Notas iniciais
Esse extra é parte integrante do Capítulo 26 de Aprendendo a Seduzir

Saga POV

Ia dar tempo. Tinha que dar tempo, foi tudo o que eu me permiti pensar. Estava usando a vestimenta de choque: o colete à prova de balas e o capacete antiassalto com viseira reforçada. Tudo aquilo, no entanto, adiantaria tanto quanto a pele nua, se não houvesse tempo.

Mas tinha que dar tempo. Aquela era a única opção viável pra mim, para a equipe, para o esquadrão antibomba e para os civis que nós tentávamos freneticamente tirar do local.

Reunir e preparar as equipes e materiais tinha levado mais tempo do que supúnhamos. Era por volta das nove e meia da manhã quando nós finalmente chegamos às portas do teatro.

Áquela hora o palco principal do Richard Rodgers Theater atraíra uma platéia compacta para a matinê: turistas, moradores da cidade de New York, crianças em idade pré-escolar acompanhadas pelos pais e babás, alunos de cursos de férias com seus professores e monitores. O barulho era grande e o público não estava apenas inquieto, mas também revoltado.

— Cada ingresso custou entre cem e duzentos e cinquenta dólares. – O homem loiro de mais de um metro e noventa de altura, que se identificara como gerente do teatro corria ao nosso lado como um cavalo de guerra Viking. A indignação e a agonia lutavam em sua voz: — Os senhores fazem idéia do quanto vai ser complicado conseguir reembolsar esse público, encaixar as pessoas em novas datas ou marcar um espetáculo extra? Estamos com cotação esgotada até o fim da temporada!

— Escuta aqui, o seu show vai realmente arrebentar se nós não conseguirmos fazer nosso trabalho em paz, e você vai ver seu palco ir pelos ares em tantos pedaços que alguns deles vão cair lá em Hoboken, New Jersey – Kanon falou, dando uma cotovelada forte para colocar o homem de lado.

Um pouco mais a frente eu ouvia a voz de Shion sobressaindo-se as demais enquanto nos aproximávamos:

— Hilda? – ele dizia no Walkie Talkie – Quero o status da operação!

— Múltiplos dispositivos foram descobertos, Comandante. – A voz de Hilda se fez ouvir entre estalos de estática no aparelho — Já localizamos e neutralizamos dois. A varredura eletrônica indicou outros seis. As equipes já se dispersaram por todo local, fazendo buscas. O palco possui quatro elevadores, e cada um deles desce oito metros até o subsolo. Detectamos pontos com possíveis bombas instaladas em todos eles e estamos agitando o máximo possível por aqui.

— Pois agitem mais rápido – Shion enfiou o comunicador de volta no bolso antes de se virar para o homem que ainda circulava ao nosso lado. – Caia fora!

— Claro que não! Sou o gerente desse lugar.

— Olha aqui, é melhor você sair por bem enquanto a gente está pedindo com jeito. – Kanon ameaçou. E como o cara era uns vinte quilos mais pesado do que ele e parecia irritado o bastante para garantir uma boa briga, eu tinha certeza de que meu irmão adoraria arrastá-lo pra fora dali pessoalmente. Mas como estávamos com pouco tempo pra isso ele se limitou a soltar um suspiro frustrado enquanto Shion sinalizava pra dois policiais corpulentos, indicando o homem.

— Retirem isso daqui! – Foi tudo o que disse, enquanto forçávamos caminho por entre a multidão ruidosa e inconformada por estar sendo evacuada do local.

Adiante, era possível ver o palco gigantesco. Uma dúzia de policiais cobertos de equipamento de choque estava enfileirada na borda do palco. Todos estavam preparados pra impedir que alguém da platéia entrasse nos bastidores. As pesadas cortinas vermelhas permaneciam abertas e as brilhantes luzes do palco estavam todas acesas.

