O Garoto Do Andar de Cima
27 Extra: Shiryu I
Shiryu POV
Apenas no decorrer daquela semana um mendigo morrera sem que ninguém notasse sob um banco do Greenpeace Park. Um professor de história caiu ensanguentado, com a garganta cortada, a um metro da porta de casa, pelos dez dólares que trazia no bolso. E uma mulher teve seu último grito abafado, tombando sob os punhos irados de seu amante.
A morte podia vender bem no cinema, eu pensei, mas raramente era uma coisa bonita de se ver.
Aquela, no entanto, era a vida que eu tinha escolhido pra mim. Crime e castigo faziam parte do meu trabalho. E eu gostava dele. Não sabia muito bem como explicar isso, ou como fazer as pessoas entenderem… No fundo, tudo se resumia a uma luta entre o bem e o mal. Ninguém sabia por quê o mal havia sido colocado no mundo. Mas ele estava lá, e precisávamos lidar com ele. E era isso o que eu fazia. Era o que eu sempre quisera fazer.
Hyoga, no entanto, não havia escolhido isso pra ele. Ele era mais uma vítima. Fora levado até ali, como tantos outros.
Eu olhei para o rapaz loiro sentado à escrivaninha: A testa franzida, os olhos estreitados, concentrado na tela do computador a sua frente.
Apesar de tudo ele estava fazendo o melhor que podia.
E o melhor que Hyoga podia fazer, eu era o primeiro a reconhecer, não era pouca coisa.
Ele parecia ter nascido pra aquilo. Não à toa Hyoga era considerado um dos alunos mais brilhantes da faculdade. Bastaram apenas algumas poucas instruções do nosso tenente, e ele fora capaz de desenterrar toda a ficha história e criminal de Radamanthys. O juiz, como era conhecido.
A partir de informações levantadas pelo comandante, e através da mágica que Hyoga, o Tenente, e a equipe de inteligência faziam nos teclados, conseguimos descobrir que Radamanthys Wyvern, ou Radamanthys J. Hughes, seu nome verdadeiro, servira o exército na Força Tática Especial em 1993, e trabalhara como atirador de elite pra CIA, antes de se envolver com um grupo rebelde que se acreditava ter ligações com facções terroristas da Espanha, França, Colômbia e Oriente Médio.
Sua mulher e filha morreram em uma explosão durante um ataque secreto que o FBI fizera a sua casa, na tentativa de liquidar com ele e acabar com o grupo.
Hyoga também descobrira a existência de um homem por trás do grupo. Aparentemente, um alto figurão militar, a quem todos os arquivos referiam-se apenas por Hades.
Seria ele movendo as cordas de Pandora também? Eu me perguntei não pela primeira vez, e suspirei pensativo, fazendo com que os olhos do Hyoga se voltassem na minha direção. Percebendo apenas naquele momento a presença de outra pessoa na sala.
— Ei! — Eu levantei uma mão em aceno. — Como vão indo as coisas por aqui?
Ele sorriu.
— Acho que estamos chegando em algum lugar. Dá uma olhada nisso. — Ele apontou para a tela.
Eu puxei uma cadeira da mesa e sentei na escrivaninha ao lado dele. Nós estávamos no escritório da casa do Dohko, meu tio e superior, onde Hyoga vinha sendo gentilmente confinado em uma espécie de “programa de proteção a testemunha" improvisado.
Ele estivera no apartamento dos gêmeos antes, mas desde que o local se transformara no palco da maioria das reuniões de cúpula do caso Pandora, ele fora transferido pra cá.
