O Garoto Do Andar de Cima

9 Capítulo 9: Chegadas e Partidas


Shun POV

Um punho estava batendo contra a minha porta. Meus olhos se abriram alarmados e meu primeiro pensamento foi: sen(a+b) = sen(a) cos(b) + sen(b) cos(a). Por que estava sonhando com funções de trigonometria? Estava exausto. Tão cansado. Com tanto sono... Eu senti meus olhos querendo se fechar outra vez.

Outra rodada de batidas na porta me acordou rapidamente e apertei os olhos tentando ver que horas eram.

Eu bufei. Quem estava batendo na minha porta às quatro e quinze da manhã de um Domingo?

Espera. Domingo? Quatro horas? Não tinha alguma coisa que eu deveria fazer as quatro horas...?

Ah, não. Não. Não. Não. Eu tinha combinado de encontrar a Shunrei as quatro horas pra pegarmos o táxi para o aeroporto. Eu não tinha acordado!

– Shun... Shun, você está aí? Eu estou te esperando no saguão há quinze minutos. — Eu ouvi a voz dela do outro lado da porta. — E estou vendo que a sua luz está apagada. Legal. Poderia ter avisado que tinha decidido ir sem mim.

Saltei da cama o mais depressa possível. Não dava pra acreditar que eu não tinha acordado. Como isso podia ter acontecido?

Ouvi os passos de Shunrei se afastando da porta, os saltos dos seus sapatos batendo no assoalho, e sua pesada mala sendo arrastada atrás dela.

Eu abri a porta de supetão. Mesmo estando fracas, as luzes das luminárias no corredor me fizeram piscar e cobrir os olhos.

Ela se virou surpresa.

– Shunny?

– Me ajuda. — Eu arfei — Por favor, me ajuda.

Ela largou a mala e correu até mim.

– Você está bem? O que aconteceu?

Eu a puxei pra dentro e acendi as luzes.

O quarto estava iluminado em sua total bagunça agora. As malas com os zípers abertos, e roupas dobradas em pilhas. Produtos de higiene espalhados ao redor da pia. Lençóis embolados na cama... E eu. Tarde demais lembrei que não só meu cabelo estava uma desordem como eu também estava usando um pijama velho do Caco, o sapo. Ah não, por que eu vivia fazendo essas coisas?

Ela olhou para o quarto, depois pra mim e riu.

– Não acredito. Você dormiu e perdeu a hora? Eu acordei você?

Eu não perdi tempo em responder. Ao invés disso, apenas soltei um muxoxo e me joguei no chão com um gemido de desespero, me pondo a socar freneticamente as roupas dentro da mala.

– Você ainda não fez as malas? — Ela perguntou.

– Eu ia terminar agora de manhã. Você acha que consegue me ajudar? — Eu implorei, e tentei fechar um zíper mas ele acabou prendendo em uma camiseta no percurso e eu quase gritei de frustração.

Nós íamos perder o vôo. Nós íamos perder o vôo por minha causa. E quem sabe a que horas sairia o próximo? Eu queria tanto ser independente. Queria tanto fazer aquilo sozinho... E aí estava. Eu devia ter ido com o Ikki, afinal.

– Tudo bem, fica calmo. — Ela abriu o zíper, guardou a camiseta e começou a tentar fechá-lo outra vez. O zíper soltou um som estranho, algo entre um gemido e um grunhido e finalmente se fechou. Shunrei colocou as mãos no meu obro pra me acalmar. — Lave o rosto, vista-se, penteie esse cabelo, e deixe que eu cuido do resto, ok?

Eu assenti. Certo, uma coisa de cada vez.

Eu podia fazer isso. Eu podia fazer isso.

Arrrgh!

Ela terminou de colocar minhas roupas na mala, enquanto eu fazia minha higiene pessoal e dava um jeito naquele cabelo. Depois foi a vez das roupas, enquanto Shunrei recolhia os produtos de banheiro.

Eu peguei minha roupa de viagem, graças a Deus, já separada na noite anterior, e então parei no meio do quarto.

– Hum. — eu olhei meio sem jeito pra ela no banheiro.

Ela olhou pra trás e me viu segurando a calça no ar.

– Ah, desculpa, eu já vou sair. — Ela corou.

– Não. Tudo bem. Nós não temos tempo pra isso. Só se vire e continue.

Ela se virou rapidamente e seus ombros se curvaram sobre a pia para demonstrar o quão sério não estava olhando.

