O Garoto Do Andar de Cima

4 Capítulo 4: Uma Noite no Museu


Shun POV

Estava uma noite bonita. Boston brilhava em luzes verdes, amarelas e laranja. O ar frio rodopiava com as conversas das pessoas nas ruas e o tilintar das taças de bebidas nos restaurantes.

Nós havíamos descido do metrô em Back Bay e seguíamos agora a pé em direção à Avenida das Artes, cruzando o Fen Garden, enquanto Hyoga detalhava os aspectos mais impressionantes de 'A Verdadeira História do Clube Bilderberg' que ele terminara naquela tarde.

– Então, segundo esse jornalista, Estulin, o Clube Bilderberg, seria uma organização não-oficial que nasceu em 1954 supostamente para promover a cooperação transatlântica e debater assuntos relevantes em nível mundial, e que atualmente reúne cerca de 120 das personalidades européias e norte-americanas mais influentes na política, na economia e na mídia. Tipo, vários presidentes do Estados Unidos, os dirigentes da Coca Cola, da Ford, do Banco Mundial, do FMI, da OTAN, da OMC, da ONU, diversos primeiros-ministros de vários países, representantes de várias casas reais européias e dos mais influentes meios de comunicação, as famílias Rockefeller e Rothschild, entre outros.

– Caramba! — Eu arregalei os olhos.

– Fica melhor. — Ele continuou empolgado — O nome Bilderberg veio do hotel holandês que abrigou a primeira reunião... Normalmente essas reuniões ocorrem em hotéis sofisticados e isolados, que são fechados por ocasião do evento e nada nunca é divulgado. Quer dizer, um monte de gente importante se reúne em hotéis isolados desde 1954 e a mídia não dá um pio. Uma coluna sequer sobre o assunto. Nada. A coisa é tão fechada que durante um tempão se negou que o clube existisse. Hoje a existência dele já está provada, e um monte de gente se reúne do lado de fora desses encontros pra protestar. Acusam os Bilderberg de serem herdeiros dos Illuminatis e do Priorado do Sião da Maçonaria. Tem um monte de teoria sobre isso rolando na net também.

– Illuminatis? — Eu falei, com uma careta — Essa foi forte.

Alguns turistas estavam posicionados em frente a um lago com uma ponte adornada de estátuas. Nós passamos por trás deles pra não estragar a foto.

Ele riu.

– É. Bem, o livro não fala nada de Illuminati e Maçonaria mas dá a lista completa dos nomes que freqüentam ou alguma vez estiveram nos encontros desse clube... E simplesmente todos, todos, os candidatos à presidência dos Estados Unidos foram sabatinados pelos Bilderbergs antes de se elegerem... Clinton, Bush, Obama. Agora sente só...

Seus olhos cintilaram. Era o mesmo olhar da minha mãe quando falava sobre liquidações de sapato, e da Misuki quando falava de música.

– De acordo com Estulin, o que os Bilderberg querem de verdade é a implantação de um governo mundial. Com a quebra de todas as soberanias nacionais e a instalação de um governo único que eles chamam de 'A nova Ordem Mundial'. Que seria, em poucas palavras, tipo uma reestruturação política, militar e financeira em um nível global, com uma total centralização do poder, além da implantação de um estado policial total, na qual todos os seres humanos seriam controlados em todos os aspectos de suas vidas.

– Que horrível... — Eu falei, mas acenei mostrando apreço pelo que ouvia. — Mas legal. Continue.

– Ao que tudo indica esta Nova Ordem Mundial viria sendo implementada gradualmente desde o início do século, mas nas últimas duas décadas ela teria sido acelerada a largos passos, com a utilização do paradigma problema-reação-solução, também chamado de Dialética Hegeliana, em que problemas são propositalmente criados... tais como atentados terroristas, crises financeiras, aquecimento global, rumores de armas de destruição em massa, pandemias, etc... e após haver uma ampla reação ao problema criado, uma solução é apresentada. Só que é a solução que eles querem, e que geralmente leva a criação de um órgão global ou uma lei marcial que justificaria a remoção dos direitos individuais. É como se eles fosse meio que uma sociedade secreta, aristocrática e global, que controlaria não só os governos mais poderosos do mundo, mas que também decidiria os rumos de todos os setores da vida das pessoas sobre a Terra.

Eu soltei um assobio impressionado.

