O Garoto Do Andar de Cima

18 Capítulo 17 - Apenas Bons Amigos


Shun POV

A despeito do amor pelas catedrais, e de ter realmente gostado bastante de St. Patrick, eu nunca havia me considerado muito religioso. Na verdade, houve ocasiões em que eu tivera sérias dúvidas sobre a existência de Deus. Aquela, no entanto, não era uma delas.

Porque Deus — o mesmo que me fizera nascer com aquele rosto de menina, e depois me amaldiçoara ainda mais permitindo que eu me tornasse um adulto de um metro e sessenta sem um único pelo no corpo — finalmente ouvira minhas preces.

Eu estava nos braços de Hyoga, e ele me beijava.

Eu havia suspirado quando sentira a boca de Hyoga encostando na minha outra vez. Estremecera com o contato da sua língua em meus lábios, e gemi quando aquela língua resvalou na minha. Macia como veludo, perigosamente proibida. Sua boca, seu beijo, seu gosto…

Seus lábios eram suaves nos meus, o leve roçar da barba nascendo produzindo um contraste delicioso. Seu beijo era delicado e intenso. O beijo de alguém que o tempo todo tentava se convencer de que não podia fazer aquilo, mas não conseguia evitar. O beijo de um homem que sabia que não podia, mas não resistia.

Estar nos braços dele era maravilhoso. Mais do que eu poderia ter sonhado. E eu só conseguia pensar, enquanto correspondia ao seu beijo, que aquele momento fazia tudo valer a pena. Tudo que eu passara desde que desembarca em Boston no começo do ano. Toda a insegurança, a saudade, a confusão, o medo. Toda a dor e o vazio que eu sentira quando soubera do acidente dele. Toda espera. A sensação dos lábios dele nos meus me convencia de que valera a pena.

Sua boca era tão diferente da minha. Diferente de tudo o que eu já havia experimentado. Seu toque nos meus ombros. Suas costas curvando-se pra moldar-se à mim. Eu sei que devia estar chocado, mas não estava. Em vez disso, eu me sentia em transe.

Como se não soubesse se estava na minha própria cabeça ou nos calcanhares. Como se meu cérebro fosse de algodão. Como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo e me jogado em uma terra estranha.

Devia ser uma terra muito estranha mesmo pra explicar que eu fizesse o que estava fazendo: deslizando minha mão por debaixo da camisa dele.

Eu o ouvi suspirar com o toque. Sua pele era firme e macia sobre a camada rígida de músculos. Eu deixei que meus dedos subissem pelo seu ombro, descendo pelo peito, explorando os contornos bem definidos e os mamilos duros e planos. Descendo pela linha côncava da caixa torácica até mergulhar na barriga. Eu podia sentir a respiração rápida dele sob a palma da minha mão. A musculatura tencionada pelo toque. Os dedos apertados contra a pele da minha cintura. E todo o tempo ele não parou de me beijar. Como se realmente precisasse muito daquilo. De mim. Como seu eu fosse vital pra ele.

Eu senti o calor de sua pele. A barriga firme e reta. A marca do umbigo, e os pelos logo abaixo. Deixando meus dedos se demorarem ali. Regozijando-se com o contraste entre a pele fina e a camada de pelos que formavam um caminho para seguir... Descendo pelo umbigo, e desaparecendo debaixo da barreira formada pelo cós da calça.

Eu deixei meus dedos brincarem ali e ele gemeu, intensificando o beijo. Ao mesmo tempo suas mãos, que haviam se mantido firmes na minha cintura até então, desceram para as minhas nádegas, puxando-me para ele, colando os corpos, quase me levando pra o colo dele.

Eu ofeguei, surpreso com o calor repentino que as mãos dele emanavam… e num lugar onde eu jamais sentira o calor de um toque estranho. E então nós estávamos nos beijando feito loucos. Como se nossas vidas dependessem disso.

A língua dele deslizava dentro da minha boca, gentil, mas exigente, e não era nada como eu já experimentara antes. De repente eu entendia porque as pessoas descreviam o ato beijar como se fosse derreter. Porque cada parte do meu corpo parecia estar se dissolvendo no dele.

