O Garoto Do Andar de Cima
2 Capítulo 2: As Pessoas Da Fotografia
Shun POV
Na manhã seguinte, eu acordei atrasado demais para pegar o café da manhã no refeitório. Tive de me contentar com uma bolacha recheada amassada que encontrei na mochila e fui em busca do meu horário de aulas na secretaria do departamento do curso. Pelo menos eu sabia onde ficava a secretaria — a coordenação enviara um mapa do campus junto com meu kit de matrícula.
Saí do alojamento e atravessei o pátio com um grupo de alunos falantes. Eles não me notaram, mas nos esquivamos juntos das poças d'água. Chovera pela madrugada e o campus agora estava cinza como pérola. Os prédios de pedra imponentes emitindo a mesma elegância fria.
O prédio principal do departamento de Exatas ficava em um jardim com árvores cuidadosamente podadas, e a entrada era sob um grande arco com uma porta verde dupla que era umas três vezes maior do que eu. O teto era absurdamente alto por dentro, repleto de candelabros, e pintado com afrescos. Cheirava levemente a produtos de limpeza e marcadores de quadro branco. Sob os meus pés havia um mosaico com o brasão da Universidade, e na parede no final do hall um relógio dourado marcava as horas.
Parecia o cenário de um filme. A faculdade toda era tão intimidadora quanto impressionante. Era possível que uma escola daquela realmente existisse? Que eu estivesse matriculado nela? Deveria ser exclusiva para alunos com reflexos beges no cabelo, seguranças particulares e carros esporte conversíveis. Não pra alguém que tingia os cabelos de verde e se vestia com camisetas de personagens de Anime. Meu pai devia estar louco quando achou que eu pertencia a esse lugar.
Pra piorar eu estava chegando em Janeiro, no meio do ano, porque minha mãe estivera no hospital com uma crise de diabete e eu me recusara a sair do Japão antes que ela estivesse recuperada. O que significava que meus novos colegas teriam outra vantagem sobre mim: Todos eles já estariam familiarizados com a faculdade e seus professores.
Eu segui pelo corredor de mármore central. A secretaria do curso ficava no final do prédio, e tinha um cara de cabelo espetado lá, discutindo com a secretária, quando eu cheguei.
– Mas eu incluí Ciência da Computação, não Psicologia. — Ele dizia.
A secretária, uma mulher morena de meia idade, ajeitou os óculos de tartaruga, paciente:
– Eu sei, mas Ciência da Computação estava chocando com seu horário, e Psicologia, não. Talvez você possa fazer Computação no próximo…
– Minha segunda opção foi Programação. — O garoto interrompeu.
Espera um pouco. Eles podiam fazer isso? Podiam matricular a gente em matérias que nós não incluímos? Eu ia morrer. Morrer. Se tivesse que fazer qualquer coisa envolvendo um laboratório com corpos de pessoas mortas.
– Na verdade, Nickholas — a secretária folheou alguns papéis -, você não preencheu seu formulário de segunda opção, então tivemos que selecionar uma matéria pra você, mas acho que você vai…
O garoto arrancou o horário das mãos dela e saiu pisando duro. Era minha vez. Dei um passo a frente e disse o meu nome o mais educadamente possível, pra compensar a situação constrangedora causada por aquele idiota. A secretária me retribuiu com um sorriso agradável.
– Bom dia, Sr. Amammya. Tenha um bom primeiro dia! — Disse, enquanto me me estendia meia folha de um papel amarelado.
Eu peguei o papel e prendi a respiração enquanto lia a lista de matérias. Ufa! Sem surpresas.
De acordo com o quadro de horário ali escrito minha primeira aula era Introdução à Teoria da Administração na sala dois do bloco três. Maravilha!
***
O resto da manhã foi confuso. A sala de aula era maior do que a que eu estava acostumado e tinha janelas altas e escuras. As carteiras, e o quadro branco na parede, por outro lado, eram os mesmos.
