Shiryu POV

O comandante Shion andava de um lado para o outro na sala de reuniões da Central, ocupado em prender alguns dados impressos sobre o caso em um quadro que havia sido afixado na parede.

Ele era um homem alto, na faixa dos seus 40 anos, de cabelos claros e olhos em um exótico tom de violeta. Apesar da silhueta esguia, sua figura emanava poder e autoridade. Era um homem que sacrificaria seu conforto pessoal em troca de bons resultados a qualquer tempo.

Ele havia convocado as pessoas mais gabaritadas de suas respectivas divisões para a reunião. A tenente Hilda Polaris, da divisão de bombas e explosivos, Julian, da Divisão de Inteligência e Eletrônica, e Saga e Kanon da divisão de Investigação Especial, que estavam a frente do caso.

— Que bom que vocês aceitaram o convite pra vir até aqui. — Shion comentou irônico assim que os Gêmeos entraram na sala.

June e eu já estávamos ali ajudando com os preparativos.

Saga e Kanon estavam atrasados, é claro. Na verdade, seu não fosse eu a encontrá-los, depois de muita procura, no lugar mais improvável possível, o almoxarifado, eu duvidada de que eles já estivessem ali aquela altura.

E eu não queria nem pensar no que eu os surpreendera fazendo naquela saleta vazia.

— Quer que eu o ajude a prender isso? — Saga ofereceu ao comandante, interrompendo meus pensamentos.

— Não precisa, já acabei. — Ele falou — Prepare o telão e o retroprojetor. E, June, pegue um café.

— Pode deixar que eu preparo o telão. — Kanon se ofereceu. — E vou querer café também.

June foi preparar o café e nós trabalhamos em um silêncio incômodo. A cena que eu presenciara no almoxarifado ainda parecendo pesar, como um constrangimento entre nós.

Meu Deus, eles eram irmãos! Aquilo era uma delegacia!

Eu balancei a cabeça pra afastar os pensamentos.

Não. Aquilo não era da minha conta.

— O que diabos está acontecendo aqui, afinal? – Shion se voltou pra nós, franzindo o cenho, provavelmente notando o clima estranho no ar, mas balançou a cabeça quando Hilda e Julian entraram na sala. – Deixa pra lá...

— Boa tarde, comandante – Hilda cumprimentou.

Ironia ou não, Hilda era a irmã mais velha da Freya, a melhor amiga da Shunrei, e agora ex namorada do Hyoga. Não que a garota tivesse qualquer tipo de envolvimento com o caso, claro.

Julian fez um aceno com a cabeça e todos nos acomodamos na grande mesa oval, antes que o comandante começasse.

— Como estão as buscas, Hilda? – Ele perguntou.

Hilda e Julian vinham trabalhando em conjunto pra tentar identificar qual seria o próximo alvo. “Um local de excesso e de futilidade. Onde mortais olham boquiabertos pra outros mortais”. Provavelmente um teatro, a equipe concluíra. Mas não qualquer teatro, um que estivesse com a casa cheia. Eles queria causar impacto.

Com base nisso, Julian fizera um levantamento de todos os complexos voltados para o entretenimento, locais famosos ou que estavam em lugares que poderiam ser considerados marcos importantes da cidade, e que estivessem com alguma programação para o dia sete.

A partir da lista de Julian, Hilda estava enviando suas equipes pra fazer buscas e varreduras eletrônicas em cada um dos locais apontados, atrás de possíveis detonadores e explosivos implantados.

Com um pouco de sorte, esperávamos ainda ter alguma chance de impedi-los de mandar mais alguma coisa pelos ares.

— Nada ainda. – Foi o que Hilda falou, no entanto — Nós estamos com cinco equipes espalhadas pela cidade. Siegfried está acompanhando as coisas pelo meu computador pessoal. À medida que as equipes vão fazendo seus relatórios, ele vai ajustando a lista. De acordo com as últimas informações, faltam agora cerca de vinte, dos lugares prováveis, pra serem examinados.

— Nós estamos ficando sem tempo... – Saga murmurou.

Shion assentiu.

— Amanhã é o dia da troca, do casamento do Sr. Chevalier, e esgota-se o prazo estipulado por Pandora. – ele se voltou para os gêmeos – Como está a situação com o irmão de vocês, rapazes?

