O Garoto Do Andar de Cima
3 Capítulo 3: Os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade
Shun POV
Uma semana na faculdade e eu estava mergulhado em Psicologia.
Meu professor, Nate, era psicanalista, e seu currículo transbordava Freud e suas teorias de castração (embora eu não pudesse conceber em que isso ajudaria pra uma futura carreira de Administração).
No momento estávamos estudando os "Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade". E, sinceramente, se eu ainda não soubesse que estava na América ficaria sabendo só por aquele livro. Porque Freud tinha muito, muito sexo. Tudo pra ele era uma questão de desejo insatisfeito, falo, e inveja do falo.
Eu precisava contar pra Misuki sobre Freud. Será que se estudava sobre isso nas universidades japonesas?
Então, duas vezes na semana, professor Nate comandava a discussão sobre os Três Ensaios como se nós fôssemos um clube do livro, ou um grupo de estudos de caso, e não uma aula chata e necessária.
Então, Psicologia estava excelente.
Por outro lado, meu professor de francês era claramente iletrado. De que outra forma explicar o fato de que apesar do nome do nosso livro — Level one: French -, professor Leon continuasse insistindo em falar somente em francês? Ele também me chamava uma dezena de vezes por aula. Eu nunca sabia a resposta.
Mas o aspecto mais notável da minha educação era, sem dúvida, o que acontecia fora das salas de aula. Aquele que nunca é mencionado nos encartes de propaganda da faculdade. E ele era: Viver nos alojamentos era como estar dentro de uma escola o tempo todo. Eu não conseguia fugir dela. Mesmo quando estava no meu quarto, meus ouvidos eram destruídos por música pop, pugilismo nas máquinas de lavar, e dança de bêbados no hall das escadas.
Os alojamentos eram mistos, divididos por áreas em Exatas, Humanas e Biológicas, e nós tínhamos bastante liberdade porque, em tese, já éramos adultos o suficiente para lidar com ela.
Bem, eu era. Mas tinha sérias dúvidas sobre meus colegas. O garoto do outro lado do corredor, por exemplo, estava sempre com uma pilha de garrafas de cerveja empilhadas na sua porta. Será que o meu pai tinha alguma idéia de que seria considerado normal eu ficar bêbado por aqui quando resolveu me mandar viver nesse lugar? Não que eu planejasse ficar bêbado, claro. Eu nem gostava muito de cerveja. Achava que tinha cheiro de urina.
De qualquer forma, Shunrei tinha me dito que tudo aquilo se acalmaria quando a novidade passasse para os calouros. Eu esperava que sim. No entanto...
Era noite de sexta, e o dormitório estava praticamente vazio. Meus colegas estavam nos bares e eu sentia a paz pela primeira vez. Se fechasse os olhos quase poderia acreditar que estava novamente em casa. Quase...
Estava esparramado no conforto da minha mini-cama assistindo ao Top Gear. O convidado da noite era o Milo Scorpion. Milo era um ótimo ator, eu achava. Sempre envolvido em todos os aspectos da produção. Além de ser engraçado.
"Então, Milo," Adan Ferrara (1) estava dizendo na tela "...além do privilégio de dirigir o novo protótipo da Porsh em seu último filme, você entrou outra vez no ranking das cinco celebridade mais bonitas do mundo da revista People." Ele fez uma careta engraçada "Eu só posso imaginar como deve ter sido os tempos de escola pra você... Tudo alegria e beijo de língua, aposto?"
Milo Scorpion balançou a cabeça em negativa.
"Eu tenho irmãos mais velhos, sabe." Ele disse. "Quando entrei no colégio Saga e Kanon já tinham quase sido expulsos três vezes. Então os professores estavam de olho em mim. Nem deu pra me divertir."
Ele fez uma careta de sofrimento que fez com que todos na platéia começassem a rir.
"Três vezes?" Adan Ferrara arregalou os olhos, divertido "E o que seus irmãos fazem hoje? Assaltam bancos no tempo livre?"
"Não." Milo falou muito sério "Eles são policiais."
E todos riram outra vez. Eu ri também. O apresentador falou alguma outra coisa, mas eu recebi um aviso de e-mail nessa hora e abaixei o volume pra ler.
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
De: Misuki Satoshi (satoshimisukichan@hotmail.com)
Assunto: Não olhe agora mas...
