O Garoto Do Andar de Cima
30 Capítulo 23 - Lost in Translation
Shun POV
Havia um tempo pra sofrer sozinho, um tempo pra aceitar ajuda, e um tempo pra se curar. Um mês e meio depois do sumiço do Hyoga, eu já não sentia mais raiva. Também não chorava mais. Meu coração ainda doía, mas não tinha mais aquele desespero louco. Simplesmente me sentia vazio e sem valor.
Eu não era bom o bastante pra ele. Não era bom o bastante pra ninguém.
Era melhor aceitar os fatos. Hyoga fora o único que me despertara algum tipo de paixão. E ele não estava mais interessado. O que provavelmente significava que eu morreria sozinho, e virgem.
Não que eu não estivesse acostumado a ficar sozinho, claro. Como poderia, se era isso que vinha acontecendo a minha vida toda? Quer dizer, não era como se eu tivesse tido uma namorada o tempo todo como ele, afinal.
Mesmo assim, eu meio que esperava que quando eu de fato gostasse de alguém, essa pessoa fosse gostar de mim de volta, sabe.
Ou, se não fosse o caso, que ela ao menos não desaparecesse sem dar satisfação. Nós ainda deveríamos ser amigos pelo menos, afinal, não é? Talvez isso fosse o que me magoasse mais.
— E então? — A voz da Misuki saída pelas caixas de som do meu computador interrompeu meus pensamentos. — Você vai ou não continuar a ler o livro?
Eu estava ajudando ela com seu trabalho de literatura estrangeira.
— Tenho que achar onde eu estava. — Eu falei, enquanto tentava focar o olhar novamente nas paginas na tela à minha frente.
Tratava-se de uma romance histórico inglês que o professor dela lhe pedira que resenhasse. Misuki tinha dificuldades com o inglês antigo e minha ajuda consistia em narrar a história em japonês pra que ela tomasse notas do outro lado
— Acho que a Srta. Butterworth estava subindo o morro aos tropeços. — Ela disse.
Eu procurei pela página tentando encontrar a Srta. Butterworth e o morro correto, mas havia mais de um e ela subia vários deles ao tropeços.
— Ah, aqui está. — Eu disse quando encontrei a passagem certa. — “A Srta. Butterworth subiu o morro aos tropeços em direção aos penhascos…"
— Ainda os penhascos? — Misuki me interrompeu — Ela não estava correndo para os penhascos no fim do último capítulo?
Eu dei de ombros.
— Talvez o caminho fosse longo. — Eu falei.
Por algum motivo a A Srta. Butterworth estava sempre correndo em direção aos penhascos para chorar seu coração partido.
Engraçado, por mais que eu me sentisse horrível com o desprezo do Hyoga, os penhascos nunca me pareceram uma opção. Nem a ponte do Brooklin.
— “A Srta. Butterworth subiu o morro aos tropeços em direção aos penhascos…”— Eu retomei a leitura. — “… seus dedos se enterrando mais profundamente na terra a cada passo dado."
— Dedos podem dar passos? — Misuki interrompeu outra vez.
— Podem, sim, neste livro. — Eu afirmei. Ela fez um som de assentimento e eu fui em frente. — “Então ela se recordou do conselho que lhe fora dado pela mãe, antes que a abençoada mulher partisse para a sua salvação, bicada até a morte por pombos…"
— Isso não pode ser real! — Misuki interrompeu de novo indignada. — Você deve ter lido errado. Quem morreria dessa forma?
— Não. Infelizmente está bem aqui, na página 193. — Eu falei segurando o riso.
Ela bufou.
— Argh! Continue.
— Certo. “…Partisse para sua salvação bicada até a morte por pombos”.— Eu comecei outra vez de forma pomposa… E então caí na risada. — Sério, não dá. Eu não consigo ler isso sem rir.
— Eu não acredito que eu tenho que fazer uma resenha sobre isso. — Misuki lamentou.
Eu ri mais um pouco, então inspirei diversas vezes pra recuperar o controle antes de retomar:
— "Ela só tinha 12 anos na época, cedo demais para uma conversa do tipo, mas talvez a mãe tivesse previsto a morte precoce…" — Eu li, e parei aos risos novamente. — Me desculpe… — Eu falei sem fôlego — Mas como alguém poderia prever uma coisa dessas?
