O Garoto Do Andar de Cima

8 Capítulo 8: A Primeira Noite


Shun POV

Meus amigos e eu estávamos passando o Sábado no saguão porque estava chovendo novamente. Ninguém nunca falava sobre isso, mas acontece que Boston era tão chuvosa quanto Londres, no verão. O que deixava as noites frias, apesar dos dias ensolarados.

Shunrei e Shiryu estavam enrolados em um sofá namorando e compartilhando músicas nos seus i-phones. Seiya estava jogando paciência no tablet e Hyoga estava escondido sob a capa de um grosso livro intitulado Conspiracy and Freemasons.

Eu estava checando meus e-mails no computador.

Para: Shun Amammya (shunamammya@hotmail.com)

De: Hana Amammya (amammya.hana@freebiemail.com)

Assunto: Notícias.

Olá, querido. Faz tempo que não nos falamos. Você verificou seu correio de voz essa semana? Eu te liguei várias vezes, mas caiu direto na caixa postal. Bem, este é apenas um lembrete pra que você ligue pra sua mãe pra contar como estão indo seus estudos. Como você se saiu nas provas? Que lugares interessantes você tem visitado? Falando em coisas interessantes, eu encontrei a Misuki-chan ontem em Shibuya, ela fez uma tatuagem nova. Mas não é nem de perto tão bonita quanto as que você desenha.

Mudando de assunto, eu falei com seu irmão ontem. Ele me disse que suas aulas acabam na semana que vem, que você já comprou sua passagem e que não quer que ele vá até aí buscá-lo. Não sei se eu gostei muito de saber disso Shu-chan, você não está acostumado a voar sozinho, pode ser perigoso. O Ikki certamente não gostou nada. Ele está muito preocupado.

Bem, me liga.

Beijos,

Mamãe.

Eu revirei os olhos, mamãe e o Ikki eram tão dramáticos. Eu não tinha mais cinco anos, que problema poderia haver em voltar sozinho pra casa? Além disso, essa definitivamente era outra coisa que eu precisava aprender a fazer por conta própria se estava morando fora. Que queria aprender a fazer.

Eu respondi a ela contando sobre alguns lugares que tinha conhecido e dizendo que tinha me dado bem nas provas — conseguira um seis em Francês, o que não era muito, mas dava pro gasto. Nove no trabalho de Psicologia. E, como nossa equipe havia ganho a caça ao tesouro (não graças a mim e ao Hyoga, é claro), os dois pontos na média final ajudaram bastante em Economia também. Nas outras matérias acabara ficando entre sete e oito, o que não era ruim.

Perguntei também um pouco sobre a tatuagem nova da Misuki, informei o horário do meu vôo no Domingo, e prometi que ligaria cedo no dia seguinte. Achei melhor deixar a discussão sobre as neuras de segurança do Ikki, para o telefone.

– Seu vôo sai às seis e vinte e sete da manhã de Domingo? — A voz de Shunrei soou muito próxima aos meus ouvidos quase me fazendo pular. Ela havia se levantado do sofá, e agora estava inclinada sobre o meu ombro encarando a tela do meu laptop.

– É. — Eu respondi — Vou ter que acordar insanamente cedo, mas vai valer a pena.

– O meu também. — Ela falou animada — Meu vôo faz uma conexão em Tóquio. Aposto que estamos no mesmo vôo. Podiámos dividir um táxi até o aeroporto.

Eu hesitei. Não sabia se queria. Estava tão determinado a fazer aquilo sozinho. Mas talvez a companhia de uma amiga pudesse ajudar. E, de qualquer forma, uma amiga não era a mesma coisa que um irmão superprotetor.

Eu sorri.

– Claro. Vai ser ótimo.

– Ah, eu não acredito que vocês terão treze horas inteiras sozinhos pra falar mal da gente! — Hyoga reclamou, com um falso muxoxo, abandonando o livro.

Shunrei estreitou os olhos.

– Então... o que a Freya está fazendo hoje mesmo? — Ela perguntou, cutucando o pé dele com a ponta do sapato.

Ela estava só provocando, é claro, mas a verdade é que fazia realmente um tempo que ele não saía com a namorada. Será que eles ainda estavam brigados?

Depois que ele me flagrara espionando aquela discussão deles, eu meio que não tive mais coragem de perguntar.