— Julian e eu seguimos naquela linha de que Hades seria um figurão militar e olha o que encontramos. — Ele falou empolgado apontando pra diversas imagens de documentos com tarja de confidencial abertos na tela. Julian era o nome do comandante da divisão de inteligência eletrônica
— Coronel Alward Bassi. — Hyoga disse — Primeiro Tenente da Força Tática Especial do exército no mesmo ano que Radamanthys cumpriu serviço lá. Parte de um grupo ultra secreto do exército, elite da tropa. E tem um monte de elogio aqui também a respeito da sua perícia com eletrônicos e explosivos. Mas o melhor vem agora… — Seus olhos se desviaram da tela pra se fixar em mim outra vez. — Jessica Alward, a esposa do Radamanthys, era filha dele. Ele era sogro do Radamanthys, percebe? Foram a filha e a neta desse cara que o FBI explodiu. Você não acha que seria normal ele querer vingança depois de tudo?
— Boa, Oga! — Eu falei — E onde está o sujeito agora?
Seus ombros se encolheram um pouco.
— É aí que está a complicação. — Ele falou desanimado. — O cara desapareceu em serviço em 1999, e tem sido dado como morto desde então.
— Morto? — Eu falei incrédulo.
— Pois é — Ele confirmou, e então se animou outra vez. — Mas o corpo na verdade nunca foi encontrado, e… — Ele se interrompeu quando um alerta sonoro se fez ouvir, emitido pelo computador. — Ah, olha só, tem mais coisa chegando.
Ele se voltou pra o aparelho outra vez, digitando diversas sequências de letras e números. Novas janelas iam sendo abertas e fechadas conforme ele teclava.
Passaram-se vários minutos assim, sem que Hyoga nem piscasse, até que ele executou o que pareceu ser um último comando, e se recostou na poltrona esticando os dedos.
Logo em seguida se virou pra mim outra vez.
— Você tem feito o que eu te pedi, não tem?
Eu hesitei por um momento tentando entender a que ele se referia, então suspirei novamente.
— Pára de pensar nisso, cara. Relaxa. Não vai acontecer nada com o Shun, ok? Ele vai ficar bem. — Eu sorri — Arrasou comigo e com a Shunrei no War na semana retrasada, e ontem parece que estava com uma lista enorme de museus e galerias de arte pra visitar. Shunrei também comentou que ele pretendia enfrentar as filas de entrada de pelo menos três teatros na Broadway. E isso ainda essa tarde.
Eu ri com a lembrança, o Shun era uma figura. E então parei ao analisar o rosto do Hyoga. O olhar preocupado e os lábios, que as garotas na faculdade tanto pareciam admirar, contraídos.
— Ei, as pessoas conseguem fazer tudo o que ele está planejando e escapar com vida em New York todos os dias, sabia?
Ele bufou.
— É do Shun que estamos falando. Quase ser atropelado por ônibus de turistas é parte da rotina dele.- Ele fez uma pausa, então continuou — E eu contei a ele sobre o Radamanthys, lembra? — Ele balançou a cabeça como se não pudesse acreditar — Eu fui tão estúpido! Por que não fiquei de boca fechada? Se ele estiver em perigo por causa disso…
— Não está. — Eu garanti. — Ainda que você tenha contado, Shun não viu o cara. Não pode reconhecê-lo, então está seguro. E nós estamos mantendo um olho nele também. Eu estou. Estou cuidando dele como você pediu.
Ele assentiu.
— Obrigado, cara. E me desculpe outra vez. Eu não queria ter falado aquilo pra você. Não era sério, você sabe.
Hyoga não havia reagido muito bem ao saber que eu trabalhava com a polícia, e que fora infiltrado como aluno universitário em Harvard desde que um agente nosso na Yakuza nos contara sobre Radamanthys e o interesse de Pandora nos irmãos Kido.
Aparentemente Seiya e a irmã andavam encrencados com a máfia desde que seus pais morreram, e Radamanthys estava usando isso pra ficar na cola deles. Era meu trabalho saber porquê. Descobrir o que Pandora queria com os garotos.
Infelizmente quase um ano havia se passado e eu não havia conseguido nada além de bons amigos e uma linda namorada, que no momento andava bastante irritada comigo.
