O Garoto Do Andar de Cima
19 Capítulo 18 - Don’t Explain
Shun POV
Hyoga. Eu havia beijado o Hyoga!
Não importava o quanto eu tentasse, eu simplesmente não conseguia parar de pensar nisso. Era como uma doença. Loucura, a Shunrei dissera. Bem, se isso não era loucura, eu não sabia mais o que poderia ser.
Eu beijara o meu melhor amigo!
Eu queria poder conversar sobre isso com alguém, mas não podia falar com a Shunrei, porque, apesar de tudo, ela ainda era amiga da Freya.
O que significava que eu também não podia contar ao Shiryu ou ao Seiya.
Eu poderia tentar falar com a Misuki, mas não queria conversar sobre essas coisas por telefone. E tinha medo de como o Ikki poderia reagir.
O que significava que eu não poderia contar à ninguém
Isso queria dizer que o que eu fizera fora errado?
Bem, certamente não fora certo. Não pelo fato de eu ter beijado outro garoto. Eu podia lidar com isso. Mas pelo fato desse garoto ser o Hyoga.
E não era certo não só pelo fato dele ser meu melhor amigo, mas porque, mesmo eu odiando isso, ele ainda tinha uma namorada. Uma namorada que era amiga de uma das minhas melhores amigas. Uma namorada que, embora me causasse compulsões destrutivas, como o ímpeto assassino de cegá-la com as minhas próprias unhas, até onde eu sabia, não merecia ser traída.
O que era exatamente o nós havíamos feito.
Eu estava refletindo sobre isso no banco de trás do carro do Shiryu na Segunda à noite, a caminho da casa do Hyoga. A tempestade de neve que não paravam de anunciar de hora em hora em todos os canais de TV havia feito com que trocássemos os planos de um jantar no Jekyll & Hyde Club por uma reunião na casa do Oga.
Seria a primeira vez que estaríamos juntos em público outra vez, depois da Quinta Feira, e eu estava nervoso. E se a Freya estivesse lá? E se ele não quisesse falar comigo? O que eu devia dizer a ele?
Minhas dúvidas foram bruscamente interrompidas por um derrapar na neve, seguido de um solavanco, e do barulho alto de freios, e então estávamos parados em frente a porta da casa do Hyoga.
Shiryu e Shunrei discutiam sobre excesso de velocidade ao volante, enquanto um empregado nos conduzia pra dentro. Shunrei carregando uma caixa gigantesca de alguma coisa que ela não queria dizer do que se tratava.
Fora Shunrei quem viera dirigindo. Ela não tinha carteira assim como eu, mas Shiryu sempre se via convencido a deixá-la praticar no volante do seu carro…. E eles inevitavelmente acabavam discutindo depois disso pelo modo imprudente, na opinião dele, com que ela fazia isso.
O empregado nos guiou, escada acima, até o quarto de Hyoga e bateu à porta. Eu observei ansioso a fechadura girar pelo lado de dentro, e então, lá estava ele. Com seu cabelo bagunçado, e sua camiseta do John Lennon mais amassada do que nunca.
Estava sozinho, pelo que eu conseguia ver, e parecia mais cansado. Como se não dormisse há dias. E ainda assim, ele continuava lindo. Nossos olhares se encontraram e meu coração se despedaçou. E agora?
— Ei. — Ele disse.
Eu prendi o ar.
— Ei.
Nós caímos em um silêncio tenso e eu me dei conta daquela coisa entre a gente outra vez, aquela barreira.
Hyoga e eu ainda deveríamos ser amigos na teoria, mas agora havia aquela barreira… Ainda maior e mais horrível do que fora naquela noite depois do beijo. E era tão enorme que parecia física, um peso de verdade, um corpo que nos impedia de nos aproximarmos.
— E aí, cara, não vai nos convidar pra entrar?. — Shiryu intercedeu.
— Claro… — Hyoga piscou, como se despertasse de um transe — Claro, entrem. — Ele abriu caminho pra nós, então seu olhar recaiu sobre a imensa caixa rosa nos braços de Shunrei. — E isso seria…?