Bebês choravam, idosos se queixavam e algumas meninas choramingavam baixinho, agarradas a bonecas compradas como souvenir.

A desculpa de um grande vazamento de água impedira o pânico, mas não servira para aumentar a cooperação dos civis.

As equipes de evacuação faziam progresso, mas não era fácil tirar milhares de pagantes do teatro aquecido sem eles terem assistido ao show e levá-los para o frio lá de fora. O saguão da casa de espetáculos estava completamente lotado.

E ainda havia inúmeras outras salas menores, corredores, vestíbulos. Atrás da área aberta ao público havia camarins, setores de controle, escritórios. Cada um daqueles locais tinha de ser esvaziado, revistado e protegido.

Se o pânico se instalasse ali haveria centenas de vítimas antes da multidão conseguir alcançar as portas de saída. Pensando nisso, eu peguei um megafone, subi em uma imensa mesa em estilo art decó e olhei pra baixo, na direção da multidão que reclamava ao ser empurrada através do saguão grandioso, decorado em cristal estilizado e metal cromado.

— Somos do Departamento de Polícia da cidade de New York. – Anunciei, ouvindo minha própria voz ecoar grave pelas paredes. – Agradecemos a sua cooperação. Por favor, não bloqueiem as saídas. Continuem a caminhar em direção à rua. – Ignorando os gritos e perguntas lançados na minha direção, eu repeti as instruções mais duas vezes.- Agradecemos a sua compreensão. Desculpe-nos por alguma inconveniência.

A palavra inconveniência deixou a multidão colérica. Os gritos aumentaram, enquanto os policiais guiavam com firmeza as pessoas através das portas.

Uma mulher com colar de pérolas apertou meus tornozelos e ameaçou:

— Eu conheço o prefeito. Vou contar a ele sobre o que está acontecendo aqui.

Kanon, ao lado dela, lançou-lhe um sorriso cínico.

— Mande lembranças para o prefeito. – Ele disse — E, por favor, saia de forma ordenada.

A mulher bufou, batendo com os saltos no chão, enquanto meu irmão pulava com agilidade sobre a mesa onde eu estava e pegava o megafone, pedindo com um sorriso travesso:

— Posso...?

Então, com a voz calma e calculada, dirigiu-se à multidão agitada:

— Senhoras e senhores – Ele começou -, gostaríamos de pedir a cooperação de vocês e informar que todos os ingressos e despesas extras com transporte serão totalmente reembolsados pelo Departamento de Polícia do Estado de New York. Eu repito: Todos os ingressos e despesas com transporte serão reembolsados pelo Departamento de Polícia de New York – Eu vi Shion, ao longe, paralisar o que estava fazendo e fulminá-lo com o olhar. Mas meu irmão apenas retribui-lhe com um sorriso satisfeito. — Mais uma vez agradecemos a sua compreensão.

O barulho continuou elevado, mas o tom de revolta diminuiu consideravelmente.

— Você é mesmo muito hábil, não? – Eu resmunguei ao descer da mesa.

— O dinheiro sempre fala mais alto, maninho. E nós precisávamos que eles saíssem mais depressa, não é? – Ele piscou pra mim.

Eu balancei a a cabeça e esperei ele descer da mesa antes de entrar em contato com Hilda pelo Walkie Talkie.

— Já conseguimos evacuar cerca de cinquenta por cento das pessoas. – Eu informei assim que a voz dela se fez ouvir pelo aparelho. – Isso está indo muito devagar. Como vão as coisas por aí?

— Igual a vocês. – Ela disse — Conseguimos achar metade das bombas. Acabamos de desativar uma que estava instalada no console do ógão e continuamos trabalhando em outra no fosso da orquestra agora. Estamos quase conseguindo desarmá-la, e todos os outros se espalharam pelo teatro. Mas não temos pessoal suficiente.