Hyoga naturalmente ficara irritado tb, e se sentira traído quando descobrira sobre tudo isso. Mas acabara superando aquela hostilidade inicial, à medida que se dava conta da complexidade do problema com que estávamos envolvidos. E conforme eu era a única pessoa em seu “cativeiro" que podia lhe trazer notícias do namorado. Ou qualquer que fosse o status que o Shun representava naquele relacionamento peculiar que eles haviam criado.
Às vezes eu me perguntava o que diabos eles estavam fazendo que ainda não haviam se acertado, quando estava claro pra todo mundo a forma como se sentiam em relação um ao outro. Depois me repreendia. O relacionamento do Hyoga e do Shun não era da minha conta. A mim cabia apenas ser um bom amigo e mantê-los em segurança, e não me envolver nos problemas que eles próprios se causavam.
— Eu sei. — Eu falei com um sorriso, respondendo ao pedido de desculpas dele. E então acrescentei — De qualquer forma, esse foi meu primeiro trabalho como infiltrado, e percebi que não é pra mim. De uma forma ou de outra eu acabo me envolvendo demais com os investigados, sabe.
Eu sorri e Hyoga me acompanhou. Então ambos olhamos pra porta quando o som do solado de borracha dos coturnos oficiais de June se fez ouvir contra o piso de madeira do escritório. Ela vinha entretida na leitura de uma pilha de anotações que trazia nas mãos. Estivera na biblioteca particular do meu tio estudando sobre o caso até então.
— Você conhece alguma Pandora? — Ela perguntou pra mim assim que entrou, erguendo os olhos dos papeis.
Eu neguei com a cabeça.
— Nenhuma amante irritada, eu posso lhe garantir. Embora, minha namorada cisme em pensar o contrário.
— A Shunrei? Sério…? — Hyoga perguntou perplexo, e eu concordei pesaroso.
— Infelizmente.
Ele riu outra vez.
— Mas eles tem que ter tirado esse nome de algum lugar. — June se manifestou novamente.
— Talvez dos gregos. — Hyoga sugeriu.
— Dos gregos? — Ela desviou o olhar pra ele que confirmou com a cabeça.
— Pandora era o nome da primeira mulher na Mitologia Grega, — Ele explicou — concebida por Zeus como um castigo para a humanidade, depois que Prometeu furtou-lhe o fogo sagrado do conhecimento e o entregou aos homens. O rei do deuses como vingança e castigo ofereceu então Pandora como presente a Epimeteu, irmão de Prometeu, que, a despeito dos alertas do irmão, se apaixonou por ela e a desposou. Pandora trazia consigo uma caixa, que, uma vez aberta, espalhou todos os males que conhecemos sobre a humanidade: a doença, a guerra, a mentira, os roubos, o ódio, o ciúme. Vingança e castigo, poder e destruição, é disso que se trata esse mito, é essa provavelmente a mensagem que eles querem nos passar.
— Cara, é impressionante como você guarda todas essas merdas. — Eu falei, e ele deu de ombros.
— Que coisa mais machista. — June revirou os olhos se referindo ao mito. Então continuou. — E de quem eles querem se vingar? Quais os males que pretendem soltar pelo mundo?
— De acordo com as mensagens que eu li, — Hyoga disse — todos os que forem necessário pra implantação da Nova República. O levante das massas, a destruição dos governos corruptos… uma daquelas redundâncias irritantes… além da derrubada da classe alta gananciosa.
— Da qual o nosso loirinho aqui é um orgulhoso membro. — A voz do Kanon se fez ouvir também vinda da porta, à medida que ele entrava no escritório. Saga seguia logo atrás dele.