– Hum... Ela foi em uma festa à fantasia. — Foi o que ele respondeu, no entanto.

– Sei... — Shunrei falou desconfiada. — E você não gosta de festas à fantasia?

– Não gosto de fantasias.

– E a Freya gosta? — Eu perguntei.

– Dê uma boa chance a uma garota de se vestir como uma enfermeira safada e ela com certeza vai gostar. — Seiya falou por detrás do tablet.

Hyoga jogou uma borracha do meu estojo de desenho na cabeça dele e acertou sua bochecha.

– Ela não vai vestida de enfermeira safada. — Ele disse.

– Enfermeira normal, então? — Eu perguntei inocentemente. — De vestidinho curto e peitos enormes?

Os outros caíram na risada e Hyoga enfiou o livro no rosto outra vez.

– Ah, eu odeio todos vocês. — Ele resmungou, mas estava rindo também.

– Ei, eu não disse nada. — O Shiryu se manifestou.

– Tudo bem. Eu odeio todos vocês, menos o Shiryu. — Hyoga disse, e nós rimos outra vez.

Então a porta da frente se abriu e o número de decibéis aumentou quando Nick, Pierce, Todd, e duas meninas que eu não conhecia entraram. Eles tinham saído pra beber e estavam falando alto.

Hyoga fez uma careta e se escondeu ainda mais por trás do livro. Eu balancei a cabeça pra ele e voltei para os meus e-mails.

– Shun! — Nick abriu um sorriso enorme, se desvencilhou de uma garota com mechas que estava pendurada nele, e cambaleou na minha direção agitando os braços quando me viu. Ele parecia um filhote de pássaro que acabara de nascer e ainda não sabia como usar as asas. — Você perdeu. Sabe aquele bar com janelas azuis? Nós roubamos os cones do lado de fora e os colocamos na fonte. Você tinha que ter visto a cara dos garçons quando os encontraram. Foi demais!

Eu não achava tão demais assim, mas preferi não dizer nada.

Olhei para os pés dele, e, de fato, eles estavam mesmo molhados.

– O que você está fazendo? — Ele se abaixou ao meu lado. — Checando seus e-mails?

Hyoga bufou.

– Dêem uma medalha para o cara por suas incríveis habilidades de dedução.

Meus amigos riram sarcasticamente, e eu me senti meio mal pelo Nick. Mas ele nem olhou para o Hyoga, só continuou rindo.

– Bem, eu vi o laptop — Nick disse -, e o lindo rostinho franzido, o que significa que você estava concentrado, então juntei dois mais dois...

Hyoga abriu a boca pra soltar algum outro de seus comentários espirituosos, mas eu ergui uma mão espalmada no ar em aviso pra ele parar, e ele se calou a contragosto.

– Quer ir lá em cima? — Nick perguntou — A gente vai bater uma papo e relaxar um pouco no meu quarto.

Eu hesitei. Não queria ir de verdade, mas sabia que deveria. Afinal, Nick era meu amigo também, e eu ainda me sentia meio culpado sobre o bolo que déramos nele na festa no Memorial Day.

– Claro. — Eu acabei falando.

Ele comemorou e me ergueu pela cintura desajeitado, tropeçando em um livro do Hyoga no caminho.

Hyoga parecia prestes a cometer um assassinato.

– É só um livro. — Eu disse, e ele fez uma careta de desgosto.

***

Nick me levou até o quinto andar. O mesmo andar de Hyoga, eu lembrei. Ele abriu a porta do quarto pra gente quando chegamos e eu me surpreendi. Só que não de uma forma boa.

O quarto dele parecia saído de um daqueles filmes adolescentes tipo American Pie, sabe. As paredes eram forradas de postêrs bregas de baseball, bandeirinhas, e latas de cerveja nas prateleiras. A cama estava desarrumada e haviam sapatos acumulados meio de qualquer jeito debaixo dela.

As garotas desconhecidas se jogaram sobre a cama desfeita de Nick quando entraram e Pierce se jogou sobre elas. Elas deram gritinhos enjoados e bateram nele. Eu fiquei parado na porta até que Nick me puxou pra dentro e eu acabei sentado na ponta da cama, com minha mochila aos meus pés.