— Vai ver a mãe da Srta. Butterworth tinha algum tipo de conexão mental oculta com pombos assassinos. — Misuki disse, e nós rimos ainda mais.
Pelo menos a vida "incrivelmente perigosa" de Lady Butterworth vinha servindo pra me distrair um pouco da minha própria.
— “A mãe agarrara sua mão… " — Eu continuei quando conseguimos ficar sérios outra vez — “…e, com olhos melancólicos e solitários dissera: ‘Minha queridíssima filha, não há nada de mais precioso neste mundo do que o amor."
Eu esperei por uma nova manifestação de riso ou repulsa da minha amiga, mas pra minha supresa ela parecia estar prestando atenção agora.
Concentrando-me na tela novamente, eu prossegui.
— “Mas há enganadores, querida. Você vai precisar confiar nos seus próprios instintos. Eu, no entanto, vou lhe dar um conselho. Guarde-o em seu coração e lembre-se sempre dele, pois juro que é verdade."
Eu subi a página na tela, um pouco envergonhado ao notar que estava ficando interessado na história.
— “'Só há uma forma de saber se um cavalheiro a ama.' Sussurrou a mãe. 'Pelo beijo dele. Está tudo ali, no beijo dele.'"
Eu inconscientemente me peguei levando uma mão aos lábios.
Pelo beijo dele? Seria verdade?
Eu me lembrei das vezes em que Hyoga me beijara.
A sensação dos lábios dele nos meus, o deslizar aveludado das línguas, suas mãos no meu corpo…
Eu mordi o lábio, sentindo-me esquentar com a lembrança.
Certamente fora tudo muito erótico e intenso. Mas não fora só isso. O beijo também me fizera sentir… diferente. Seguro. Bonito. E… único. Único no mundo todo.
Havia uma sensação de loucura, completude e pertencimento.
O beijo dele me despertara pra vida.
Eu pisquei confuso.
— O que isso significa? — Eu sussurrei pra mim mesmo.
— O que? — Misuki perguntou do outro lado, quase me fazendo saltar da cadeira.
— Nada. — Eu balancei a cabeça depressa para afastar aquele pensamento. Não acreditava que estava mesmo ponderando os dogmas intelectuais expostos pela mamãe Butterworth. Sinceramente.
Ela suspirou frustrada.
— Sério, Shun, você simplesmente não tem sido você mesmo nos últimos tempos, sabe? Eu não queria tocar no assunto, porque se você quisesse já o teria feito. Mas conversar às vezes ajuda.
Só que conversar não era uma coisa que eu desejasse fazer no momento.
Eu mordi o lábio.
— Não é nada — Eu falei — Eu estou bem.
Ela hesitou por um momento, então soltou um riso de deboche.
— Você continua mentindo muito mal, Shu-Shu.
Eu pisquei surpreso, então acabei rindo também. Porque a quem eu estava querendo enganar? Era a Misuki ali. Nós praticamente tínhamos nascido juntos.
— Certo. — Eu cedi. — Posso não estar bem no momento, mas vou ficar, prometo.
***
Na semana seguinte eu tinha terminado minha última remessa de filmes e voltei à locadora para devolvê-los.
Depois de tantos vídeos acabara fazendo amizade com Kelly e Brandon.
Eles eram mesmo um casal, afinal. Engraçado, podia jurar que se odiavam, mas não.
Na segunda feira passada tomara coragem de perguntar sobre o episódio com a faca de pão — tinha ficado curioso -, e Kelly dissera que eles tinham transado, depois brigaram, e Brandon ficou deitado no sofá, sem calças.
— No sofá de quem? — Eu havia perguntado.
— Dos meus pais. — Ela respondeu.
— E onde eles estavam?
— Na poltrona ao lado, assistindo a Warner. — Ela respondeu displicente e eu arregalei os olhos surpreso.
— Jura?
Ela riu.
— Te peguei! Não. Estavam lá em cima, na cama, dormindo. Onde mais? Dificilmente eu estaria transando se estivessem na sala. Se me pegassem, meu pai matava o Brandon. Voltando, — Ela continuou — peguei a faca na cozinha, de brincadeira, e fingi que ia cortar o pinto do Brandon fora, mas tropecei quando entrei na sala e, acidentalmente, cortei uma lasquinha. Uma lasquinha. Ele ficou alucinado. Disse que ia sangrar até morrer, ia gangrenar e perder o pinto, queria chamar uma ambulância. Eu não conseguia parar de rir. Coloquei um band-aid da Barbie nele. Meu Deus, foi hilário.