— Surpresa! — Ela anunciou energética já acomodando a caixa sobre uma mesinha de centro da ante-sala do quarto de Hyoga, aonde estávamos, e procurando alguma coisa para abri-la.
Shiryu puxou a chave do carro dele e cortou a fita.
— Isso! — Ele comemorou.
Shunrei desembrulhou a caixa. Hyoga espiou a tampa e arregalou os olhos.
— Não!
— Sim — Shunrei falou satisfeita, sentando-se no tapete em volta da mesinha e abrindo a tampa.
Eu encarei o conteúdo misterioso.
— Cupcakes? — Falei um pouco decepcionado, me sentando no tapete também. Quer dizer, eles eram uma graça e tudo, mas Shunrei havia feito tanto mistério sobre o conteúdo daquela caixa desde que saímos de Manhattan, que eu esperava sei lá… o manuscrito do último livro ainda não publicado de J. K. Rowling, ou algo assim.
Shiryu tomou o bolinho da minha mão.
— Não qualquer cupcake, meu bom amigo japonês, Magnolia Bakery Cupcakes — Ele se deixou cair no tapete ao lado da namorada, afundando os dentes no bolinho .
— Como você conseguiu todos esses?! — Hyoga perguntou impressionado, sentando-se do meu lado oposto. Eu não me lembrava da última vez que ele não se sentara ao meu lado, mas tudo bem. Não tinha importância.
— Todo ano nós recebemos uma uma caixa, na cesta de Natal que meu pai recebe do Governador.
Hyoga pegou um Red Velvet.
— Seu pai tem muita sorte. Acho que quero ser diplomata também.
— Eles são dificílimos de se conseguir — Shiryu explicou diante da minha careta de interrogação.
— Agradeça a Carrie Bradshaw — Shunrei falou dando uma mordida em um de pistache.
— Quem?
— A personagem de Sarah Jessica Parker em Sex And The City, — Hyoga explicou — Desde que a Magnolia Bakery apareceu na série, é impossível conseguir alguns desses sem enfrentar horas de fila na porta.
— Hum… E o que tem de tão especial sobre... Hummingbird? — Eu inspecionei outro bolinho. Ele parecia fofo, com um creme branco lisinho por cima polvilhado com canela. A plaquinha espetada nele, dizia que o sabor do bolinho de nome estranho era banana e abacaxi.
— Hummingbird? — Agora foi Shunrei quem arrancou o cupcake da minha mão. — Vieram Hummingbirds, esse ano? Eles são os meus favoritos. — Ela vibrou.
— Eles são simplesmente a sobremesa mais saborosa do planeta todo — Hyoga falou.
Eu torci o nariz.
— Eu nunca entendi muito bem essa onda dos cupcakes, sabe. Quer dizer, eles são bonitinhos, tudo bem, mas não são passam de muffins com cobertura. — Na verdade, eu também gostava de cupcakes, mas por alguma razão, queria discutir.
— É claro que não! — Hyoga disse — A massa deles é muito mais leve. Existe toda uma ciência por trás dos cupcakes, sabia?
Eu revirei os olhos com ironia.
— E você virou mestre confeiteiro agora?
— Bem, você costumava gostar quando eu te contava essas coisas. — Ele pareceu magoado.
— Isso é porque antes você não era tão arrogante. — Eu revidei.
Sério, qual era ao meu problema?
O rosto de Hyoga cintilou com frustração, mas por alguma razão, isso não me satisfez tanto quanto deveria. Argh, tudo bem.
— Ei! — Shunrei disse.- É Natal. Ho-ho-ho. E nós temos uma caixa todinha de cupcakes da Magnolia Bakery pra devorar. Parem de brigar.
— Não estamos brigando! — Hyoga e eu dissemos ao mesmo tempo.
Ela balançou a cabeça.
— Alguém disse cupcakes da Magnolia Bakery? — Uma cabeça loira se infiltrou pela fresta da porta.
— Afrodite! — Hyoga gemeu — Não é elegante escutar atrás das portas, sabia?
— Cupcakes da Magnolia Bakery? — Outro rosto apareceu por atrás dos ombros de Afrodite. Um rosto moreno que logo reconheci como sendo do tal namorado italiano dele.
O casal entrou na sala, fazendo Hyoga suspirar, frustrado.