– Então, o que aconteceu? — Ela perguntou se referindo ao meu atraso.

– Eu não sei. — Eu respondi, arrancando meu pijama em uma investida rápida. Agora estava oficialmente pelado na frente de uma garota pela primeira vez. Engraçado, mas não foi bem assim que eu tinha imaginado esse momento.

Não. Não era engraçado. Cem por cento o contrário de engraçado. Eu havia dormido com Hyoga na semana passada, e agora estava despido na frente da Shunrei... A minha moral estava escoando pelo ralo em uma velocidade alucinante.

E então a lembrança voltou:

Eu havia dormido com o Hyoga!

Eu não conseguia mais parar de pensar nisso, desde então. Era como uma doença. Uma febre. Eu havia dormido com outro garoto!

Quer dizer, eu não tinha propriamente dormido com ele, obviamente. Mas dormi com ele mesmo assim. Eu dormira na mesma cama que outro cara!

E talvez eu não devesse estar pensando tanto sobre isso, mas é que foi tudo tão... Não sei... Esquisito. A perna dele contra minha, seu braço envolvendo a minha cintura, o calor do seu corpo, a respiração morna no meu pescoço... "Pare, Shun. Pare imediatamente!"

Eu ficara na cama o máximo que conseguira naquela manhã, mas finalmente minha bexiga tinha falado mais alto. Quando voltei do banheiro, Hyoga já estava de pé, olhando pela janela.

Ele virou pra mim quando eu entrei e riu.

– Seu cabelo está todo espetado. — Ele disse, e ilustrou suas palavras apontando com o dedo sobre a cabeça como se fossem chifres.

– Olha quem fala. — Eu respondi. Era mentira, o cabelo dele estava perfeito como sempre. Naquele estilo desleixado meio vocalista de banda de Rock que eu amava.

– Ah, mas no meu caso eu faço de propósito. — Ele falou — Levei muito tempo pra perceber que pra conseguir este visual desleixado eu tinha que ignorá-lo completamente, sabe.

– Então você está dizendo que em mim, fica horrível? — Eu lancei um olhar para o espelho e fiquei alarmado ao constatar que ele tinha razão. Eu estava perecendo um monstro verde com chifres.

– Não. Gosto dele assim. — Ele sorriu e se sentou pra calçar os sapatos. — Café da manhã?

Eu prendi o cabelo bagunçado com um elástico e calcei meus tênis também.

– Já passou da hora do café, eu acho. — Eu disse.

Ele levantou outra vez e caminhou até o banheiro. Eu apanhei seu cinto do chão e o entreguei a ele quando ele voltou.

– Obrigado. — Ele disse. — Almoço, então?

Eu assenti.

– Só quero tomar um banho antes.

Nós passamos na secretaria pra pedir novas chaves pra mim e então nos separamos pra tomar banho. Nos reencontramos no quarto dele cerca uma hora depois. A porta estava aberta e estava tocando Help! bem alto no corredor. Tão a cara dele.

Nós passamos o dia juntos outra vez. Assistimos à parte de um festival de verão e depois demos outra volta pelas margens do Charles River. O clima entre nós era ameno e amigável, e, como em um acordo mudo, nenhum de nós voltou a tocar no assunto "dormir juntos".

Ou talvez aquilo só não tivesse sido nada demais pra ele. É. Com certeza aquilo não fora nada demais pra ele. Por isso ele não via necessidade de tocar no assunto. O problema era comigo. Eu precisava parar de pensar tanto sobre aquilo. E sobre o que acontecera com o Nick também... E sobre o que aconteceria se fosse o Hyoga no lugar do Nick naquela situação... Argh! Droga.

– Você lembrou de ligar o despertador? — A voz de Shunrei, me trouxe a realidade outra vez.

– Ah... Acho que sim. — Eu falei. Estava terminando de abotoar meu jeans. — Quer dizer, eu me lembro vagamente de ter apertado o botão... Só se era o botão de desligar. Mas o alarme do meu celular estava armado também, então não sei o que aconteceu.

– Você se lembrou de tirar ele do silencioso antes de dormir?

– O quê? — Eu estava vestindo a camiseta agora, e minha voz saiu abafada pelo tecido.

– Você foi ver um filme com o Hyoga, ontem, certo? Você não colocou seu celular no silencioso no cinema?

Ah, meu Deus, ela estava certa. Como eu era estúpido. Se eu não tivesse ido ido ao cinema com Hyoga ontem, nunca teria desligado o celular e provavelmente já estaríamos em um táxi em direção ao aeroporto a essa hora.