— Tudo certo. O Milo está no esquema, capitão – Kanon falou.

Milo, era o Milo Scorpion, uma das maiores sensações dos filmes de ação. Ele era irmão dos gêmeos, e, incrivelmente, era também o ladrão de jóias que fizera fama alguns anos atrás sob a alcunha de Ladrão Fantasma.

Não que ele ainda praticasse furtos hoje em dia, mas, de alguma forma, Pandora fizera questão dos serviços dele no caso da tiara de diamantes, e ele fora convencido a entrar no caso.

— O casamento está marcado para as 16:00, – Saga explicou — o Kan estará esperando no nosso apartamento, e o Milo vai correr pra lá assim que conseguir colocar as mãos na peça e sair do salão.

— Ótimo – O Comandante falou.

— A Van de monitoramento e o micro rastreador também já estão prontos – Julian disse, informando a respeito dos progressos da sua divisão. – Não deve levar mais de quinze minutos pra implantarmos o dispositivo na tiara. Depois eu e o Sorento seguimos com a Van pra dar cobertura ao Senhor.

— Deixe o Sorento encarregado da Van, – Shion falou – e espere pela tiara no apartamento com Kanon. Depois os três seguem juntos pra fazer a cobertura.

— Sim, senhor. – Julian concordou.

— Saga, você pode escalar alguns dos seus homens e ajudar a equipe da Hilda para agilizar as buscas.

Ele assentiu.

— O Shiryu vai continuar encarregado da segurança do Milo e do Hyoga – Shion continuou -, e, June, você fica na central e acompanha tudo pelo sistema.

Eu concordei com um gesto de cabeça, mas June parecia contrariada.

— Acho que eu poderia ser mais útil no trabalho de campo junto com o senhor. – Ela falou.

Ele balançou a cabeça.

— Preciso de você aqui.

— Sim, senhor. – Ela disse a contragosto.

O comandante olhou para os gêmeos outra vez.

— E quanto ao Zelos? O que vocês conseguiram?

— Eu andei fuçando por aí, – Kanon falou – e acabamos descobrindo o envolvimento dele em um assassinato em Utah. Com isso conseguimos revogar o pedido de Hábeas Corpus.

— Pelo que soubemos a polícia de lá andava atrás dele há meses – Saga falou – Parece que ele e um outro sujeito deram cabo de um cara à pancadas antes de atirá-lo no rio. O corpo foi pescado das águas praticamente irreconhecível.

— Uau! – June se manifestou.

— Agora, ouve essa: — Kanon disse – O presunto era um ex militar, um desertor russo especialista no desenvolvimento de armas de destruição em massa e explosivos, que migrou clandestinamente para os EUA com o fim da Guerra Fria. Um velhote com mania de perseguição que dizem ter perdido um parafuso depois da morte do irmão por uma bala perdida em um confronto armado com a polícia.

— Nós fizemos uma visitinha pro infeliz. – Saga continuou — A casa do cara parecia um cofre forte. Não achamos nada de interessante por ali, mas o Kan fez umas averiguações no computador do sujeito, o disco rígido estava inteiro criptografado.

— Com um pouco de incentivo, – Kanon sorriu sugestivo, nos dando uma boa idéia do quanto esse tal “incentivo" tinha custado aos cofres públicos — conseguimos uma permissão especial pra trazer o disco pra cá e o levamos até a Divisão de Inteligência.

— Sim. – Julian concordou. – Acabei de decifrá-lo, na verdade. – Ele disse, e permitiu a si mesmo um sorriso convencido enquanto segurava o disco orgulhoso.

— E por que diabos você não avisou isso logo que chegou? – Saga reclamou mau humorado, indo até onde Julian estava e arrancando o disco de sua mão.

Insultado Julian abriu a boca, mas tornou a fechá-la com força ao perceber, com o canto dos olhos, o olhar severo do comandante.

Kanon prendeu o riso, e June tentou sem sucesso transformar uma gargalhada em espirro. Eu sorri também. Todos ali sabiam da implicância aparentemente imotivada do gêmeo mais velho com o tenente da Divisão de Inteligência.

Embora eu provavelmente tivesse acabado de descobrir o motivo naquela saleta do almoxarifado. Já que era de conhecimento geral que Julian tivera um breve romance com o Kanon. Mas, como eu disse, não era da minha conta.