— Pensando agora acho que deve ter sido mesmo — Brandon dissera rindo, e eu não pude evitar invejar a felicidade descomplicada dos dois.
Queria conversar com o casal outra vez, mas a loja estava lotada naquela Quarta. Me senti estranhamente chateado com a presença daqueles intrusos. Como se a loja me pertencesse ou algo assim.
Brandon estava distraído com os fregueses mas me recomendou Os Bons Companheiros. Eu conhecia Os Bons Companheiros, era um filme legal. Muita violência, mas não existia vingança como aquela.
Como meu sentimento de vingança havia esmorecido, no entanto, resolvi optar por outra coisa.
Kelly me sugeriu um festival Sofia Copolla que estava acontecendo em um cinema na Avenida das Américas, próximo ao Washington Square Park.
Eu já tinha visto quase todos os filmes dela, mas como adorava Sofia Copolla achei que uma reprise podia ser uma boa idéia.
Já estava quase na porta de saída quando ouvi a voz da Kelly outra vez.
— Ah, Shun, eu já ia me esquecendo, você tem um admirador.
Eu pisquei.
— Um admirador?
— É. — Ela assentiu. — Meu amigo Jake. — Seus olhos apontaram para um canto da loja. Eu segui a direção do olhar e me deparei com um moreno de cabelo espetado e olhos claros olhando discretamente na nossa direção.
Ele era bem bonito. O tipo de cara que fazia as pessoas pararem pra olhar.
— Sério? — Eu falei surpreso. Quer dizer, o cara poderia ficar com qualquer garota, por que estaria interessado em mim?
Ela deu de ombros.
— Bem, você é um garoto, e ele gosta de garotos. Além disso, já pegou todo mundo da rua e você é carne nova.
Eu balancei a cabeça. Realmente, se você tiver alguma coisa pra vender, não deixe nas mãos da Kelly.
— E então? — Ela continuou — O que eu digo pra ele?
O que ela dizia pra ele? Eu bufei exasperado. A gente tinha voltado pro primário, agora? Minha amiga está afim do seu amigo?
Mas assim como veio a indignação foi embora.
— Nada — Eu falei simplesmente. — Eu não estou interessado.
E realmente não estava. Nem pelo garoto bonito. Nem por qualquer outra pessoa.
Definitivamente virgem. Eu pensei outra vez.
Um tiozão solitário e virgem. Esse era o futuro sombrio que eu enxergava pra mim.
Eu nunca teria a experiência de passar parte da minha vida ao lado do Hyoga. Jamais chegaria a fazer amor com ele até as últimas consequências. E provavelmente não o faria com mais ninguém.
***
Estavam exibindo Lost in Translation no festival Sofia Copolla aquela tarde, eu descobri. A sessão estava meio vazia e eu comprei meu ingresso sem ter que enfrentar fila. Depois deslizei para uma das poltronas nos fundos da sala.
Era a primeira vez que assistia aquele filme desde que me mudara para a América, e as semelhanças entre a história e minha vida não puderam passar desapercebidas por mim.
O filme falava sobre dois americanos, um homem de meia-idade e uma jovem mulher, que estavam sozinhos em Tóquio. Eles estavam se esforçando pra entender o que acontecia à volta deles, para se habituar a sua nova realidade, mas também estavam se esforçando para entender seus relacionamentos que pareciam estar ruindo. E então eles se encontravam e tinham um novo obstáculo pra enfrentar: a atração crescente que sentiam um pelo outro quando sabiam que tal relacionamento era impossível.
O enredo falava sobre isolamento e solidão, mas também sobre amizade. Em ser exatamente aquilo de que a outra pessoa precisava em um determinado momento. Em uma parte a garota pergunta ao cara: “Fica mais fácil?” A primeira resposta dele é "não", e então "sim", e depois ele diz: “Fica mais fácil". Logo em seguida acrescenta: "Quanto mais você sabe quem você é e o que quer, menos você deixa que as coisas te chateiem."
