O Garoto Do Andar de Cima
21 Capítulo 20 - Merry Christmas
Shun POV
Eu não conseguia engolir. Minha garganta estava fechada. Não só eu tinha sido pego beijando alguém que eu não tinha o direito de beijar, como ele me rejeitou. Pela segunda vez.
Na frente de todo mundo.
Havia uma mão segurando a minha. Como e em um sonho eu segui seu pulso, o braço, uma tatuagem de dragão, ombro, o pescoço, seu rosto. Shiryu.
Ele e Shunrei estavam sentados comigo em um sofá afastado, me ajudando a suportar. Minhas bochechas estavam molhadas, embora eu não lembrasse de quando havia começado a chorar.
Meus amigos apenas se mantinham em silêncio me deixando chorar sobre o que acontecera. Sobre como eu não sabia como aquilo tinha acontecido, e como eu não queria ter perdido o controle daquele jeito, sobre como eu era idiota, sobre como Hyoga era idiota, e que o fato de eu estar bêbado como um gambá não era uma desculpa aceitável, porque o que eu havia feito fora péssimo. E que o Hyoga estava certo de fugir pra longe de alguém como eu, porque eu era tão horrível. O pior.
— Shun. Shun. — Shiryu me interrompeu — Se eu ganhasse um dólar por cada coisa estúpida que eu já fiz, poderia comprar a Mona Lisa. Você vai ficar bem. Vocês dois vão ficar bem.
Eu balancei a cabeça em negação.
— Não. Eu arruinei tudo. — Eu engoli um soluço.
Shunrei franziu o cenho, cruzando os braços.
— Seus lábios não eram os únicos trabalhando lá, sabe! — Ela disse.
Eu funguei e enxuguei os olhos com as costas da mão.
— Mas a culpa foi minha. Se eu não tivesse insistido… — Eu deixei as palavras morrerem na minha boca.
Como eu pude deixar que isso acontecesse outra vez? Nós devíamos ser amigos. Ele tinha uma namorada. E ambos tínhamos uma amiga que era amiga dessa namorada.
— Bem, o Hyoga não me pareceu particularmente contrariado ali. Na verdade ele estava bastante animado pelo que eu consegui ver — O Shiryu falou e eu senti meu rosto esquentar outra vez com a humilhação. Ah, droga!
Eu mordi o lábio.
— Mas o que eu fiz foi muito ruim de qualquer forma. Eu estraguei tudo.
— Você não estragou tudo. — Shunrei falou — Mas o que vocês fizeram foi bem ruim sim. Quanto você e o Hyoga beberam exatamente? Vocês praticamente transaram no meio de todo mundo.
Eu pisquei. Nós transamos?
Então as lembranças do que nós havíamos feito invadiram minha mente. Nossos lábios se tocando. Sua língua dentro da minha boca. Seu cheiro, o gosto. O toque dele na minha pele. A sensação dos seus lábios nos meus mamilos. Nosso quadris se encontrando, o calor, o frenesi, a ânsia.
Eu achava que compreendia o desejo: uma atração, uma corrente magnética que unia duas pessoas. Achava que sabia o que era luxúria: uma fome intensa, um anseio forte. Passara noites febris depois daquele nosso primeiro beijo sonhando com ele, e dias inquietos pensando nele. Chamara isso de desejo.
Só pra descobrir agora que eu não entendia nada.
O desejo não era apenas uma corrente magnética, uma anseio forte. Era um redemoinho quente e negro que nos rasgava de uma ponta a outra, em uma velocidade vertiginosa, e nos arrastava rumo a perdição, abaixo de qualquer intelecto, da vontade e do pudor.
Então um pensamento terrível me assaltou.
— Ah, droga — Eu praguejei — O Ikki…?
— Estava bastante ocupado no camarote, não se preocupe. — Shunrei me acalmou. — Realmente, no que você e o Hyoga estavam pensando?
Eu balancei a cabeça.
— Nós não estávamos pensando. Esse foi o problema. — Eu suspirei — E agora o Hyoga provavelmente me odeia porque eu estraguei o namoro dele.
Um sorriso brotou no canto dos lábios do Shiryu.
— Hyoga definitivamente não odeia você.
Eu pisquei.
— O que você quer dizer?
Seu sorriso se ampliou um pouco mais.
— Você sabe o que eu quero dizer. Ele não parecia te odiar há alguns minutos atrás. E vocês dois são inseparáveis, não são?.
Eu corei e desviei os olhos antes de responder.