– E esse cara, esse Estulin, que escreveu o livro, ele é confiável?

– Não sei, mas ele tem reputação de jornalista sério e parece que a editora que publicou o livro designou um pesquisador só para averiguar a veracidade das fontes do cara e aprovou tudo. Ele também deu uma entrevista falando que desde que começou a escrever o livro vive 24 horas por dia sob proteção de diversas equipes formadas por ex-agentes especiais da KGB, e já sofreu diversos atentados a lá James Bond.

– Uau! E quem disse que política era chato, não é? — Eu falei e ele sorriu.

Hyoga fazia com que tudo soasse tão emocionante.

– Sabe, obrigado. — Ele disse. — As pessoas normalmente me mandam calar a boca bem antes.

Ele riu. Um riso lindo, de moleque. Eu sorri de volta, e tudo parecia perfeito.

Casais andavam pelo parque, e vendedores alinhavam caixas sujas de papelão de livros de bolso e revistas velhas para expor. Um homem de dread dedilhava uma guitarra e cantava uma canção triste. Nós ouvimos por um minuto e Hyoga jogou alguns dólares dentro da caixa da guitarra. Nós saímos em uma rua movimentada... E então estávamos parados em frente a uma estrutura absolutamente monstruosa.

– O que é isso? — Eu perguntei admirado.

– Bem vindo ao Museu de Belas Artes de Boston — Ele disse com um sorriso -. Ele tem o segundo maior acervo permanente de obras de arte da América, só perdendo pro Metropolitan de New York. — E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Hyoga já estava agarrando meu braço o me puxando em direção ao enorme prédio, tão imponente e iluminado contra o céu noturno. — Vem. Vamos entrar.

– Espera... — eu me desvencilhei dele. Havia algumas pessoas sentadas nas escadarias, conversando, fumando, até lendo livros no brilho das colunas iluminadas. — Já deve estar fechado a essa hora.

– Tudo bem. — Ele disse com um sorriso misterioso — Vem comigo.

E segurando meu braço outra vez, me guiou por uma passagem, até uma porta lateral do museu.

Eu me distraí por um momento olhando para um grupo de estudantes que estavam a poucos metros, ouvindo os iPods um dos outros e compartilhando uma pizza, e quando olhei outra vez Hyoga estava parado ao lado de um segurança, com a porta aberta, esperando que eu me juntasse a ele dentro do museu escuro.

– Como... Como você...? — Eu me interrompi, rindo, depois que passamos pelo guarda — Como você conseguiu entrar?

Ele ergueu um cartão de identificação com uma tira magnética atrás.

– Minha família tem um acervo particular em exposição nesse museu. Então eu tenho entrada livre a qualquer tempo.

– Acervo particular, é? — Eu falei zombando, enquanto assinávamos nossos nomes em um imenso livro de visitas. — Impressionante.

Ele riu outra vez e o som suave reverberou pelas paredes dos corredores vazios, iluminados apenas pelas luzes de emergência.

Era estranho estar em um museu depois de fechado. Eu nunca tinha visto os corredores tão desertos... nem tão silenciosos.

– Nós não vamos disparar nenhum alarme, não é? — Eu perguntei.

– Só se você tentar roubar alguma coisa — Ele disse, em tom de brincadeira.

– Acho que vou ter que me controlar, então — Eu brinquei também.

Estava feliz. Havia uma empolgação quase infantil em mim, enquanto andava com Hyoga pelos corredores vazios tentando fazer silêncio.

Logo, estávamos cercados de arte renascentista francesa. Pinturas, esculturas, trípticos absurdamente lindos da Virgem com o menino Jesus, crucifixos de ouro incrustados de pedras, e jóias que pareciam brilhar com a luz sobrenatural que vinha das vitrines onde ficavam.

Eu parei em frente a uma imensa pintura. A luz acima da elaborada moldura dourada estava acesa e iluminava o rosto de uma camponesa, em meio ao que parecia uma revolução, erguendo uma bandeira da França.

– É lindo... — Eu murmurei, maravilhado com os detalhes da pintura.

– É sim. — Ele concordou.

Só que ele não estava olhando para o quadro quando disse isso. Estava olhando pra mim.

Eu senti minhas bochechas esquentarem.