Com o canto dos olhos, eu notei quando Kanon tirou um rastreador de mão do bolso e se pôs a verificar alguma coisa no aparelho. Aquilo me provocou uma fisgada na barriga.

— Mantenha-me informado. Câmbio final. Quanto a você... – Eu me virei pra ele — ...O que diabos você pensa que está fazendo?

— Uma das bombas está na passarela acima da platéia. – Ele informou com naturalidade — Vou trabalhar nessa.

— O único trabalho que você vai ter aqui é o de ajudar na evacuação. Lidar com explosivo é trabalho do esquadrão anti bombas, Kanon.

— Essas coisinhas modernas que Pandora gosta são tecnologia de ponta, maninho. — Ele falou displicente — Tudo computadorizado, tenho certeza que consigo desarmá-las.

— Kanon, você vai ficar longe das bombas. — Eu sibilei.

— Meu amado irmão, nós dois sabemos que não temos tempo para discussões. Se Pandora estiver vigiando este prédio, já sabem que descobrimos o alvo e podem detonar as bombas a qualquer momento.

— É por isso mesmo que você... – Eu comecei a falar, e parei quando ele me deu as costas e se misturou à multidão com rapidez.

— Droga, droga, droga! – Lutando contra o pânico que começava a surgir dentro de mim, eu forcei a passagem e me lancei atrás dele.

Alcancei-o no momento em que ele destrancava uma porta lateral e consegui passar por ela logo depois dele.

A porta bateu sozinha, trancando-se automaticamente, e nós dois nos olhamos de cara feia.

— Não quero você aqui! – Acabamos dizendo ao mesmo tempo, e meu irmão quase riu com isso.

— Deixa pra lá. — Ele disse por fim, movendo-se com rapidez por entre vãos e subindo estreitos degraus de metal pra continuar pelos corredores cheios de curvas — Só não quero que você me atrapalhe.

Eu poderia ter-lhe respondido a altura, mas achei melhor poupar saliva. Agora estávamos naquilo até o pescoço de qualquer forma. Para melhor ou pra pior.

Kanon subiu por outro lance de escadas, ainda mais estreitas que as anteriores, e saiu em um lugar que lembrava o deque de um navio.

O lugar parecia flutuar acima dos assentos confortáveis e proporcionava uma visão geral do palco abaixo. Dava pra ouvir o eco das vozes, vindo de baixo, como um zumbido que saía das paredes grossas. Ali o teatro era simples e funcional, como um ator sem trajes especiais nem maquiagem. Do outro lado, via-se uma quantidade maciça de complicados painéis de controle entre grossos rolos de cordas e equipamentos.

— Onde... – Eu comecei, e quase engasguei perdendo a fala ao vê-lo dar um passo à frente, onde o piso acabava.

— Por Deus, Kan, espere!... – Eu me lancei atrás dele até a ponta da plataforma e vi que na verdade o piso não acabava ali. Pelo ângulo em que eu olhava, porém, era como se acabasse. A passagem não tinha mais de sessenta centímetros de largura, e atravessava o teatro de um lado a outro, como uma espécie de ponte, por entre refletores gigantescos, cordas, roldanas, e vigas de metal.

— Onde está a bomba? – Eu quis saber, pisando atrás dele na passarela.

— Aqui. – Com agilidade, ele girou o corpo, ajoelhou-se e se inclinou para fora de um jeito que fez meu estômago dar uma cambalhota. – Está bem debaixo dessa passarela.

Ele passou o rastreador pelo local.

Olhando pra baixo, dava pra ver que a multidão agora diminuía e alguns atrasadinhos corriam apressados pelos policiais. Os três especialistas do esquadrão antibombas trabalhavam no fosso da orquestra parecendo bonequinhos, e eu consegui ouvir os gritos de triunfo que eles soltaram.

— Conseguiram desarmar mais uma. – Eu comentei.

— Hum. – Foi a única coisa que Kanon disse.

Eu percebi que meu comunicador piscava com uma chamada, e atendi o aparelho.

