O Garoto Do Andar de Cima
14 Capítulo 13 - Todo Amor é Clichê
Shun POV
Meu vôo de volta a Boston foi longo e silencioso, e logo eu já estava desarrumando minha mala no alojamento tumultuado e barulhento com o som dos outros alunos voltando das férias. Era engraçado me dar conta de como eu sentira falta de tudo aquilo. Eu estava no segundo ano agora, e uma nova leva de calouros estava chegando.
Shunrei já estava lá e nós combinamos de nos encontrar no saguão. No caminho eu vi uma menina tentando consolar um novo calouro cujo som abafado de choro chegava até mim pelas paredes finas do alojamento, e isso me fez sorrir nostálgico.
Shunrei e eu ficamos conversando sobre nossas férias até bem tarde, e, no dia seguinte, eu percebi que a história sobre o Hyoga havia se espalhado. Não era como se uma história como aquela pudesse permanecer em segredo por muito tempo, é claro, mas eu adoraria descobrir quem havia deixado vazar.
De qualquer forma, na hora do almoço ficou bem claro que a faculdade inteira sabia. Estavam todos comentando.
– É verdade o que estão dizendo sobre o Hyoga? — Tiffany me abordou na fila pra refeição.
– Não sei. Eu não faço idéia do que estão dizendo. — Eu falei displicente. Até parece que eu ia contar alguma coisa pra ela.
Ela mexeu no cabelo, e eu percebi com satisfação uma mecha loira ficar presa no seu brilho labial.
– Porque eu soube que atiraram nele dentro do campus da faculdade. E Steve disse que ele e o Seiya estavam muito bêbados naquela noite. Ele os viu cambalear pra dentro de uma boate em Dorchester.
– Bem, Steve se enganou. — Eu falei simplesmente, de má vontade.
– E Steve também disse que Hyoga teve que pular o muro da faculdade porque o portão já tinha sido fechado… Ele e Daisy disseram que estavam do lado de fora e viram quando ele chegou… e que ele só não morreu porque a Saori Kido o salvou. É verdade que agora ela vai se casar com o irmão dele?
Eu revirei os olhos. Eu não merecia aquilo. Sério.
– Steve só fala merda — Shunrei veio em meu socorro. — E onde você estava naquela noite, Tiffany? Tão bêbada que tem que acreditar nos comentários do Steve?
Isso pelo menos a fez calar a boca por um tempo.
As próximas semanas passaram borradas. Aos poucos os dias de sol foram ficando raros e o vento frio do Outono tingiu de vermelho e dourado às árvores do pátio.
As histórias sobre Hyoga foram diminuindo com o passar do tempo e conforme os alunos foram encontrando outras coisas sobre o que falar.
Mas a vida na faculdade parecia errada sem ele.
Seiya havia se formado no último ano, o que reduzia nosso pequeno grupo a apenas Shunrei, Shiryu e eu. Embora, na maior parte do tempo fôssemos somente Shunrei e eu, já que Shiryu mal aparecia na faculdade agora.
Shunrei e ele estavam sempre brigando. Ela achava que ele escondia alguma coisa dela e estava preocupada. Ele estava cabulando aulas com uma frequência alarmante e quanto mais Shunrei o pressionava, mais ele se esgueirava e pulava fora.
Eu preferia me manter um pouco afastado.
Sentia tanta falta de Hyoga que doía fisicamente.
As conversas ao telefone, e mensagens já não eram mais o bastante.
Eu sentia falta de me sentar ao lado dele no refeitório. De encostar nele durante os intervalos. Sua letra corrida nas nossas folhas de trabalho. Seu nome nas margens do meu caderno de desenho. Sentia falta de entregar sua mochila quando a aula de Economia acabava porque assim meus dedos ficavam com seu cheiro pelos próximos dez minutos. E agradecia o fato de não termos mais trabalho em duplas naquela matéria porque não conseguia suportar a idéia de ter outro parceiro que não fosse ele.