Ele chamou meu nome em uma voz rouca, entrecortada, e uma sensação sufocante se apoderou de mim. Urgência, calor, vontade. Como se no meu ventre um nó estivesse sendo puxado. Aquela reação explosiva do meu corpo era totalmente inesperada.

Eu me colei ainda mais a ele, meus dedos agarrando seu cabelo, puxando-o para mais perto. Minhas veias pulsavam, meu coração parecia prestes a explodir.

Ele gemeu outra vez, me empurrando para trás, e então nós estávamos deitados, nos agarrando em cima da cama dele.

Eu sabia, sabia que não era certo. Que ele já tinha uma namorada, que eu estava arriscando nossa amizade. O problema é que havia uma parte minha, uma parte rebelde minha, que o beijo de Hyoga despertara pra vida, e que não estava nem um pouco interessada em saber do que era certo.

O bom senso poderia esperar. A prudência também.

Tudo o que eu queria era que ele não parasse de me fazer sentir aquilo.

Porque o peso do corpo dele em cima do meu era extraordinário. Eu podia senti-lo — todo ele — pressionado contra mim. Sentia o cheiro do seu perfume, do creme de barbear, seu xampu, e um cheiro extra que era simplesmente… o cheiro dele. O cheiro mais delicioso que eu poderia imaginar.

Algo fazia pressão contra a minha pelve. Eu tentei me acomodar àquilo mas ele continuou segurando firme o meu traseiro, e aquela coisa ficou ainda mais dura. Foi quando eu me dei conta do que era, e senti que estava ficando cada vez mais quente.

Uma gotícula de suor escorreu pelo meu peito, e eu percebi que meus mamilos estavam duros feito pedras, espetados sob o tecido da camiseta. Não só duros, eles latejavam, como se solicitando algum tipo de atenção. Meus mamilos e… outra coisa.

Que constrangedor!

Mas ele não parecia se importar. Muito provavelmente por estar sofrendo do mesmo problema. A mão que segurava minhas nádegas aumentou a pressão, levando minha pélvis de encontro com a parte dianteira da sua calça onde aquela coisa dura pressionava, parecendo ansiosa pra se libertar.

Eu ofeguei. Uma onda elétrica subindo da base da minha espinha e tornando a descer, acabando com o controle da minha respiração.

Isso, eu pensei, era simplesmente demais. Uma coisa era ser beijado pelo Hyoga, mas aquilo era demais

Eu sabia que não deveria me sentir daquele jeito. Eu não deveria ‘gostar’ de ter aquele negócio apertado contra mim. Mas não me importava. Eu não me importava nem um pouco.

Meus lábios tiniam. Os mamilos latejavam. Eu jamais me sentira dessa maneira. Jamais imaginara que isso — fosse o que fosse — existisse. Um desejo rasgado por algo, um desejo ardente por algo. Por alguém.

Chocado, mas incapaz de me conter, eu repeti o movimento que ele iniciara. Agora tentando imaginar nossos corpos livres da proteção das roupas, pressionados daquela maneira um contra o outro, pele contra pele.

Um arrepio trovejante percorreu meu corpo, partindo da minha barriga até a fonte de calor no meio das minhas pernas. Mais uma vez, eu me sentia incapaz de respirar.

Eu nunca, nunca, quisera alguém assim antes. Nunca

Eu queria respirá-lo, lambê-lo, comê-lo, bebê-lo. Os lábios dele tinham um gosto único. O seu rosto tinha aquele leve sinal de barba, raspando minha pele, suas mãos estavam em todo lugar, mas eu não ligava, eu não ligava para nada disso.

A sensação dele era incrível. E não importava que nós já estivéssemos colados ou que a boca dele já estivesse tão profundamente na minha, eu o queria mais perto, mais perto, mais perto...

E então tudo parou. Seu corpo estava rígido sobre o meu, como se algo o houvesse assustado, e meu primeiro pensamento foi Freya.

De alguma forma Freya nos descobrira. Ela havia invadido a casa e nos encontrado e ia me estrangular com suas próprias mãos, bem ali, em cima da cama do namorado.

Minha garganta ficaria roxa, e eu iria parar de respirar, e morrer. E depois ela iria para a prisão e escreveria cartas com letras psicóticas para o Hyoga em pergaminhos feitos de pele seca pelo resto de sua vida.