Ele se sentou na cadeira da escrivaninha. Eu olhei para Todd, caído ao lado de um fardo de cerveja, com a cabeça apoiada na parede, a boca entreaberta e os olhos fechados. Ele estava dormindo? Mas já?

Outro cara entrou no quarto. Paul? Pete? Alguma coisa assim. Uma das garotas, de cabelo escuro e jeans justo, se espreguiçou na cama no intuito de mostrar seu piercing no umbigo pra Paul/Pete. Ah, por favor!

Os casais se dividiram e começaram e se beijar. A garota de mechas ficou sem par e saiu, mas não sem antes me lançar um olhar de desdém. Oi? Eu tinha perdido alguma coisa?

Todd cambaleou até o banheiro, e eu fiquei sozinho com Nick e dois casais aos beijos dentro do quarto minúsculo. Era tão constrangedor... E então Nick olhou pra mim de um jeito estranho... O que? O que aquele olhar significava?

– Eu preciso mijar — Pierce empurrou a namoradinha daquela noite e andou até o banheiro também. Eu pensei que ele fosse esperar Todd terminar de vomitar todo seu jantar — Dava pra ouvir o barulho. Eu ia morrer — para usar o vaso como qualquer pessoal normal, mas ele fez o impensável. Sem se dar ao trabalho de encostar a porta, ele abriu o zíper da calça — na frente de todo mundo -, e começou a urinar... no chuveiro de Nick.

E ninguém fez nada!

– Você não vai pará-lo? — Eu perguntei ao Nick, indignado.

– Por que? — Ele disse — Todo mundo faz xixi no chuveiro. Ou vai dizer que você espera pra usar o vaso?

Tudo bem. Aquela fora a gota d'água. Eu tentei engolir o enjôo e segurei minha mochila, me levantando pronto pra sair dali imediatamente. Mas Nick me puxou com força e eu caí sentado em seu colo. Minha mochila saiu rolando.

– O quê...? — Eu comecei a falar, confuso, e então senti suas mãos se arrastando pelas minhas coxas. Eu congelei. Não podia acreditar que ele estava... que estava.... Eu olhei para baixo. Ah, meu Deus, ele estava! As mãos dele deslizando despudoradamente pelas minhas pernas.

Elas não eram muito maiores que as minhas, eu notei. Apesar do tamanho, ele tinha mãos de criança.

– Você vai gostar, prometo. — Ele falou engrolado. Então uma das mãos que estavam nas minhas coxas se firmou na minha nuca, e eu vi aqueles lábios se aproximando.

Eu apertei os olhos, e por um instante terrível imaginei a língua dele, como uma lesma gosmenta, resvalando pela minha boca. Urgh!

O enjôo aumentou. Eu abri os olhos e tentei empurrá-lo, mas ele era mais forte.

Ah não. E agora? E agora?

Então me lembrei de um golpe de defesa pessoal que o Ikki tinha me ensinado, e... tudo bem, eu podia fazer dar certo.

Eu levei minha mão até a dele segurando seu polegar e torcendo-o pra trás. Ele gemeu de dor puxando o braço, e eu aproveitei a brecha pra saltar de seu colo, usando minha outra mão para empurrá-lo com toda força que tinha.

Bêbado, ele não conseguiu se equilibrar, e acabou desabando no chão junto com a cadeira.

– Ei! — Ele reclamou enquanto eu apanhava minha mochila e saltava sobre o bolo de pernas braços e cadeira que era ele agora.

– Espera aí! — Ele gritou outra vez. Mas eu não parei pra olhar pra trás.

***

Eu lutava contra a repulsa enquanto descia as escadas até o meu andar. O que eu estava pensando? Eu poderia ter acabado de contrair um cem número de doenças mortais ali. Nick provavelmente nunca limpava o quarto. Lembrei do quarto limpo e organizado do Hyoga e senti falta dele de um jeito inteiramente novo. Hyoga nunca penduraria postêrs de mau gosto nas paredes, ou faria festas no seu quarto usando o chuveiro de privada... E Hyoga nunca tentaria fazer coisas com alguém que elas não tivessem dispostas a fazer com ele.