Então os olhos azul-piscina de Afrodite se sobressaltaram ao deparar com a caixa rosa aberta na mesinha.
— Oh me Deus! — Ele vibrou — Me diga que tem Red Velvet?
— Mas é claro. — Shunrei disse estendendo para o loiro um bolinho de massa vermelha com um creme de chocolate por cima.
Ele se deixou afundar no tapete, ao meu lado, enterrando os dentes no bolinho e agarrando meu braço, suspirando de prazer. O cupcake desapareceu em segundos nas suas mãos. Ele lambeu os lábios satisfeito, e eu fiquei pasmo que ele não tivesse farelo em volta da boca ou creme de chocolate no nariz. Como ele fazia isso?
— Você já experimentou um desses? — Ele me perguntou.
— Ah… não. — Eu falei.
— Faça isso. — Ele disse, pegando outro bolinho igual ao dele da caixa e o entregando pra mim.
O italiano tossiu, sentado no sofá atrás do namorado, e Shunrei se adiantou, estendendo um de Cheesecake ao moreno.
Shiryu olhava horrorizado para a namorada.
— Por que você está dando tudo pra eles?
— Sério. — Hyoga lançou um olhar irritado ao irmão e seu companheiro — Vocês não têm mais nada pra fazer, não? Dite, por que você não está pentelhando o Camus?
— Ele ainda não voltou da empresa. — Ele deu de ombros, se servindo de mais um bolinho.
Eu afundei os dentes no cupcake na minha mão… e quase desmaiei de felicidade. A massa era fofa, úmida, aveludada, com um suave sabor de chocolate, mas sem ser exatamente um bolo de chocolate. O creme era macio, amanteigado, perfeito.
— Mmmm. — Eu gemi.
— Eu te disse. — Afrodite falou, lambendo o creme de chocolate da ponta dos seus dedos.
— Ei! — Hyoga fechou a tampa da caixa, o impedindo de se servir de um terceiro bolinho. — Por que vocês dois não vão procurar algum lugar pra se agarrar.
Shiryu abraçou a caixa defensivamente, e Shunrei riu.
Afrodite fez um biquinho contrariado, mas pareceu aceitar a sugestão, porque segurou na mão do namorado com um sorriso sugestivo e se despediu, saindo do quarto… Não sem antes roubar mais dois bolinhos, sob os gritos de protestos de Shiryu e do Hyoga, é claro.
Então nós nos servimos com as latas de refrigerante que o Hyoga tirara do seu mini bar e fizemos um brinde, antes de nos empanturrarmos até quase explodirmos.
— Esses cupcakes são mesmo o máximo — Eu falei algum tempo depois, com a boca suja de farelo, e jogado de costas sobre o tapete.
— Uhhhum — Shiryu concordou com a boca ainda cheia do último pedaço do seu bolinho.
— Eu pensei que você não ligasse pra cupcakes. — Hyoga alfinetou.
— Não ligo. — Eu falei irritado, endireitando as costas e me sentando outra vez. — Eu só disse que gostei desses,
— Tudo bem. Eu só estava brincando. — Ele se defendeu.
— Bem, você não precisava ter sido tão prepotente. — Ah meu Deus, lá ia eu outra vez! Por que eu estava atacando ele desse jeito? Não era como se eu também não quisesse que nós voltássemos a ser amigos. Então por que eu continuava falando essas coisas?
Shunrei bufou frustrada.
— Vocês poderiam parar? — Ela disse — Eu vou a acabar tendo uma indigestão assim. Sem mencionar que vocês estão matando meu espírito de Natal.
— Falando em Natal… — Shiryu falou em meio à um bocejo — Qual vai ser o plano?
Eu fiquei esperando que alguém respondesse mas como ninguém disse nada, eu me virei para o Shiryu. — Heim?
— Seiya disse que queria sair pra beber. — Shiryu explicou. — Então, o que vai ser?
Ele obviamente não estava se referindo a beber refrigerantes em um cinema ou restaurante. Eu me mexi desconfortavelmente.
— Eu preferia ficar em casa mesmo. — Disse.
Os olhos de Shunrei brilharam.