Um som estridente vindo de algum ponto da casa interrompeu meus pensamentos, e eu percebi que não era Freya afinal. Era a campainha.

***

– O Dite deve ter esquecido a chave. — Hyoga saltou de cima de mim, ainda arfante, o peito se expandindo e murchando depressa. As maçãs do rosto avermelhadas.

Meu estado não era muito melhor do que o dele. Na verdade, ao que me constava, era ainda pior. O rosto fervendo, a respiração curta e todos os ossos transformados em geléia.

Com cuidado eu me obriguei a erguer a cabeça, só pra me deparar com aqueles olhos azuis escurecidos, como uma tempestade noturna. Os cabelos loiros estavam ainda mais bagunçados — teria sido eu o responsável por aquela bagunça? Eu não conseguia me lembrar.

A campainha ainda tocava.

– Ah… Eu volto já. — Ele disse, sem jeito, antes de desaparecer pela porta do quarto.

Sozinho, eu toquei meus lábios, que ainda latejavam. Ele me beijara! Hyoga me beijara, e eu correspondera ao beijo.

E que beijo!

Não era sem limites, não era descontrolado, mas dava a impressão de que poderia vir a ser a qualquer momento. E era isso, a idéia da coisa em si, que excitava mais do que tudo.

Eu voltei a tocar meus lábios, perplexo. Tentando recapturar a sensação. Inebriante, tóxica, quente, doce.

Não era de admirar que as pessoas se desencaminhassem por um beijo. Mais um beijo de Hyoga e eu me desencaminharia por vontade própria. Para onde quer que fosse. Um lugar habitado por libertinos.

Eu sabia que deveria estar arrependido, mas não estava. Em vez disso me sentia… eu não sabia muito bem como me sentia. Era como se tivesse sonhado. Definitivamente nada daquilo se parecia nem remotamente com a minha vida real.

Mas tudo mudou quando Hyoga voltou para o quarto.

Ele estava checando uma mensagem no seu telefone.

– É a Freya — Ele disse. — Ela acabou de chegar na cidade.

E foi o que bastou para que toda a realidade se reconstituísse. Absoluta e implacável: Freya ainda era a namorada dele, eu ainda era só um amigo.

Tentava não levar isso como algo pessoal, mas doía.

Eu caminhei até a janela e encarei a noite lá fora.

– Era o Camus, na campainha. — Eu ouvi a a voz dele outra vez. — Parece que um amigo dele esbarrou no video-fone na garagem quando chegou.

– Hum… — Eu fiz.

Ele voltou a checar suas mensagens. De alguma forma, nenhum de nós parecia capaz de falar sobre o beijo.

Eu observei a estátua de mármore na fonte desligada no jardim de entrada consciente de que agora havia aquela coisa entre a gente. Um oceano de silêncio. A tranquilidade da nossa relação se fora. Ele provavelmente sentia-se culpado por ter ultrapassado os limites, e eu me sentia culpado por encorajá-lo.

O longo percurso até o apartamento do Ikki, onde eu estava ficando, não serviu pra melhorar as coisas.

– Shun… — Ele chamou de repente quando já estávamos chegando na casa do meu irmão. Eu estava feliz que estivesse escuro dentro do carro, assim ele não podia ver o meu rosto. — Você está bem?

Eu suspirei. Não sabia muito bem como responder àquilo, então resolvi ser sincero.

– Não... Você está?

Ele fez uma pausa.

– Sinto-me péssimo. — Desabafou, e nós ficamos em silêncio outra vez.

Mais uma vez eu me perguntava como as coisas podiam mudar tão rapidamente entre nós.

– Desculpe — Eu falei então, enquanto ele manobrava o carro, estacionando em frente ao prédio. — Eu não queria estragar as coisas… Eu não sei o que deu em mim.

Ele passou uma mão pelo cabelo.

– Não, Shun. Por favor, não se desculpe. Não foi culpa sua.

– Mas se eu não tivesse pedido… — Eu comecei, mas ele não me deixou terminar.

– Não. — Ele falou. — Shun, você não me fez fazer nada que eu já não quisesse ter feito.

Eu abri a boca pra responder, e então fiquei mudo, sentindo meu rosto ferver à medida que a percepção explodia feito dinamite dentro de mim.

Isso significava que ele gostava de mim? Seria possível? Hyoga realmente gostava de mim?