– Ah droga, o táxi! — Eu enfiei depressa o moleton pela cabeça e então me vi parado de frente ao espelho atrás da pia.

Um espelho que, claro, estava em frente a Shunrei uma vez que ele estava apoiada na pia... Ah, não.

– Tudo bem. — ela disse. — Eu pedi pro motorista esperar porque viria até aqui te chamar. Só vamos ter que dar uma gorjeta extra pra ele. — Sua cabeça ainda estava abaixada, então acho que não tinha visto nada. Ufa!

Eu tossi pra chamar sua atenção, e ela olhou pra cima. Nossos olhares se cruzaram pelo espelho e ela pulou de susto.

– Deus! Eu não... juro que não... — Suas bochechas estavam flamejantes e eu comecei a rir.

– Tudo bem. Eu sei. Não tem problema. — Eu disse passando por ela e jogando meu xampu, escova, desodorante, perfume, e pasta de dente na mochila. Então corremos escada abaixo e logo estávamos no saguão.

Graças a Deus o taxista tinha esperado. Um cigarro pendia de sua boca e sua expressão não era nada boa. Ele esbravejou raivosamente em espanhol quando chegamos e Shunrei respondeu de volta na mesma língua — Espanhol avançado, eu me lembrei.

E então estávamos voando pelas ruas de Boston, passando por sinais vermelhos, e em disparada pelos carros. Eu me agarrei meio aterrorizado no assento e fechei os olhos.

O táxi parou violentamente e nós também.

– Chegamos. — Shunrei disse — Você está bem?

– Sim. Ótimo. — Eu menti, enquanto pagava o taxista que saiu correndo sem nem contar o dinheiro.

Shunrei reclamou e tentou me pagar a parte dela, mas eu neguei. Ela quis discutir, mas não dei atenção. Estava histérico demais pra isso. Histérico demais pra qualquer coisa até termos corrido ao terminal certo, despachado nossas bagagens, passado pelo embarque e encontrado nossos portões.

Então, finalmente relaxei em uma das cadeiras acolchoadas da sala de embarque.

Shunrei se sentou ao meu lado, e colocou a bolsa na cadeira vazia ao seu lado. Na nossa frente tinha um cara absorto em seu computador, e resolvi fazer o mesmo.

– Então... — Shunrei cutucou meu ombro com o dedo. — O 'Senhor Organização' perdeu a hora, heim?! — Ela provocou.

– Ah, não enche o saco. — Eu falei emburrado. Odiava desorganização. Odiava fazer as coisas nas pressas. E odiava perder hora.

– Ei! Eu estou brincando — Ela disse rindo -. Nós conseguimos, não conseguimos? Sem problemas.

Eu assenti. Mas ainda estava chateado demais comigo mesmo. Como podia ter perdido a hora desse jeito? Guardei o laptop e puxei um mangá, não estava muito afim de conversa.

Ela entendeu a dica e bufou, batendo os pés impaciente no feio tapete azul do aeroporto.

Senti-me ainda mais culpado por ser tão chato. Se não fosse por ela, eu teria perdido o vôo. Eu respirei fundo e guardei o mangá, decidido a ser legal. Ia puxar assunto, quando uma mulher entediada começou a chamar as fileiras para o embarque. Primeiro em inglês, depois em japonês.

– Onde estão nossas poltronas? — Eu perguntei.

Ela olhou o bilhete de embarque.

– Quarenta e cinco G. Ainda está com o seu passaporte?

Eu enfiei a mão no bolso do meu moleton.

– Está aqui. — Eu disse mostrando o documento.

Ela o pegou, abriu, olhou pra foto grudada nele, e então levantou uma sobrancelha.

– Por que você está vesgo? — Ela riu. — Você fez alguma cirurgia e não contou pra gente?

– Baka... Devolve. — Eu tentei pegá-lo de volta mas ela puxou o braço. Outra tentativa. Novo fracasso. Era hora de mudar de tática. Eu investi em direção ao seu casaco e roubei o passaporte dela.

– Não! — Ela protestou.

Eu o abri e era... era a Shunrei bebê. Que fofa! — Uau, quantos anos você tinha nessa foto?

Ela arremessou meu passaporte e pegou o dela de volta.

– Eu estava no primário. — Ela disse, e, antes que eu pudesse falar qualquer outra coisa, nossa sessão estava sendo anunciada.