Sentia falta dos nossos passeios de mãos dadas pelo Public Garden, e de nossas conversas sobre qualquer coisa. De quando alguém de quem não gostávamos dizia alguma coisa chata e ele me procurava pra trocar um olhar de “que estúpido”.
Eu sentia falta da sua risada de menino, suas camisetas dos Beatles e seu cabelo bagunçado. Sentia falta de seus olhos azuis e do modo como ele mordia as unhas quando estava concentrado. E, a noite, tinha dificuldade pra pegar no sono sentindo falta dom som que os passos dele faziam no teto do meu quarto.
E então, quando parei pra prestar atenção outra vez, já era Novembro.
Aulas com professores ansiosos pra terminar seu cronograma, e nós virando a noite para manter o ritmo e nos prepararmos para os exames finais. Pela primeira vez, eu percebia o quão competitiva era aquela faculdade. Os estudantes ali realmente levavam os estudos a sério. O dormitório estava quase tão silencioso quanto nas férias.
Eu tentava me focar no estudos também, mas não conseguia parar de pensar no feriado de Ação de Graças. Faltavam somente duas semanas agora,
Eu estaria com Hyoga em duas semanas!
Eu mal podia esperar.
***
Eu desembarquei em New York exatamente duas semanas e três dias depois.
Surpreendentemente pra aquela época do ano, minha viagem foi fácil e tranquila, e, cerca de uma hora depois de decolar de Boston pela manhã eu já estava preso em um congestionamento com Ikki a caminho do seu apartamento em Greenwich, pra desempacotar minhas malas.
Às duas da tarde eu sacolejava em uma vagão de metrô a caminho do Central Park.
Engraçado, eu costumava ter medo de encarar o metrô sozinho... Mas isso fora antes de me mudar pra América. Antes de Harvard. Antes de Hyoga.
Hyoga. Meu coração deu uma cambalhota e depois disparou com a perspectiva de encontrá-lo outra vez.
Eu não conseguia explicar, mas começava a sentir meus nervos a medida que ia descendo a Quinta Avenida em direção ao MET, que foi onde combinamos de nos encontrar.
Será que ele já teria chegado? Estaria lá, esperando por mim naquele momento.
Eu tentava controlar meus batimentos. Por que estava tremendo? Foram só alguns meses… Nós nos falávamos o tempo todo. O que eu estava esperando?
Mesmo assim optei por tomar o caminho mais longo, por dentro do parque, até o Museu.
Eu sempre me esquecia de quão bonito era aquele parque. E ele parecia ainda melhor agora. No final do outono. Absolutamente incrível, todo em tons de marrom, vermelho e dourado. Com esquilos se escondendo entre as árvores, folhas caídas formando um tapete vermelho pelo caminho, e os lagos refletindo a luminosidade esbranquiçada do céu, destacando-se, brilhantes, em meio a todo aquele dourado.
De repente, me peguei imaginando um Hyoga menino passeando por ali com sua família. Preparando lanches, fazendo piqueniques, jogando guloseimas para os esquilos. Tentei visualizá-lo correndo em torno dos lagos de uniforme escolar: bermuda de pregas, e joelhos cheios de cicatrizes. Mas não consegui. Tudo o que via era a pessoa que eu conhecia agora. Calma e confiante, com as mãos nos bolsos, e o andar despojado. O tipo de pessoa que irradiava um campo magnético natural para o qual todos eram atraídos, todos eram cegados.
Um raio de sol venceu as nuvens por um momento, aquecendo minhas bochechas frias. Dois homens carregando o que só poderia ser descrito como bolsas masculinas pararam pra admirar o céu. Um mulher em boa forma parou também maravilhada. Eu sorri e passei por eles. Então o caminho fez uma curva, e meu peito apertou tanto, tão dolorosamente, que eu não conseguia mais respirar.
Porque lá estava ele.
Sentado em um banco no pátio em frente ao MET. Absorto em um livro enorme, debruçado, e completamente hipnotizado. Uma brisa agitava seu cabelo loiro e ele mordia as unhas. Várias outras pessoas estavam por ali também tirando proveito do raro momento de sol. Mas eu mal as notava. Na verdade, no mesmo instante em que me dei conta da presença delas, eu as esqueci… Por causa dele.