O pensamento me atingiu como um tapa. De repente me sentia envergonhado e estúpido. Hyoga tivera razão o tempo todo. Todos os meus amigos tinham razão. Nick não era nada legal, afinal de contas. Meu Deus, como eu pude ser tão idiota? Como pude não perceber o que ele queria? Eu poderia ter me dado muito mal lá em cima... muito mal mesmo...

Eu senti as lágrimas chegando, mas não conseguia evitá-las. Estava tão irritado e furioso. Então comecei a procurar pelo meu chaveiro na mochila quando cheguei à minha porta e um novo tipo de pânico se instalou.

As chaves. Eu tinha perdido minhas chaves!

Eu praguejei mentalmente contra a minha própria falta de cuidado e as lágrimas aumentaram. Porque de jeito nenhum eu ia voltar até o quarto do Nick pra procurá-las.

Mas talvez eu as tivesse perdido no saguão, eu pensei.

E então uma cabeça loira apareceu no vão das escadas.

Hyoga?

Ele olhou diretamente pra mim e eu recuei. Ele sabia que eu estava aqui?

Eu abaixei a cabeça pra que meus cabelos escondessem meu rosto molhado. Não queria que ele me visse daquele jeito. Era vergonhoso demais chorar assim na frente de outro garoto. E humilhante demais pensar no que tinha acontecido... Saber que ele estivera certo o tempo todo, e que eu havia sido um idiota.

– E aí? — Ele zombou — Você e o roedor se divertiram muito juntos?

Eu não queria falar sobre o Nick. Não queria nem pensar nele. Queria achar a porcaria da minha chave. E queria que Hyoga fosse embora.

– Sim. Obrigado. — Eu balbuciei.

Ele pareceu hesitar por um momento, e então seus dedos seguravam meu queixo e ele estava levantando meu rosto.

– Você está chorando? — Seus dedos tremeram de leve. De repente, havia um novo timbre na sua voz. — Aquele desgraçado te tocou? Ele te machucou?

Eu pisquei, e enxuguei minhas lágrimas. Ele estava tão sério.

– O que? — Eu falei confuso.

Ele soltou meu queixo e fechou os punhos. Seus maxilares estavam cerrados. Eu nunca o tinha visto tão zangado.

– Eu vou MATAR aquele filho da puta!

– Não! — Eu consegui impedi-lo quando ele já estava a meio caminho para as escadas. Ele olhou para minha mão em seu braço e eu a recolhi depressa.

– Não aconteceu nada. — Eu falei. — Eu só estava chorando porque perdi minhas chaves.

Ele me olhou incrédulo.

– Você tem certeza?

– Tenho. — Eu respondi.

Ele considerou a informação por um tempo e então assentiu com um suspiro.

– Tudo bem.

Eu sabia que ele não estava totalmente convencido e agradeci que não tivesse insistido mais.

Nós ficamos ali por um momento, sem saber muito bem o que fazer, até que eu falei:

– Bom, eu vou descer, então. Talvez tenha largado elas lá embaixo.

– Nesse caso, eu vou com você. — Ele falou e me seguiu pelas escadas. Seus sapatos ecoando na escadaria vazia.

O saguão estava escuro e deserto, e o vento de junho batia no vidro da porta de entrada. Hyoga acendeu o abajur — um grande, de vidro, com motivos florais -, e eu comecei a levantar as almofadas do sofá.

– Não devem estar aí. — Ele falou — Você ficou o tempo todo na mesa, com o computador.

Eu forcei a lembrança e ele estava certo, claro.

– Vem, me ajude a arrastar isso daqui — Ele apontou para uma poltrona de couro. – Talvez tenham sido chutadas aqui pra baixo.

Nós puxamos a poltrona para o lado. Nada da chave.

Continuamos procurando debaixo do tapete, atrás do sofá, nas prateleiras de livros da estante, e até dentro da caixinha do piano. Nem sinal dela.

– Será que você não deixou lá em cima? — Ele sugeriu. E pelo tom desconfortável na sua voz, eu sabia que com "lá em cima" ele queria dizer no quarto do Nick.

– Não sei. — Eu falei. — Estou tão cansado.

– Você quer ir lá ver? — Ele hesitou. — Ou... talvez eu deva ir lá checar pra você?

Eu balancei a cabeça negativamente, e mais uma vez fiquei aliviado quando ele não insistiu.

– Acho melhor não acordá-lo — Eu falei. — Eu poderia pedir outra na secretaria, se ela já não estivesse fechada.