Gostei do professor Smith, meu professor de Estatística. Professor Perkins, de Introdução à Teoria da Administração, também era legal. Ele era inglês e movia as sobrancelhas e cuspia enquanto falava. Pra ser justo, não acho que o ato de cuspir enquanto fala seja algo inglês. Acho que ele simplesmente tinha a língua presa. Mas é difícil dizer. Por causa do sotaque.
Depois dessas aulas, tive língua estrangeira. Eu escolhera francês das três opções disponíveis. Estava cansado de espanhol — obrigatório na minha antiga escola -, e alemão estava mais pra um dialeto Orc do que pra um idioma de verdade.
Professeur Leon era parisiense. Era de se esperar, eles sempre preferiam os falantes nativos para as aulas de língua estrangeira. Minha professora de espanhol revirava os olhos e exclamava, "!Dios mio!", sempre que eu levantava a mão. Ficava frustrada quando eu não conseguia entender um conceito que parecia óbvio pra ela.
Parei de levantar a mão.
Como nas outras aulas, a classe estava cheia de calouros, é claro,… E eu… E o garoto nervoso por causa do horário de hoje de manhã. Ele se apresentara entusiasticamente como Nick, e sentara na carteira em frente a minha. Seu cabelo escuro, mesclado com mechas brancas e castanhas me lembrava o pêlo do Yuu-chan, e eu podia dizer que ele estava tão aliviado quanto eu por não ser o único calouro ingressando no meio do ano.
Talvez o Nick não fosse tão mau, afinal de contas.
***
Ao meio dia, segui a boiada até a cantina.
Mesmo que já tivesse visto fotos pelo computador, o refeitório ainda me deixou embasbacado. Costumava almoçar em um ginásio convertido em cantina que fedia a alvejantes e cuecas suadas, onde havia longas mesas com bancos acoplados, xícaras de papel e canudos plásticos.
Mas essa cantina poderia ser um restaurante.
Ao contrário da histórica opulência do Hall do departamento, o refeitório era moderno. Repleto de mesas de madeira redondas e vasos de plantas. E no lugar das senhorinhas de touca azul do meu antigo colégio, havia um senhor de chapéu branco de chefe servindo uma variedade de comida que parecia ser fresca. Havia também uma série de bebidas engarrafadas… sucos, refrigerantes... e uma dezena de tipos de água mineral. Havia até um jogo de café. Café. Podia pensar em uma porção de alunos da minha antiga escola que matariam por um café que não fossem daqueles terríveis de máquina.
As cadeiras já estavam tomadas por pessoas conversando com os amigos por sob os gritos dos chefes e o bater dos pratos (porcelana de verdade, não de plástico) quando eu entrei. Eu parei em frente a porta. Os alunos passavam por mim indo em todas as direções. Comecei a me sentir deslocado. E agora? Devia encontrar uma mesa ou pegar o almoço primeiro?
Então me virei surpreso quando uma voz chamou meu nome. "Por favor, por favor, por favor…" (prece interna)
Uma olhada rápida pela multidão revelou uma mão cheia de anéis acenando do outro lado. Shunrei apontou uma cadeira vazia ao seu lado, e eu caminhei até lá agradecido e quase dolorosamente aliviado.
– Obrigado por guardar lugar pra mim. — Eu ajeitei minhas coisas no chão e me sentei.
Havia duas outras pessoas na mesa e, como prometido na noite anterior, eram as pessoas da foto no espelho. Fiquei nervoso de novo e arrumei mais uma vez minha mochila embaixo da mesa.
– Este é o Shun, o garoto de quem eu estava falando pra vocês. — Shunrei apresentou.
Um garoto sério, de feições orientais e longos cabelos escuros me saudou com sua xícara de café e eu notei que a outra mão dele segurava uma mão de Shunrei dentro do bolso de sua jaqueta.
– Shiryu — ele falou — e Seiya. — Ele apontou para o garoto ao seu lado, outro oriental de cabelos espessos e castanhos. O garoto mal me notou. Parecia mais interessado em observar a mesa de garotas com jeito de líderes de torcida no fundo do salão.
Tudo bem. Não era grande coisa.
– Está todo mundo aqui, menos o Hyoga. — Shunrei informou, procurando-o pela cantina — Ele geralmente chega atrasado.