Quando o filme terminou, resolvi entrar em uma cafeteria e pedir um chocolate. Estava voltando do balcão com a minha xícara, distraído contando os cubos de marshmallow, quando quase tropecei em uma garota no caminho.
Eu ergui os olhos surpreso com o encontrão, e quase joguei tudo no chão.
Freya?
A garota em quem eu tropeçara era a Freya?
Cara, New York era mesmo uma ilha.
Nós ficamos nos olhando por um tempo, segurando nossas xícaras, até que ela sorriu.
— Ei! — Ela cumprimentou.
Estava vestindo um jeans básico, botas de montaria, e suéter. O rosto estava sem maquiagem e os cabelos loiros caiam soltos pelos ombros. E mesmo naquele estilo casual ela ainda era bonita.
Sério, de todas as pessoas no mundo que eu poderia encontrar, porque tinha que ser logo ela?
Eu mordi o lábio, constrangido.
— Ah… oi. — Eu falei. Então emendei depressa. — Quer dizer, me desculpa. Eu… Sinto muito.
Ela ponderou por um tempo, então disse:
— Tudo bem. Eu que fui idiota. Eu não tinha o direito que ter feito aquela cena na boate. Foi constrangedor.
Eu pisquei surpreso pelo modo como ela tinha conduzido a conversa. Quer dizer, eu não estava me desculpando por aquilo, mas pelo tropeção. Embora eu certamente devesse me desculpar.
— Não é verdade. — Eu acabei falando com um suspiro. — Eu achava que vocês estavam juntos, e o beijei mesmo assim. Isso não foi certo.
Nós nos avaliamos outra vez, e, no final, acabamos sentados em uma mesa com nossos chocolates.
Ela girou um anel de ouro brilhante no dedo.
— Realmente, não foi. — ela disse. — Mas a forma como eu agi não foi certa também. Eu sabia como vocês se sentiam em relação um ao outro. Todos sabiam.
Eu pisquei.
— Todos… sabiam?
Ela apenas sorriu como se aquilo fosse uma coisa óbvia antes de continuar.
— Eu não queria aceitar, sabe. — Ela falou — Quer dizer, eu sabia que o Hyoga e eu tínhamos problemas, que a nossa relação vinha desmoronando, mas ainda tinha aquela estúpida esperança… — Ela deixou que as palavras morressem em seus lábios com um suspiro, e tomou um gole da sua bebida, antes de continuar.
Eu mexi meu chocolate quente. Estava tão grosso que parecia um molho. Do jeito que eu gostava.
— Nós saíamos o tempo todo antes, — ela recomeçou — mas depois que você chegou as desculpas ficaram cada vez mais frequentes. E mesmo quando estávamos juntos ele estava sempre distante. Como se apenas seu corpo estivesse ali. Eu quis acreditar que fosse por causa da faculdade. Porque nós não estávamos mais estudando juntos e tudo o mais. Mas, mesmo enquanto eu só tinha dúvidas, no fundo já sabia que ele te amava. Soube a primeira vez que o vi olhar pra você aquela noite no campus. Soube pela maneira como ele sorria quando falava de você… E ele falava de você o tempo todo. — Ela sorriu. — Acho que não conseguia evitar. E, depois, quando eu vi vocês dois juntos no hospital, eu soube que aquele sentimento não era apenas da parte dele. Eu soube que você o amava também… E ainda assim eu ignorei tudo isso.
Ela respirou fundo outra vez, e levou alguns minutos antes de continuar.
— Eu havia construído toda uma vida pra nós dois na minha cabeça. Filhos, casa, cachorro, e todo o resto. E então você simplesmente apareceu e estragou tudo. Pelo menos era assim eu via as coisas na época. — Ela suspirou. Depois sorriu outra vez de forma amarga — Eu te odiei muito por isso, sabia? E odiei o Hyoga também. Eu tive crises de ciúme, briguei com ele, abandonei nossos amigos, mudei minha forma de me vestir pra provocá-lo, e fiz da nossa vida juntos um inferno. Eu culpava você, culpava meus amigos, culpava o mundo todo. Na minha cabeça você havia me roubado não apenas o namorado, mas meus amigos, minha vida. — Ela tomou outro gole da sua bebida — Eu só não conseguia aceitar que a minha relação com o Hyoga se fora. Eu estava cega de ciúme e raiva, e te culpava por roubar minha melhor amiga, quando fui eu que me afastei dela. Te culpava por roubar meu namorado, quando era eu que o afastava cada vez mais com o meu próprio comportamento… Aos poucos o Hyoga parou de me procurar. Depois, sequer atendia às minhas chamadas. E tudo o que eu conseguia fazer era culpá-lo ainda mais, acusando-o de traição, e o julgando por ter se apaixonado por outra pessoa.