Ele mordeu o lábio. Parecia nervoso.

– Você pode dormir no meu quarto se quiser. — Ele falou, e então rapidamente acrescentou. — Eu durmo no chão. Você pode ficar com a cama. Nós não temos que, hum... dormir juntos... Se você não quiser.

Espera, ele tinha acabado de me convidar pra dormir com ele? Não, não com ele, no quarto dele. Mas mesmo assim...

– Eu... Eu não sei.

Era impressão minha, ou ele pareceu um pouco decepcionado?

– Você pode dormir lá hoje, e pedir outra chave amanhã na secretaria. — Ele disse.

Sim, eu podia fazer isso. Realmente, não era grande coisa, era? Quer dizer, nós éramos amigos. Amigos dividiam o quarto às vezes.

– É. Certo. Obrigado. — Eu falei.

Ele assentiu, e então pigarreou.

– Bom... Então vamos?

– Claro — Eu disse.

Hyoga desligou o abajur e o saguão ficou escuro outra vez. A única luz era a que atravessava as janelas. Eu tropecei à frente, tocando as paredes para me orientar, e Hyoga trombou em mim.

– Desculpe. — Ele disse, mas não se afastou. Ao invés disso, permaneceu bem perto atrás de mim, sua respiração quente arrepiando a pele do meu pescoço, enquanto tropeçávamos pelo saguão.

Minhas mãos finalmente alcançaram a porta da escadaria. Eu a abri e nós dois protegemos os olhos diante da claridade. Hyoga a fechou novamente atrás de nós, mas não subimos. Ele ainda estava pressionado contra mim. Eu me virei, e, de repente, seus lábios estavam a um suspiro dos meus. Meu coração bateu tão forte que eu tive medo de que ele pudesse escutá-lo. Eu prendi o ar. Ele olhava fixamente pra mim agora. Sentia sua respiração batendo quente contra a minha boca. Mordi o lábio, e então Hyoga se afastou gaguejando.

– Então... eh... você e a aquela sua amiga, Misuki, né?... Você tem falado com ela?

Eu pisquei confuso ante a pergunta inesperada.

– Sim. Quer dizer, não com tanta frequência quanto antes. Mas, sim. — Eu respondi, e então me lembrei da história que eu havia inventado e me dei conta... Ah não, eu tinha feito de novo, não tinha? Por que eu não conseguia calar a boca?

– Certo. — Ele fez uma pausa.

Então deu um passo à frente outra vez.

– E você não vai mesmo me contar o que aconteceu hoje lá em cima de verdade, vai?

Eu olhei para suas mãos apoiadas na porta. Elas não pareciam mãos de criança.

– Não.

Outro passo.

– Por que?

Eu baixei o rosto.

– Porque é vergonhoso... e humilhante.

Ele franziu as sobrancelhas, frustrado.

– Shun, eu sou seu amigo. Se você não pode falar sobre o que te incomoda com um amigo, você vai falar com quem?

E, simplesmente assim, eu tive que me segurar pra não chorar outra vez. Porque ele tinha razão. Hyoga era meu amigo. Um dos poucos que eu fizera ali. E eu estava estragando tudo confundindo as coisas daquele jeito. Não queria me sentir esquisito perto dele. Não queria ter pensamentos estranhos. Queria que tivéssemos uma relação legal. Normal. E, então, antes que eu percebesse, as palavras já estavam saindo da minha boca. Eu falei sobre como havia sido estúpido por não confiar na opinião dele e dos outros. Como me sentia idiota por achar que o Nick era um cara legal. Por pensar que eu poderia ser amigo dele e da sua turminha.

Nós acabamos sentados no primeiro degrau da escada. Eu contei sobre a festa, a garota de piercing estirada na cama, Todd vomitando no banheiro, a falta de limpeza do quarto, o risco que corri de pegar uma doença fatal, e quando cheguei na parte do Pierce urinando no chuveiro, Hyoga fez uma careta e falou:

– Mortificante.

Eu finalmente abri um sorriso e ele sorriu também.

– Agora sim. — Ele disse, tirando um fio de cabelo da minha bochecha e o colocando atrás da orelha.- Assim está bem melhor.