– Sempre — Shiryu a corrigiu. — Sempre chega atrasado.
– É pra compensar a pontualidade do irmão, ele diz — Shunrei sorriu -, mas pra mim é preguiça mesmo.
– Eu acho que o conheci ontem.- Eu falei meio sem jeito — No corredor.
– Cabelo bonito e um leve sotaque francês? — Shunrei se animou.
– Acho que sim. — Tentei soar casual.
– Todas as garotas aqui são apaixonadas pelo Hyoga. — Seiya sorriu com desdém. Aparentemente tinha se cansado de olhar para mesa das patricinhas.
– Eu não. — Shunrei se defendeu e sorriu para Shiryu ao lado dela. Ele sorriu de volta. Ficava bem fazendo isso, eu pensei. Deveria usar mais os cantos da boca.
Seiya soltou um suspiro exagerado e colocou uma mão sobre o peito com ar de comicidade.
– Bem, eu estou. Acho que vou chamá-lo para o baile. Esse é o nosso ano. Posso sentir.
– Não me diga que tem um baile aqui também? — Eu quis saber, horrorizado. Quer dizer, eu sabia da mania dos americanos pelos bailes, mas nós estávamos na faculdade, pelo amor de Deus!
– Deus, não! — Shunrei falou com uma careta, e então se voltou para o amigo outra vez — É verdade, Seiya, você e o Oga ficariam lindos em smokings iguais.
– Caudas. — A voz conhecida as minhas costas quase me fez saltar da cadeira. O garoto bonito do andar de cima estava parado atrás de mim. Seu cabelo estava úmido por causa da chuva que voltara a cair. — Eu insisto que os smokings tenham caudas.
– Hyoga. — Seiya levantou da cadeira para cumprimentá-lo e eles trocaram os clássicos tapinhas nas costas.
– Poxa, nem um beijinho — ele falou -. Estou apaixonado, cara.
– Pensei que isso poderia te causar problema com a namorada, ela ainda não sabe sobre nós — Seiya disse.
– Falando em namorada, você já viu a Freya? — Shunrei interrompeu.
– Não, mas vamos nos encontrar hoje à noite. — O garoto do andar de cima deixou a bolsa cair e relaxou na cadeira restante, entre mim e Seiya.
– Shun?! — Ele pareceu surpreso em me ver.
Eu também fiquei surpreso. Ele se lembrava de mim.
Ele passou uma mão pelos cabelos molhados e uma gota caiu no meu braço. Eu fiquei olhando o pingo ser absorvido pela manga do meu moletom. Por algum motivo, não sabia bem o que dizer.
Infelizmente meu estômago falou por mim.
Seus olhos se arregalaram com o barulho e eu fiquei alarmado em notar quão azuis eles eram.
Como se ele precisasse de mais alguma arma contra a espécie feminina. O mundo era tão injusto. Ainda bem que eu não era uma garota.
Seiya devia estar certo. Todas as mulheres por ali deviam ser apaixonadas por ele.
– Que barulho medonho. — Ele disse — Você deveria alimentar essa coisa. A menos que… — Ele fingiu me examinar, avaliando meu corpo magricela, e então se aproximou sussurrando. — A menos que você seja uma daquelas pessoas que nunca comem. Não. Eu não consigo suportar isso, me desculpe. Vou ter que banir você da mesa por toda a vida se for assim.
Eu estava decidido a falar racionalmente perto dele. Não entendia por que ele tinha aquele efeito desconcertante sobre mim.
– Eu só estava em dúvida do que deveria fazer primeiro. — Eu expliquei.
– Er… Você tem que entrar na fila primeiro. — Seiya me olhou confuso. Como se eu fosse meio lesado por não saber disso.
– Fique na fila. — Shunrei completou — Diga a eles o que você quer. Aceite as guloseimas. E então dê a eles o seu cartão de refeição e duas canecas de sangue.
– Ouvi dizer que aumentaram para três esse ano. — Shiryu disse.
– Medula óssea. — Falou o garoto bonito do andar de cima (acho que eu devia começar a chamá-lo de Hyoga agora) — Ou seu lóbulo esquerdo.