Seguramos nossos passaportes contra o peito e fomos pra fila. A atendente entediada passou o cartão de embarque de Shunrei por uma máquina que picotava e ela seguiu em frente. Eu entreguei o meu, mas a mulher falou:

– Estas são as fileiras de embarque de 40 a 50. Por favor, aguarde até chamarmos sua fila. — Ela me devolveu o bilhete e suas unhas esmaltadas bateram contra o papel.

– O quê? Mas eu estou na 45... — Eu olhei outra vez o bilhete... Só que eu não estava na quarenta e cinco. Ali, em negrito, estava o número da minha fila. Vinte e três. Meu Deus, eu tinha me esquecido de que a Shunrei e eu não íamos nos sentar juntos. Porque, claro, nós não tínhamos feito nossas reservas juntos. Fora coincidência estarmos no mesmo vôo.

Shunrei ainda esperava por mim ao longo do corredor. Eu encolhi os ombros e ergui meu cartão de embarque.

– Fila 23. — Disse, e ela pareceu surpresa. Eu ri. Ela também tinha esquecido.

E então alguém resmungou alguma coisa atrás de mim. Um empresário com cabelo preto perfeito. Ele estava tentando entregar seu cartão de embarque a atendente e não parecia muito feliz. Eu murmurei um pedido de desculpas e saí do caminho. Shunrei sorriu, acenou um adeus, e desapareceu.

Eu voltei para as cadeiras. Que droga! Aquela política de reserva de lugares era uma porcaria. Por que nós não podíamos nos sentar juntos? Qual o sentido de se estar no mesmo vôo que uma amiga se nós tínhamos que nos sentar com desconhecidos?

A mulher entediada finalmente chamou minha fila, e eu andei pelo longo corredor até a aeronave.

O meio e o corredor já estavam quase totalmente ocupados com mais empresários, estudantes e famílias, quando eu entrei. Meu lugar era na janela. Eu ajeitei minha mochila no compartimento de bagagens e me sentei, tentando relaxar. Ia ser um vôo longo até Tóquio.

Estava observando os aviões taxiando na pista, quando uma voz feminina conhecida falou com o homem ao meu lado.

– Desculpe, mas eu estava imaginando se você se importaria de trocar de lugar comigo. — Ela disse — Esse é meu namorado, sabe, e, você vê, ele é meio frágil... — Shunrei fez uma cara de coitada — Não se dá muito bem com altura. E, uma vez que sempre passa mal em aviões, eu pensei ele poderia precisar de alguém pra segurar seu cabelo quando... Bem... — E ela ergueu um daqueles saquinhos que gentilmente são dados àqueles que passam mal durante vôos.

O homem pulou do lugar e eu corei. O namorado frágil e medroso dela? Shunrei ainda ia me pagar por essa. Ah, se ia.

– Obrigada. Eu estava na 45G. — Ela apontou pára trás enquanto sentava na cadeira vaga, e esperou o homem desaparecer antes de falar novamente.

– Eles me colocaram do lado de um casal com camisetas havaianas idênticas. — Ela se justificou com uma careta e eu ri. O cara ao lado nos olhou horrorizado, mas ela não deu a mínima.

– Obrigado. Isso é reconfortante. — Eu falei e ela riu também, satisfeita... Até o momento da decolagem. Quando grudou nos braços da poltrona e ficou da cor de uma torta de limão. Bem, aparentemente aí estava quem realmente tinha medo de altura. Eu balancei a cabeça em negação. Mas a distraí com uma história de quando quebrei meu braço brincando de Peter Pan, e ela finalmente relaxou quando chegamos acima das nuvens.

O tempo passou depressa para um vôo de 13 horas.

Nós conversamos amenidades, aproveitamos o serviço de bordo, navegamos no SkyMail e brincamos de se-você-tivesse-que-comprar-uma-coisa-de-cada-página, com a revista de compras disponível à bordo.

Ela riu quando escolhi uma torradeira de cachorro-quente, e tirei sarro dela quando ela escolheu um espelho de chuveiro que não embaçava, e a maior cruzadinha do mundo.

– Pelo menos eles são úteis. — Ela falou, se referindo ao espelho.

– Ah, é? E o que você vai fazer com uma cruzadinha gigante? — Eu desafiei, e então imitei a voz dela em falsete — "Oh, me desculpe Shunny, eu não vou poder sair hoje. Estou ocupada com a 2.000 na horizontal, apito norueguês pra chamar pássaros".

Ela riu ainda mais.