Nós ficamos olhando um para o outro, e seu sorriso foi morrendo ao poucos. Ele passou um braço pelas minhas costas e eu descansei a cabeça no seu ombro enquanto as luzes da escada se apagavam — elas estavam no temporizador.

Era tão bom ficar assim com ele. Por algum motivo o barulho da respiração e as batidas do coração de Hyoga me acalmavam.

Eu acabei não falando sobre o que acontecera depois da cena do chuveiro. Não tive coragem. Ainda me sentia humilhado demais. Mas só de ter Hyoga ali, junto de mim, preocupado comigo, me fazia sentir feliz e confortado.

– Obrigado. — Eu disse e senti ele se contrair de leve. Na escuridão, eu trouxe uma das suas mãos para o meu colo e a apertei. Ele a apertou de volta.

Eu adorava suas mãos.

Elas eram do tamanho certo.

***

Hyoga estava sentado no chão do seu quarto. Ele tirou os sapatos, jogando-os longe, e eles bateram com um estrondo na porta do quarto. Era o primeiro som que um de nós fazia desde que entráramos no quarto.

– Desculpe. — Ele parecia envergonhado.

– Tudo bem. — Eu disse.

– Você não quer tirar os seus também? — Ele perguntou, apontando pra os meus tênis.

Eu assenti, e antes que pudesse dizer qualquer outra coisa ele já estava tagarelando.

– Freya queria que eu fosse pra San Francisco com ela nas férias, sabe. — Ele disse. Os pais de Freya moravam San Francisco — Eu estava quase comprando as passagens, mas acho que isso só pioraria as coisas agora.

Fiquei surpreso com o desabafo. Ele nunca falava sobre Freya comigo, então por que agora? Senti uma vontade quase irresistível de perguntar por que as coisas haviam piorado entre eles, mas em vez disso apenas coloquei meus tênis ao lado da porta pra evitar o olhar dele e disse: — É, acho que sim.

– Hum. — Ele me observou ajeitar meus sapatos e esvaziar os bolsos em cima da mesa, e por um momento eu me perguntei se ele queria que eu tivesse perguntado.

– E você? — Ele perguntou depois de um tempo.

– Eu?

Ele examinou seu relógio.

– Misuki. Você vai estar com ela na semana que vem, não vai? — Ele disse.

E então eu entendi.

Nossos limites... Ele estava restabelecendo nossos limites. Era isso que ele estava fazendo. Era o que tinha feito antes, na escadaria, também.

Bem, eu é que não iria ultrapassá-los. Não mesmo.

Mas, uma vez que ele havia mencionado Freya, eu meio que não consegui evitar dizer:

– É verdade. Mal posso esperar pra vê-la. Ela é divertida, você ia gostar dela. Eu vou assistir a banda dela tocar no final do verão, sabe. Ele é uma garota ótima... Você ia gostar dela. Opa, eu já disse isso, não disse? Mas você ia. Ela é muito... muito legal mesmo.

Droga, droga, droga. Por que eu nunca calava a boca?

Ele desabotoava e abotoava a pulseira do relógio em silêncio.

– Nossa, estou acabado. — Eu acabei falando em uma tentativa de desanuviar a tensão. Mas era verdade. Todos os acontecimentos daquela noite tinham me deixado exaurido. Então me sentei na cama meio sem jeito e fiquei imaginando o que ele iria fazer. Será que pegaria um cobertor e se deitaria no chão?... Ou arrumaria uma cama pra mim no tapete? Mas o que ele fez foi colocar o relógio na escrivaninha e se jogar na cama junto comigo.

– Vem. — Ele bateu no espaço vazio junto a ele, e eu acabei deitado ao seu lado. A cama dele era tão estreita quanto a minha e tinha o cheiro dele. Era tão estranho.

Então ele levantou outra vez e eu fiquei imaginando se tinha se decidido pelo chão afinal de contas — não sabia se me sentia frustrado ou aliviado com esse pensamento. Mas ele só ajeitou seu lugar na cama, apagou a luz, e deitou novamente.

O quarto estava completamente escuro agora.

– Está frio aqui. — Eu falei puxando as cobertas.

– É a minha janela. — Ele explicou. — Ela não fecha por inteiro. Eu enfiei uma toalha no vão dela, mas acho que não adiantou muito.

