Notas iniciais
Esse extra é parte integrante do Capítulo 13 de Aprendendo a Seduzir

Hyoga POV

Eu me agachei no escuro. Estava respirando com dificuldade. Muita dificuldade. Tanta que temia ser ouvido. Eu precisava ficar quieto. E, principalmente, precisava pensar.

Mas era impossível pensar. Meu coração batia descompassado. Tinha a impressão de que ele poderia explodir a qualquer minuto. Sentia-o soar em meus ouvidos. E isso era tudo que eu conseguia ouvir. O revólver havia disparado tão perto que eu tinha certeza de que me deixara surdo.

Eu sabia que estava surdo. Era só ver a forma como eu tivera que prestar atenção nos lábios do homem de pele morena que vigiava o portão da delegacia perto de onde eu estava. "Não, os detetives Panagopoulos não estavam de serviço na DP aquela noite". O homem dissera. Ou pelo menos era isso que eu achava que ele havia dito. Um movimento negativo de cabeça acompanhou a resposta do sujeito à minha outra pergunta. "Não, ele não sabia quando eles voltariam".

Então os lábios grossos se moveram rápido, de modo irritante. O homem apontava para um relógio de pulso que trazia sob a manga do casaco. Os ponteiros indicavam que passava das duas e meia da manhã. "Dê o fora, cara. Volte amanhã."

Mas eu não podia dar o fora. Porque sabia que pela manhã já estaria morto.

Eu sabia como devia ter parecido pro vigia da delegacia — se é que ele conseguira me ver naquela escuridão. Coberto de lama, onde eu rolara sob o carro em frente à boate, e com a camisa rasgada. Havia vestígios de pólvora incrustados na minha pele. Dava pra sentir o cheiro. Sem mencionar o inchaço das dúzias de pancadas das quedas que eu sofrera na fuga. Eu as sentia queimar.

Mas pelo menos não haviam conseguido me meter uma bala. Não dessa vez.

Eu não conseguia dizer ao certo quem havia dado o tiro. Havia a costumeira aglomeração do lado de fora da boate. Uma multidão de gente. Metade das pessoas tentando entrar, a outra tentando sair, misturadas às centenas de transeuntes festivos que lotavam a Broadway Square naquela véspera de Natal. Em um minuto eu estava empurrado as pessoas pelo caminho, e então subia no táxi, com o Seiya, logo atrás de mim. Ou pelo menos eu achava que tinha sido assim, porque no minuto seguinte eu já tinha tropeçado e me estatelava no chão perto do carro.

E fora isso que me salvara. Ter tropeçado. Eu escorregara, e minha falta de jeito salvou minha vida. A pontaria estava alta demais, a bala só arranhou o meu queixo e foi parar na lataria do táxi sem me atingir. Em vez de acertar meu cérebro, que eu imagino que fosse o seu alvo.

O Seiya provavelmente deve ter gritado. Eu acho que ele gritou. Mas eu não conseguia ouvir nem o som da minha própria respiração depois do tiro. Foi como se o mundo ficasse silencioso de repente. Eu já não conseguia ouvir o barulho da multidão, o ronco de motor dos carros, as buzinas incessantes, os gritos das pessoas, nada.

Eu sabia o que tinha acontecido. Soube imediatamente. E me movi instintivamente, atirando-me em direção à pista. Desviando de um veículo após o outro. Mas encontrando, ao chegar do outro lado, apenas outro carro, cheio de bêbados, bloqueando meu caminho. Eu nem pensei, me joguei no chão e rolei sob ele. Então, com dificuldade, consegui me por em pé novamente e corri o máximo que pude.

Eu não sabia pra onde ir. Ir pra casa estava fora de questão. Não quando alguém estava tentando me matar. Eu não podia colocar a vida do Camus e do Dite em perigo. E obviamente eu também não poderia procurar o Shun. Pela primeira vez na noite eu agradeci aos Deuses pelo Ikki ter tirado ele daquela boate mais cedo. Eu nem queria imaginar como eu me sentiria se ele estivesse lá naquela hora. Se acabasse ferido por isso.

Depois de caminhar umas tantas ruas, eu percebi que estava indo em direção ao apartamento do Seiya. Certo. Ele me ajudaria. Quando eu chegasse lá ele certamente me ajudaria.

"Espere", eu dizia a mim mesmo enquanto passava correndo a toda velocidade por bêbados, noctívagos assustados, e prostitutas. "Espere pelo Seiya, ele saberá o que fazer".

Então, algo estranho aconteceu. Eu me lembrei do olhar daquele detetive quando eu lhe disse que fora o Seiya que me levara àquela boate onde nós conhecêramos o Radamanthys. Não que fosse culpa dele. Ele não sabia. Nenhum de nós sabíamos. Quem iria imaginar que o homem era um bandido procurado e que tentaria me matar?