— Saga falando...

— Desarmamos mais duas – Eu ouvi a voz de Hilda do outro lado -. Estamos quase lá. Estou enviando uma equipe para a passarela que fica sobre a platéia e outra...

— Eu estou na passarela. — Eu falei — Estamos trabalhando pra desarmar aqui.

— Estão...? – Ela ecoou perplexa – Pensei que fosse o trabalho da minha equipe fazer isso.

— Vá cuidar do resto. – Eu disse simplesmente, olhando mais uma vez pra baixo para vê-la andando a passos largos sobre o palco, levantando a cabeça pra olhar pra cima. – Estamos com tudo sob controle aqui.

— Peço a Deus que estejam. — Ela disse — Hilda desligando...

Eu olhei para o meu irmão ainda de joelhos na plataforma.

— Estamos mesmo com tudo sob controle, não é Kan?

— Hum... — Ele respondeu, com ar distraído — Trata-se de um dispositivosinho filha da puta que temos aqui! Cara, Pandora tem muita grana mesmo. – E então pegou uma mini-lanterna e entregou a mim.

— Aponte a luz nesta direção.

— Que direção? – Eu perguntei.

— Bem aqui – indicou ele – Deite-se de barriga.

Eu me deitei no chão e apontei o facho de luz da lanterna para o local que ele havia indicado.

— Ótimo, isso mesmo! – Ele também se esticou no chão, colocando-se de frente pra mim, nossos narizes quase se tocando, e começou a trabalhar com uma pequena ferramenta que cintilava sob as luzes que vinham lá de baixo. – Eles querem que eu corte essas pontas aqui – Ele disse -, mas, se eu fizer isso, nós vamos ser reduzidos a pedaços pequenos e pouco atraentes. O que seria imperdoável, não? – Ele sorriu minimamente. — Os fios estão aqui só pra enganar. – Explicou ele com naturalidade, ao mesmo tempo em que removia, com todo o cuidado, uma tampa oculta. – Viu só? As pontas eram só um chamariz. Eles queriam que isso aqui parecesse uma bomba comum quando, na realidade... ah, veja só esta belezinha... É um dispositivo altamente sofisticado, com disparador por controle remoto.

— Puxa, que fascinante! – Eu exclamei, irônico. – Agora desarme logo isso, maninho, ou nós dois vamos estar fazendo amor no céu hoje à noite.

Ele sorriu amplamente dessa vez.

— O céu não aceitaria nenhum de nós.

Eu dei de ombros.

— Para onde quer que fôssemos, então.

— É esse chip aqui que eu preciso soltar – Ele disse -. Vire a luz mais um pouquinho. Isso, bem aí! Então, você acha que poderemos continuar transando depois de morrer, seja lá pra onde formos? — Ele levantou a cabeça tempo o bastante pra me lançar outro sorriso.

Eu girei os olhos.

— Ah, claro, com toda certeza.

— Vou ter que usar as duas mãos. – Ele voltou a se concentrar no chip — E vou precisar das suas também.

— Pra quê?!

— Pra pegar o chip no ar, quando ele pular. Se eles forem tão espertos quanto imagino, usaram um chip de impacto. Isso significa que se essa belezinha aqui cair lá embaixo vai destruir umas doze fileiras de poltrona e abrir uma cratera no chão do teatro. Além, é claro, de nos sacudir pra fora desse poleiro com o deslocamento de ar. Pronto?

Eu assenti com firmeza.

— Você vai ter que se inclinar um pouquinho para fora. Mantenha os olhos fixos no que eu estou fazendo. E se ligue quando o chip pular...

Eu esvaziei a mente e lancei o corpo um pouco pra fora da passarela, deixando a cabeça e os ombros sem apoio. Olhei fixamente para a pequena caixa preta e vi os fios coloridos e o verde escuro do fundo da placa.