— É. — Eu falei — Exceto quando ele está com a namorada dele.
— Exato. — Shunrei falou — Então o que está rolando? Digo, qual é exatamente o lance entre vocês?
Eu hesitei. Depois encolhi os ombros, e suspirei resignado.
— Não sei. — Eu abaixei os olhos pra minhas mãos ocupadas naquele momento em esmagar uma almofada sobre o meu colo.
Ela me olhou pensativa.
— Mas vocês já... sabe... fizeram algo mais? Antes disso?
— Não! — Eu protestei, sentindo meu rosto queimar.
Ela soltou o ar.
— Certo. Mas você gosta dele. E ele gosta de você.
Eu parei de enfocar a almofada.
— Você acha? — Eu olhei pra ela outra vez.
Shiryu estalou a língua ao meu lado.
— Por favor. O cara tem uma ereção toda vez que você entra em um ambiente.
Meus olhos se arregalaram de novo. Ele queria dizer isso figurativamente ou ele realmente tinha visto alguma coisa?
“Não. Pare de pensar bobagens, Shun. Concentre-se.”
— Então… Vocês realmente acham que ele gosta de mim? — Eu não conseguia me conter. Eu tinha que ter certeza.
Shunrei suspirou.
— Shunny, ele não teria feito o que fez se não gostasse de você. E ele te provoca o tempo todo. E quando alguém, ainda que remotamente, faz isso, ele sempre te defende e diz para a pessoa ficar na dela.
— Huh. — Eu refleti sobre isso.
Ela fez uma pausa.
— Você está apaixonado por ele, não está?
— N-não. — Eu gaguejei. — Não é bem assim.
Shiryu prendeu uma risada, e Shunrei estava sorrindo também. Foi ela quem manifestou o pensamento de ambos.
— Mentiroso. — Ela acusou.
E então eu estava lutando pra não cair no choro outra vez . Porque, é claro, ela estava certa.
— Você deveria tentar falar com ele. — Shiryu sugeriu, colocando uma mão no meu ombro, apaziguador.
Eu balancei a cabeça.
— Não acho que ele queira falar comigo.
— Eu acho que ele quer sim. — Shunrei disse.
— Não. — Eu funguei. — Eu arruinei tudo. Eu estraguei o namoro dele, e ele vai me odiar agora.
Eu estava tentando me manter firme, mas sentia as lágrimas escorrendo novamente.
— Você não estragou o namoro de ninguém. — Shunrei tentou me consolar de novo — Hyoga estragou o próprio namoro.
— Eu acho que não tem como estragar o que já estava acabado. — Shiryu disse. — E o Hyoga não vai odiar você.
— Embora se eu fosse a Freya eu o odiaria. — Shunrei franziu o cenho — O Hyoga, eu quero dizer. Ele esteve enrolando ela por todo esse tempo.
— Ele não esteve "enrolando" ela. — Shiryu fez um sinal de aspas com os dedos.
— Bem, — Shunrei parecia indignada — ele continuou namorando com ela, quando estava claro pra qualquer imbecil que ele estava afim do Shun. Eu chamo isso de enrolar.
— Exatamente. — Shiryu disse — Estava claro pra qualquer imbecil. Você acha que a Freya não percebeu isso também? Só um idiota não perceberia. — Ele levou a mão na boca — Ops, desculpe, Shun.
Eu chorei mais forte.
Shiryu tinha razão eu era um idiota.
Eles diziam que Hyoga gostava de mim, mas aparentemente isso não era o suficiente. O sentimento dele não era o bastante. Ele havia me deixado por sua namorada.
Outra vez.
Freya. Ele escolhera a Freya!
Meu estômago revirou.
Tão forte dessa vez, que eu precisei correr para o banheiro.
Eu tranquei a porta e abri a tampa do sanitário. Esperava perder meu jantar ali, mas meu estômago só se contorceu outra vez. Fechei a tampa do vaso e me sentei sobre ele.
O que havia de errado comigo? Por que eu tinha que estar apaixonado pelo Hyoga? Por que ele tinha que ter uma namorada? E por que ele tinha que continuar me enlouquecendo com seus beijos e depois correndo pra ela o tempo todo?
Meu estômago revirou outra vez.
Eu amava o Hyoga, mas não sabia se conseguiria passar por aquilo de novo. Como poderia encará-lo outra vez e fingir que nada tinha acontecido? Como poderia suportar assisti-lo sendo feliz ao lado da Freya?