Ela fez outra pausa, e eu apenas esperei em silêncio bebericando meu chocolate.
— Mesmo depois que ele terminou comigo, eu ainda não conseguia aceitar. — Ela prosseguiu. — Eu achava que poderia reconquistá-lo e o perseguia por toda parte. Eu o persegui até a boate naquela noite. Dei um jeito de arrancar da Shunrei a informação de onde ele ia estar e fui até lá. Ela não sabia que nós tínhamos terminado, é claro. — Ela balançou a cabeça como se não conseguisse acreditar no próprio comportamento — Não sei o que eu estava pensando… Eu acreditava que fazia essas coisas porque o amava, mas não. Eu só não queria aceitar perder. Eu sempre tive uma personalidade muito competitiva, sabe. E me comportei de um maneira horrível. Sei disso hoje. Assim como sei que não foi sua culpa, nem do Hyoga tampouco. Quer dizer, vocês estavam lá, e a atração estava lá… — Ela girou o anel no dedo outra vez — Esse não é o tipo de coisa que se possa controlar. Sei disso agora. Eu estive culpando o Hyoga por um sentimento que estava além do seu controle. — Ela suspirou pesarosa, depois sorriu de maneira charmosa — O amor é mesmo uma coisa complicada, não é?!
Eu suspirei também. A cabeça girando com tudo aquilo. Queria sorrir de volta, mas de alguma forma não consegui. A dor aumentava outra vez dentro de mim.
— Na verdade, não sei se ele me ama. — Acabei desabafando, enquanto encarava minhas mãos sobre a mesa — Ou se alguma vez já amou. Está tudo uma bagunça agora.
Ela assentiu ponderando por um tempo antes de responder.
— Eu soube que ele está em Paris. Não sei o que foi fazer lá, ou o que está acontecendo entre vocês, mas, o que quer que seja, a resposta sempre esteve muito clara pra mim.
— Esteve? — Eu olhei pra ela outra vez.
Ela confirmou com um gesto de cabeça.
— Ele nunca te disse nada? Sobre como se sentia? Nunca te deu nenhuma pista?
Eu lembrei daquele dia no hospital e hesitei sobre como devia responder. Resolvi ser sincero novamente.
— Ele falou uma vez. No hospital, logo depois que sofreu o acidente. Ele disse… Disse que gostava de mim… mais do que como um amigo. Mas ele estava dopado, eu não… — Eu balancei a cabeça. — Não sei. Só é confuso demais.
— Não é confuso. — Ela afirmou — Você não percebe? Não vê a forma como os olhos dele brilham quando olha pra você? Seus olhos nunca brilharam dessa maneira por minha causa.
Havia uma pontada de tristeza na sua voz agora, e eu senti a culpa se avolumar novamente.
— Eu… sinto muito. — Eu falei — Eu não queria ter ficado entre vocês.
Ela fez um gesto de desprezo com a mão.
— Tudo bem. Eu te devo desculpas também. E tudo isso serviu pra me fazer colocar as coisas em perspectiva. Eu também estou com uma pessoa especial agora — Ela sorriu e seus olhos se desviaram para uma mesa aos fundos onde um rapaz loiro e alto, folheava uma revista, e lançava olhadelas na nossa direção. — O nome dele é Hagen. Nós nos conhecemos no estágio. Ele sempre esteve ao meu lado, sabe. Mas eu estava tão presa no que achava que tinha com o Hyoga, que não conseguia enxergar.
O rapaz sorriu e acenou ao se perceber observado. Freya acenou de volta. Formavam um belo casal, eu pensei.
Então ela se voltou para mim outra vez.
— Por que vocês dois ainda não estão juntos?
A objetividade da pergunta dela me pegou de supresa, me deixando confuso.
Eu encolhi os ombros desanimado.