— Ah meu deus, Shunny! Vai me dizer que você nunca bebeu antes?
— É claro que bebi. — Eu tentei mentir, mas minhas bochechas vermelhas destruíram meu disfarce.
Ela gritou empolgada com a descoberta, e Shiryu emendou incrédulo.
— Cara, como você conseguiu passar um ano inteiro na faculdade sem sair pra encher a cara nenhuma vez?
Eu me retorci desconfortável.
— Eu só... não bebo. — Eu falei — Parece ilegal.
— Não é ilegal em todos o lugares. — Hyoga explicou — Algumas casas noturnas aqui permitem que sejam servidas bebidas a maiores de 18 anos.
— Você devia pelo menos tentar. — Shiryu falou.
— Sim!! Vamos embebedar o Shun! — Shunrei gritou. E então pulou em cima de mim, gritando e festejando.
— Eu não sei... — Eu disse quando ela me soltou,
— Não bêbado. — Hyoga sorriu pra mim. Dava pra perceber que ele estava fazendo um esforço para ser amigável. Era meio doloroso. — Só... feliz.
— Yeah! Porre de Natal! — Shiryu disse.
— Porre coletivo! — Shunrei comemorou.
— Só feliz. — Hyoga repetiu. — Vamos, Shun. Eu conheço o lugar perfeito para comemorar.
Ele continuava tentando, e eu continuava cortando ele.
— Não sei por que você se importa. Provavelmente vai estar ocupado demais com a Freya.
Ele se contraiu como se eu o tivesse esbofeteado.
Realmente, o que havia de errado comigo?
— Shun! — Shunrei me repreendeu, surpresa.
— Desculpe — Eu falei olhando para as minhas próprias mãos no meu colo. Também estava surpreso com toda aquela hostilidade dentro de mim. — Não sei porque disse isso.
Hyoga deu de ombros, mas pareceu forçado.
— Tudo bem.
Shunrei suspirou.
Nossos amigos provavelmente já estavam ficando cansados daquelas discussões, mesmo que eles ainda não soubessem dos detalhes da nossa situação atual. Que era como eu preferia no momento.
— Bem… — Shiryu tentou soar descontraído. — E o Seiya, onde se meteu?
— A irmã dele estava chegando hoje, parece que ele ia buscá-la no aeroporto. — Shunrei explicou.
— Hum… — Ele assentiu. E logo o silêncio se fez outra vez.
Então Shunrei levantou de repente.
— Droga! — Ela falou. — Eu tenho que ligar para a minha mãe. Eu disse que ligaria pra ela, e esqueci totalmente. Vamos Shi, — ela puxou a mão do namorado — vamos ligar lá da sala que o sinal é melhor.
— Vemos vocês depois.
Eles se afastaram rapidamente como se nós fôssemos contagiosos ou algo assim.
Eu só consegui observar enquanto a porta do quarto se fechava.
E então… eu estava sozinho com Hyoga outra vez.
***
O silêncio entre nós era desconfortável. Eu queria poder falar alguma coisa, mas não fazia idéia do que dizer. E ainda havia todos aqueles sentimentos com os quais eu não sabia lidar brigando dentro de mim
Eu remexi algumas migalhas de cupcake que tinham ficado na caixa, e pensei em lamber um resto de cobertura, mas me senti enjoado.
“Por favor, Hyoga, diga alguma coisa. Diga alguma coisa."
Ele tossiu.
— Então… Hum… faz tempo que a gente não… é… Como você passou esses dias?
— Legal. — Eu respondi sem olhar pra ele. O que não era bem verdade, mas eu respondi mesmo assim. Depois mordi o lábio e continuei cutucando as migalhas. — E você?
Ele hesitou por um tempo, depois soltou um suspiro.
— Me sentindo como no inferno. — Ele desabafou. Então abriu um sorriso fraco e meu coração esquentou. Sua sinceridade quebrando parte da minha barreira.
Eu levantei os olhos pra ele e sorri de volta.
— Você parece como o inferno. — Eu falei me referindo as olheiras e à sua camiseta amassada
Seu sorriso se ampliou.
— Falou o garoto com a cara toda suja de creme de chocolate.