De repente, eu queria voltar para o Japão… Queria meu travesseiro, queria a minha mãe. O pensamento me envergonhou. Um garoto de dezoito anos não deveria mais precisar da mãe.
Não sei por quanto tempo estive ali, mas, de repente, me assustei com uma batida na porta do banheiro. Minha cabeça estava trabalhando em tal frenesi que não escutei os passos.
— Shun? Shun você está aí?
Hyoga. Eu suspirei.
Como se as coisas não pudessem ficar piores.
***
Eu saí do cubículo onde estava e olhei meu reflexo no espelho. Deplorável. A maquiagem de olho que Shunrei colocara em mim derretera com as lágrimas e agora meus olhos estavam vermelhos e borrados de preto. Como um Panda que tivesse confundido suco de tomate com colírio. E meus lábios estavam inchados como se abelhas tivessem me picado.
Eu abri a torneira de água fria e lavei o rosto. Uma toalha de papel para secar, e então tomei coragem, destrancando a porta, e saí.
Uma fila havia se formado do lado de fora do banheiro e todos olharam de forma inamistosa pra mim quando eu passei. Eu olhei pra baixo constrangido. Que inferno, se uma pessoa não podia mais usar o banheiro pra chorar em paz, onde então?
Hyoga me conduziu em silêncio até uma espécie de jardim de inverno. Uma área aberta onde as pessoas iam para fumar. A música era bem mais baixa ali e nós conseguíamos conversar melhor.
Flocos de neve estavam caindo e nós nos escondemos sob uma pérgula coberta.
Eu esfreguei meus braços descobertos. Estava congelando ali fora.
Ele tirou o blazer que estava usando e o colocou sobre meus ombros. Eu não quis aceitar, mas ele insistiu.
Eu passeio os braços pelo casaco enquanto reparava no seu semblante cansado. Não, ele parecia exausto. E mesmo assim continuava bonito… Droga, eu odiava isso!
— Então… — Eu comecei, mordendo o lábio. — Como ela está? — Eu não queria ter que dizer o nome dela.
— Raivosa. — Ele falou.
— Humm — Eu assenti — Sinto muito.
Eu não sentia, mas apesar de tudo tinha uma vontade esmagadora de provar que nós ainda podíamos ser amigos. Havia algo como uma dor real dentro de mim que precisava dele. E essa necessidade me fazia sentir ainda mais patético.
— Não foi culpa sua. — Ele fez um gesto de descarte com a mão — Freya já estava implicando com você há muito tempo. Ela odeia você, e quando nós estamos juntos, e agora vai ficar pensando que estava rolando alguma coisa entre a gente.
— Ela me odeia? — Eu ecoei confuso.
Por que? O que eu tinha feito pra ela? Quer dizer, está certo que eu estava apaixonado pelo namorado dela, mas ela não sabia disso. E, descontando o que havia acontecido na última semana, não havia motivos pra ela me odiar, certo? Eu não via a garota há meses.
Mas ele só balançou a cabeça, pesaroso.
— Não era para ter sido assim. — Ele passou uma mão pelo cabelo.
O que não era para ter sido assim? Ela ou eu?
— Tudo já vinha desmoronando há algum tempo, mas mesmo assim está sendo difícil pra ela… — Ele continuou — Eu não queria que ela tivesse que passar por isso. Ela não devia ter visto a gente.
Estava sendo difícil pra ela? Meu coração se endureceu e virou pedra. E ele não queria que ela tivesse que passar por isso?
Minhas mãos se fecharam em punhos.
Que se danasse ele. Sério. Que se danasse!
— Por que Hyoga? Por que ela não devia ter visto a gente? Porque você ainda não estava pronto pra isso? — Eu ironizei mordaz.
Ele olhou pra mim entre indignado e magoado, mas eu nem liguei. Eu odiava ele naquele momento. Sério. Odiava. E me odiava também por esperar tão desesperadamente que ele olhasse pra mim. E odiava ainda mais o fato de agora todos saberem o que eu sentia por ele, porque isso me fazia sentir tão vulnerável.
Então, antes que ele pudesse responder eu continuei.
— Bem, me desculpe por estragar o seu namoro. — Eu falei cruel — Embora você não parecesse preocupado com isso quando estava com a língua enfiada na minha traquéia…- Eu apertei os lábios. Deus, eu tinha sido tão estúpido. Tão estúpido! — E quer saber? Esquece.
Eu me virei pra sair dali, tropeçando nos meus próprios pés, mas ele me segurou pelo braço, me fazendo virar pra ele outra vez.