— É este aqui! – Ele encostou a ponta da espátula com que estava trabalhando em um chip cinza, pouco maior que a ponta de um dedo mindinho de bebê.

— Estou vendo.

— Não o aperte depois de pegá-lo. Seja gentil.

Eu concordei mais uma vez

— No três, então: Um... Dois... – Ele deslizou a ponta da espátula em volta do chip, apertando-o com suavidade. – Três!

A pecinha pulou, depois de soltar um estalo que pareceu uma bomba aos meus ouvidos. Caiu em cima da minha palma aberta e deu um pulinho. Eu fechei os dedos, sem apertar.

— Peguei!

—Ótimo! – ele disse – Agora tente envolvê-lo com alguma coisa macia.

Eu tirei um lenço de seda do bolso, e, pinçando o chip com os dedos, coloquei-o no centro do pano, dobrando em seguida, com cuidado, para depois tornar a dobrá-lo, antes de guardá-lo no bolso de trás da calça.

— Provavelmente não está tão protegido como deveria – Eu disse -, mas é melhor que nada. E a não ser que eu sente em cima dele está tudo bem.

— Vê lá, heim? – Ele sorriu sacana — Tome cuidado. Gosto muito dessa sua bundinha pra vê-la explodir em mil pedaços. Agora como é que gente desce daqui?

— Podemos ir andando de volta pelo mesmo caminho por onde viemos... – Eu comecei a dizer, enquanto me levantava outra vez sobre a passarela.

— Ou podemos descer de um jeito mais divertido. – Meu irmão interrompeu com um sorriso travesso. Um brilho surgira em seus olhos no instante em que ele se pusera de pé e olhara a parafernalha de cordas e roldanas a nossa volta.

— Não estou afim de me divertir. – Eu falei na defensiva.

— Pois eu estou. – Ele segurou uma das cordas que pendiam de uma roldana acima das nossas cabeças até o palco lá embaixo. – Sabe qual era a matinê de hoje, Sa?

— Não.

— A montagem da peça favorita de várias gerações, Peter Pan. Dizem que é fantástica a cena em que os piratas balançam até o palco, pendurados nessas cordas.

— Não inventa! – Eu avisei. Mas ele já me puxara mais pra perto empurrando-nos pra beirada da passarela. Em uma reação instintiva, minhas mãos se apertaram em torno da corda.

— Segure firme – ele sugeriu, antes de se largar no ar, dando uma risada.

Eu senti uma lufada de vento que arrancou meu estômago fora e o deixou lá atrás. Pelos meus olhos eu via cores e formas passarem em um borrão.

Então o maluco com quem eu, por algum motivo, dividia os genes cobriu minha boca com a dele, em um beijo ardente. Uma bola de desejo se acendeu dentro de mim, misturado com a adrenalina. A combinação dessas duas sensações fizeram-me ofegar e meus joelhos ameaçaram fraquejar sem firmeza quando minhas botas alcançaram o chão firme.

— Pode se considerar um homem morto. – Eu ameacei — Você já era.

Ele voltou a me beijar e deu uma risadinha rente aos meus lábios.

— Valeu a pena viver.

Nós ouvimos um som de aplausos atrás de nós.

— Sem dúvida, uma bela entrada em cena – Shion vinha em nossa direção com o rosto cansado –. Agora, crianças, quando acabarem de brincar de Tarzan e Jane, ainda temos duas bombas pra desarmar.

Sentindo que eu poderia me jogar no primeiro buraco que aparecesse — talvez o fosso da orquestra fosse uma boa opção — eu dei uma cotovelada em Kanon para afastá-lo de mim, e, respirei fundo, ajeitando as roupas pra recuperar a compostura.

— Os civis foram evacuados? – Eu perguntei, desviando o foco.

— Sim. — Shion respondeu — Estão todos lá fora. Já estamos bem perto, mas...