Eu dei uma meio risada, ele meio que deu de ombros e eu fiquei me perguntando se essa pequena interação valia como desculpa.
— Nossa…. — Eu falei limpando o rosto com um guardanapo de papel. — Muito obrigado, Hyoga.
Ele pegou outro guardanapo pra me ajudar na tarefa, mas nem bem seus dedos tocaram na minha boxexa ele os afastou outra vez como se eu estivesse eletrificado.
Eu abaixei os olhos, meu rosto esquentou, e então… lá estava ela outra vez. Aquela coisa estranha, impedindo qualquer aproximação.
Era meio triste. Isso significava que não havia mais volta? Seria sempre assim agora entre a gente?
O telefone dele tocou chamando nossa atenção.
Ele conferiu o visor e eu soube pela sua expressão que era a Freya.
A barreira ficou maior.
O telefone tocou outra vez. Nossos olhares se encontraram e ele soube que eu sabia.
— Você não vai atender? — Eu falei amargo, antes de andar até a janela.
— Shun… — Ele se levantou também, parando às minhas costas, mas eu só fiz olhar a noite pela vidraça. A neve pesada havia parado de cair.
O telefone continuava tocando.
Um Volvo preto cruzou os portões de entrada em direção a garagem enquanto eu olhava. Devia ser o irmão dele chegando do trabalho. Que horas seriam? Meia noite? Talvez mais?
— Shun. — Ele chamou outra vez, mas eu não queria ouvir.
O barulho do telefone parou. Depois começou de novo
— Você deveria dizer a ele. — Eu falei de repente ainda de costas pra ele.
— Como? — Ele pareceu confuso.
— Sobre o que aconteceu de verdade com você na noite do acidente. Você deveria dizer ao Camus.
— Shun, por favor... — Ele suplicou, agora com frustração, mas eu não queria saber.
O barulho do telefone parou outra vez.
— Eu não gosto disso, Hyoga, — Eu insisti — você deveria dizer a verdade ao seu irmão.
— Shun! — Ele esbravejou, puxando meu braço pra me obrigar a olhara pra ele. — Eu não quero falar sobre o meu irmão, está bem.
Eu mordi meu lábio, meus olhos ardiam, e eu sabia que estava perigosamente perto de cair no choro.
— Eu não quero falar sobre o meu irmão, sobre o acidente, nem sobre qualquer outra coisa que você possa pensar em dizer pra fugir do assunto — Ele continuou, suas mãos queimavam a pele do meu braço sob o moletom — Eu quero… eu preciso… — Ele se interrompeu.
Eu queria dizer alguma coisa, mas continuava incapaz de qualquer outra ação que não fosse a de lutar violentamente com as lágrimas. O aperto no meu braço diminuiu.
— Eu… — Ele tentou outra vez — Esse provavelmente não é o melhor momento, mas eu realmente queria conversar com você. Shun, eu…
Mas eu não deixei que ele terminasse. De repente todas as lágrimas, toda frustração, todo sentimento negativo que eu vinha segurando, explodiram em ondas de raiva.
Um riso amargo escorreu dos meus lábios, junto com as lágrimas.
— Conversar? Ah, você gostaria de conversar agora? — Eu puxei meu braço com força da mão dele. — Bem, você tem um jeito interessante de demonstrar isso, sabe? Me deixando sem uma única palavra por dias e indo passar a noite com ela.
Ele parecia atordoado.
— O q…quê?
As lágrimas eram abundantes agora, quentes, descendo pela minha bochecha.
Eu estava sendo ridículo, eu sabia. Eu não tinha o direito de cobrar nada dele, mas não conseguia evitar. Doía tanto. E o engraçado era que somente enquanto as palavras passavam pelos meus lábios é que eu me dava conta do quanto estava realmente machucando.
— Você achou que eu não fosse descobrir que você estava com ela. — Meus lábios tremiam. Eu mal conseguia controlar minha voz. — Você… você me beijou e… e depois… você passou a noite com ela!
— Não! — Ele arregalou os olhos — Não, não passei. Shun, eu não... eu não passo uma noite com ela dessa forma há muito tempo. Desde antes do acidente.
— Bem… — Eu funguei, cruzando os braços — Mas você esteve com ela mesmo assim, não esteve?!