– É "A Liberdade Guiando o Povo" — Ele explicou desviando rapidamente o olhar para a pintura outra vez — de Eugène Delacroix. Representa a Revolução Francesa. Está vendo essa chapéu na cabeça dela? — Ele apontou para uma espécie de gorrinho esquisito pintado na cabeça da camponesa.

Eu assenti.

– É o Gorro Frígio, trata-se de um símbolo da liberdade e da república, mas é também um ícone maçônico. Delacroix queria deixar claro, nessa pintura, a participação da Maçonaria na Revolução Francesa. Depois dele, vários historiadores franceses também assinalaram a Maçonaria como uma das principais forças a instigar a revolução, e o escritor Charles Louis de Gassicourt explicou em seu livro a ação subterrânea das sociedades secretas na Revolução. Na verdade, mesmo antes disso, outro escritor, Ernest von Göchhausen, já denunciava uma conspiração maçônica-jesuítica-illuminati e até chegou a prever a iminência de uma "revolução mundial inevitável", três anos antes da Revolução Francesa acontecer.

– Illuminati... os ascendentes dos Bilderbergs, então? — Eu observei, lembrando da história que ele tinha contado sobre o clube.

Ele assentiu, antes de continuar.

– Em 1758, um homem chamado Lanze foi atingido e morto por um raio, enquanto viajava a cavalo pela região da cidade de Ratisbona, na Alemanha. Conta a história que ele seria um mensageiro dos Illuminati e que quando os oficiais da segurança da Baviera examinaram o conteúdo de sua mala postal, encontraram planos detalhados a serem executados para e durante a já próxima e planejada Revolução Francesa. Nos documentos foi encontrada uma ordem por escrito de Adan Weishaupt para Robespierre começar a instigar a revolução na França. O governo da Baviera teria então tentado de várias formas alertar o rei Luiz XVI, da França, e sua corte do iminente desastre que estava sendo organizado contra seu reinado, mas o governo francês não deu ouvidos aos alertas e avisos. Na Baviera, com base nos documentos apreendidos, dizem terem sido presos todos os elementos integrantes da Ordem dos Illuminati que foram identificados e encontrados. Mas Weishaupt e os mais importantes membros da ordem teriam conseguido fugir e nunca mais puderam ser encontrados.

– E você acha os descendentes desses membros Illuminatis desaparecidos criaram esse clube Bilderberg? — Eu quis saber.

Ele negou com a cabeça.

– Não. A ascendência dos fundadores, e integrantes do clube é muito bem documentada. Muitos deles são nobres e políticos, e vários descendem de uma das 13 famílias que acredita-se ter sido o núcleo Illuminati. Daí essa história dos Bilderbergs como descendentes Illuminatis. Mas nenhum deles é da linhagem de Weishaupt, ou dos outros que desapareceram na Alemanha. Mas quem sabe se essa linhagem perdida não comandaria hoje uma organização ainda mais secreta que os próprios Bilderbergs, não é? — Os olhos dele brilharam outra vez — Ou um braço dentro do próprio clube? Uma espécie de Organização dentro da Organização?

Eu ri. O Hyoga realmente parecia adorar aquilo.

– Quem sabe... — E então apontei para a pintura de uma mulher bastante sóbria ao lado da "A Liberdade Guiando o Povo" de Delacroix — E quem é essa?

Eu não conseguia ler os cartões nas vitrines ao lado das pinturas porque estava escuro demais.

– Catarina de Médice. — Hyoga explicou. — Esposa do rei Henrique II. Veja, nesse retrato ela está usando a Les Larmes de Marie — Ele indicou uma tiara de diamantes que adornava a cabeça da mulher retratada -, então o rei Henrique já era falecido.

Eu levantei uma sobrancelha sem entender, e ele prosseguiu:

– Era tradição na casa real francesa que todo primogênito herdasse essa tiara para presentear aquela que seu coração escolhesse. Imagine então como se sentiu Catarina, quando o rei Henrique em vez de presenteá-la com a jóia, ofereceu-a a Diane de Portiers, sua amante, a quem nomeou guardiã das jóias da coroa francesa.

– Coitada... e o que ela fez?

Ele balançou a cabeça.

– Por algum tempo, nada. Mas depois que Henrique II morreu, ela expulsou Diane de Portiers do palácio das mulheres e conseguiu recuperar a jóia dando, então, continuidade a tradição. E hoje ela está com meu irmão.

– Com o seu irmão? — Eu pisquei confuso, e ele deu um rápido sorriso.