...O lado esquerdo da sua cama está desarrumado. Ha! Fiz você olhar. Agora já pode respirar de novo.
Sério. Como está indo a faculdade? Alguma pretendente que eu deveria saber? o.o"... Brincadeira.
Agora adivinha quem está na minha sala de cursinho? Ayume morcega u.u. Ela repicou o cabelo e e fez luzes. Estou sentando com o Yuki (lembra dele? Do segundo ano?Ele está legal agora, e ficou com um traseiro que.. nossa! Tudo bem, você não quer saber isso XD), Aki-kun e Sai-chan no almoço, mas não é a mesma coisa sem você. Sem mencionar que a louca da Ayumi apareceu ontem. Ficava mexendo no cabelo enquanto falava e juro que podia te ouvir murmurando a música daquele comercial de shampoo. Arranco meus olhos com minha pinça de sobrancelha se ela resolver se sentar todo dia conosco.
Você é muito mau. Vem pra casa.
Mi-chan.
PS: Escolheram o novo líder da banda e não sou eu. Coloram o Kyo, o baixista, no meu lugar. Estou pensando seriamente em arrancar os olhos dele com minhas pinças de sobrancelha òó.
Eu sorri. Misuki era vocalista de uma banda de porão, e desde que o guitarrista renunciara a liderança da banda que ela vinha almejando esse cargo. O que era mais do que justo, claro, porque todo mundo sabia que ela era a melhor. Infelizmente os outros integrantes não pensavam assim. Achavam que apesar de cantar bem ela não ia conseguir ter pulso firme pra liderar a banda... porque era uma garota.
Bem, agora ela não ia mesmo... Idiotas.
Respondi a Misuki contando sobre meus novos amigos e a cantina maluca que tem comida como a de restaurante.
Fiquei feliz que ela tivesse escrito pra mim. Por alguma razão, queria que ela fosse a primeira a escrever. Talvez quisesse que ela pensasse que eu estava tão feliz e ocupado que nem tinha tempo pra conversar. Quando a verdade era que eu estava sozinho e triste.
Além de falar de mim mesmo, também falei do Hyoga e contei como ele se debruçou sobre outro aluno pra pegar emprestada minha caneta na aula de Economia (ele estava na minha turma de Economia, já que por algum motivo ele havia decidido incluir essa matéria só agora) exatamente no momento em que o professor estava dividindo a classe para os trabalhos em grupo. Então o professor pensou que nós estávamos sentados juntos e agora nós éramos uma dupla.
Mal havia apertado "enviar" e abriu uma janela nova no meu MSN.
"Aaahhh... eu odeeeeeioooo eleeees!" Misuki digitou.
Ela estava falando da banda, é claro.
"Relaxa." Eu respondi. "Em breve você será a próxima Tsubasa Imamura ou Ayumi Hamasaki (2), e então eles vão se gabar pra todo mundo sobre como tiveram o privilégio de já ter tocado com você antes. Daí, quando algum deles se aproximar de você em algum grande show, esperando um tratamento especial e um passe livre para os bastidores, você vai simplesmente passar na frente dele sem dar muita bola... só uma olhada de lado."
Um minuto depois veio a resposta.
"Porque você se mudou mesmo, Shu-Shu?" Eu ri do apelido ridículo, e podia sentir seu sorriso do outro lado também.
"Porque meu pai é um poço de maldade." Eu digitei.
"Do mais puro estilo, cara. Pode apostar."
Acabamos conversando até as três horas da manhã, por isso dormi até o ínicio da tarde de Sábado. Levantei correndo pra chegar a cantina antes que fechasse. Ela ficava aberta somente para um almoço tardio nos finais de semana.
Estava tudo já sossegado e meio vazio, mas pude avistar Shunrei, Shiryu e Hyoga sentados na mesa de sempre quando eu cheguei.
Peguei minha refeição e me sentei ao lado do Hyoga. Ele estava usando as mesmas roupas de ontem. Jeans surrado e uma camiseta com a silhueta do John Lennon.
Fiquei me perguntando se ele tinha passado a noite com Freya. Talvez por isso não tivesse trocado de roupa. Ele ia de metrô pro apartamento dela no SoWa (3) toda noite e eles acabavam saindo por lá. Shunrei estava chateada com isso porque ficava com a impressão de que Freya agora achava que era "boa demais" pra sair com ela e o resto do pessoal.