Ele parou de falar quando um estrondo surdo explodiu abaixo de nós, fazendo o palco estremecer. Acima, as luzes e cabos balançaram loucamente.

— Caramba! Merda! – Kanon praguejou.

Shion pegou seu comunicador na mesma hora.

— Hilda? Quero um relatório completo. Hilda...? Está me ouvindo?

Chiados e zumbidos encheram o ar, e eu senti a mão de Kanon segurando a minha com força até ouvirmos um estalo em meio à estática.

— Hilda falando. Conseguimos conter os efeitos da bomba. Não há feridos nem baixas. O temporizador se armou sozinho e tivemos que cobrir o dispositivo e detoná-lo. Repito, não há feridos. A área sob o palco é que ficou arrasada.

— OK. Certo. – Shion esfregou a mão sobre o rosto, enquanto nós respirávamos aliviados. – Qual é o status da operação?

— Conseguimos desativar todas as outras, Comandante. O prédio está limpo.

— Vá direto para a sala de conferência da central depois de proteger o local para a perícia. Bom trabalho! – Desligou e voltou o olhar para Kanon e pra mim.

— Vamos precisar de todos os dados sobre a segurança deste teatro, além de uma lista completa de todas as pessoas que trabalham aqui. Técnicos, artistas, o pessoal da manutenção e da administração. Todos.

— Solicitei uma lista pra June com os dados completos de todo mundo assim que soube que o alvo era este local. – Eu disse — A relação já deve estar à sua espera na central.

— Ótimo. Agora vocês já podem voltar pra central. E entreguem tudo que encontraram para o pessoal da perícia antes de sair. – Ele disse, e então se afastou a passos largos quando ouviu um dos assistentes de Hilda chamá-lo nas coxias.

Eu afundei a mão no bolso de trás da calça, pra recolher o lenço com o chip que deveria ser entregue à perícia, mas meus dedos tatearam apenas o vazio.

Não havia mais nada lá dentro.

Eu estreitei os lhos na direção do meu irmão.

— Devolva o chip, Kanon.

— Que chip? – Perguntou ele, erguendo uma sobrancelha.

— Não seja metido a esperto! Eu senti sua mão se esgueirando pela minha bunda enquanto nos balançávamos naquela corda. Quero o chip de impacto que estava aqui. – Eu apontei para o meu bolso.

— Ah, aquele chip... – Ele fez uma expressão inocente. – Não está aí? Puxa, que chato, Saga, será que você o perdeu em algum lugar?

— Me entregue a porcaria desse chip, Kanon! – Eu reagi — É uma prova!

Sorrindo suavemente, ele levantou as duas mãos abertas no ar e encolheu os ombros.

Eu me aproximei dele até nossos sapatos se tocarem.

— Me entregue esse chip, Kanon! – Eu repeti, ameaçadoramente. – Se você não me entregar por bem, vou deixar você pelado e mandar te revistarem até ele aparecer.

— Você não pode me revistar sem um mandado. – ele deu um sorriso enviezado — A não ser, é claro, que você queira me revistar sem roupa pessoalmente, e, nesse caso, eu estaria disposto a abrir mão de alguns dos meus direitos.

Eu inspirei fundo pra manter o controle. As vezes, só as vezes, eu me perguntava o que diabos eu tinha feito pra ter que aturar o Kanon.

— Eu te dou vinte quatro horas, Kanon. Vinte quatro horas pra você brincar com essa porcaria, e depois disso é bom que o chip esteja na sala de provas, estamos entendidos?

Ele sorriu satisfeito.

— Você é adorável, maninho.

Eu bufei.

— Sei. Ainda não gosto disso.

— Sabia que não ia gostar. – Ele depositou um beijo no meu rosto. – Nos vemos na delegacia.

Eu nem me dei ao trabalho de fazer cara feia. Em vez disso, entrei em contato com June para avisá-la de que toda a equipe estava a caminho da central.