– Lembra a história que eu contei? Sobre o Revolução Francesa?

Eu assenti e ele continuou.

– Bem, digamos que não foi toda a corte que ignorou os avisos do governo da Baviera sobre o iminente desastre. Uma das irmãs mais novas do rei Luís, confiou nos alertas e fugiu com uma pequena comitiva para a Inglaterra, alguns dias antes de eclodir a Revolução. Meu pai é descendente direto dela. Vários anos depois, nossa família conseguiu voltar a França e recuperar parte de seu patrimônio. Incluindo algumas propriedades e jóias. Entre elas, Les Larmes de Marie, que hoje, seguindo a antiga tradição, pertenceria ao meu irmão. O legitimo herdeiro do trono.

– Minha nossa! — Agora eu entedia aquele lance do acervo particular no museu. A família dele tinha história.

– Isso, claro — Ele acrescentou. -, se ainda houvesse uma monarquia na França, o que, graças a Deus, não há. Ou o Camus estaria surtando.

Ele riu e eu o acompanhei.

– Mas, me desculpe. — Ele disse — Eu não paro de falar. Nem sei porque tive vontade de compartilhar tudo isso com você. É uma história importante pra minha família, sem dúvida, mas deve ter sido enfadonho pra você.

– Não. — Eu balancei a cabeça depressa. — Não foi enfadonho. Eu gostei.

E então perguntei: — Você se dá bem como ele, não é? Com seu irmão?

– Eu amo o meu irmão. — Não havia nenhum traço de embaraço ou vergonha adolescente na sua voz quando disse isso. — Ele foi o mais próximo que eu tive de uma figura paterna por muito tempo. Depois que minha mãe foi embora, e meu pai se enterrou em trabalho. Mas ele também pode ser bem difícil e superprotetor às vezes.

– Bem vindo ao meu mundo. — Eu sorri divertido — Só que o Ikki é superprotetor sempre.

– É, acho que eu também seria superprotetor se tivesse um irmão como você. — Ele falou, e me olhou de um jeito estranho. Intenso.

De repente, o clima havia mudado entre nós. Havia um silêncio incômodo no ar, e eu fiquei nervoso ao me dar conta de que ele estava bem mais perto do que eu tinha percebido... A menos de meio metro de mim.

Ele tinha um cheiro bom. Eu não conseguia precisar exatamente que cheiro era, mas era um cheiro leve e limpo.

Eu me senti corar outra vez e desviei o olhar.

Ele pareceu despertar e se afastou de repente, quebrando o silêncio.

– Vamos lá, então. — Disse — Ainda há muita coisa pra ver. — E, em seguida, já estava me guiando para fora da sala.

Nós passamos pela exposição de arte medieval, admiramos a pintura de São Jorge em seu valente cavalo, furando com uma lança o coração da serpente que se debatia sob as patas de sua montaria, percorremos o andar de cultura egípcia, visitamos a ala de arte oriental, e quando voltamos ao ar fresco da noite meus calcanhares estavam pulando e meu estômago, palpitando. Estava muito empolgado de estar ali.

– E então? Onde vamos agora? — Eu não conseguia evitar o entusiasmo na minha voz.

– Não vou dizer — Ele falou com um sorrisinho em provocação. — Continue andando.

Eu bufei contrariado, mas deixei passar.

Nós contornamos o museu, e descemos a Avenida das Artes, passando por bares e restaurantes. Quanto mais longe íamos, mais cheia ficava a cidade.

Hyoga falou sobre sua família. Seu irmão, seu pai, a madrasta e Afrodite. Falou também sobre Seiya, Shunrei e Shiryu.

Eu descobri que ele herdara o gosto pela leitura do irmão, que o Afrodite adorava dar apelidos para as pessoas, que o pai se tornara uma pessoa mais leve e acessível depois que começara a sair com Brigitta, a mãe do Afrodite, uma ex top model sueca, e que ele esperava que um dia o irmão encontrasse alguém que tivesse esse efeito sobre ele também.

Eu soube ainda que o Seiya era veterano dele em Comércio Exterior, que ele e a Shunrei tinham a mesma idade, e que o Shiryu veio transferido de outra faculdade há um ano, quando a turma já estava toda formada.

Ele não falou nada sobre a namorada.