– E o que você vai fazer com uma bandeja de piscina motorizada para salgadinhos e bebidas, quando você disse que nem tem uma piscina? — Ela provocou.

– Usá-la na banheira, é claro. — Eu respondi e ela gargalhou, limpando uma lágrima que escorria pela sua bochecha.

– Ohhh, olha só! Um anão de jardim. — Ela apontou entre risos — Era tudo o que você precisava, Shunny. E custa só 40 dólares. Uma pechincha!

Nós rimos outra vez, e então ficamos sem palavras na página de acessórios pra golfe e decidimos mudar. Começamos a fazer desenhos engraçados das pessoas que estavam no avião. Seguidos de desenhos engraçados da atendente na plataforma de embarque, e desenhos rudes de Tiffany. Os olhos dela cintilaram quando eu desenhei Tiffany caindo do topo de uma formação de líderes de torcida.

Havia muito sangue... E pompons.

Algum tempo depois ela acabou adormecendo. Eu olhei pela janela outra vez, e o sol estava caindo. O céu estava rosa, vermelho e laranja, o que me fez pensar em sorvete. Nós não conversáramos sobre o que nos esperava do outro lado do oceano. Nem sobre o que estávamos deixando pra trás.

Eu lembrei do meu último dia em Boston.

Eu percorrera as lojas de souvenirs com Hyoga, pra comprar "lembrancinhas" pra minha família, depois fomos ao cinema assistir A Hard Day's Night, um filme dos Beatles que eu achei que ele fosse gostar.

O cinema estava vazio e Hyoga esticou as pernas, relaxando o corpo no encosto da sua poltrona.

E mais uma vez eu me peguei observando o perfil dele no escuro. O nariz, o queixo, a curva dos lábios. Deus, ele era bonito! De repente, eu era levado novamente àquela noite no quarto dele. Aqueles mesmos cílios, o mesmo nariz, a mesma silhueta, contra escuridão do seu quarto... "Não! Pare, Shun!"

"Pare, Pare, Pare."

– Certo, eu tenho uma pra você. — Ele soltou de repente me assustando. — Quem tudo quer...

Eu pisquei, e então respondi com um sorriso.

– ...Nada pode. — Aquele era um dos nossos jogos favoritos. Onde um de nós começava uma frase clichê, e o outro tinha que terminar.

– Isso. — Seus olhos cintilaram. — Com amigos como esses...

Sua voz se uniu à minha. — Quem precisa de inimigos?

O som ressoou nas paredes acortinadas e Hyoga sorriu de orelha a orelha por causa disso. A visão fez meu coração pular uma batida, e eu não consegui não sorrir também.

Ele olhou pra mim e tocou meu rosto.

– Eu adoro seu sorriso. — Ele disse.

"Eu adoro seu sorriso também." Eu pensei.

Mas não tinha coragem de dizer isso em voz alta.

Quando o filme acabou, nós caminhamos de volta até o dormitório com Hyoga explicando como através da sequência Fibonacci alguns matemáticos alegam ser possível provar a existência de Deus, e, antes que nos déssemos conta, estávamos parados na porta do meu quarto.

– Bem, Shu-Shu. Acho que essa é a hora em que temos que nos despedir. — Ele falou.

Eu assenti.

Aquele era o momento em que deveríamos nos abraçar, mas por algum motivo não conseguia fazer isso.

Estava nevoso. Era como se AC/DC estivesse dando um show ao vivo no meu estômago. Ah, meu Deus, por que estava pensando em AC/DC? Eu nem gostava de AC/DC. Mas meu coração batia como um louco e alguma coisa se apertava dentro de mim. Por que eu estava nervoso? Eu não devia estar nervoso por ter que deixá-lo. Eu o veria novamente no semestre que vem, não veria?

– Diga um olá ao Yuu-chan por mim. — Ele continuou.

Eu sorri, respirando fundo.

– Pode deixar. — E então acrescentei. — Você liga?

– Claro. De qualquer jeito, você vai estar tão ocupado com sua família e com a sua amiga Misuki, que não vai nem lembrar desse seu amigo francês.

– Ah! Então você é francês? — Eu o cutuquei na barriga.

Ele agarrou minha mão e nós lutamos um pouco, rindo.

– Eu repito: Nenhuma nacionalidade definida. — Ele disse, e então tirou uma caneta do bolso e escreveu seu nome no meu pulso que ele ainda mantinha preso. — Pronto. Agora você não vai conseguir esquecer de mim.

Ele riu e eu corei, soltando-me da mão dele.