Ele me olhou suplicante.
— Sim, mas…
— Mas, o que? — Eu interrompi frustrado. — Você deve achar que eu sou muito idiota mesmo, né? Que eu sou um estúpido qualquer que vai te esperar no banco para sempre. Que você pode correr para ela sempre que te der vontade, e eu vou só me contentar com isso.
— Não é assim!
— É sempre assim! — Eu falei, e, antes que ele pudesse responder eu já estava tropeçando pelo tapete em direção a porta. Estava chorando tanto agora que mal conseguia enxergar o caminho. Eu tinha sido tão estúpido. Tão idiota. E era tudo tão humilhante.
Eu ouvi a voz dele me chamar, mas continuei seguindo em frente até as escadas. Um pé na frente do outro, degrau por degrau, o mais rápido que conseguia.
— Shun, espera! — Ele me chamou outra vez. Sua voz estava mais próxima e eu aumentei o ritmo.
— Shun! — Ele chamou de novo, agora mais perto.
E então eu senti sua mão se fechar sobre o meu braço, me puxando pra trás quando entramos no vestíbulo.
Eu olhei pra ele com raiva e puxei meu braço do seu toque outra vez. Eu estava tão confuso, tão cansado.
— O que está acontecendo? — Eu ouvi alguém perguntar.
Olhando em volta, eu percebi Shunrei e Shiryu nos cercando. Desde quando eles estavam por ali? Por quanto tempo estiveram nos assistindo?
— Está tudo bem. — Hyoga disse. Ele parecia surpreso com a presença deles ali também. — O Shun só está um pouco irritado.
Eu sequei minhas bochechas molhadas com as costas do braço.
— Eu não estou ‘só um pouco irritado' com você — Eu revidei.
— Shun, você está nervoso, e está sendo irracional. Eu vou te levar pra casa e nós conversamos melhor amanhã, está bem?
— Eu não quero ir pra casa com você! — Eu lancei.
Ele fechou o rosto.
— Olha, me desculpa, está bem. Eu não sei o que você quer que eu diga. Qual é o seu problema hoje, afinal?
— Qual é o meu problema? Você é muito corajoso mesmo pra me perguntar isso. — Eu dei um passo pra trás, esbarrando no aparador. Um molho de chaves junto a um par de luvas caiu no chão com um estardalhaço. Shunrei e Shiryu apenas assistiam a tudo horrorizados. Eu não me importei.
— Só me diga uma coisa, Hyoga. — Eu continuei. — Eu só quero saber uma coisa.
Ele me encarava. Furioso. Confuso.
Eu respirei fundo, fazendo uma pausa para estabilizar a minha voz.
— Por que? Por que você não terminou com ela antes? Você faz idéia de como eu estou me sentindo agora?
Ele suspirou derrotado.
— Eu… eu te disse, era complicado. E… eu não queria estar sozinho naquele momento.
— Meu Deus, sempre vai ser complicado, não é Hyoga?
— Não! Quer dizer, sim. Mas eu…
— Quer saber? Chega. — Eu o interrompi — Chega de se explicar. Não me responda. Eu não quero saber. E sabe do que mais? Não me ligue também. Nós terminamos isso aqui.
Ele abriu a boca, só pra fechá-la um segundo depois. Sua expressão vacilando entre a fúria e a dor, um milhão de vezes.
— Eu não acredito que você… — Ele balançou a cabeça — Tudo bem, Shun. Se é isso mesmo que você quer, nós paramos por aqui. Boa noite.
Ele parecia chateado. Não, inconformado. Sua expressão estava rígida, e eu quase gritei de frustração quando o vi se despedir do nosso casal de amigos.
“Eu pensei que você quisesse conversar!” Eu tive vontade de berrar pra ele enquanto me afastava, mas apenas me deixei conduzir em silêncio até o carro do Shiryu outra vez. O peito apertado. O estômago revirando.
As lágrimas mais uma vez escorriam abundantes, esquentando minhas bochechas, enquanto o carro se afastava na escuridão. Eu me voltei pra encará-lo uma última vez pela janela do banco de trás.
“Você não estava sozinho, idiota.”
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