Eu cumprimentei Hyoga com um aceno. Shunrei e Shiryu estavam se beijando.
– Eles sempre foram assim? — Eu perguntei olhando para o casal. Shiryu se mexeu um pouco e sua camisa subiu revelando a tatuagem de um dragão na parte superior do braço direito. A tinta era preta e escura comparada a sua pele clara.
– Não. No ano passado eram piores. — Hyoga respondeu.
– Nossa! Estão juntos há bastante tempo então?
– Hum, verão passado?
– É bastante tempo.
Ele deu de ombros e eu hesitei, me questionando se deveria ou não fazer minha próxima pergunta. Acabei perguntando de qualquer jeito.
– E você e a Freya? Há quanto tempo namoram?
Ele pensou por um momento.
– Quase um ano agora, acho. — Ele tomou um gole do seu café. Todo mundo parecia gostar de café por ali. E então bateu a xícara com tanta força que assustou Shiryu e Shunrei. — Ah, desculpe — ele disse cínico. — Isso atrapalhou vocês?
O casal olhou pra ele como se o ameaçasse de morte lenta e dolorosa antes de voltar ao que fazia e Hyoga sorriu.
Depois se voltou para mim outra vez.
– Mudando de assunto, — ele fixou o olhar no meu — pensei que todas as beldades do Oriente tivessem olhos escuros. Ou seriam lentes coloridas?
Eu balancei a cabeça em negativa.
– Não. Meu pai biológico é inglês — eu expliquei -. Não gosto de falar muito sobre isso.
Ele demorou um tempo pra responder e então assentiu.
– Eu gosto dos seus olhos. Eles são incríveis. — Disse e eu engasguei esguichando minha sopa de espinafre do outro lado da mesa.
Tossida, engasgo, chiado.
Ele pegou um guardanapo pra limpar meu queixo. Tentei pegá-lo de volta das mãos dele pra limpar eu mesmo, mas ele afastou minha mão. Shunrei e o namorado pararam de se beijar pra apreciar meu espetáculo.
– Ei, isso me lembra... — Shunrei desviou os olhos para o Hyoga — Ontem foi seu aniversário, não foi?
– É verdade! — Shiryu disse. — Eu esqueci, cara. Feliz aniversário atrasado.
Eu lancei um olhar desconfiado pra eles, ainda tentando recuperar o fôlego.
– Não foi seu aniversário de verdade, foi? Você teria dito alguma coisa.
– É sério. — Shiryu falou — Ontem foi aniversário de 19 anos dele.
Hyoga simplesmente deu de ombros como se não se importasse.
– Mas você tinha que ter um bolo — Eu falei. — São as regras.
– Do Star Wars — Shunrei completou -, com o formato da cabeça Darth Vader e uma velinha do Yoda.
– É, eu aposto que o Dite iria adorar isso. — Ele disse. Afrodite era seu irmão de criação, filho da mulher do pai dele, ele tinha contado, e melhor amigo do seu irmão mais velho. — Mas no momento eu estou mais intrigado com outra coisa. — Ele voltou o olhar pra Shunrei outra vez — Por que você foi falar de aniversário agora?
– Por causa da sopa — ela falou -. É um costume tomar sopa de algas nos aniversários no Japão, não é? Shun-ni vai sentir falta disso. — Ela olhou tristonha pra mim.
Shiryu balançou a cabeça.
– É na Coréia e não no Japão que se costuma tomar sopa de algas nos aniversários. Não mistura as culturas, mulher. — Ele corrigiu.
– Está vendo — Hyoga falou -, é por isso que eu nunca trago o assunto à tona.
– Mas você fez algo especial ontem, certo? — Eu disse, ignorando a discussão — Quer dizer, a Freya te levou pra sair, né?
Ele pegou a xícara de café outra vez e a recolocou de volta na mesa sem beber.
– Meu aniversário é só uma dia como outro qualquer — disse -. Eu estou bem assim. Não preciso de um bolo. Juro.
– Ok, ok, Tudo bem. — Eu ergui as mãos como se me rendesse — Não vou te desejar feliz aniversário, então. Nem feliz sexta-feira atrasada.
Ele sorriu outra vez.
– Ah, você pode me desejar feliz sexta-feira. Não tenho qualquer objeção às sextas-feiras.