Eu revirei os olhos.
– Eu quis dizer que não sabia o que deveria fazer primeiro… se pegar a comida, ou procurar uma mesa… Então a Shunrei me chamou.
– Ahhh…! — Todos assentiram em uníssono. Eu balancei a cabeça.
– Certo. — Hyoga empurrou a cadeira, levantando. — Venha comigo, então. Eu também não comi ainda.
Nós atravessamos o salão em direção as pistas de comida e eu não pude deixar de reparar nas várias garotas boquiabertas conforme passávamos pela multidão.
Uma loira com nariz pontudo e uma blusinha de adolescente murmurou assim que entramos na fila.
– Hyoga! Como foram suas férias?
– Oi, Tiffany. Foram boas.
– Você passou aqui, ou na França? — Ela se curvou sobre sua amiga, uma garota baixinha com um grande rabo de cavalo, e se posicionou de modo a expor seu decote o máximo possível, jogando os cabelos.
– Fiquei com a minha família em New York. E você? Curtiu suas férias? — Ele perguntou educadamente. E fiquei secretamente satisfeito em ouvir a indiferença em sua voz. Nunca engoli garotas do tipo da Tiffany. Que exibem decotes e falam jogando os cabelos. Quase podia vê-la gastando seus finais de semana em frente a ventiladores, fingindo ser uma supermodelo.
– Foi fabuloso. — Ela balançou os cabelos outra vez — Fui pra Aspem por um mês. E passei o resto do tempo em Milão. Meu pai tem uma cobertura incrível com vista pra Piazza Duomo.
Cada sentença que ela falava tinha uma palavra enfatizada. Bufei pra evitar dar risada e Hyoga começou a tossir.
– Mas eu senti sua falta. Você não recebeu meus e-mails? — Ela era insistente.
– Hum..., não. Você deve estar com o endereço errado. — Ei — ele me cutucou. — Está quase na nossa vez. — E virou de costas pra Tiffany, me puxando pra frente pelo braço. Ela e a amiga pareceram intrigadas.
– Eu recomendo o filé com com fritas. — Ele disse quando chegou a nossa vez.
Eu avaliei as opções, e levando em conta que havia pratos ali cujos nomes eu nem sabia o que significavam, resolvi aceitar a sugestão.
– Nada de de pizza congelada, frango frito, ou hot-dogs com cheddar? — Eu brinquei fingindo aborrecimento enquanto o senhor com chapéu de chefe servia nossos pedidos. — Estou desapontado.
Ele negou enfaticamente com a cabeça.
– Não. Nada de de waffles com xarope de chocolate e marshmallows também.
Eu soltei uma risada.
– Você parece saber bastante sobre porcarias americanas pra um francês. — Disse.
Saímos da fila com nossas bandejas e passamos pela parte das bebidas. Eu apanhei uma Coca-Cola e o Hyoga foi de suco de laranja.
– Você também, para um japonês. — Ele revidou — E eu não sou francês. Sou russo.
Eu sorri incrédulo.
– Claro que você é. Chevalier é um sobrenome muito russo mesmo.
Entramos na fila pra pagar, e eu me perdi observando, surpreso, a eficiência com que a fila andava. Me virei a tempo de flagrá-lo olhando de cima abaixo meu corpo.
Espera. Era impressão minha ou o garoto bonito do andar de cima estava me conferindo?
Não. Nós éramos homens, ele tinha namorada. Era impressão minha com certeza. Ele devia estar olhando outra coisa. O Monoka estampado nas costas do meu moleton, por exemplo. Sim, era isso. Tinha que ser.
– Meu pai é francês. — Ele explicou. Não tinha percebido que eu o pegara me olhando. — Minha mãe era russa. Eu nasci em Moscou por mero acaso, mas fui criado na França até meus nove anos. Depois me mudei para os EUA.
– Nossa, um verdadeiro internacional! — Eu brinquei. Milagrosamente tinha conseguido recuperar a fala.