Eu falei sobre minha mãe, meu pai, Yuu-chan, e o Ikki. Contei sobre como Misuki era a melhor vocalista de todas, e Hyoga disse que gostaria de ouvi-la algum dia.

Então nós passamos por um estrutura enorme, com grossas colunas que erguiam uma fachada clássica imponente e eu parei admirado.

– Meu Deus, tem atrações por todo lugar aqui. O que é isso? Nós podemos entrar?

– É o Symphony Hall — Ele falou — Um teatro com uma das melhores acústicas do mundo. E podemos entrar. Mas não hoje. Acho que está fechado hoje. Não tem nenhum espetáculo essa noite.

– Ah, sim, claro. — Eu falei sem jeito, tentado esconder meu desapontamento.

Hyoga parecia distraído.

– É sua primeira semana de aula ainda. — Ele disse — Nós temos todo o tempo do mundo pra conhecer o teatro.

"Nós". Por alguma razão senti uma reviravolta por dentro.

Não muito tempo depois entramos em uma área ainda mais turística. Lotada de restaurantes animados, lojas e hotéis. As ruas eram tão movimentadas que os carros mal conseguiam passar. Descemos pelo meio dela e através da multidão que se acotovelava.

– Onde estamos? — Eu não queria ter que fazer tantas perguntas.

– Na Back Bay Arcade,- Ele explicou — próximo ao Center Court.

– Ainda em Back Bay? — Eu falei. — Mas nós já estamos andando há...

– O que? Dez? Quinze minutos? — Ele provocou.

Eu bufei. Não estava acostumado a andar tanto.

Mas quando disse isso a ele, ele apenas riu.

– Porque o Japão é do tamanho de um ovo?! — Ele zombou.

– Porque nós temos transporte público de qualidade. — Eu corrigi emburrado. E ele riu ainda mais.

Nós viramos uma esquina, e então eu a vi. Monumental. Monstruosa. Como um pináculo prateado se erguendo contra a escuridão. A Prudential Tower. Um dos maiores arranha-céus do mundo. Eu já a vira em fotos, é claro, mas ela parecia muito mais mágica pessoalmente. Com sua superfície espelhada refletindo as luzes coloridas da cidade e a meia esfera de vidro no topo, onde ficava o observatório.

A fila na entrada já não estava tão grande aquela hora e Hyoga me arrastou pra dentro, depois de comprar os tickets. Logo estávamos parados em frente a um dos muito telescópios do Skywalk Observatory, dentro de uma gigantesca abóbada de vidro à dezenas de metros da cidade lá embaixo... E a vista era espetacular.

Centenas, milhares, zilhares de luzes coloridas erguiam-se contra o céu noturno, em ambas as margens do Charles River, tingindo com suas cores a superfície escura e espelhada das águas. Como um gigantesco navio iluminado. Um grande bolo de aniversário de luzes. De Cambridge à Chinatown, e além. Era incrível. Parecia a Disneyland. O Epcot Center. Mas muito melhor do que qualquer coisa que Walt Disney pudesse ter sonhado.

Eu expirei vagarosamente.

– É lindo! — Disse. — Obrigado por me trazer aqui. Eu não sei nem o que dizer.

– Eu prometi que te mostraria a cidade, não foi? — Eu ouvi sua voz as minhas costas e voltei o rosto.

Ele estava sorrindo. Os olhos azuis estavam brilhando e as luzes coloridas da cidades atravessavam o vidro refletindo-se no seu rosto.

– Bem vindo a Boston, Shun. Estou feliz que você tenha vindo.

***

– Agora faça um pedido. — Hyoga disse.

Ele havia me levado pra comprar sanduíches em uma lanchonete que ficava aberta até tarde depois que saímos da Prudential Tower, e agora estávamos sentados em um parque com nossos lanches, de frente a uma fonte de pedra com anjos entalhados.

– Ahm? — Eu fiz, sem entender.

Impressionante, eu tinha tanto jeito com as palavras. Eu deveria pensar em escrever poesia épica, ou jingles pra comerciais de comida de gato.

Ele sorriu, apontando pra frente.

– A fonte. Jogue uma moeda nela e faça um pedido.

– Ah, certo. Claro. — Eu deixei meu cheeseburger de lado e caminhei até a fonte, tirando uma moeda do bolso e fechando os olhos. — Então eu desejo...

– Não diga em voz alta! — Ele se precipitou na minha direção como pra impedir as palavras com o corpo e meu estômago saltou violentamente.