– Falando nisso, — Shunrei se voltou pra mim mais uma vez — por quê você não saiu com a gente ontem à noite?
– Eu já tinha planos. — Eu disse — Com minha amiga de infância Mizuki.
Todos os três ficaram me olhando a espera de uma explicação.
– Pelo MSN — eu contei e então sorri.
Eles fizeram uma careta de incredulidade.
– Mas você saiu essa semana? — Hyoga perguntou — Digo, deixou o Campus de verdade?
– Claro. — Eu menti.
Ele levantou uma sobrancelha.
– Alguém já te disse que você é um péssimo mentiroso? Horrível. O pior.
– Deixa ver se eu entendi. — Shunrei juntou as mãos como se fosse rezar. Seus dedos eram finos e delicados como o resto do seu corpo. — Você está em Boston há uma semana e ainda não conheceu a cidade, é isso? Nenhuma parte dela?
– Saí pra jantar com meu irmão o final de semana passado. — Eu me defendi — Vi a John Hancock Tower (4)... De longe.
– Com seu irmão? — Hyoga disse — Brilhante. E quais são seus planos pra hoje à noite? Lavar umas roupas, talvez? Limpar o banheiro?
– Ei, limpar o banheiro tem seus méritos.
Shunrei franziu as sobrancelhas.
– E o que você vai comer? A cantina estará fechada.
A preocupação dela era fofa mas claro que ela não estava me convidando pra me juntar a ela e ao Shiryu. Nem eu iria querer isso. Tampouco tinha vontade de segurar vela pro Hyoga e a namorada dele. Quanto ao jantar, tinha planejado fazer um cruzeiro pelas máquinas de doces e bebidas. Não eram muito bem abastecidas, mas eu podia fazer dar certo.
– Foi o que pensei. — Hyoga disse quando não respondi. Ele balançou a cabeça e seu cabelo loiro voou com o movimento. Era de tirar o fôlego.
Dei de ombros.
– Faz só uma semana. Não é grande coisa.
– Vamos repassar o fatos. — Foi a vez do Shiryu falar — Esta é sua primeira semana longe de casa, certo?
Eu assenti.
– Sua primeira semana sem a supervisão dos seus pai?
Novo assentimento.
– Sua primeira semana sem a supervisão dos seu pais, na faculdade, e você quer passá-la no seu quarto? Sozinho? — Ele e Shunrei trocaram olhares de pena. Olhei para o Hyoga em busca de ajuda, mas o peguei olhando pra mim, com a cabeça inclinada para o lado e uma expressão estranha no rosto.
– O quê? — Perguntei. — Tem sopa no meu queixo? Espinafre no meu dente?
Ele sorriu.
– Eu adoro a cor do seu cabelo — Ele estendeu a mão e tocou levemente meus fios verdes. — Combina muito com você. Você tem um cabelo perfeito.
***
O pessoal que curtia festa já tinha deixado os alojamentos. Eu estava mastigando um doce das máquinas enquanto atualizava minha página na internet. Até agora já tinha experimentado uma barra de Mounds, e um pacote de cookies, que estavam velhos e me deram sede. Juntos, eles aumentaram a quantidade de açúcar no meu sangue o que me deixou com bastante disposição.
Como não tinha nada de novo pra postar no site, já que não andava tendo muita disposição pra terminar meus desenhos, resolvi mexer no layout. Mudei a cor da fonte, mexi em umas imagens antigas, respondi alguns comentários.
Depois de um tempo, já estava cansado daquilo e resolvi fazer uma pesquisa sobre Freud e os "Três Ensaios Sobre a Sexualidade". Queria ter certeza de não ter perdido nenhum tópico antes de começar a escrever meu trabalho. Não que eu precisasse aprontá-lo antes de duas semanas, é claro, mas eu era meio detalhista com as coisas. E, de qualquer forma, tinha bastante tempo. Tipo, a noite toda.
Blá, blá, blá... nada de interessante. Estava quase largando aquilo também e indo verificar pela enésima vez minha caixa de e-mail, quando a seguinte página surgiu na tela:
"O que se depreende da leitura desses textos, embora algumas ambigüidades existam, é que a homossexualidade é uma posição libidinal, uma orientação sexual, tão legítima quanto a heterossexualidade. Freud sustenta esta posição partindo do complexo de Édipo, fundado sobre a bissexualidade original, uma vez que os investimentos libidinais homossexuais estão presentes, ainda que no inconsciente, de todos os serem humanos desde o início da vida.