— Não. Eu não vou esquecer. Estou farto e cansado de esquecer, Shun.
— Você está cansado de esquecer? — Minha voz tremeu. — Eu não pude fazer nada até agora além de esquecer. Você acha que foi fácil pra mim, sentar no meu quarto todas as noites imaginando você e a Freya juntos? Acha que tudo isto está sendo fácil para mim?
Seus ombros caíram.
— Eu… Sinto muito, Shun — Ele suspirou — Eu… eu não imaginava…
Eu senti aquela coisa se agitar na minha garganta de novo, como se fosse me sufocar, e então eu estava chorando outra vez. Só que agora era muito pior porque dessa vez eu estava fazendo isso na frente dele.
Eu podia culpar mais uma vez a bebida pelo meu descontrole, mas a verdade é que o susto com o flagra da Freya, e o tempo que eu passara soluçando no banheiro me deixara sóbrio outra vez
— Você não imaginava? — Eu solucei incrédulo. E então, antes que me desse conta, já estava despejando: — Você disse que eu era atraente, que me achava bonito, que gostava do meu cabelo e dos meus olhos. Você apoiou sua perna na minha na sala escura do cinema, e depois agiu como se nada tivesse acontecido quando as luzes se acenderam. Você me defendeu, me levou em passeios, me deu presentes, nós dormimos juntos na sua cama… Você me beijou!… e então simplesmente… pediu pra que eu fosse seu amigo outra vez, e voltou pra sua namorada no dia seguinte. O que você espera que eu faça com tudo isso, Hyoga? Você disse que não queria ficar sozinho, mas eu sempre estive com você. Eu estava com você o tempo todo. O tempo todo!
Eu me engasguei com outro soluço e mordi o lábio pra tentar me controlar
— Shun… — Ele segurou meus ombros mergulhando os olhos nos meus. Eu estava chorando tanto agora que mal conseguia ver seu rosto com exatidão por entre as lágrimas — Shun, por favor, não chora… Eu… Sinto muito. A última coisa que eu queria era machucar você. Mas eu não… Como eu poderia saber? Todas as vezes que eu tentei dizer alguma coisa, você fugia. Eu pensei que você fosse apaixonado pela Misuki!… E então, quando nós nos beijamos na semana passada… — Ele fez uma pausa e respirou fundo antes de continuar — Eu percebi que talvez não merecesse o seu perdão, porque eu tomei decisões horríveis. E eu estive enganado por tanto tempo, e demorou tanto pra nós chegarmos até ali, que talvez já fosse tarde pra tentar ajeitar as coisas. Mas eu não queria perder a sua amizade também. Eu não podia! Ainda assim, eu queria tentar. Eu precisava tentar.
Eu tirei suas mãos dos meus ombros e enxuguei o rosto com a manga do casaco emprestado, me afastando um passo outra vez.
— Passando a noite com ela? — Eu acusei. — Era assim que você queria tentar?
— Eu não “passeia a noite” com ela. — Ele falou — Eu já te disse isso. E eu ia te explicar tudo mas você nem me deixou falar na Segunda-feira. Simplesmente jogou suas verdades em cima de mim sem nem me dar oportunidade de dizer nada. Você me atacou. Esperou o pior de mim. Mas a única verdade que eu conheço é o que sinto quando estamos juntos. Pensei que você confiasse nesse sentimento também. Achei que confiasse em mim, que me conhecesse…
— Mas é isso. É exatamente isso! — Eu falei exasperado. — Eu não conheço você. Eu conto tudo a você. Sobre minha família, meus problemas, meus amigos… Eu te contei que eu sou virgem! — Eu desviei os olhos, humilhado em dizer isso em voz alta. — E o que você me contou? Nada sobre os seus sentimentos. Nada sobre sua relação com a Freya.
E então, ele estava em cima de mim outra vez.
— Você me conhece melhor do que ninguém! — Ele parecia furioso agora. — E se tivesse se importado em prestar atenção, perceberia que minha relação com a Freya vem desmoronando desde que você chegou. E não acredito que você pensa tão mau de mim que achou que eu esperaria o ano todo pra te beijar, e que quando finalmente isso acontecesse eu não ia mais querer saber de você e ia voltar correndo pra minha namorada. Sim, eu estive com a Freya na semana passada sim. Eu estava terminando com ela!
O silêncio que se seguiu a isso foi ensurdecedor. Eles haviam terminado? Hyoga terminara com ela?
De repente, eu não conseguia respirar. Ah, meu Deus, eu não podia respirar. Não conseguia…
Ele ainda olhava diretamente nos meus olhos.