— O garoto tem razão. — Saga falou — Nosso cara adora simbolismos. Pandora, Hades, Wyvern… “Os arautos de um novo mundo”, “Os Senhores do Caos”. Poder e destruição, sem dúvida, mas também um distanciamento entre eles e o restante dos mortais. A crença de que eles, ou quem quer que os lidere, tem o poder e o sabedoria pra governar a nós pobres mortais. Poderão nos usar, como vêem fazendo com o rapaz, Seiya, e a irmã, sempre que considerarem que somos úteis ao seus propósitos. Talvez até se importem conosco, à maneira fria e implacável dos Deuses. E então, quando tivermos acabado nossa tarefa seremos recompensados ou punidos, conforme acharem adequado.
— Explodir um prédio abandonado me parece um jeito ridículo de se revoltar. — June disse, referindo-se a explosão de um prédio no Queens na madrugada da passagem de ano.
— Mas atraiu nosso atenção. — Saga falou. — Era o que eles queriam.
— Bem pensado. — Hyoga falou.
E então duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. O computador sobre a mesa emitiu outro sinal sonoro, e o celular do Kanon tocou.
Hyoga voltou-se imediatamente para o aparelho, completamente absorvido outra vez, enquanto Kanon trocava algumas palavras no celular.
Alguns minutos depois, ele desligou o telefone e olhou pra o irmão.
— Era o Jed. — Ele falou.
— O cara que você fichou por atentado violento ao pudor? — Eu ergui uma sobrancelha
Kanon sorriu de maneira debochada.
— Ele é um bom informante. Gosta de exibir sua "personalidade" pra todo mundo quando fica de porre, mas é inofensivo. E ele garantiu ter notícias quentes. — Seu olhar se voltou para o irmão. — Parece que a polícia da Costa Oeste pescou um sujeito em um rio em Utah há três meses. E ao que tudo indica o nosso mais novo hóspede da carceragem tem mais do que um dedo no estrago.
Saga arregalou os olhos.
— É certo isso?
Kanon deu de ombros.
— Vamos ter que investigar pra saber. Marquei com ele no Beer’s em vinte minutos. — Disse, e então se voltou pra mim novamente — Oficial, fique pronto, você vai também. Jed quase sempre me enche os ouvidos de boatos, mas de vez em quando desencava dados sólidos. E June, vamos precisar de você na central.
A garota e eu assentimos e Saga disse pra mim.
— Estaremos te esperando na viatura. Não demore.
Eu concordei novamente, e eles deixaram o escritório.
Estava terminando de prender meu coldre na cintura, quando meu olhar foi atraído para o Hyoga outra vez.
Ele estava parado em frente ao computador, com os olhos fixos na tela e um sorriso estranho no rosto. Como um gato que tivesse acabado de receber um pires de leite.
— Hyoga? — Eu chamei.
Ele piscou, e, ainda sem desviar o olhar da tela, falou:
— Talvez não tenha sido só dos gregos, afinal.
— Como? — Eu perguntei confuso.
Seu sorriso se ampliou e ele finalmente voltou o rosto na minha direção. Os olhos brilhando de empolgação.
— Hades teve uma mulher. — Ele apontou em direção à uma série de textos e documentos exibidos no computador. — Uma alemã chamada Frida Heisntein com quem teve um filha. A garota veio morar com o pai na América depois que mãe morreu, se naturalizando americana com o nome de Jéssica Alward. A esposa de Radamanthys. Mas esse não era o nome de verdade dela…
Ele fez uma pausa, e balançou a cabeça como se ainda não pudesse acreditar no que descobrira, antes de continuar:
— Seu nome de verdade era Pandora. Pandora Heisntein.
***
A especialidade do Beer’s era cerveja ruim acompanhada de amendoim velho. Sua clientela era formada em sua maioria de bandidinhos vulgares com pouca sorte, escriturários mau pagos, e prostitutas.
O ar viciado tinha cheiro de mofo e cigarro barato, e as conversas espalhadas pelo salão pareciam secretas. Através da luz difusa e enevoada, vários olhares convergiram para nós quando entramos, e depois rapidamente se desviaram.
Saga e Kanon não precisavam vestir uma farda pra mostrar que eram policiais. Qualquer um reconheceria isso pelo jeito como se posicionavam, com o corpo parecendo sempre em alerta, e os olhos duros e focados, enquanto avaliavam rostos e detalhes.