Tive que me segurar no encosto de um banco vazio no caminho para evitar cair. Os passantes me olharam alarmados, mas não me preocupei. Estava cambaleante e precisava de ar. A constatação me atingindo como um tapa.
Como pude ter sido tão estúpido?
Como pude ter acreditado, por um momento sequer, que não estava apaixonado por ele?
***
Eu continuei parado ali olhando pra ele. Por algum motivo não conseguia me mover. Ele mordeu a unha do dedo mindinho esquerdo, então o livro que estava lendo devia ser bom. Dedo mindinho queria dizer empolgado ou feliz, dedão queria dizer pensativo ou preocupado.
Meu Deus, como era possível que eu soubesse o significado de cada um desses gestos?! O quanto vinha prestando atenção nele?
Duas mulheres mais velhas com jeito de turistas e casacos combinando passaram por mim. Uma delas parou e se virou. Ela perguntou algo em espanhol. Não consegui traduzir, mas sei que estava preocupada se eu estava bem. Fiz que sim com a cabeça e agradeci. Ela me lançou um olhar de inquietação, mas continuou andando.
Eu não conseguia andar. Simplesmente não conseguia sair dali. O que devia dizer? Quase cinco meses consecutivos de conversas pelo telefone e, agora que ele estava ali, pessoalmente, eu duvidava que conseguisse gaguejar sequer um olá.
Alguém, um garoto, se adiantou pra me ajudar. Eu dispensei a ajuda, me soltei do banco e saí tropeçando pelo caminho. Meus joelhos fraquejaram. Quanto mais perto eu chegava, mais esmagador ficava. O pátio do MET era enorme. Hyoga parecia estar tão longe.
Então ele ergueu a cabeça.
Nossos olhos se encontraram, e ele foi abrindo um sorriso vagaroso. Meu coração batia cada vez mais rápido. Eu continuei colocando um pé na frente do outro... Quase lá.
Ele colocou o livro de lado e se levantou. E então aquele momento — o momento em que ele disse meu nome — foi o momento em que as coisas definitivamente mudaram pra mim.
De repente, ele não era mais o Hyoga colega de todos, amigo de todos.
Ele era o meu Hyoga. Era o Garoto Bonito do Andar de Cima, como na noite em que nos conhecemos. Ele era o meu amigo.
Ele era muito mais.
Hyoga. Meus pés tropeçavam naquelas três sílabas. Hyoga. Seu nome encobria a minha língua como chocolate derretido. Ele era tão bonito, tão perfeito.
Minha garganta deu um nó quando ele abriu os braços pra me envolver em um abraço. Meu coração batia furiosamente de encontro às minhas costelas, e eu poderia morrer de vergonha porque sabia que ele sentia isso.
Nós nos separamos e meus pés vacilaram para trás. Ele me segurou pela cintura antes que eu caísse de forma humilhante com a bunda no chão de pedregulhos.
– Quase…! — Ele disse. Mas não acho que ele se referia minha quase queda.
Senti meu rosto esquentar ainda mais e, claro, culpei minha falta de jeito.
– Nossa, essa podia ter sido feia. — Eu falei. Ufa, uma voz firme.
Ele parecia preocupado.
– Você está bem?
– Sim. Ótimo. Super bem! — Percebi que suas mãos continuavam na minha cintura e todo o meu corpo se contraiu com o toque.
Hyoga tirou as mãos de mim cuidadosamente.
Nós nos sentamos juntos no banco de onde ele levantara. Eu nunca mais havia ficado tão nervoso assim ao lado dele desde o primeiro dia de aula. Minha mente estava confusa, minha língua parecia amarrada e meu estômago dava nós.
– Bem… — Ele disse após um minuto torturante. — Será que esgotamos todas as nossas conversas durante esses cinco meses?
A pressão dentro de mim diminuiu o suficiente para que eu conseguisse falar.
– Acho que quero ver o museu. — Eu ameacei me levantar, e ele riu.