– Ah, entendi. — Ele abriu outro sorriso — Me conhece há um dia e já está me zoando. O que vai ser depois? Vai rir do jeito que eu falo? Implicar com estado do meu cabelo? Minhas roupas?
Eu sorri também, e já estava a ponto de zombar dele de novo quando outra pessoa entrou na fila atrás de nós. Uma garota. Japonesa. A mais linda que eu já tinha visto, parecia uma boneca de porcelana.
Infelizmente pelo jeito como ela falava — jogando os cabelos — deu pra perceber que era da turma da Tiffany. Só que diferente da Tiffany ela não parecia romanticamente interessada no Hyoga. Na verdade, estava muito mais preocupada com o irmão dele. Fez mil perguntas sobre o cara. Se ele estava bem, se estava com alguém, se iria vir pra comemoração de homenagem aos doutorandos do ano passado.
Hyoga respondeu a todas elas com monossílabos. Sim, o irmão dele estava bem. Não, ele não estava com ninguém. Não, ele não ia vir pra homenagem aos doutorandos. Essa última informação pareceu desagradar um pouco a garota.
Então Hyoga perguntou como foram as férias dela, e foi o que bastou pra ela embarcasse em histórias e mais histórias sobre a viagem que fizera a Déhli, sobre os mercados, templos e monções.
Eu parei de prestar atenção na parte em que ela encontrou a echarpe de seda perfeita no mercado de pulgas a caminho do Taj Mahal e entreguei meu cartão de refeições para homem de sobrancelhas estranhas atrás do balcão quando minha vez chegou.
No caminho de volta a mesa, Hyoga me contou que a garota, Saori, era irmã do Seiya. Ela estava no último ano de Publicidade.
– Você provavelmente não vai vê-la muito já que ela é do departamento de humanas — Ele explicou.
Sem querer parecer maldoso, mas não seria uma grande perda.
Enquanto nos sentávamos com nossas bandejas eu pude notar Tiffany observando Hyoga do seu grupo de patricinhas e mauricinhos. Ele nem notou, e logo já estava engajado em uma conversa com Seiya sobre aulas e quem eram seus professores aquele ano. Shunrei e Shiryu estavam se beijando — eu pude ver a língua -, então me voltei para o meu filé e minhas batatas.
O filé estava ótimo mas as batatas eram esquisitas. Eram cortadas mais grossas que o normal e... aquilo eram cascas?. Comecei a tirar as cascas com o garfo e a limpá-las com o guardanapo de papel. Seiya e Hyoga pararam de conversar. Olhei pra eles e os vi me observando como se eu fosse maluco.
– O quê?
– Nada — Hyoga disse — Continue lustrando suas batatas.
– Elas estavam sujas. — Eu aleguei.
– Você experimentou alguma? — Seiya perguntou.
– Não, elas ainda estão com casca, você não está vendo? — Eu apontei pra batata.
Hyoga sorriu. — Chamam-se batatas rústicas. — Ele explicou. — Não estão sujas. — E, como pra provar o que dizia, tirou uma batata do meu prato e a enfiou na boca.
De repente, eu estava hipnotizado, olhando fixamente seus lábios e sua garganta enquanto ele engolia. Ahhh, o que havia de errado comigo?
Ele pegou outra batata. — Abra a boca.
Eu hesitei. Preferia comer batata limpa ou causar boa impressão nos meus novos amigos? Acabei abrindo a boca.
A batata deslizou pelo meu lábio inferior enquanto ele a colocava na minha boca. Meus dentes romperam a casquinha crocante quando eu mordi e ela explodiu, macia, na minha língua.
Eu fiquei tão chocado com o sabor que quase engasguei. Aquele tal de batata rústica era maravilhosa. Arregalei os olhos admirado, e Hyoga riu. Então, estava pegando outra batata... E outra... E quando me dei conta, lá estávamos nós: Hyoga dando comida na minha boca. Como? Por quê?
Seiya tossiu e Hyoga parou com uma batata no ar.
– Então..., — ele pigarreou e colocou a batata na própria boca dessa vez — como está sendo seu primeiro dia?
A súbita mudança me fez piscar e demorar um pouco pra responder.