— Não sei. — Eu falei com um suspiro — Às vezes penso que há tão poucas oportunidades de se encontrar alguém que se goste de verdade. E nós estragamos tudo tantas vezes… — Eu mordi o lábio — Que simplesmente perdemos a nossa chance.
Ela fez uma pausa. Então bufou.
— Essa foi a coisa mais idiota que eu já escutei.
Eu arregalei os olhos surpreso.
— Você o ama, e ele ama você. — Ela continuou — E vocês têm uma vida inteira pela frente pra serem felizes. Estão esperando o quê?
Eu balancei a cabeça.
— Não é tão simples.
Ela suspirou pacientemente. Depois tomou o último gole da sua xícara, e se levantou da mesa.
— Então me deixe colocar as coisas de outra forma. Um garoto lindo, inteligente e divertido está apaixonado por você, e você não vai nem tentar fazer dar certo?
***
Eu saí do interior aquecido da cafeteria para o frio lá fora com a cabeça fervilhando de mau-entendidos.
Eu fizera uma idéia tão errada sobre a Freya.
Ela era uma garota legal, na verdade. E, de fato, se fosse parar pra pensar, isso deveria ser bem óbvio. Quer dizer, Hyoga não teria namorado ela, nem ela seria a melhor amiga da Shunrei se não fosse.
Provavelmente se tivéssemos nos conhecido sob outras circunstâncias poderíamos ter sido bons amigos também. Meu ciúme, no entanto, me fizera distorcer tudo. Eu a julgara tão mal! No final, ela tinha sido só um garota confusa, que, como todo mundo, cometera erros.
Eu não podia culpá-la por acreditar que amava o Hyoga, ou por querer lutar pelo relacionamento deles.
A questão era: O que mais eu andara distorcendo? Quantas outras coisas vinha interpretando errado?
Me lembrei de uma das últimas aulas de francês que tivéramos aquele ano na faculdade. Nós estávamos discutindo sobre os aspectos técnicos da tradução, e Professeur Leon dissera que era função do tradutor determinar a definição que o autor quis dar à palavra.
“Há múltiplos significados a serem encontrados em qualquer palavra…,” Ele explicara “…em qualquer sentença, em qualquer situação. O tradutor, não importa quão fiel ele acredite que esteja sendo ao texto, ainda traz suas experiências pessoais e opiniões para as decisões que toma. Talvez não o faça conscientemente, mas, a todo momento uma escolha tem que ser feita entre um significado de uma palavra ou outro, o tradutor determina qual usar baseado no que ele acredita estar correto, baseado na sua história pessoal sobre o tema“
"Baseado na sua história pessoal sobre o tema", eu pensei. Como, porque Hyoga sempre voltava para a Freya no final, eu presumira que fizera a mesma coisa naquela vez, após ter me beijado no quarto dele. E depois, novamente, na boate.
Seria possível que eu estivesse interpretando mal as atitudes dele outra vez? Que houvesse um bom motivo pra ele ter se afastado daquela forma? Que no final o Hyoga… me amasse?
Primeiro eu achara que sim, depois estivera certo que não, agora já não tinha certeza de nada. Eu passara os últimos meses sufocado em luxúria e dor, êxtase e traição, e só ficava cada vez mais difícil ver a verdade.
Eu toquei meus lábios outra vez, lembrando das palavras da mamãe Butterworth.
O beijo dele… completude, calor, loucura, pertencimento.
O que aquilo queria dizer?
Então balancei a cabeça. Era tudo tão complicado.
Hyoga e eu passáramos o ano nadando em um mar de mau-entendidos, e, em algum ponto, como no filme de Sofia Copolla, havíamos nos perdido nas nossas próprias traduções da realidade, nos afundando em incertezas.
Eu suspirei observando duas crianças que construíam um boneco de neve no jardim do Washington Square Park.
Pela segunda vez invejei aquela felicidade descomplicada
Quantas vezes nossas emoções podiam estar presas a alguém — serem presas, retorcidas, e apertadas — antes que se rompessem? Antes que não pudessem mais se reparar?
E então, quando eu já não esperava por mais nada, o alerta de mensagem do meu celular chamou minha atenção. Eu olhei no visor, e tive que me equilibrar depressa pra não cair de bunda na neve…
Porque depois de quase um mês e meio sem notícia alguma, lá estava, piscando na minha tela, uma mensagem do Hyoga.
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