– Espera, eu tenho uma coisa pra você. — Ele me puxou de volta pela manga. — Um presente de Natal adiantado.
– Pra mim? — Eu pisquei, surpreso — Mas... não comprei nada pra você.
– Bobagem. — Ele fez um gesto de descaso, então colocou a mão no bolso do casaco e a retirou de lá um segundo depois com o punho fechado, segurando algo muito pequeno dentro.
– Não é muita coisa, então não fique empolgado. — Ele disse.
Eu mordi o lábio.
– O que é?
– Eu vi isso quando o Dite me forçou a sair pra fazer compras com ele, e me fez pensar em você.
Eu balancei a cabeça, corando outra vez.
– Hyoga! Fala sério!
– Feche os olhos e estique a mão. — Ele pediu categórico. E, ainda que envergonhado, eu obedeci.
Eu senti sua mão pairando sobre a minha. Então seus dedos tocaram a minha mão e ela se retraiu automaticamente como se ele estivesse eletrificado.
Nós dois observamos quando algo saiu voando e pousou com um fraco tilintar atrás de nós. Eu olhei pra ele. Ele estava me encarando igualmente atordoado.
Eu mordi o lábio outra vez, constrangido.
– Desculpa.
Ele inclinou a cabeça na minha direção.
– Tudo bem. Eu acho… acho que caiu ali atrás.
Eu me atrapalhei com os pés ao virar pra trás pra tentar procurar, mas nem sabia pelo que estava procurando. Eu não conseguira sentir o que ele havia colocado na minha mão. Eu só pude sentir o contato dele. Com a mão dele.
– Eu não estou vendo nada! — Eu falei — Só folhas, pedregulhos e cocô de esquilo. — Acrescentei, tentando parecer divertido.
Onde estava? O que era?
– Aqui. — Ele apanhou algo pequenino, embrulhado em um papel de seda branco, do chão perto dele. Eu voltei a posição inicial e estiquei a mão novamente, fechando os olhos e concentrando-me no contato.
Eu ouvi o barulho de algo sendo desembrulhado e então alguma coisa caía no centro da minha palma. Hyoga o derrubara de alguns centímetros acima da minha mão, eu constatei. Como se ele estivesse evitando me tocar também.
Eu abri os olhos. Era um pingente de prata. Em formato de coração.
Hyoga sorriu.
– Eu sei que você prefere ganhar esse tipo de coisa do seu irmão. — Ele zombou — Mas fui obrigado a entrar na Tiffany com o Dite na semana passada, vi isso, e não consegui evitar lembrar de você.
Eu fiz uma careta zangada e ele riu.
– Espero que não se importe em ter mais alguém aumentando sua coleção.
Eu fechei a mão.
– Isso é pra garotas! — Reclamei bufando, e ele riu ainda mais.
Mas embora eu fingisse indignação, sentia um calor gostoso se espalhando por dentro. Estava feliz na verdade. Porque ele lembrara de mim. Não importava se fosse só por causa de uma brincadeira. O fato era que ele lembrara.
Ele me observou prender o pingente na correntinha no meu pescoço, ao lado do de Ikki, por dentro da minha blusa.
– O Afrodite quis saber por que eu queria isso. — Ele comentou.
– E o que você disse?
– Que era pra você, claro. — Ele falou como se fosse óbvio.
– Ah, não! — Eu lamentei e ele sorriu.
Eu sorri também, terminando de prender o pingente. Ele era tão leve que eu mal podia senti-lo, exceto pelo frio que deixava na minha pele.
E por falar em frio… Eu senti um vento gelado entrar sob o meu casaco, me fazendo estremecer. O sol havia desaparecido outra vez por trás das nuvens espessas.
– Brrrr — Eu fiz — A temperatura caiu ou sou só eu que estou tremendo?
– Aqui. — Hyoga tirou o cachecol preto que estava em seu pescoço e me entregou.
Eu olhei em dúvida pra ele, mas ele apenas deu de ombros.
– Tome. — Ele ofereceu outra vez. — Nem está tão frio hoje, você vai ver quando começarem as nevasca perto do Natal.