Ele estava por cima das cobertas e eu por baixo. Ainda estávamos completamente vestidos, exceto pelos sapatos, e a situação estava pra lá de embaraçosa.

Eu senti ele se remexer procurando uma posição. E então gemeu. — Ai.

– O que foi?

– Meu cinto. Seria estranho se eu...

Eu agradeci mentalmente por ele não conseguir me ver corar.

– Não, claro que não. — Eu falei, e ouvi ele desafivelar o cinto... depois o barulho do couro deslizando pelo tecido e batendo finalmente contra o chão de taco.

– Humm... — Ele falou outra vez — Seria estranho se...

– Seria. — Eu falei depressa.

Eu ouvi sua risada no escuro.

– Ah, se liga. Eu não estava falando da calça. Só queria saber se podia entrar debaixo das cobertas com você. Está meio frio aqui mesmo.

Eu me senti corar mais ainda.

– Tudo bem... — Eu gaguejei — Quer dizer, claro.

Ele entrou debaixo das cobertas, e então estávamos deitados lado a lado. Na cama estreita dele.

Era engraçado, mas eu nunca tinha imaginado que minha primeira noite dormindo com alguém fosse se assim. Dormindo, literalmente, com alguém.

– Agora só falta um DVD de O Clube dos Cinco e um jogo de Verdade ou Desafio. — Eu disse.

– Heim? — Ele fez sem entender.

– Nada. Só estava pensando que faz tempo que não durmo com ninguém.

Ele tossiu. — Como?

– Festa do pijama, seu pervertido. — Eu ri. — Eu quis dizer que faz tempo que não tenho uma festa do pijama.

Ele fez uma pausa.

– Ah.

Nós ficamos em silêncio outra vez. Eu podia ouvir o barulho da sua respiração no escuro. O suave ondular no colchão a cada inspirar e expirar.

– Shun? — Ele chamou de repente.

– Hum? — Eu fiz.

– Você por acaso já deu uma olhada naquele livro que eu te dei?

A pergunta foi tão repentina que eu demorei alguns segundos pra responder.

– Hum, não. — Eu falei. — Quer dizer, acho que nós não vamos precisar dele antes do segundo ano.

– Ah. — Ele suspirou — Bem, eu estava só imaginando. Já que você não disse nada... — Ele falou, e então se calou desanimado. E eu fiquei com a estranha sensação de que havia perdido alguma coisa. Não, eu sabia que tinha perdido alguma coisa.

Nós ficamos quietos outra vez.

– Estou tão feliz de estar indo logo pra casa. — Eu acabei falando pra suprimir aquele estranho silêncio.

– É. — Ele disse — Era o que você queria, não é?

– Sim. — Eu respondi. Mas, estranhamente, naquele momento, não tinha mais certeza.

Eu o senti se virar na cama.

– Shun?... — Ele chamou novamente.

– Hum?

Outra pausa.

– Não... Não é nada. — Ele disse.

Eu mordi o lábio.

– O quê foi?

– Não... Deixa pra lá.

Eu queria insistir, mas não tive coragem.

– Hum... bom, boa noite, então. — Acabei falando.

– É... Boa noite. — Ele respondeu.

Depois de um tempo, senti ele se remexer outra vez.

– Hyoga?

– Oi?

– Seu cotovelo está matando minha costela.

– Caramba. Desculpe. — Ele se ajeitou novamente. E de novo. E mais uma vez. Até que ficamos confortáveis. Uma perna dele descansando contra a minha. Eu prendi o ar. Apesar das duas camadas de tecido sobre nós, sentia-me nú, e vulnerável.

Ele se moveu outra vez, e agora toda minha perna, da panturrilha à coxa, estava pressionada contra a dele. Eu sentia o cheiro do seu xampu. Era um cheiro bom e cítrico. Um cheiro que fazia a gente ter vontade de enterrar o nariz nos cabelos dele e aspirar profundamente.

Não!

Eu engoli em seco, e o barulho pareceu ribombar no silêncio. Ele tossiu novamente. Eu tentava ao máximo não me mexer. Após o que pareceram horas, mas talvez tenham sido apenas alguns minutos, sua respiração pareceu se acalmar e seu corpo relaxou.

Finalmente eu comecei a relaxar também. O vento bateu na janela e as luzes tremeluziram no corredor. Ele parecia dormir profundamente.