— Tinha acabado de decifrá-lo quando fui chamado – Julian falou – Ainda não tive tempo de ler todo conteúdo dos arquivos. – Continuou, enquanto Saga entregava o disco ao comandante que o colocava pra rodar. – Uma rápida olhada, porém, mostrou que ele especificou todos os materiais que utilizou, todos os dispositivos que construiu, e pode crer que há bastante deles pra riscar do mapa um país do Terceiro Mundo...

Ele fez uma pausa e se colocou, deliberadamente, do outro lado da mesa, quando Saga se aproximou do monitor.

— ...Ou uma grande cidade – Completou.

— Quase cinco quilos do explosivo que ele batizou como PETN2. – Shion leu – Cujo poder de destruição nós já tivemos a chance de conhecer.

— Menos de trinta gramas já seriam suficientes para arrasar meio andar da central de polícia – Hilda falou.

— Temporizadores, controles remotos, ativação de dispositivos por voz, movimento e impacto. – Kanon citou. – Eles não esqueceram de nada. Possuem um monte de sensores, material de segurança e brinquedinhos pra vigilância. O sujeito montou um tremendo arsenal para os caras.

— E eles o remuneraram regiamente por isso – Shion murmurou. – Aqui estão registrados todos os custos, os honorários e os lucros obtidos em cada encomenda, tudo listado direitinho ao lado de cada um dos aparelhos fabricados.

— O cara era um incrível homem de negócios... – Saga estreitou os olhos. – Cinquenta unidades de AK-47?

— Armas de uso militar – June disse.

— Para que eles precisariam de tantas armas? – Eu perguntei.

— Quando você começa uma guerra — Shion se afastou da mesa e bufou com força -, arma suas tropas.

Kanon bufou também.

— Temos a descrição dos dispositivos que o russo fabricou e o número total deles – Saga disse -. Não sabemos, no entanto, se ele era o único fornecedor do grupo. Por essa lista aqui podemos calcular que ele recebeu mais de cinco milhões de dólares, em espécie, durante um período dois anos. Imagino que tenham recolhido todo o dinheiro quando o apagaram.

— Ele sabia que planejavam eliminá-lo. – Informou Julian, dando uma olhada rápida no arquivo – Vá para a página 17. – Ele pediu ao comandante — Tem uma espécie de diário lá.

Shion fez o que lhe foi pedido e jogou o arquivo no retroprojetor. Logo o texto aparecia no telão:

"É tudo culpa minha, unicamente minha. Quando nos concentramos no dinheiro, não enxergamos o resto. Os canalhas me envolveram, e me envolveram por completo.

Isso aqui não se trata de um ataque a banco. Dá pra explodir a Casa da Moeda inteira com o material que eu disponibilizei pra eles. Talvez seja questão de grana, talvez não. De qualquer modo estou pouco ligando.

Pelo menos estava pouco ligando até começar a raciocinar. Até começar a lembrar. É sempre melhor não lembrar.

Só que estou pensando nisso agora. Imagino que o que está sendo planejado seja um outro 11 de Setembro.

Os dois imbecis com quem estou tratando acham que eu sou velho, ganancioso e burro. Só que eles se enganam. Ainda tenho massa cinzenta suficiente pra perceber que não são eles que estão orquestrando a operação. Não são mesmo! Força bruta é tudo o que eles representam. Músculos mecanizados sem visão. Assim que percebi que havia algo por trás de tudo, adicionei um pequeno bônus em um dos transmissores. A partir daí, tudo que precisei fazer foi me sentar, aguardar e ouvir.

Agora sei quem são e o que pretendem. Canalhas!

Eles vão ter que me liquidar. É a única maneira de se garantirem. Qualquer dia desses, um dos safados vai entrar aqui e cortar minha garganta.

Preciso desaparecer. Já forneci material suficiente e eles podem me dispensar na primeira oportunidade. Preciso recolher o que conseguir e desaparecer de verdade, ir pra bem longe. Eles não conseguirão entrar na minha casa, pelo menos por ora, e vão demorar algum tempo também pra conseguir acessar esses dados. Esse arquivo é minha cópia de segurança. As provas e o dinheiro vão comigo.