Mas nem bem a possibilidade se tornara real, foi logo substituída por um sentimento confuso, por uma noção tão doentia que jogou as minhas emoções para o outro lado do espectro outra vez.

– Mas... você ainda está com ela… — Eu gaguejei.

Eu não precisava dizer quem era ela.

Ele fechou os olhos como se sentisse dor.

– Eu não entendo… — Eu me ouvi dizer estupidamente, sentindo um aperto esquisito no peito — Por que? Por que você não terminou com ela, então?

E pra minha completa vergonha eu estava chorando agora. Era a angústia. A angústia de estar tão perto de quem eu queria, e ao mesmo tempo tão longe.

Ele parecia estar em pânico.

– Shun, por favor… por favor não chore. Eu estou com ela há muito tempo. Nós passamos por muita coisa juntos, é complicado, eu não podia…

– Podia sim! — Eu gritei de repente surpreso com a minha própria onda de fúria. — Eu me expus pra você… Eu… Eu não vou cometer esse erro de novo.

Eu saí do carro batendo a porta.

– Shun! Shun, espera! — Ele correu atrás de mim, me segurando pelo braço antes que eu pudesse entrar no prédio.

Eu me virei, irritado. — O que você quer?

– Me desculpa. — Ele pediu afobado.

Mas eu nem sabia o que deveria fazer com aquele pedido.

– Desculpa. — Ele disse de novo. E, desta vez, estava está olhando profundamente dentro dos meus olhos. Implorando-me. — Eu sei que não é justo pedir isso para você, mas eu preciso de mais algum tempo. Só mais um tempo. Pra resolver as coisas.

– Você teve o ano inteiro. — Minha voz saiu fria.

– Por favor, Shun. — Ele parecia desesperado, seus dedos apertavam o meu braço — Por favor, não faça isso. Eu entendo se você não quiser continuar, se não quiser me perdoar pelo que aconteceu, mas, por favor, continue sendo meu amigo.

– Seu amigo? — Eu soltei uma risada amarga. — Certo. Claro.

Ele olhou para mim impotente. Suplicante. Eu queria dizer não para ele, mas eu nunca, nunca, fora capaz de dizer não para ele.

– Por favor… — ele pediu de novo.

E eu apenas cruzei os braços sobre o peito pra me proteger, suspirando.

– Tudo bem, Hyoga. Amigos.

***

Se eu não gostava muito da Freya antes, não era nada comparado ao que eu sentia por ela agora. Não importava que eu pudesse contar nos dedos de uma mão quantas vezes nós já havíamos nos encontrado. Era aquela primeira imagem que eu não conseguia apagar que sempre voltava a me atormentar. "Sob o poste de luz da rua. Os dedos dela no cabelo dele." A qualquer hora em que estivesse sozinho, sempre que pensava nos dois, minha mente teimava em voltar para aquela noite.

E parecia que agora, que eu de fato sabia como era sentir a textura dos cabelos dele nos meus dedos, o toque da sua pele, que eu conhecia qual era a sensação de ser beijado por ele, o sentimento apenas piorara exponencialmente.

Desde aquela noite que eu dera pra fantasiar sobre o término deles. Em como ele poderia machucá-la, e em como ela poderia machucá-lo, e, claro, com todas as formas como eu poderia machucá-la de volta. Eu queria agarrar o cabelo estilo princesinha da Disney dela e puxá-lo com tanta força, a ponto de desgrudá-lo do seu crânio. Eu queria afundar meus dedos nos globos oculares dela e arrancá-los fora.

Eu estava descobrindo que não era uma boa pessoa, afinal.

Por que? Por que ele tinha que ter uma namorada? Por quê?

Hyoga, que tinha lábios perfeitos. Beijos perfeitos. Que tinha gosto de chocolate derretido. Que nunca, nunca, deixaria sua namorada estúpida!

Como um perseguidor obsessivo eu passara o final de semana calculando os dias que ele havia passado comigo, versus os dias que ele havia passado com ela. Contando com as últimas semanas em New York, até agora, eu estava ganhando.

Então por que? Por que ele não desistia dela?

Ele havia dito que gostava de mim, que quisera me beijar. Então por que? Por que, por que, por que, por que?