Somente os idiotas ou desavisados não perceberiam. A maioria dos freqüentadores do Beer’s, no entanto, não era idiota. Eles conseguiam sentir o cheiro de um tira a distância, e, se preciso, estariam prontos pra correr o mais rápido possível na direção contrária a dele.
O tal Jed acenou pra nós du uma mesa nos fundos. Tratava-se de um sujeito magricela com cara de fuinha, o queixo pontudo quase enfiado no fundo de uma caneca de cerveja, bebendo os últimos goles.
Nós caminhamos em direção a ele. Cadeiras se afastavam pra nos dar passagem à medida que avançávamos, e eu vi um ou outro ombro se encolher de forma defensiva.
"Todos por aqui são culpados de alguma coisa". Eu pensei.
— Essa espelunca não muda, Jed. Nem você. — Kanon abriu um sorriso irônico para o homem quando paramos em frente à sua mesa.
Ele devolveu o cumprimento com uma risadinha ofegante, mas seu olhar se voltou de imediato pra mim.
— Vocês não precisavam trazer reforços. Puxa, cara, pensei que fôssemos amigos.
— Nossos amigos tomam banho todo dia, e esse não é o seu caso. — Kanon apontou uma cadeira pra mim com a cabeça, e se sentou à mesa.
— Ele está conosco. — Foi tudo o que Saga disse, sentando-se ao lado o irmão.
Eu segui o exemplo deles, tomando meu lugar também.
Jed deu um arremedo de sorriso, exibindo o descaso com que tratava os dentes.
Eu o encarei com olhar firme.
— Tudo bem. — Ele continuou — Está limpo, já que ele está com vocês. Eu também faço parte dessa panelinha, certo?
— Que sorte a nossa, heim?!… — Kanon falou mordaz, ao mesmo tempo em que um garçom se aproximava da nossa mesa. O rapaz recebeu um olhar tão duro de Saga que mudou de direção na mesma hora, deixando-nos em paz.
— O que você tem pra nos contar, Jed? — O gêmeo mais velho perguntou.
— Consegui uma boa dica e posso conseguir ainda mais… — O sujeito falou, então seu rosto formou uma expressão que eu só poderia chamar de cautela. — Se, pelo menos, eu tivesse algum trocado pra poder trabalhar com mais folga…
— Não pagamos nada adiantado — Kanon foi enfático — Se a gente te der alguma grana agora, você e sua cara feia vão sumir por uns seis meses.
O informante respirou novamente de forma ruidosa, engoliu a cerveja fazendo muito barulho, e lançou um olhar esperançoso na nossa direção, com seus olhos miúdos e úmidos.
— Puxa, cara, sempre tratei vocês numa boa.
— Então, comece a nos tratar bem de novo — Saga falou, e o homem suspirou resignado.
— Tudo bem, tudo bem. — Ele se inclinou pra frente, fazendo seu corpo magro debruçar-se sobre a caneca quase vazia.
Eu me recostei mais na cadeira. Não pra descansar as costas, mas para me afastar do hálito podre do sujeito.
Ele enfiou os dedos magros na tigela rasa onde havia alguns amendoins desbotados. Mastigou-os com o que lhe sobrara dos dentes e olhou pra o teto, como se tentasse reorganizar os pensamentos.
— Há coisa de um ano, — Ele começou — consegui um… bem, eu tinha uma TV em bom estado, mas que precisava de concerto.
Eu vi as sobrancelhas do Saga se erguerem.
— Esse “conserto” significa fazer a mercadoria esfriar? — Ele perguntou sem expressão.
Jed respirou com dificuldade e sugou um pouco mais da cerveja.
— Sabe o que é, o aparelho estava meio caído e eu o levei para um cara em Utah mexer nele. Um velhote estrangeiro. Diziam que o cara era uma gênio, saca? Não havia nada que ele não pudesse fazer funcionar como se fosse novo.