Por Deus, estou apavorado!

Forneci a eles material suficiente pra mandar uma cidade inteira para o inferno e eles vão utilizá-lo. Logo.

Por revolta. Por poder. Por vingança. E também, que Deus nos ajude, por pura diversão.

É um jogo, nada mais que isso. Um jogo disputado em nome dos mortos.

Tenho que desaparecer. Tenho que cair fora. Preciso de tempo pra pensar, pra entender as coisas. Minha nossa, talvez eu seja obrigado a procurar a polícia. Os velhos tiras canalhas.

Mas, antes disso, vou desaparecer. Se vierem atrás de mim, carrego os dois fantoches que vierem me pegar junto comigo."

— É isso aí... – o voz de Kanon se fez ouvir pela sala. – Isso é tudo. Ele tinha nomes, tinha dados. Por que o velho teimoso não guardou todas as informações em seu computador?

— Em vez disso – Saga falou -, o idiota levou tudo com ele, tudo que conseguira contra eles. E quando o liquidaram, pegaram tudo.

“Vingança”… Eu pensei “Um jogo disputado em nome dos mortos”…

De repente, eu me lembrei das palavras do Hyoga aquele dia: “Foram a filha e a neta desse cara que o FBI explodiu. Você não acha que seria normal ele querer vingança depois de tudo?"

***

O resto da reunião foi centrada nos aspecto técnicos da investigação: dados sobre eletrônica, temporizadores, controles remotos, e outros materiais que poderiam ser utilizados por Pandora.

Ao fim do expediente eu passei no escritório da casa do meu tio, onde o Hyoga ainda permanecia gentilmente confinado, depois da sua nem tão discreta escapulida na semana passada. Escapulida essa que contou com a minha ajuda, é claro. Não que alguém pudesse provar isso, embora obviamente todos desconfiassem. De qualquer forma, no fim, até o Comandante tivera que admitir que fora uma boa o Oga ter colocado o irmão dele na jogada.

Nós perdemos o resto da tarde e o começo da noite revendo os detalhes da nossa parte no plano.

De acordo com o combinado com o Camus, o Oga iria voltar pra casa no dia do casamento e arrumar uma forma de atrasar seus pais pra mantê-los afastado da festa até que a tiara estivesse com o Milo, de modo que ninguém desconfiasse de nada.

Enquanto isso, eu aguardaria no salão de festas, fazendo a segurança do ator, até que o ruivo estivesse em posse da jóia. Então, só teria que arrumar uma forma de informar discretamente ao Milo o local onde Camus estaria aguardando pra entregar a tiara a ele. Nada muito difícil, mas que exigia cuidado. Pandora era esperta, e tinha muitos olhos. Não podíamos deixar que desconfiassem do estratagema, ou eles cairiam fora.

Faltava pouco agora. Se tudo saísse conforme o planejado no dia seguinte estaríamos livres daquele caso. Eu finalmente poderia contar toda a verdade a Shunrei, e Hyoga teria a vida dele de volta.

Estava me preparando pra voltar para o apartamento que alugara ao lado do de Milo — um bônus que ganhara desde que fora incumbido de fazer a segurança do cara -, quando meu tio entrou na sala.

— O Shion telefonou. — Ele disse direto. Sua expressão séria nos deixando imediatamente em alerta. — Hilda e seus homens localizaram o alvo. É o Richard Rodgers Theater.

Notas finais
Olá a todos, Então, mais um extra do Shiryu pra vcs. E esse, como muitos já devem ter percebido, é a visão dele da cena originalmente narrada pelo Kanon no ch 25 de Aprendendo a Seduzir. De forma que sem grande surpresas aqui pra quem acompanhou a outra fic. Mesmo assim espero que curtam as lembranças, e aos novatos que curtam o ch ;) Vou postar mais dois extras pra vcs e depois vamos ao ch principal da noite, na visão do Shu-Shu, claro. Pq vcs já esperaram demais pra continuar esperando ;) Então, muito obrigada a todos que acompanhem e um obrigada mais do que especial, do fundo do coração, às lindas que me incentivam com seus reviews: HuadanNox Lanny Missmuse, DaniiHyuuga, Kass, Liana La Blanche, e KihaDeh. Brigadão de verdade, meninas ˆˆ. Bjos