– Legal... — Eu disse, desviando os olhos. Por algum motivo não conseguia olhar diretamente pra ele depois daquilo. — Quer dizer, o professor de francês é meio assustador, mas... — Eu dei de ombros e parti um pedaço de pão. A casca era crocante e o interior leve e flexível. Ah, meu Deus. Eu lancei outro pedaço dentro da boca.
Shunrei se desgrudou do Shiryu pra dizer:
– Ele pode ser bastante intimidador a princípio, mas é bem legal depois que você o conhece.
– Shunrei é sua pupila predileta. — Seiya se manifestou.
– Ela faz francês e espanhol avançado. — Shiryu falou.
– Eu queria aprender italiano agora — Ela disse -. Estou pensando em um intercâmbio em Roma no ano que vem. Sou louca por arquitetura clássica romana.
– E você? — Eu me voltei para o Hyoga outra vez.- O que pretende fazer depois de formado?
Ele deu de ombros despreocupado.
– Ainda estou no terceiro ano de Comércio Exterior, então confesso que nem me preocupei muito com isso. Mas... Trabalhar na empresa da minha família imagino. Embora fosse legal também ser detetive investigativo, ou escritor, como Dan Brown. — Ele fez um gesto de descaso com a mão. — Mas eu não tenho talento pra isso. Quem sabe fazer uma pós em computação e desenvolver softwers de vídeo game? — Ele se inclinou como se estivesse a ponto de me contar um segredo. — Confesso que sempre quis ser como um daqueles caras que criam jogos de RPG pra computador. Você sabe, aqueles estranhos com cabelo desgrenhado e óculos fundo de garrafa.
Eu tive que rir. Hyoga nunca seria como aqueles caras. Mesmo que tentasse muito.
– Eu também. — Eu falei — Bom, mais ou menos. Eu queria desenhar mangás. Vender meus tankohons pra um monte de países. E estar no canal de animes.
– Sério? — Ele parecia interessado.
– O Hyoga adora uma teoria da conspiração. Está sempre com a cabeça enfiada atrás de um livro imenso ou de uma tela de computador. — Seiya interrompeu. — É difícil tirá-lo do quarto.
– Até porque a Freya sempre está lá, né?! — Shunrei revirou os olhos comicamente.
– Olha quem fala — Hyoga revidou com um olhar significativo na direção do Shiryu. — Sem mencionar... — ele olhou pra ela outra vez — Cristian...
– Cristian! — Seiya disse, e ele e Hyoga caíram na gargalhada.
– Uma maldita tarde e vocês nunca mais vão me deixar esquecer isso? — Ela olhou de esgueio pra Shiryu que praticamente apunhalava seu macarrão agora.
– Quem é Cristian? — Eu quis saber.
– Um monitor de futebol no último dia dos jogos de primavera quando eu e a Shunrei estávamos no primeiro ano. — Hyoga explicou. — Ele nem era lá grande coisa, mas ela nos encurralou no ginásio e se jogou em cima dele...
– Eu não me joguei!
Seiya balançou a cabeça.
– Eles se apalparam, tipo, o dia todo. Pra todo o público.
– À noite — Hyoga continuou -, no final dos jogos, o departamento de Exatas inteiro esperou nos ônibus por duas horas porque ela esqueceu a hora que nós tínhamos combinado de nos encontrarmos na volta.
– Não foram duas horas...
– O professor Jordan de Finanças Aplicada finalmente a encontrou atrás de uma moita, nos jardins do estádio, — Seiya contou — e ela tinha marcas de dente por todo o pescoço.
– Marcas de dente! — Hyoga enfatizou, fingindo indignação.
Shunrei ficou vermelha.
– Cala a boca, Língua Furiosa!
– Hã? — Hyoga perguntou estranhando.
– Língua Furiosa — Ela repetiu. — É disso que nós te chamamos desde sua demonstração pública de tirar o fôlego com Freya na feira de rua do ano passado.
Hyoga até tentou protestar, mas ele estava rindo muito agora. Seiya e Shunrei continuaram alfinetando ainda mais e mais, mas... eu estava perdido de novo.