Estudei o seu perfil na escuridão. Os lábios... o nariz... os cílios. Ele era tão bonito... De repente, sentia necessidade de memorizar seu cheiro. A textura da sua pele, a sensação do toque de um dos seus braços, agora contra o meu, a solidez do seu corpo.

Senti uma pontada desconfortável no coração.

Por que eu me sentia desse jeito perto ele? Por que ele me afetava dessa maneira? Será que isso significava que eu sentia atração por garotos no final das contas? Será que era assim que os personagens daqueles mangás yaoi que a Misuki gostava e eu sempre achei um amontoado de bobagens se sentiam?

E o que era isso que eu sentia por ele, afinal? Amizade? Atração? Paixão? Ou outra coisa tudo junto? E seria possível que eu me sentisse assim por ele sem que os sentimentos fossem recíprocos?

Eu não sabia.

Todas as vezes em que estava com ele não sabia de coisa alguma. Eram tantas perguntas. Meu Deus, como uma pessoa podia me deixar tão confuso o tempo todo?

Ele se aproximou de mim durante o sono e um dos seus braço envolveu minha cintura. Seu nariz se embrenhou nos meus cabelos e a respiração dele batia morna contra o meu pescoço. Minha pele arrepiou e eu fechei os olhos me permitindo relaxar em seus braços. Não. Eu não sabia de nada. Mas tinha certeza de que não importasse o que acontecesse depois, eu me lembraria disso para o resto da vida. O calor dele... Seu cheiro... Às vezes ficava imaginando se ele... se eu...

Um raio de luz bateu contra os meus olhos e eu os apertei, desorientado. Já tinha amanhecido? Os números vermelhos no despertador ao lado da cama marcavam 11:27. Huh? Eu tinha pegado no sono? Que dia era hoje? Então vi o corpo deitado ao meu lado e me lembrei de tudo.

Aquele não era o meu quarto. Eu estava no andar de cima. No quarto do Hyoga.

Então não tinha sido um sonho?

Eu olhei para ele outra vez. Sua boca estava meio aberta, e as cobertas caídas no chão. Uma de suas mãos descansava sobre a barriga. A camiseta preta estava erguida e eu podia ver parte do seu abdômen. Eu prendi o fôlego.

Ah, meu Deus, não tinha sido um sonho.

Eu acabara de dormir com o Hyoga!

Notas finais
Olá a todos, demorei um pouquinho dessa vez mas cheguei XD E aí, o que acharam do ch? Esse, particularmente, é um ch que eu amei escrever. Acho que se alguém deu uma olhada por cima e leu só o título do ch e a última frase deve estar querendo me matar agora mas enfim... Adoro o fato do Oga e do Shun dormindo juntinhos, e tipo, só dormindo mesmo. Acho lindo demais isso. Era uma coisa que eu queria pra mim ˆˆ. Dormir e acordar junto envolve muito mais intimidade do que sexo, eu acho, embora sexo seja bom tb XDD E Nick botando as asinhas de fora, safado, ah se o Oga pega ele u.u. E Shun é uma tartaruga de lerdeza pra não ter se tocado das intenções do cara quando ele o chamou pra quarto, né?! u.u E antes que vcs caiam matando no Oga por causa da falta de atitude dele (ok, sei que vcs vão querer matá-lo de qualquer jeito mas vou tentar defendê-lo mesmo assim XD), gente uma pessoa normal (lembrando que o Milo e o Kanon não se encaixam nessa definição XD), e ainda por cima racional como o Oga, não iria se arriscar perder uma amizade importante quanto todas as probabilidades parecem apontar contra ele. Lembrando que o Shun falou aos quatro ventos na cantina que não era gay, insiste que gosta de outra pessoa, e ainda diz que está louco pra ir embora pro Japão... fala sério, né u.u. Shun que tem que apanhar u.u Maaass... já falei demais, quero ouvir as opiniões de vcs agora ˆˆ. Então, muito obrigada a todos que acompanham e um obrigada super masi do que especial àqueles que ma fazem felizes com comentários e favoritações: HuadanNox, Kass, Brunaryu, Marika Youko, Ambrose Nym, Sarah, Suicide and Salvation, e Tutfrut. Bjos e espero que continuem acompanhando ˆˆ