Eu fiz uma careta de desgosto, e então peguei o cachecol, gentilmente, o enrolando no meu pescoço.
O cheiro familiar que se desprendia dele envolveu meus sentidos como uma nuvem, me deixando tonto. Cheirava a amaciante e perfume. Tinha o cheiro dele.
– Ah, esse vento está cruel. — Ele falou tirando uma mecha loira da frente do olho. — Vamos sair daqui. Eu preciso de um café, está afim?
Café! Eu estava louco por uma xícara de café. Eu sorri.
– Parece ótimo.
Ele pegou o livro que estava lendo de cima do banco e o enfiou em uma bolsa lateral.
– Tem uma cafeteria ótima dentro do Museu. Vamos?
Eu assenti. E então zombei.
– Vai me dizer que você tem entrada livre no MET também? — Falei lembrando do nosso primeiro passeio por Boston.
Ele me olhou em falsa indignação.
– Mas é claro! — Disse, e nós dois rimos.
– Então, o gorro está de volta? — Ele falou enquanto descíamos o caminho até a entrada do museu.
Ele estava se referindo ao gorro de lã que eu estava usando. Uma coisa felpuda e colorida, com orelhas de urso, parecendo um bicho de pelúcia velho.
– Sim… — Eu respondi rindo. — Sei que você sentiu falta dele.
A primeira vez que eu aparecera com ele na faculdade, meus amigos implicaram comigo o dia todo. Eu nem ligava. Minha avó tinha feito ele pra mim. E ele era quentinho e fofo.
– Esse é com certeza o acessório mais ridículo que eu já vi.
– Ah é? — Eu tirei o gorro e o enfiei na cabeça dele. Precisei ficar nas pontas dos pés pra conseguir fazer isso. — Pois eu acho que ficou ótimo em você. Muito encantador. — Eu zombei.
Ele tirou o gorro da própria cabeça rindo, e o jogou pra mim outra vez. Depois ficou observando enquanto eu o vestia de novo.
– Seu cabelo está legal — ele comentou. — Você pintou de novo?
Eu toquei em uma mecha demasiado consciente de seu olhar.
– É. Minha mãe me ajudou. — Eu me senti corar outra vez. Então desconversei.
– E sobre o que é o livro da vez? The Shadow Masters, né?
Ele sorriu, seus olhos brilharam daquela forma empolgada que eu amava e ele começou a contar sobre a história do livro.
E então estávamos subindo os degraus de entrada do MET... frios, brancos e reluzentes... na cidade mais cosmopolita do mundo.
E eu estava com Hyoga ali. Estava com meu melhor amigo. Estava com um garoto inteligente, bonito e divertido e estava sorrindo de orelha a orelha.
***
Nós passeamos um pouco pelo museu depois do café, e então eu fiz Hyoga me acompanhar em um passeio de carruagem de aluguel pelo parque. E, mesmo ele reclamando que aquilo era muito coisa de turista, nós nos divertimos.
Subimos na carruagem junto com um casal de italianos, e durante uma hora visitamos os pontos mais bonitos do parque, parando em diversos lugares pra tirar fotos.
A carruagem seguia calmamente e dava pra escutar o chacoalhar suave das rodas de madeira no cascalho enquanto o cocheiro nos contava sobre a história do Central Park e suas atrações.
Quem iria imaginar, olhando aquele lugar lindo, que o parque na verdade era tão rochoso que arquitetos tiveram que importar terra de Nova Jersey para poder plantar as árvores? Ou que ele fora totalmente projetado, com exceção das rochas que já estavam lá há milhões de anos?
No final eu estava empolgado, enchendo o cocheiro com mais e mais perguntas e Hyoga ria da minha animação.
Nós descemos da carruagem com o nariz e as bochechas geladas, e caminhamos um pouco pela confusão da Quinta Avenida.
Como sempre, todas as lojas de New York pareciam haver se esmerado na confecção de suas elaboradas vitrines de Natal. Eu fiquei encantado com uma réplica em tamanho real da oficina de brinquedo do Papai Noel, com Santa Claus, Mamãe Noel, as renas, e todos os seu duendes.
