais contida.
A conversa na cozinha foi se dissolvendo aos poucos. Helena terminou seu café, pousando a xícara no pires com cuidado, enquanto Rita recolhia os pratos sem pressa.
Eduardo e Leo continuavam quietos, mas já haviam relaxado um pouco depois do momento tenso.
Por fim, Helena soltou um leve suspiro e olhou para o filho.
— Vamos, Eduardo. Já está tarde.
Eduardo assentiu, se levantando ao mesmo tempo que Helena. Rita acompanhou os dois até a varanda.
— Foi bom conversar, Helena.
Helena hesitou por um instante antes de responder.
— Sim… foi.
Ela parecia surpresa com a própria afirmação.
Rita sorriu de leve e olhou para Eduardo.
— E você, menino, aparece mais vezes. Mas sem fugir de casa, hein?
Eduardo riu sem graça.
— Pode deixar.
Leo o acompanhou até a entrada da fazenda.
Eduardo olhou para ele e, sem saber muito bem o que dizer depois de tudo que ouvira sobre o pai de Leo, apenas murmurou:
— Até mais.
Leo deu um meio sorriso.
— Até.
Helena e Eduardo entraram no carro, e ela deu a partida sem dizer mais nada.
Eduardo olhou pelo retrovisor e viu Leo ainda parado na entrada, observando o carro se afastar.
◄☼►
O caminho até a cidade foi silencioso. Helena manteve os olhos na estrada, a mente cheia de pensamentos. Ela não esperava que aquela visita fosse lhe causar tanto impacto. A cozinha da fazenda, com sua simplicidade e acolhimento, ainda estava vívida em sua mente.
A forma como Rita falava sobre a vida, com uma aceitação tranquila, sem amargura. A casa era cheia de vida, cheia de movimento, cheia de união.
E então ela pensou em sua própria casa. Grande, impecável, bem decorada… mas vazia.
Seu marido passava a maior parte do tempo envolvido nos negócios, saía cedo, voltava tarde, muitas vezes sem sequer perguntar como havia sido o dia dela e de Eduardo.
Os jantares eram silenciosos. As conversas, curtas e objetivas.
Ela não tinha família em São Tomás. Seus parentes e amigos estavam todos longe, e, desde que haviam se mudado, ela nunca se sentiu realmente parte daquele lugar.
A solidão que sentia ali era algo que nunca havia admitido para si mesma.
Mas, ao ver como Rita lidava com a ausência do marido e ainda assim mantinha a família unida, algo dentro dela se revirou.
Por um instante, passou por sua cabeça a ideia de que talvez pudesse ir à fazenda de vez em quando. Talvez conversar com Rita novamente.
Mas assim que pensou nisso, balançou a cabeça e descartou a ideia rapidamente.
Não.
Ela e Rita eram muito diferentes. Suas vidas, seus objetivos, seus mundos não se cruzavam.
Aquela visita foi um acaso, e era melhor que continuasse assim.
◄☼►
Quando chegaram, Helena estacionou o carro e suspirou antes de desligar o motor.
Ela não estava mais irritada como antes, mas ainda precisava falar com Eduardo.
Quando entraram, ela fechou a porta e, sem elevar a voz, disse:
— Eduardo, eu não vou me alongar nisso. Mas quero que fique claro: você mentiu para mim.
Eduardo permaneceu em silêncio.
— Se você queria ir até a fazenda, devia ter dito. Não teria concordado, mas ao menos não teria que descobrir por conta própria que você sumiu de casa.
Ele continuou calado.
Helena respirou fundo.
— Não faça isso de novo.
Ela fez uma pausa e completou:
— Agora suba para o seu quarto.
Eduardo assentiu devagar e começou a subir as escadas sem olhar para trás.
Ele esperava um sermão muito pior.
Mas, por alguma razão, parecia que sua mãe estava mais distante do que brava.
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