No texto de referência sobre o tema, Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, Freud afirma que, no ser humano, a pulsão sexual não tem objeto fixo, ou seja, ela não está atrelada ao instinto como nos animais. Ao contrário, o objeto da pulsão é diversificado, anárquico, plural e parcial; exprime-se de várias formas: oral, anal, escopofílica, vocal, sádica, masoquista, dentre outras. Com isto, Freud divorcia a sexualidade de uma estreita relação com os órgãos sexuais, passando a considerá-la como uma função abrangente em que o prazer é sua finalidade principal. Além disso, se os impulsos afetuosos e amistosos, reunidos na “palavra extremamente ambígua de 'amor’, nada mais são do que moções pulsionais sexuais 'inibidos em sua finalidade ou sublimados' "(Freud, 1925, p. 52 ), cada sujeito possui um vestígio de escolha de objeto homossexual."
– Shun?! — Eu dei um pulo e quase caí da cadeira, mas consegui me reequilibrar no último instante. Estavam batendo na minha porta.
– Shun, sei que você está aí. Posso ver a luz acesa.
Era o Hyoga.
– Espera um pouco! — Por algum motivo senti minhas bochechas quentes — Já vou. — Fechei a tela do computador e corri pra porta, abrindo-a com um solavanco.
– Oi, desculpa a demora. — Disse. — Entra!
Mas embora eu mantivesse a porta escancarada, ele continuou onde estava, os olhos fixos em mim.
Eu acompanhei a direção do seu olhar... E só então percebi o que estava usando: Uma camiseta velha do Naruto, cuja gola esgarçada caia frouxa pelos meus ombros, e uma cueca samba canção de morangos que eu tinha ganho da Mizuki no meu aniversário de 14 anos. Senti minhas bochechas esquentaram mais ainda. Ah não!
Hyoga continuava me olhando de um jeito estranho. Não conseguia decifrar a expressão em seu rosto. Então balançou a cabeça e abriu um sorriso brincalhão, passando por mim.
– Morangos legais. — Ele disse.
– Cala a boca.
– Não, é verdade. Uma graça.
– É, tá legal. — Eu falei, emburrado.
Ele riu, então parou no meio do quarto, olhando em volta, e coçou a cabeça.
– É muito... hum... limpo.
– É mesmo? — Eu sabia que meu quarto era organizado, mas ainda não tinha feito uma faxina adequada. Não tinha o produto de limpeza com cloro que precisava pra limpar os azulejos do banheiro, e os rejuntes estavam um horror. Quem quer que vivesse ali antes de mim não tinha a menor idéia de que precisava limpá-los.
– Sim. — Ele disse — Assustadoramente limpo. — E então começou a andar pelo quarto pegando e examinando as coisas como eu tinha feito no quarto da Shunrei no primeiro dia.
Inspecionou a estante de livros, detendo-se um pouco na minha coleção de Harry Potter, e na infinidade de mangás. Olhou meu estojo de desenho, depois foi examinar meus esboços, presos por imãs no painel acima da escrivaninha.
– São incríveis! — Ele disse.
– Obrigado. — Eu agradeci, e ele pegou uma foto instantânea afixada no painel. Era uma foto minha com a Mi-chan e alguns outros colegas de classe (eu com cara de bobo). Ela tinha sido tirada antes de uma convenção de ânime e a maioria de nós estava vestida como algum personagem.
Hyoga sorriu, depois virou a foto e leu a dedicatória no verso:
– "Pra você não se esquecer da gente em Harvard, Shu-Shu." — Ele ergueu uma sobrancelha — Shu-Shu?
Eu dei de ombros.
– É meu apelido. — disse — Eu e minha amiga pesquisamos no google e descobrimos que é o nome de um legume, no Brasil. E também é um tipo de gíria. Algo como Honey-Sugar.
Ele riu.
– E esse é seu apelido? Honey-Sugar?
– Cala a boca. — Eu falei outra vez. Ele riu mais ainda.
– Então, qualquer um pode te chamar de Shu-Shu?
– Não. — Eu falei irritado — Não é qualquer um.
Ele continuou rindo e então parou, olhando pra mim.
– Desculpe. — Disse — Não foi minha intenção.
– Ãh? O quê?