Porque fora ele. Ele atirara em mim no campus da faculdade. Ele pensou que eu estava desacordado, mas não estava, ainda não. Eu podia estar bêbado, mas ainda a me lembrava dos olhos dourados examinando meu rosto enquanto eu estava caído. Ele checara meus sinais vitais e então, inexplicavelmente, partira. Ele poderia ter terminado o serviço se quisesse, mas simplesmente fora embora.

Eu omitira esse fato durante a investigação em Boston. Não que eu quisesse mentir pra polícia, não é isso, eu apenas não queria decepcionar meu irmão. Ele sempre fora o mais próximo que eu tivera de uma figura paterna, depois que a minha mãe fugiu, e nosso pai mergulhou no trabalho. Eu não queria que ele soubesse o quanto eu fora idiota. Que tolo irresponsável eu era, que frequentava boates duvidosas e se embebedava com desconhecidos. E, claro, eu não queria comprometer o Seiya. Porque realmente não era culpa dele. Não mesmo.

Só que de algum modo, quando eu alcancei à rua em que meu futuro cunhado alugara um apartamento, em vez de apertar o interfone pra que o porteiro rabugento me deixasse entrar, eu me escondi numa ruela. Fiquei ali, em pé, ofegante, tentando recuperar o fôlego.

O Seiya estava bem atrás de mim, — eu não consegui me impedir de pensar — me ajudando a entrar no táxi, com a mão no meu cotovelo. Eu sabia que ele estava achando que eu estava bêbado. Só que, outra vez, eu não estava. Eu havia desistido do álcool desde a noite em que fora baleado. Eu costumava gostar de vinho e de uma boa dose de vodka, mas desde que eu tinha me ferido não suportava mais o gosto da bebida. Assim, dei uma gorjeta pro garçom e lhe sussurrei que me servisse apenas refrigerante em vez da cuba que todos estavam tomando. Só que com uma rodela de limão dentro pra que eu pudesse diferenciar os copos.

Eu não estava bêbado como todos estavam pensando. Foi só por isso, eu de repente me dava conta sentindo cada vez mais frio, que eu não estava morto agora.

Eu não conseguia pensar em outro lugar pra onde pudesse ir. Não podia ir pra minha casa, ou pra do Shun, e agora também não me sentia confiante pra ir pro apartamento do Seiya.

Mas também não podia ficar ali a noite inteira. Principalmente por estar surdo como um poste.

Certo. Eu tinha outros amigos. Estava tentando pensar em qual deles morava mais perto dali quando vi o táxi chegar. Enquanto eu olhava, o Seiya saltou de dentro dele e subiu os degraus da frente do prédio, onde eu havia estado há pouco pensando no que fazer.

Ele falava nervosamente com alguém no celular. E foi só então que eu percebi o quão surdo eu estava. Eu via a expressão ansiosa no rosto dele, mas não conseguia ouvir o que ele dizia.

O portão do prédio se abriu e o porteiro apareceu falando e gesticulando com ele, as feições retorcidas.

Mas eu também não conseguia ouvi-lo.

Devia estar dizendo que ele não havia recebido nenhuma visita, já que ele deu meia volta e entrou novamente no táxi, que permanecera esperando por ele.

Por um momento eu quase saí da ruela úmida, e estive a ponto de acenar para o carro e me sentar ao lado do meu velho amigo. Porque aquilo não podia ser possível. Simplesmente não podia. Nós éramos amigos. Quase parentes. A irmã dele ia se casar com o meu irmão, pelo amor de Deus! Por que ele ia querer me matar? Ele estava lá, em Harvard, quando eu estava à beira da morte. A irmã dele me salvara. Era ridículo pensar que ele pudesse querer me ferir.

Mas, no último instante, eu mergulhei de volta na travessa escura. O táxi passou numa rapidez arriscada pela rua, que mesmo àquela hora ainda fervilhava de gente. Eu os deixei ir com o coração batendo forte nos ouvidos, como se me dissesse: 'Idiota, idiota, idiota...'

Eu não sabia dizer o que havia por trás da expressão daquele detetive na manhã em que eu pronunciei o nome de Radamanthys, mas a lembrança parecia fazer com que um bloco de gelo se formasse no meu estômago.

O Shun decidira que se eu não queria contar a verdade ao meu irmão devia ao menos procurar a polícia. Quando eu mencionei o nome do meu agressor, contudo, nós fomos diretamente encaminhados pra divisão de investigação especial. "Nós já estamos atrás dele há algum tempo." Dissera um dos detetives.