Isso me atormentava até o colapso, até que a pressão dentro de mim fosse tão insuportável que eu precisava conversar com alguém ou explodiria. Acabei escolhendo a Shunrei pra missão.

Ela viera passar uma temporada com o pai em New York, e, claro, pra ficar com o namorado também. Embora ela nunca fosse admitir isso.

Shunrei, eu descobrira, era filha de um embaixador chinês. Falando sério, Seiya era o herdeiro da Fundação Kido, Hyoga era de linhagem real, e agora Shunrei era filha do embaixador. Shiryu era o quê? Funcionário do Governo? Por favor, será que não existiam pessoas normais cursando aquela faculdade?

De qualquer forma, ela chegara na semana passada, e sob o pretexto de me ajudar com meu trabalho de férias de francês, nós estávamos agora na cozinha do apartamento do Ikki, e ela estava me ajudando a escrever uma redação sobre o meu animal de estimação em francês.

A idéia original era pedir isso ao Hyoga, mas, de alguma forma, eu não me sentia mais inclinado a pedir a ajuda dele agora,

– Ótimo, mas isso é o tempo presente. — Ela falou me corrigindo. Estava sentada à minha frente na mesa da cozinha, com uma lapiseira e uma régua triangular nas mãos, fazendo pequenos ajustes na planta de alguma coisa que ela estava desenvolvendo pro seu Trabalho de Conclusão de Curso. — E você não está alimentando o Yuu-chan com cenouras nesse momento.

– Ah. Certo. — Eu tomei nota, mas não estava realmente pensando sobre verbos. Estava mais preocupado em descobrir como trazer o tópico Hyoga à tona.

– Leia isso de novo para mim. — Ela disse — Ah, e faz aquela voz engraçada! Aquele sotaque francês ridículo que você fez imitando o Hyoga.

Meu sotaque francês ridículo não havia sido intencional pra imitar ninguém, mas aproveitei a oportunidade.

– Por falar em Hyoga… — Eu comecei. — Tem uma coisa… hum… em que eu andei pensando… — Mais uma vez eu estava consciente do sinal luminoso acima da minha cabeça, piscando a verdade, mas continuei de qualquer maneira. — É sobre a Freya… Por que eles…? Por que ele…?

– Por que ele ainda está com ela? — Ela me interrompeu.

Eu concordei com a cabeça.

Ela levou a lapiseira aos lábios pensativa.

– Acho que ele estava se sentindo solitário aqui sozinho enquanto todo mundo estava em Boston. E acho que ele não queria ter que encarar outra mudança. Mais confusão depois do que aconteceu. Você, sabe… todo aquele negócio do acidente dele. E a Freya pode ser bem problemática às vezes.

– Problemática? — Eu apertei ansiosamente o botão de cima da minha caneta.

Ela deu de ombros.

– Você sabe… ela não gosta muito quando as coisas não saem conforme ela planejou. E o Shiryu também comentou uma vez sobre o Hyoga ter mencionado que seu namoro com a Freya funcionava como uma espécie de freio de segurança pra ele. Pra impedi-lo que fazer alguma besteira.

– Besteira? Que besteira? — A ansiedade aumentou.

Ela balançou a cabeça.

– Ele não disse. De qualquer forma, não importa o quê, Hyoga jamais terminaria um namoro por telefone. E eles estiveram separados por todo esse tempo, não foi?

Era verdade. Shunrei estava certa. Hyoga nunca terminaria um namoro por telefone. E, como eu também suspeitara, ele tinha medo de novas mudanças.

Meu Deus, por que eu não tinha pensado em falar sobre isso com a Shunrei antes? Parecia tão óbvio agora. Claro que ela tinha informações privilegiadas, sendo amiga da Freya e conhecendo tão bem o Hyoga.

E por falar em Hyoga, por onde andaria ele? Eu me perguntei, não pela primeira vez, enquanto me levantava pra servir um pouco de café pra gente. O que será que ele estava fazendo? Eu não tinha notícias suas desde a noite de Quinta-feira.

Idiota! Não fora ele que dissera pra que continuássemos amigos?

– O Hyoga? — Shunrei, falou, quando eu colocava as duas xícaras e um prato com biscoitos sobre a mesa. E só então eu me dei conta de que havia feito a pergunta em voz alta. — Não sei. Eu saí com os garotos no sábado mas nós também não o vimos. Seiya disse que ele ia passar a noite com a Freya.