Comecei a imaginar se Misuki tinha começado a beijar melhor agora que tinha alguém mais experiente pra praticar.
Eu namorara minha amiga de infância, Misuki, por quase dois meses. Ela era meio fofa, meio descolada, e tinha um cabelo meio decente. Era aquela situação tipo: "Já que a gente está aqui e não tem mais o que fazer, você não quer dar uns beijos?" Tudo o que fazíamos era nos beijar, e nem era tão bom.
Terminamos quando eu fiquei sabendo sobre Harvard, mas não foi grande coisa. Não chorei, ou enviei e-mails melodramáticos, nem risquei com uma chave o carro do pai dela. Na verdade ainda éramos muito amigos e agora ela estava saindo com o Akira, que era o capitão do time de basquete do nosso antigo colégio e tinha o cabelo de um vocalista de J-Rock. E isso nem me incomodava.
Não mesmo.
Eu gostava dela, mas nunca senti atração por ela. Nunca senti atração por garota nenhuma, na verdade. Nem por nenhum garoto tampouco. Por isso sabia que não era gay. Talvez fosse assexuado, sei lá. Quem sabe depois que eu morresse mandassem exumar meu corpo e fizessem testes e então descobririam que eu era um novo tipo desconhecido de criatura? Eu sempre me senti meio de outro planeta mesmo.
De qualquer forma, Misuki fora a única pessoa com que eu já saíra... e ela nem contava. Talvez por isso o beijo fosse tão ruim. Ela provavelmente beijava mal por minha causa.
E então minha ficha caiu.
Ah, não, eu beijava mal!
Um dia ainda ganharia uma estatueta com o formato de um par de lábios, e estaria gravado "Shun, o pior beijo do mundo" nela. E Misuki então faria um discurso de como só namorou comigo porque eu estava desesperado por ser o único BV da turma e ela ficou com pena, mas que nós nem fomos até o fim, então foi tempo perdido.
Tudo bem, esqueçam essa última parte, Misuki era legal demais pra fazer uma coisa dessa.
Às vezes eu ficava me perguntando o que teria acontecido se eu não tivesse vindo pra Boston, sabe. Quer dizer, provavelmente nós terminaríamos da mesma forma, é claro. Nós éramos bons demais como amigos, pra sermos bons como namorados. Mas mesmo assim eu sentia falta dela. Da amizade dela. Está certo que nós ainda iríamos nos falar por e-mail e telefone, mas não era a mesma coisa. Eu sentia falta dos passeios toscos no túnel do amor com aquela água cor de rosa fedida e cheia de bactérias. Das competições de Street Fighter valendo Lámen. De quando éramos crianças e eu, ela e o Ikki prendemos um monte de vaga-lumes em uma garrafa de vidro e tentamos usar de lanterna no jantar. De brincarmos juntos com o Yuu-chan no quintal... Tanta coisa... E então, eu fui embora.
– Shun? Você está bem? — alguém perguntou.
"Não chore, não chore, não chore"
– Hum. Onde fica o banheiro? — O banheiro sempre era minha desculpa preferida pra qualquer situação. Ninguém perguntava mais nada uma vez que você mencionava o banheiro.
– Os banheiros ficam no final do corredor. — Hyoga parecia preocupado, mas não se atreveu a fazer perguntas.
Passei o resto do almoço em um banco no pátio. Sentia tanta falta de casa que doía fisicamente. Meu coração batia acelerado, meu estômago estava nauseado e eu achava tudo tão injusto. Nunca tinha pedido para ser mandado pra Boston. Tinha os meus próprios amigos, as minhas próprias piadas internas e as minhas próprias experiências com beijos (ainda que fracassadas). Queria que o meu pai tivesse me dado alguma escolha. Que tivesse perguntado: "Você gostaria de fazer faculdade em Tóquio ou em Boston?"
Pensei que se passasse no vestibular que meu pai queria, ele ficaria feliz. Que me deixaria decidir.
Quem sabe? Talvez eu tivesse decidido por Harvard?
O que o meu pai nunca levou em consideração foi que eu queria, ao menos, ter tido uma escolha.
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