– Você está rearrumando todas as coisas que eu coloco no lugar. — Ele apontou para minhas mãos, que naquele momento estavam ajeitando a fotografia no painel. — Não foi educado da minha parte entrar aqui e começar a tocar nas suas coisas desse jeito.
– Não, tudo bem — Eu disse depressa, deixando a foto de lado. — Você pode tocar em qualquer coisa minha que quiser.
Ele congelou. Um brilho malicioso perpassando seus olhos antes que eu percebesse o que tinha acabado de dizer. Eu senti meu rosto esquentar de novo. Droga! Não quis dizer isso daquela maneira.
Eu abaixei o olhar pro piso sem saber bem o que falar e Hyoga também não disse nada. Apenas colocou uma das mãos no bolso da calça e começou a girar a cadeira da escrivaninha com a ponta do dedo da mão livre.
Depois de um silêncio constrangedor, falou:
– Seu irmão?
Eu levantei os olhos. Ele agora apontava pra mesinha lateral da minha cama, onde eu havia colocado um porta retrato com uma única foto. Minha mãe havia tirado aquela quando nós ainda éramos crianças. Nela, eu estou sentado no chão com cara de choro enquanto Ikki assopra um machucado no meu joelho.
– É, aquele é o Ikki — eu respondi.
Hyoga andou até a mesinha e aproximou a cabeça do porta retrato pra ver melhor.
– Vocês não são nada parecidos. — Disse.
– Ikki é filho do nosso pai — eu expliquei -, eu nasci de um caso que a minha mãe teve. Com um estrangeiro... Depois que descobriu que meu pai a traía. Sou meio inglês. Por isso meu pai não gosta de mim. Toda vez que ele olha pra mim, lembra do que minha mãe fez.
Eu mordi o lábio. Não sabia porque tinha falado tudo aquilo. Eu não gostava de falar dessas coisas.
Hyoga assentiu.
– Sinto muito. — Ele disse.
Eu encolhi os ombros.
– Não tem importância. Meu pai é um idiota.
– Minha mãe era uma idiota também. — Ele falou — Quer dizer, eu nem lembro dela, mas obviamente ela era, uma vez que abandonou a mim e ao meu pai quando eu ainda era um bêbe. Eu e o meu irmão somos filhos de mães diferentes também. Mas a mãe do Camus morreu quando ele ainda era criança, foi difícil pra ele, mas ela não teve escolha. Minha mãe escolheu me abandonar.
– E você nunca mais soube dela? — Eu perguntei.
Ele negou com a cabeça.
– E nem gostaria de voltar a encontrá-la algum dia?
– Não se eu puder evitar. — Ele disse. Parecia muito sério agora, e eu me dei conta de que não conhecia muita coisa sobre ele. Achei que já tinha falado demais.
– Bem... — Ele bateu com as mãos nas coxas e sorriu outra vez, levantando-se da cadeira da escrivaninha onde havia se acomodado. — Eu sabia que se alguém não viesse e te arrastasse pra fora deste quarto, você nunca iria sair daqui. Então, nós vamos sair.
De repente, alguma coisa começou a se agitar no meu estômago.
– Hoje?
– Agora.
– Humm... — Eu hesitei — E a Freya?
Ele suspirou e se jogou de costas na minha cama. Estava deitado nela agora.
– Nossos planos não deram certo. — Falou simplesmente, e fez um vago aceno com a mão de modo a evitar que eu perguntasse qualquer outra coisa.
Eu apontei para as minhas roupas ridículas.
– Não estou em condições de sair.
– Ah, vamos lá — ele insistiu -, será que vamos ter que repassar tudo de novo? Final de Semana... Faculdade... Primeira vez sem a supervisão dos pais?
Eu lancei um olhar duvidoso pra ele, e meu travesseiro voou em direção à minha cabeça.
Eu o apanhei no ar e o joguei de volta e Hyoga riu, escorregando da cama, e o jogou de novo com toda força. Tentei agarrá-lo outra vez, mas não consegui, e recebi mais dois golpes antes de conseguir pegá-lo de volta. Ele riu mais ainda enquanto eu o acertava nas costas, e tentou reaver o travesseiro, mas eu o segurei firme e nós ficamos puxando um de cada lado. Até que ele desistiu e eu fui lançado com força na cama, tonto e suando.