– Você não sabe nada sobre fazer pedidos? Você só tem um número limite na vida. Estrelas cadentes, cílios, dentes-de-leão...

– Velas de aniversário do Yoda.

Ele ignorou a lembrança com uma careta.

– Exatamente. Então você tem que aproveitar as oportunidades quando elas surgem. E dizem que se você jogar uma moeda nessa fonte e fizer um pedido, ele se realizará. Mas você não pode contar pra ninguém o que pediu senão...

– Eu terei uma morte dolorosa por envenenamento? Tiro? Pancada? Afogamento?

– Hipotermia, não afogamento. — Ele riu, aquele riso lindo de menino que ele tinha. — Mas não. O Afrodite, que é quase um especialista no assunto, disse que se alguém souber do seu pedido, ele não se realizará. Então, mantenha os olhos fechados e pense no que você quer.

Pensar no que eu queria? Eu puxei o ar, e a umidade fria das árvores encheu meus pulmões. Aquela era uma pergunta difícil.

Eu queria ir pra casa, mas tinha que admitir que estava gostando daquela noite. E se aquela fosse a única vez em toda minha vida que eu tivesse a oportunidade de conhecer Boston?

Sei que eu vivia falando que não queria estar ali, mas tinha uma parte minha — minúscula, muito pequena mesmo — que estava curiosa. Acho que se meu pai ligasse no dia seguinte e me mandasse de volta eu iria ficar decepcionado. Ainda não tinha tinha conhecido o Symphony Hall, por exemplo, ido a um jogo de baseball, ou assistido a uma das famosas maratonas de Boston.

Então o que eu queria?

Eu queria estar com meus amigos e minha família outra vez, é claro. E queria cuidar da minha mãe sempre que ela ficasse triste. Mas tinha aquela parte minha — uma parte que eu realmente, verdadeiramente, odiava -, que sabia era inútil tentar se prender ao passado. Que a maioria das coisas não durava pra sempre, e que alguém teria que ir embora um dia.

E também tinha outra coisa...

A coisa que eu estava tentando ignorar desde que conhecera o Hyoga. A coisa que eu não sabia realmente se eu queria, se eu sentia. Que eu não queria sentir.

Então, o que iria pedir? Algo que eu não tinha certeza se queria? Algo que eu sabia que não podia durar? Ou algo que eu nem sabia se queria ter?

Ah, que se danasse. Eu ia deixar os fatos decidirem.

"Eu desejo o que é melhor pra mim." Eu pensei antes de jogar a moeda na fonte. Parecia bom pra uma generalização.

Abri os olhos e o vento estava soprando mais forte ainda. Hyoga estava parado na minha frente.

Ele tirou uma mecha de cabelos dos meus olhos.

– Deve ter sido um bom pedido. — Ele disse, e eu corei outra vez.

***

No caminho de volta nós paramos pra conhecer o Fenway Park. O estádio mais antigo ainda em uso da Grande Liga de Baseball, conforme o Hyoga tinha informado.

– ...Mas quando ele foi inaugurado em 1912 — Ele estava contando -, a inauguração nem foi noticiada direito por causa das notícias do recente naufrágio do Titanic.

– Cara, isso é velho. — Eu falei, e ele riu.

O estádio era enorme. Devia caber pelo menos umas 30 mil pessoas ali dentro.

– E nós não vamos entrar? — Eu perguntei, empolgado.

Ele sorriu.

– Fechado. Bastante tempo pra conhecê-lo mais tarde, lembra?

Eu assenti, subitamente envergonhado de todo o meu entusiasmo. É claro que ele estava fechado. Que idéia idiota. Precisava encontrar alguma coisa pra desviar a atenção. Lembrei da referência ao Titanic e então comecei a cantarolar My Heart Will Go On, de abraços abertos, o vento frio da noite batendo contra o meu rosto, em uma imitação tosquíssima de Leonardo de Caprio, e Hyoga começou a gargalhar.

– Por favor, pára — Ele pediu abraçando a barriga, e gesticulando pra eu parar de cantar — ...Ou eu vou começar a falar sobre os Bilderbergs, ou conjugação verbal em francês.

Mas eu só fiz cantar ainda mais alto, e no final ele estava me acompanhando também. Nós dois rindo e cantando de braços abertos, feito dois idiotas nas ruas de Boston.