— Não importa que tipo de pessoa você acha que eu sou, eu não consigo acreditar que você realmente pensou que eu continuaria com ela depois de ter beijado você. Que eu deixaria que as coisas entre a gente chegassem até onde chegaram hoje, se eu ainda estivesse com ela.
Eu balancei a cabeça, tentando organizar os pensamentos, mas parecia impossível. Hyoga e a Freya haviam terminado? Desde a semana passada?
— Mas… você foi atrás dela… — Eu balbuciei — E você disse que ela não devia ter visto a gente…
— E não devia! — Ele afirmou enfático, depois suspirou — Escuta, Shun, eu venho sendo um canalha com ela, e não me orgulho disso, está bem? Como eu falei, eu tenho tomado decisões horríveis, e, apesar de tudo, a Freya não merecia isso. Mesmo assim, ela não tem aceitado muito bem o término. Ela está sofrendo e eu não queria que ela pensasse que nós já estavámos tendo alguma coisa antes de eu terminar com ela. Ela não tinha que passar por isso também. Além disso... eu não queria que ela fizesse uma idéia errada de você. Eu sei como você se importa com a opinião das pessoas, e ela é amiga da Shunrei. Então eu fui atrás dela sim. Eu fui atrás dela pra tentar explicar que nunca tinha rolado nada entre a gente enquanto eu estava com ela. Nada além daquele beijo na semana passada. E logo depois disso nós terminamos. Mas eu acho que ela não acreditou muito.
Eu abri a boca pra dizer alguma coisa, mas simplesmente não conseguia convencer minha voz a sair, então apenas mordi o lábio.
— Você disse que eu não te conto sobre os meus sentimentos, e é verdade. — Ele continuou, mergulhando mais uma vez seus olhos nos meus — Eu não costumo falar muito sobre isso com ninguém, e sei que isso é um defeito meu. Mas tente dar uma boa olhada em si mesmo, Shun, porque não sou o único aqui que parece sofrer deste problema. Você me conta um monte de coisas, sim, mas nada que seja realmente importante, não é? Nada sobre o que você está sentindo de verdade. Meu Deus, todo esse tempo eu achava que você fosse apaixonado pela sua amiga de infância!
Eu queria dizer alguma coisa, mas não podia. Simplesmente não conseguia. Era como se fosse sufocar.
Ele deu mais uma passo na minha direção. Estava parado tão perto agora que eu conseguia sentir seu peito subindo e descendo, rápido e constante. Nossos olhos fixos um no outro. Seu coração batendo junto com o meu.
Ele engoliu. Eu engoli. Ele se inclinou, vacilante, e meu corpo reagiu, imitando o seu em resposta. Seu cheiro me atingiu em cheio. Ele segurou meu queixo. Fogos de artifício explodiram simultaneamente em diversos lugares a distância. A música da boate mudou das batidas frenéticas para algo melodioso com um som de sinos, e eu percebi que era meia noite. Era Natal.
Minha pulsação acelerou.
Ele fechou os olhos. Eu fechei os meus. Nossas respirações se misturaram…
Então as portas de vidro que levavam ao jardim se abriram, e nós nos afastamos em um sobressalto.
— Até que enfim encontramos vocês. — Shiryu falou.
— Feliz Natal! — Shunrei se dependurou no meu pescoço para um abraço.
Seiya, Ikki e Esmeralda vinham logo atrás.
— Ei, porre coletivo, estão lembrados? — Seiya colocou um copo de bebida na minha mão outra vez.
Eu olhei para o Hyoga novamente. Ele sorria enquanto cumprimentava o Shiryu e bebericava seu copo com uma rodela de limão dentro.
Eu suspirei.
Ele era o Hyoga amigo de todos outra vez.
Então, enquanto eu olhava, ele relanceou os olhos na minha direção. Apenas por um instante. Nossos olhares se encontraram e meu coração esquentou.
— Feliz Natal — Ele moveu os lábios a distância, erguendo o copo na minha direção e sorriu.
E uma sensação de pertencimento tão grande invadiu meu corpo que me assustou. Tudo bem. Ele ainda era o meu Hyoga também.
Eu ergui meu copo em resposta ao dele.
Ainda estava confuso. Ainda tinham tantas coisas que eu queria perguntar a ele.
Mas nada daquilo importava agora.
Nós havíamos nos beijado outra vez. Ele tinha terminado com a Freya… Aquele era o melhor presente de Natal do mundo.
Fale com o autor