E quando eu achava que aquele sentimento não poderia piorar… Eu senti meu estômago revirar. De repente, havia perdido o apetite.

Com a Freya… Hyoga havia passado a noite com a Freya.

A irmã dela, Shunrei me dissera, era policial e comandava uma divisão especial em New York. Freya viera de San Francisco pra passar o Natal com ela. E, claro, não perderia esta oportunidade pra estar com Hyoga.

Hyoga… Depois de tudo, ele tinha ido até ela outra vez. Como sempre fazia. Só que agora era pior, porque ele havia me beijado.

Eu queria chorar.

Shunrei agora contava uma história divertida sobre suas férias com a família, mas eu mal a ouvia. Minha mente estava em outro lugar. Ele provavelmente estava com a Freya naquele exato momento, eu pensei.

Lembrei novamente da primeira vez em que os vira juntos, seu beijo, as mãos dela enroladas em nos cabelos dele… E fui mais além. Ela tocando o peito dele. O quarto dele. O mesmo em que nos beijáramos há três noites. E então, como acontecia com uma certa frequência ultimamente, a cena mudou. Agora eram meus dedos tocando o peito dele, descendo pela barriga, nossos lábios se pressionando, o calor do corpo dele… Ah meu Deus! Minha temperatura pareceu subir, de repente. Eu estava sem ar.

– Você está tão calado. — Shunrei falou. — Como foram suas férias aqui em New York até agora? Conseguiu fazer o Hyoga te mostrar os pontos turísticos?

– Alguns — Eu respondi vagamente. Não podia lhe contar sobre nossa noite, claro, mas, por alguma razão, também não queria falar sobre nossos dias juntos. Queria manter as memórias daqueles dias pra mim, escondidas. Elas, pelo menos, seriam só minhas.

O calor das suas mãos na minha cintura. O gosto dele na minha língua. O cheiro do seu cabelo… Eu mordi o lábio.

Ela sorriu.

– Eu pensei que vocês já teriam andado a cidade inteira há essa altura. Algo nesse nível.

Suas mãos se fechando nas minhas nádegas, a respiração ofegante, aquele volume pressionado contra mim…

– Ei! — Ela disse, de repente. — Vocês não fizeram nenhuma loucura enquanto estavam sozinhos, fizeram?

Eu me engasguei com o café.

– Shun? — Ele me acudiu preocupada. — Você está bem?

– Humm — Eu assenti, forçando um sorriso — Está tudo bem.

Amigos, o Hyoga dissera.

Eu tinha que me forçar a lembrar disso. Eu precisava parar de pensar naquele beijo.

Nós éramos amigos, só isso. Apenas bons amigos.

Notas finais
Olá a todos, eis aqui a continuação do tão esperado beijo, espero que gostem :) Confesso que no começo eu tinha imaginado que seria uma coisa mais singela, mas daí, sabem como é, dois jovens com os hormônios a flor da pele e que já vêm reprimindo o que sentem há algum tempo... bem, só podia dar nisso, né? XD. E o que acharam do 'bad Shun' kkkkk. Pq ele tb não tem sangue de barata né? E daqui pra frente as coisas tendem a piorar, ou melhorar, dependendo do ponto de vista XD. E Camiu atrapalhando tudo dessa vez, pra vcs ficaram com um pouquinho de raiva dele tb kkkk. Sim, essa é aquela cena em que o ruivinho quase é estuprado pelo Milo na garagem da casa dele em Aprendendo a Seduzir XD. Eu pensei que vcs só iam perceber nesse ch, mas, nossa, vcs estão super atentas e já sacaram no ch passado. Amei. Enfim acho que é isso. No mais, espero que gostem e mandem reviews ˆˆ/ Muito obrigada mais uma vez a todos que acompanham, em especial a HuadanNox, Jenferr, MilaScorpions, SweetTangerine, Kass, Lilith Rose, Shaketdiva, Ambrose Nym, e Brunaryu. Brigadão pelos reviews meninas ˆˆ Bjocas PS: Editado. O site comeu parte das minhas notas, incluindo os agradecimentos finais, então tive que editar. Não reparem.