No metrô de volta a Cambridge, nós conversamos sobre música, e eu descobri que o Hyoga era aficionado por Beatles. Ele tinha várias camisetas da banda, a coleção completa em vinil arrematada em um leilão pela internet, e até um despertador de submarino amarelo.

– ...E durante os cinco primeiros minutos da primeira apresentação dos Beatles no programa de TV americano "Ed Sullivan" em 64, não houve assaltos nem homicídios nos EUA — Ele contou.

Eu ri.

– Sério? — Meu lance era mais Rock Grunge dos anos 90, mas eu curtia Beatles também.

Ele assentiu.

Estava radiante por saber coisas que eu não sabia sobre a banda. O que era ridículo, claro. Porque todo mundo sabia que o Hyoga conhecia um monte de coisas, enquanto eu tinha a sabedoria de um croissant de chocolate.

– E eles também foram os primeiros a fazer video clips de suas músicas. Estavam cansados de tocar diversas vezes em programas de TV, então decidiram gravar as músicas em vídeo e distribuir para as TVs. George Harrison disse que, de certa forma, eles inventaram a MTV. — Ele disse, e eu ri outra vez.

Já era por volta da uma da manhã quando chegamos ao campus... Rindo de alguma coisa que eu falei.

– Obrigado. — Eu agradeci, quando chegamos perto da entrada do dormitório — Foi uma noite incrível.

– Não tem de quê. — ele sorriu.

Eu mudei o peso de um pé pra o outro, esperando que ele dissesse mais alguma coisa pra que eu não precisasse sair dali. Por algum motivo, não queria que aquela noite acabasse.

Ele continuou calado.

O vento começou a soprar ainda mais forte e aquele silêncio incômodo se instalou entre nós outra vez.

Eu respirei fundo. Estava me preparando pra me despedir de novo quando notei a direção do olhar dele pra mim.

– O quê? — Eu perguntei. — Tem picles no meu dente? — Eu passei o indicador pelos dentes. — Onde? Saiu?

– Não tem picles no seu dente. — Ele riu, e eu fiquei nervoso de novo ao notar que nós estávamos próximos demais um do outro. Aquele cheiro leve e limpo que ele tinha, atingindo em cheio minhas narinas.

Eu prendi o fôlego.

De repente, dava graças a Deus pelo ar frio da noite que aliviava um pouco minhas bochechas quentes.

Ele abriu a boca pra dizer mais alguma coisa, e então parou com o olhar petrificado em alguma coisa atrás da minha cabeça.

Eu me virei pra olhar.

Era uma garota. Eu não conhecia. Ela era uns três dedos mais alta do que eu e seu cabelo loiro e comprido faziam uma combinação incrível com a pele pálida e os olhos verdes. Estava usando um vestido curto prata que brilhava sob as luzes da lâmpada e um sobretudo de couro preto. Suas botas de salto alto estalavam e clicavam nas pedras do pátio. Ela estava vindo da direção do nosso dormitório, e estava olhando pra trás com expressão desconfiada. Então avistou Hyoga, e todo o seu semblante pareceu se iluminar.

Eu senti meu estômago se encolher. Só podia ser ela.

A garota começou a correr, lançando-se nos braços de Hyoga. Eles se beijaram e ela enlaçou os dedos no cabelo dele. No cabelo lindo e perfeito dele. Meu estômago se encolheu mais um pouco, e eu desviei o olhar pra não ver o espetáculo.

Eles se afastaram e ela começou a falar. Sua voz era surpreendentemente baixa — sensual -, mas ela falava rápido.

– Sei que não íamos nos ver essa noite, mas eu estava por perto e pensei que talvez você quisesse ir àquela boate que eu te falei. Sabe, aquela que o Hagen recomendou? Mas você não estava, então encontrei a Shunrei e fiquei conversando com ela por umas duas horas. Onde você estava? liguei no seu celular quatro vezes, mas foi direto para a caixa postal.

Hyoga parecia desorientado.

– Hum..., Freya, este é o Shun. Ele não saía do dormitório fazia uma semana, então eu pensei em mostrar a cidade...

Para meu espanto, Freya abriu um largo sorriso. Estranhamente percebi que, apesar da voz sensual e das roupas sofisticadas, ela era tipo... normal. Simpática.

O que não queria dizer que eu ia gostar dela, necessariamente.

– Shun! Calouro, né? Aonde vocês foram?