– De qualquer maneira, eu te peguei. — Eu falei, rindo sem jeito outra vez, e então gemi. — Ai! — Um garoto de camisão xadrez e jeans rasgado bateu com sua mala em minhas pernas enquanto passava pelo corredor. Os corredores agora andavam lotados de estudantes pra lá e pra cá com suas malas.

– Ei, você! Peça desculpas! — Hyoga disse, mas o garoto já estava longe demais pra ouvir.

Eu esfreguei minha canela dolorida.

– Tudo bem. — Eu falei. — Nós estamos no meio do caminho. — E lancei um olhar pra minha porta fechada. — Eu tenho que entrar.

Nós ficamos em silêncio outra vez.

Era hora de nos abraçarmos de novo. Por que não conseguíamos fazer isso? Finalmente tomei coragem e dei um passo a frente, envolvendo meus braços em seu pescoço. Ele parecia tenso e foi estranho, principalmente com minhas sacolas de compras atrapalhando. Seus braços apertaram com força minha cintura, e o cheiro dele me atingiu em cheio outra vez.

Nós nos separamos.

– Divirta-se com Seiya hoje à noite. — Eu falei.

Shunrei e eu não poderíamos sair por causa da viagem, Freya estaria em outra festa a trabalho, e Shiryu, claro, ficaria com a namorada, então Seiya havia chamado Hyoga pra conhecer uma nova boate.

Ele assentiu.

– Tenha uma boa viagem.

– Obrigado. — Eu agradeci antes de abrir minha porta.

E então fiquei parado no vão, olhando enquanto ele subia as escadas. Ele parou no patamar e olhou pra mim uma última vez, acenando com uma careta engraçada. Eu morri de rir e seu rosto se iluminou.

Ele subiu mais três degrau de costas, com aquele sorriso lindo de menino no rosto, então a escada fez uma curva, e ele estava fora de visão.

Eu engoli com dificuldade e fechei a porta.

E então estava de volta ao avião outra vez... E já era noite. As pessoas dormiam a minha volta e eu me peguei pensando no que Hyoga estaria fazendo naquele momento. Se estaria com ela. Com Freya.

Ele havia dito que ainda ficaria mais duas semanas em Boston, porque sua família estava em Paris. O que significava que estaria por mais duas semanas com ela. Sozinhos.

Não queria ficar pensando essas coisas, nem levar para o lado pessoal, mas não conseguia evitar. E isso doía. Ele provavelmente estava com ela agora.

Lembrei da primeira vez que os vi juntos... O beijo deles, as mãos dela emaranhadas nos cabelos dele...

Não sei em que momento acabei adormecendo, mas no meu sonho Hyoga e Freya se beijavam. E iam além...

...As pontas dos dedos dele acariciavam os ombros nus dela... as mãos dela emaranhadas nos seus cabelos... — Meu estômago se contorceu — Os lábios dela semicerrados contra o pescoço dele... As mãos dela emaranhadas nos seus cabelos... — Não... — Os lábios dele tocando os ombros dela... As mãos dela....

Eu acordei assustado com a aeromoça me cutucando para endireitar a poltrona, e a próxima coisa que percebi foi a voz falha do capitão avisando pra nos prepararmos para o pouso.

Nós tínhamos chegado.

Eu estava em casa.

***

– Pela última vez, seu irmão não conseguiu sair de New York. — Minha mãe disse, enquanto pagava a mulher mal humorada na cabine do estacionamento. — Ele tinha uma reunião com seu pai e os acionistas.

– Certo. Apesar de não termos nos visto em quatro meses. — Eu reclamei outra vez emburrado. Tinha certeza de que Ikki estaria me esperando no aeroporto, mas ele não estava.

A conexão de Shunrei para Pequim ainda ia demorar mais três horas. Eu queria que ela tivesse desembarcado comigo pra apresentá-la à minha família, mas por causa das regulamentações idiotas do controle alfandegário ela não pôde ir além dos postos de imigração, e teve que ficar esperando no aeroporto.

– Oni-san é muito ocupado. — Meu priminho de sete anos, Hiro, que, de acordo com a minha mãe iria passar as férias escolares com a gente porque tia Natsuki e o marido estavam em uma segunda lua de mel no Havaí, falou com adoração do banco detrás do carro.

– Ikki esteve cuidando dele por uma semana no mês passado quando sua tia esteve em New York. — Minha mãe explicou.

Eu revirei os olhos, parecia que Ikki tinha se tornado o novo ídolo de infância de nosso primo.