"Não vai se fácil botar as mãos nele. Nós vamos precisar de uma boa armadilha." O outro, que se parecia exatamente com o primeiro, completou, me entregando um cartão. "Entre em contato se ele voltar a aparecer".

Mas ele não estava na multidão naquela noite. Eu o teria reconhecido imediatamente. Não, não fora o Radamanthys que atirara em mim dessa vez. Mas provavelmente fora alguém que trabalhava pra ele. Eu tinha tanta certeza disso como tinha de não ter conseguido ouvir o latido do cachorro parado no outro lado da rua, com a boca abrindo e fechando sem parar, mas sem nenhum som, enquanto acuava um gato no telhado. Radamanthys mandara alguém pra me matar.

E o Seiya estava bem atrás de mim enquanto eu subia no táxi. Bem atrás...

Não. Era impossível. O Seiya não. Ele não tinha atirado em mim. Não podia ser.

Ou podia?

Não tinha importância. Não importava quem havia feito aquilo, mas sim que eu estava vivo. E precisava continuar assim. Não podia ir pra casa. Não, lá eu não estaria seguro, e nem poderia por a vida da minha família em risco.

Só que também não dava pra ficar na rua a noite inteira. Antes de ter sido ferido, talvez, mas não agora. Eu estava sem forças.

Além disso, eu não tinha nenhum dinheiro. Minha carteira caíra em algum momento durante a fuga. Provavelmente quando eu rolara por baixo do carro. Não dava nem pra pagar por um quarto.

Pra onde eu poderia ir? O que poderia fazer?

E então, de repente, eu soube.

Tomando outro caminho, eu caminhei outra vez pelas ruas frias, esgueirando-me no escuro pelas escadarias que levavam ao portão de serviço da divisão de investigação especial da 12º DP. Mas não havia mais ninguém ali além daquele vigia.

A noite estava gélida e o céu, carregado de nuvens, contrastava com as luzes brilhantes da cidade. A tempestade ainda não começara a cair, mas não iria demorar. Eu estava certo de que àquela altura a neve me mataria como qualquer bala. Eu só podia rezar pra que os detetives voltassem antes que ela caísse.

Eu devo ter cochilado, agachado ali no escuro, porque me pareceu que enquanto rezava pra que alguém chegasse, subitamente uma luz brilhou a minha frente, e eu percebi que era o portão, no alto da escadaria, que se abria.

Eu disse meu nome, ou pelo menos achei que tinha dito, ainda não estava conseguindo ouvir a mim mesmo, e saí do escuro. Um carro preto estava parado no meio-fio. E lá estavam os gêmeos detetives, parados no alto dos degraus. Havia um outro homem com eles. Ele aparentava ser mais velho que os dois primeiros, tinha cabelos longos, de um loiro que parecia esverdeado à luz tênue que vinha da porta, olhos de um exótico tom de violeta, além de duas estranhas pintas na testa.

Eles se viraram na minha direção intrigados. A luz da entrada refletia plenamente em seus rostos revelando o choque quando eu finalmente cambaleei, ficando visível.

O homem de olhos violeta disse alguma coisa, mas eu não conseguia ouví-lo. Eu via os lábios dele se mexendo, mas não ouvia o que ele dizia.

Então, de repente, eu estava afundando enquanto algumas mãos tentavam me colocar de pé. Eu dizia a eles o que havia acontecido. Só que não sabia se estava falando alto ou não, porque ainda não conseguia ouvir minha própria voz. Mas tinha certeza de que estava chorando porque sentia o rosto úmido.

Eu só tive tempo de pensar que era mesmo uma coisa triste um homem, mesmo jovem, chorar na frente de outros homens. E então tudo ficou escuro.

A última coisa que me lembrava era dos braços a minha volta e de lábios se movendo, não com uma expressão de espanto, mas de preocupação.

Notas finais
Olá a todos, Como eu expliquei anteriormente, algúns POVs de Aprendendo a Seduzir irão entrar como extras nessa história, pra situar e relembrar os que já leram, e pra trazer as informações necessárias da trama para navegante de primeira viagem. E terão alguns extras inéditos tb ˆˆ. Mas não se preocupem, eu vou avisar quando for algo novo ˆˆ. E eu sei que disse que soltaria esse extra na semana passada, mas andei meio enrolada esses dias. De qualquer forma, aqui está ele, e logo, logo (entre hoje e amanhã) posto o ch novo ˆˆ. Obrigada por acompanharem ˆˆ. Bjões a todos, e em especial a: HuadanNox, Jenferr, Kass, konichiwaclara, Liana La Blanche, Sherlock Holmes, e Shaketdiva pelas lindas reviews que sempre me incentivam tanto ˆˆ . Brigadão mais uma vez, meninas ˆˆ. Bjos