Então nós subimos pela 61 St. até a Madison e eu fiz Hyoga entrar em uma loja de departamentos comigo porque queria comprar alguma coisa para o Ikki.
A loja era bonita, de uma forma grandiosa e colorida. Fitas brilhantes, vermelhas e douradas, caíam por sobre as guirlandas. Guirlandas verdes e luzes brancas piscando adornavam as escadas rolantes e os balcões de perfumes. E canções natalinas embalavam as compras dos fregueses, saídas pelos alto-falantes.
Eu corri a loja toda até conseguir escolher uma camisa para o meu irmão. Hyoga desistiu de me acompanhar no terceiro piso, e, quando voltamos a nos encontrar, notei que ele também segurava uma pequena sacola.
– Então podemos ir? — Ele perguntou. — Você já terminou?
– Ooh, o que você pegou? — Eu peguei sua sacola curioso e tirei um delicado cachecol de lá. — É pra Freya?
Ele me encarou surpreso, e então bateu com uma mão na testa.
– Caramba!.
Eu parei.
– Não acredito… Você esqueceu? Você não comprou nada pra ela?
– Não… Eu comprei o do Dite junto com o seu pingente, e esse é pro meu irmão. — Ele passou a mão pelo cabelo, frustrado. — Eu esqueci completamente.
– Uau! Parabéns, Hyoga — Eu zombei. — Vencedor do prêmio de namorado do ano. E eu que pensei que o meu irmão fosse ruim. — Eu balancei a cabeça.
– Eu estava ocupado. — Ele se defendeu.
Mas nós dois sabíamos que ele não estivera ocupado pra lembrar de comprar um presente pra mim.
Eu olhei pra ele .
– Tudo bem. Eu só estava enchendo o saco. Vem, nós vamos conseguir encontrar alguma coisa legal pra ela.
Nós voltamos a correr a loja outra vez, e no final Hyoga pegou um desses Kits prontos de perfume e hidratante que achou que ela fosse gostar.
Nós lutamos através das filas de Natal, e algumas horas depois emergíamos com nossas sacolas de presente através das portas de vidro, de volta à rua novamente.
Compradores apressados corriam de um lado para o outro, e o céu agora estava de um branco-acinzentado. Como se estivesse prestes a nevar mas nunca nevava. O ar estava ainda mais frio, mas não cortante, e contaminado com a fumaça das chaminés.
Descemos a Madison Square, misturados à multidão, conversando sobre The Shadow Masters outra vez.
– …Então, — Hyoga estava dizendo — devido a todos esses estudos sobre a escassez de recursos naturais a longo prazo, a falta de alimento, o super aumento populacional, etc, esses Mestres das Sombras, os “Donos do Mundo” como o autor os chama, teriam planejado uma política de redução da população mundial, pra viabilizar um futuro Governo Mundial. Pra isso eles teriam fabricado doenças, a partir da mutação de vírus existentes, e as espalhado em algumas áreas de alta concentração populacional. Como o Ebola, na África, a gripe Aviária, na China, a Gripe suína, etc. E parece que eles também vêm trabalhando pra diminuir a fabricação de vacinas de doenças já praticamente extintas, como coqueluche e tuberculose, com objetivo de provocar novos surtos dessas moléstias nos países pobres. Segundo o autor, em breve começará a faltar vacinas do calendário básico de vacinação nesses países.
– Eu já ouvi falar sobre essa teoria do Ebola. — Eu comentei. — Até que faz um certo sentido. Mas, se fosse assim, eles não estariam arriscando demais? Quer dizer, é óbvio que muitas dessas doenças fatalmente acabariam saindo de controle, cruzando as fronteiras de onde foram espalhadas e chegando aos outros países. Matando um monte de gente por toda parte.
Hyoga assentiu concordado.
– Aparentemente eles encaram esse problema como um efeito colateral necessário pra um objetivo maior.
– Que horrível! — Eu falei — E quem seriam esses caras? Esses “Donos do Mundo”, o livro dá o nome deles?