– Oh, verdade? — Eu respondi irônico para o meu primo.

– É sim. — Ele disse — Ikki-kun falou que eles iam aparecer na TV se conseguissem fechar o contrato. No noticiário. E não em um noticiário qualquer, não, naqueles legais, que falam estrangeiro e a gente só consegue assistir se tiver um pacote especial de TV.

Eu me virei no banco da frente. Hiro-chan parecia estranhamente convencido.

– E como é que você ficou sabendo tanto sobre contratos e pacotes de TV, heim?

Ele balançou as pernas. Um dos seus joelhos estava coberto por band-aids do Pokemon. Tipo uns sete, ou oito deles. — Dãh! Ikki Nii-san, me disse.

– Ah, entendi. — Eu respondi com descaso. Sentia-me estranhamente enciumado pelo Ikki ter ficado cuidando dele por uma semana, enquanto eu estava em Boston, e agora nem ter aparecido pra me receber. É, infantil, eu sei.

– E ele também me falou sobre louva-deuses. Em como a louva-deus fêmea come a cabeça do louva-deus macho. E me falou sobre Jack, o Estripador, e a Nasa, e me ensinou a fazer Lamén com queijo. Do bom, com o pacote de queijo mole.

– Algo mais? — Era incrível o quão ressentido uma criança de sete anos conseguia me deixar.

– Muitas outras coisas. — Havia uma entonação diferente nessa parte. Como um desafio. Pelo jeito Hiro-chan se sentia enciumado em relação a mim também.

Eu suspirei, voltando a olhar pra frente, e o diabinho começou a chutar meu banco.

– Hiro-chan, não chute o banco do seu primo! — Minha mãe ralhou. — O que eu disse pra você sobre chutar o banco das pessoas enquanto a titia está dirigindo?

Hiro bufou mal humorado.

– Podemos parar no Mc Donald's? — Ele pediu.

Minha mãe olhou pra mim.

– Você comeu alguma coisa no vôo? Está com fome?

– Eu comeria agora. — Eu respondi. Havia perdido o café da manhã mesmo.

Nós saímos da pista principal e seguimos por uma secundária até chegarmos ao drive-through. Eles ainda não estavam servindo o almoço e Hiro ficou irritado. Decidimos comer muffins. Minha mãe pediu suco de laranja, Hiro-chan pegou uma Coca-Cola, e eu pedi café.

– Você toma café agora? — Minha mãe perguntou, e o passou pra mim, surpresa.

Eu dei de ombros.

– Todos tomam café na faculdade.

– Bem, espero que você esteja tomando leite também. — Ela falou, e então apontou para o nome do Hyoga escrito no meu pulso, quando eu fui pegar o copo. — O que é isso?

Eu corei. Tinha esquecido que aquilo ainda estava ali. Eu não conseguira apagá-lo totalmente durante o banho no dia anterior. Não, se fosse sincero tinha que dizer que eu não quisera apagá-lo.

– Ah, meu amigo escreveu. — Eu disse — Assim eu não me esqueceria dele nas férias.

Minha mãe levantou uma sobrancelha desconfiada, e meu rosto esquentou ainda mais.

– Bem, isso sai com água, eu espero. — Ela disse. — Você sabe o que o seu pai diria se visse...

– Deus, eu sei, mãe! — Eu a interrompi. — Eu só... Ah, esquece.

Eu tomei um gole do café e engasguei. Era horrível! Nojento. Lamacento. Não, era pior do que lama, porque pelo menos lama era orgânica. Minha mãe colocou a mão pra trás pra segurar as pernas do meu primo que estavam chutando meu banco novamente e me flagrou fazendo cara feia pra bebida.

– Minha nossa. — Ela disse, torcendo o nariz. — Um semestre em Harvard e você já é o 'Senhor Sofisticação'. Seu pai vai ficar encantado.

Eu apertei os lábios, irritado. Como se fosse escolha minha! Como se eu tivesse pedido pra ser mandado pra Harvard! E como ela tinha coragem de mencionar meu pai?

Entramos novamente na pista principal. Era hora de pico, e o trânsito de Tóquio tinha parado de se mexer. O veículo da frente lançou uma nuvem de fumaça diretamente na ventilação do nosso carro, e eu tossi. Hiro-chan começou a chutar meu banco de novo.

"Dois meses... Só mais dois meses."