— Sim, e devia ser ótimo também em trocar o número de série dos equipamentos. — Kanon comentou.
— Bem, isso é verdade… — O homem encolheu os ombros, seu sorriso era quase doce. — Nós ficamos de papo, acabamos ficando amigo. Ele tinha trabalhado com os russos na Guerra Fria, foi militar, especialista em em armas de destruição em massa, explosivos e essas coisas. E ele me disse que estava trabalhando em um projeto. Troço grande. Grana alta. Uns caras aí o haviam contratado pra fabricar timers, controles remotos, grampos e outras merdas. Ele montou algumas bombas também.
— Ele contou a você que estava montando explosivos? — Saga quis saber.
— Puxa, cara, nós ficamos amigos, ele me contou tudo sim. Parece que os caras sabiam que ele trabalhava com esse tipo de equipamento desde os tempos do exército. Além disso pagavam muito bem.
— Quem estava pagando? — Foi a vez do Kanon perguntar.
— Não sei. Acho que ele também não sabia. Contou apenas que uns caras foram até onde ele trabalhava, lhe deram uma lista de materiais e uma grana. Ele construiu o que os sujeitos encomendaram, ligou para um número que haviam informado para contato e deixou um recado. Era só pra avisar que os produtos estavam prontos, e dois caras iriam até lá para pegar tudo e lhe pagar o restante da grana.
— Pra que finalidade ele achava que os equipamentos iam servir? — Saga perguntou.
Jed elevou os ombros magros e lançou um olhar desolado para a caneca vazia.
Como se fosse parte de uma rotina pré programada, Kanon ergueu um dedo e o apontou para a caneca do homem. Ele se animou na mesma hora.
— Obrigado, cara, obrigado. Estou mesmo com a boca seca, de tanto falar.
— Então vá direto ao ponto, Jed , — Saga retrucou — enquanto ainda tem saliva nessa boca.
O sujeito abriu um largo sorriso ao ver o garçom despejar um líquido cor de urina na sua caneca.
— Tudo bem, tudo bem. Ele achava que os caras iam usar aquilo pra explodir um banco ou uma joalheria. Ele também havia montado uns dispositivos de ligação direta e sacou que os timers e os controles remotos iam servir pra explodir as bombas que preparara. Disse que talvez os caras fossem precisar de alguém que soubesse se virar nas ruas e perguntou se podia indicar meu nome.
— Afinal, amigo é pra essas coisas. — Kanon ironizou.
— É, isso mesmo! Mas então, recebi uma ligação dele, umas duas semanas depois disso. Ele pareceu muito agitado, entende? Disse que o lance não era nada daquilo que ele imaginava. Falou que era uma merda muito mais pesada. Pesada de verdade. De tão abalado disse coisas sem nexo e nem conseguiu falar direito. Nunca vi o velho daquele jeito. Estava completamente acuado. E ele não era de se apavorar à toa, sabe. Como eu disse, ele tinha trabalhado para os russos, enfrentou a Guerra Fria e tudo. Mas ele estava muito apavorado quando me ligou naquela noite. Disse que morria de medo de provocar um novo 11 de Setembro e avisou que ia ter que sumir por uns tempos. Perguntou se podia se esconder na minha casa até descobrir o que fazer. Eu concordei claro.
— Mas ele não apareceu. — Kanon concluiu.
O homem balançou a cabeça, e seus cabelos engordurados balançaram junto
— Não. Foi pescado do fundo de um rio em Salt Lake City, três meses atrás.
— Sinto muito por saber disso. — Saga falou.
— Eu também. — Jed olhou com tristeza para a cerveja. — Ele era uma cara legal, entende? Eu só soube há dois dias. A polícia da Costa Oeste está atras dos caras que fizeram isso, e eu soube que a descrição de pelo menos um deles bate com a do sujeito que vocês estavam perguntando esses dias. O tal Zelos.