Espera, ela sabia quem eu era? Hyoga descreveu nossa noite, enquanto eu apenas contemplava aquele estranho desenrolar. Hyoga havia falado de mim pra ela? Ou fora a Shunrei? De qualquer forma, ela não parecia se importar de o namorado desligar o celular e sair pela noite com um amigo sem ela.

Devia ser ótimo ter esse tipo de confiança.

– Ok, querido. — Ela o interrompeu. — Você pode me contar o resto depois. Você está pronto pra ir?

Ele havia dito que iria com ela? Eu não me lembrava dessa parte, mas ele concordou com a cabeça.

– Só me deixa pegar meu... hum... — Ele olhou pra mim, depois pra entrada do nosso dormitório.

– O quê? Você já está vestido pra sair. Você está ótimo. Vamos. — Ela puxou o braço dele, enganchando-o ao seu. — Foi um prazer te conhecer, Shun.

– Sim. — Eu falei. Finalmente tinha encontrado minha voz. — Prazer em conhecê-la também.

Então me virei para Hyoga outra vez mas ele mal me olhou. Tudo bem. Não tinha importância... O que quer que aquilo fosse. Abri pra ele meu melhor sorriso de 'eu-não-estou-nem-aí-para-o-que-você-faz', e dei um animado 'tchau'.

Ele não reagiu. Certo. Era hora de ir. Saí como um raio para o prédio escuro e peguei minha chave. Mas, quando destranquei a porta, não consegui evitar olhar mais uma vez pra ele e Freya caminhando na escuridão, ela ainda falando.

Dali vi Hyoga se voltar pra mim uma última vez. Só por um momento.


Nota:

Excptuando-se a tiara Las Lermes de Marie de Catariana de Médice, criada por mim em Aprendendo a Seduzir, todos os pontos turísticos, livros, autores, informações históricas e teorias aqui apresentadas são reais.

Fontes:

http://thoth3126.com.br/historia-dos-illuminati-e-da-nova-ordem-mundial-nwo/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Illuminati_nas_teorias_de_conspiração

Livro que o Hyoga cita: A Verdadeira Historia do Clube Bilderberg de Daniel Estulin. Lançado recentemente no Brasil pela editora Planeta do Brasil.

Imagem de 'A Liberdade Guiando o Povo' de Delacroix:

Notas finais
Oie, aqui está mais um ch pra vcs. E desde já peço desculpa pela demora na postagem e pelas respostas nas reviews. Na verdade, esse ch já estava pronto, faltando só umas revisõezinhas, mas eu estive afastada do pc por motivos médicos desde o carnaval. Tive uma crise de sinusite que culminou em labirintite e não conseguia fazer nada, tudo rodava, Não conseguia ler, nem ficar no pc, nem me olhar no espelho ou ver filme com legendas. Um saco. Acho que nunca vi tanto programa inútil na TV u.u. Mas agora estou de volta, infelizmente fiquei sem ch prontos de reserva, pq não consegui trabalhar em nada na minha crise. Então vou ter que voltar ao velho esquema do escrever e postar, que eu não queria, porque sempre acontecem imprevistos que nos fazem atrasar u.u... mas enfim... Sobre o ch, espero que gostem da noite de turismo de Hyoga e Shun XD. E acho que deu pra conhecer um pouquinho melhor o Oga aqui, né. Como bom aquariano ele adora teorias malucas, e vive com a cabeça cheia de idéias XD. Como o Camus ele tb adora ler, e tem uma capacidade incrível de reter informações, mas diferente do Camus, em vez de guardar as coisas pra si, ele sai tagarelando XDD. Claro, só quando ele se sente confortável com a pessoa. E, como eu disse antes, nenhuma das informações, fora a coisa com a tiara, por mais incríveis que sejam, foram inventadas, ao menos não inventadas por mim XD. São todas teorias que realmente existem. E os livros e autores citados tb são reais ˆˆ. E, por fim, tivemos finalmente Freya dando as caras, né. Tristinho esse final, depois de uma noite tão lagal u.u. Mas e aí? Que impressão tiveram dela? Enfim, espero que gostem, e muito, muito obrigada mais uma vez ao todos que acompanham e a: Brunaryu, Hime Sama, Lilith Rose, Tutfrut, dihh alves, Litha_chan e MandyRed, pelas lindas reviews e favoritações. Bjos