***

À noite, fui assistir a um ensaio da banda de Misuki. Ela cantava bem em inglês e, em homenagem a minha chegada, eles tocaram Nirvana, e Stone Temple Pilots. Depois fomos caminhando até nossa sorveteria favorita, como sempre fazíamos antigamente.

Nós rimos, nos provocamos mutuamente, e trocamos histórias das nossas vidas nos últimos meses. E então, como minha mãe, ela fixou o olhar no nome escrito à caneta no meu pulso.

– Hyoga... hum? — Ela falou, erguendo uma sobrancelha sugestivamente, e então perguntou: — Esse é aquele garoto francês com a mãe russa?

– Ele não é francês. — Eu corei. Estava nervoso. Por alguma razão ficava nervoso sempre que falava sobre Hyoga. — Oficialmente ele é americano. Nasceu na Rússia, mas foi criado em Paris, e agora mora nos EUA.

Nós paramos no semáforo para pedestres e ela me olhou fixamente com uma cara estranha.

– O que? — Eu quis saber. — O que foi?

O sinal abriu.

– Você gosta dele.

Eu tropecei.

– O quê? Sem essa!

Ela balançou a cabeça teimosamente.

– Você gosta. Você gosta dele.

Eu girei os olhos.

– Por favor! Você quer parar de empurrar seus delírios fujoshi pra cima de mim? Nós somos só amigos, está bem? Ele tem namorada.

Mas ela só fez abrir um sorriso imenso e sair cantarolando.

– Shu-Shu está namorando, Shu-Shu está namoraaando!

– Fica quieta. — Eu falei, mas estava rindo também. Então um homem passou por nós falando no celular, e eu lembrei que não havia ligado o meu desde que desembarcara pela manhã.

Eu o procurei na mochila, e apertei o botão ligar.

Havia 14 mensagens novas.

Shunrei tinha tentado me ligar 14 vezes? E isso desde que desembarcara? Eu ia apertar o botão pra chamar de volta quando o celular começou a tocar na minha mão. Era ela.

– Shunrei, tudo bem? Aconteceu alguma coisa? — Eu perguntei.

– Aconteceu. — Ela fungou, me assustando. Estava chorando tanto... — Aconteceu sim... — Ela disse.

E então, a próxima coisa de que me lembro é de estar escorado contra um muro e da Misuki me perguntando se eu estava bem.

Eu ainda segurava o telefone na orelha mas não estava ouvindo mais.

– O que aconteceu? Você está branco. O que foi? — Misuki perguntava preocupada... Não, apavorada. Mas eu não conseguia responder. Não conseguia sequer olhar pra cima.

Sentia minhas mãos tremendo e o sangue se esvaindo do meu rosto rapidamente. E então me dei conta de que a única coisa que me impedia de desabar no chão, eram os braços dela me segurando.

– Hyoga... — Eu consegui murmurar finalmente.

– O que tem?

– Hyoga levou um tiro. Ele está morrendo.

Notas finais
Olá a todos, aqui está mais um ch pra vcs ˆˆ. E, antes de mais nada, muita calma nessa hora. Pra quem é novo por aqui, o Hyoga não vai morrer, ok? Por isso guardem as armas e poupem minha vida XD. E pra quem já estava esperando por esse momento, enfim chegamos a esse ponto da história ˆˆ. Muitas reviravoltas daqui pra frente, e já, já, estaremos emparelhando as duas fics o/ De resto, que acharam do ch? Eu gostei de encontrar um espaço pra trabalhar mais a amizade do Shun e da Shunrei (muito hilário os dois juntos XD), mostrar um pouco do Shun com a mãe dele, o priminho chato, e a Misuki. E os flashbacks dele e do Hyoga, claro ˆˆ. E Shunny todo organizado perdendo a hora... huahauha... tadinho. Ah, e uma coisa que eu já queria ter falado no ch anterior mas acabei esquecendo. Sobre as músicas que cada personagem gosta ou desgosta, já aviso que são baseadas no perfil deles, e não tem nada a ver com meus gostos pessoais, ok? ;) Enfim, acho que é isso. Espero que tenham gostado do ch. Muito obrigada mais uma vez a todos que acompanham e um obrigada mais do que especial à: HuadanNox, Kass, Mayumi f, Lilith Rose, Xianism, Ambrose Nym, Brunaryu, Hime sama, Suicide and Salvation, Sarah, Valeska, diih alves, BakaChan, e Mariah Salvatore, pelas reviews e favoritações. E obrigada a Xianism pela recomendação tb. Já falei que quase dei pulinhos quando vi, né?! ;) Bjos