Os gêmeos se entreolharam e eu prendi o ar.
Jed fez fez uma pausa, dando outro gole na sua bebida antes de continuar.
— Eles o apagaram porque ele descobriu o que iam fazer, certo? Não foi por isso?
Saga assentiu.
— Sim, eu diria que sim.
Jed estalou a língua.
— Se o eliminaram desse jeito, é porque não planejavam simplesmente assaltar um banco, não é? — Ele balançou a cabeça outra vez. — Ouvi dizer que arrancaram a língua dele. Que tipo de pessoa seria capaz de fazer uma merda dessas?
— Gente da pesada, Jed. — Kanon falou. — Gente muito da pesada.
***
Quando voltamos à Central quarenta minutos mais tarde, encontramos June esperando por nós depois que conseguimos passar pelos jornalistas.
Eles estavam dando plantão em frente a delegacia e fazendo da vida de todos um inferno desde que a notícia da explosão do velho prédio abandonado no Queens vazara para a mídia.
— Recebemos uma nova mensagem. — A garota informou depressa, assim que colocamos o pé além da recepção.
Nós estacamos ao mesmo tempo. Saga e Kanon trocaram olhares. De repente a tensão no ar era palpável
— Os procedimentos de segurança já foram efetuados? — Saga perguntou.
— Sim senhor, já estou com ela na tela. — June respondeu apontando para o computador ligado na sua baia.
Nós nos apertamos atrás da mesa para ler.
A letras verdes brilhavam ameaçadoramente no fundo preto.
“Somos Pandora.
Somos os arautos do novo mundo.
Somos os senhores do caos.
Esperamos que a demonstração da madrugada do dia 31 tenha sido suficiente para convencê-los do nosso poder e da seriedade de nossas intenções.
Nossas exigências deverão ser atendidas ou não seremos tão benevolentes com o próximo alvo. Além das demandas iniciais, exigimos agora o pagamento de sessenta milhões de dólares em títulos ao portador, em papéis no valor de cinquenta mil dólares cada. Os capitalistas, verdadeiros donos do poder ao forrar os bolsos e torturar as massas, devem pagar agora na moeda que eles adoram.
Assim que a confirmação da libertação de nossos companheiros for ratificada, daremos instruções mais detalhadas sobre como a penalidade monetária deverá ser cumprida.
Se nossas exigências não forem atendidas até o sétimo dia do mês subsequente, seremos obrigados a sacrificar um dos marcos da cidade de New York. Um símbolo do excesso de futilidade dentro do qual mortais olham boquiabertos para outros mortais.
Somos Pandora, utilizaremos suas próprias armas contra eles. E triunfaremos. "
O rosto de Kanon endureceu.
— Eles estão brincando conosco. Vão mandar alguma coisa pelos ares e querem nos ver correndo feito ratos pra tentar impedir. Estão pouco se importando com o pagamento.
— Você tem razão. Dinheiro não é a motivação deles. É só mais uma cortina de fumaça. — Saga falou. Então acrescentou com a expressão muito séria também — Eu vou informar o Comandante. Kan, você entra em contato com a Hilda. Vamos ver se conseguimos agitar uma reunião pra esta noite lá em casa.
— Certo. — O outro concordou, então se voltou pra June outra vez. — Oficial, mande essa mensagem para o computador pessoal de todos.
Ela assentiu, e, imediatamente Kanon começou digitar algo no seu celular. Os dois tenentes seguiram por caminhos diferente, para fora do cubículo da assistente, e eu continuei ali, parado, olhando para a tela escura aberta no computador.
“Um símbolo do excesso e da futilidade, dentro de qual mortais olham boquiabertos para outros mortais." O que poderia ser isso?
Eu balancei a cabeça.
Não importava. O que importava era que eles iriam explodir alguma coisa. E dessa vez não seria um prédio abandonado. Dessa vez eles iriam garantir que tivesse gente dentro.
Fale com o autor