– De alguns. — Ele disse — Como George Soros, as fundações Ford e os Bilderbergs, por exemplo. Outros no entanto permanecem um mistério, como é o caso de Ronald Alward Bassi. Um Coronel do Exército que participou como convidado de diversas reuniões dos Bilderbergs, e que teria desaparecido em serviço e dado como morto. Só que o corpo do cara nunca apareceu e seus arquivos permanecem misteriosamente lacrados no FBI. O que se especula é que ele estaria por trás de uma organização suspeita de diversos ataques terroristas pelo mundo. O autor só não sabe dizer se ele agiria como um braço desses Masters Shadows, a fim de desestabilizar o status quo vigente para facilitar a implantação do Governo Mundial, ou se, na verdade, o que ele realmente deseja seria balançar as estruturas dos próprios Donos do Mundo.
– Uau!… maluco… — Eu falei — Mas interessante.
Eu sorri. Podia parecer estranho, mas eu sentira falta dessas nossas conversas. Ia fazer outro comentário quando algo chamou minha atenção.
– Esta é… a canção tema de Looney Tunes? — Eu perguntei.
A música vinha de dentro de uma loja de eletrônicos.
Hyoga sintonizou o ouvido.
– Sim. Acredito que sim — Ele disse descontraído.
Eu fiz uma careta de incredulidade e Hyoga continuou.
– Eu acho que ouvi Love Shack quando passamos pela Tod’s.
Minha careta aumentou.
– Agora é oficial. — Eu suspirei exasperado — A América está acabando com o Natal
Hyoga riu e começou a cantarolar pra me provocar.
– Jingle Bells, Batman smells, Robin laid an egg.
– Laid an egg? — Eu bufei. — Robin não botou um ovo…
Ele sorriu e continuou um pouco mais alto.
– The Batmobile lost a wheel, and the Joker got away, hey! (1)
Eu olhei pra ele por um momento e depois afirmei com convicção.
– Não. Não é assim. O Ikki me ensinou de outro jeito. Você está cantando errado.
– Não estou não. — Ele parou — Como você canta?
– É assim: — Eu disse — Jingle Bells, Batman smells, Robin got away.The Batmobile lost a wheel in Tomei Expressway, hey! (2)
Ele franziu a testa.
– Nem pensar. Quer dizer, sério, qual é o lance com a rodovia?
– Tomei Expressway. — Eu expliquei — Liga Tókio a Nagoya.
Ele sorriu com desdém.
– Batman é americano. Não pega a Tomei Expressway.
– Quando está de férias pega. — Eu falei.
– E quem disse que Batman tem tempo pra tirar férias? — Ele retrucou.
E então estávamos envolvidos em uma calorosa discussão sobre as supostas ocupações do Batman e o que ele faria com seu tempo livre, enquanto subíamos a 57 St., e tomávamos nosso caminho em direção ao metrô.
O céu já estava escurecendo, o frio aumentara, e as primeiras luzes da cidade começaram a aparecer.
Um vento cortante jogou nossos cabelos sobre o rosto e Hyoga riu. Aquele riso lindo de moleque. Eu senti meu coração acelerar outra vez.
Ele tirou a mecha inoportuna do rosto revelando seu sorriso, as luzes natalinas refletindo nas íris azuladas… E só isso foi o suficiente pra me fazer perder o fôlego outra vez. Me levando em espiral a um sentimento de pânico à medida que a informação me atingia de novo, de novo, e de novo.
Eu amava o Hyoga.
Eu demorara quase um ano pra admitir isso, mas finalmente eu me dava conta.
Eu estava totalmente, completamente, apaixonado pelo Hyoga.
O que eu podia fazer?
Era tão clichê, mas era a realidade.
Eu estava apaixonado pelo meu melhor amigo!
Nota:
1- Batem os sinos, Batman fede, Robin botou um ovo. O Batmóvel perdeu uma roda e o Coringa fugiu.
2 — Batem os sinos, Batman fede, Robin fugiu. O Batmóvel perdeu uma roda na Rodovia Tomei Express.
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