Ele deitou ao meu lado, respirando pesadamente. Estava deitado tão perto que o seu cabelo tocava a lateral do meu rosto. Nossos braços quase se encostando. Quase.
Tentei respirar normalmente, mas era como se eu não soubesse mais fazer isso. Me senti tão estranho.
"...os investimentos libidinais homossexuais estão presentes, ainda que no inconsciente, de todos os serem humanos desde o início da vida."– Eu lembrei de repente.
Ah, meu Deus, eu estava ficando paranóico!
– Certo. — Ele disse. Estava meio ofegante ainda. — Este é o plano: Eu vou te mostrar a cidade.
Eu balancei a cabeça.
Freud e suas teorias que fossem para o diabo. Eu não queria me sentir assim perto dele. Queria que as coisas fossem normais. Queria ser amigo dele. Não um idiota paranóico surtando com coisas que eu nem conseguia entender. Me obriguei a levantar. Meu cabelo estava todo bagunçado e eletrificado por causa da guerra de travesseiros, então apanhei um elástico na cômoda e o prendi.
– O plano? — provoquei — ...Sofisticado.
Ele grunhiu em resposta e jogou o travesseiro em mim de novo.
– Vá se trocar. — Ele levantou da cama e caminhou em direção a porta. — Eu vou te esperar lá fora.
Ele esperou por um minuto no corredor e logo já estávamos atravessando o Campus. Eu colocara meu agasalho de moleton preto do Death Note, jeans e tênis escuro.
– Eu preferia os morangos. — Ele disse, referindo-se à minha roupa.
– A-há — Eu fiz, irônico. Ele riu. Nós engajamos uma conversa boba sobre roupas e então já estávamos parados no portão de saída.
Ele cumprimentou o rapaz na guarita e deu um passo pra fora. E eu fiquei ali, olhando pro seu vulto recortado contra a escuridão.
– Vem. — Ele disse. As luzes de Boston brilhavam atrás dele e o vento esvoaçava seu cabelo. Meu sorriso vacilou, conforme meu estômago se agitava outra vez.
Era minha primeira vez longe do Campus. Fora da segurança daqueles muros. Minha primeira vez longe de casa. Em um país estrangeiro... totalmente sozinho. A insegurança bateu outra vez.
– Vamos! — Ele estendeu a mão — Você não confia em mim?
Eu confiava. Nós nos conhecíamos a menos de uma semana, mas estranhamente eu confiava.
Só que eu nunca havia sido o tipo de pessoa que se arriscava. Eu sempre acabava fazendo o que era mais fácil — ingressar no curso que a minha família queria, cursar a faculdade que o meu pai escolhera, namorar uma pessoa que eu sabia que não amava (não desse jeito), não reclamar sobre um colega de classe que se aproveitava de mim — em vez de fazer o que eu sabia, lá no fundo, ser a coisa certa.
E agora?
De alguma forma eu sabia que se desse aquele passo, não teria mais volta. Que estaria por minha própria conta.
Ia mesmo fazer isso?
Mas que outra escolha eu tinha? Ficaria enfiado no quarto o resto da vida, esperando o momento certo, a pessoa certa, o oportunidade certa, a vida perfeita chegarem?
Como poderia saber que o momento certo não era agora. Que o meu futuro não estava parado em suspenso, esperando por mim do outro lado daquele portão? Como qualquer um poderia saber?
Fácil. Ninguém sabia. A pessoas se arriscavam.
Eu respirei fundo e dei um passo a frente.
Eu não podia prever o futuro. Mas isso não significava que eu não teria um.
– Tudo bem. — Eu segurei a mão dele e sorri — Me mostre. Me mostre tudo.
Notas:
1- Adan Ferrara é o apresentador do Top Gear americano
2 — Tsubasa Imamura e Ayumi Hamasaki são cantoras japonesas de sucesso
3 -SoWa é um bairro de Boston conhecido pela concentração de ateliês e de galerias de artistas jovens.
4 — John Hancock Tower é um dos arranha-céus mais altos do mundo, com 241 metros (790ft). Edificado na cidade de Boston, Estados Unidos, foi concluído em 1976 com 60 andares.
PS: Toda a parte do funcionamento e da divisão dos dormitórios foi inventada, eu não tenho a menor idéia de como funcionam os dormitórios em Harvard, pq infelizmente eu nunca estudei lá u.u
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