O Garoto Do Andar de Cima
13 Capítulo 12 - Meu Lugar No Mundo
Shun POV
O resto de Julho passou voando, e Agosto chegou sem nenhum acontecimento muito marcante.
Eu pensara que meu pai fosse estar zangado quando eu voltasse pra casa, mas ele nem estava por lá. Havia carregado o Ikki pra um congresso em Amsterdã… bem nas minhas férias de verão… Eu não era ingênuo o bastante pra não perceber isso como uma pequena vingança dele.
Tudo bem. Não tinha importância.
Eu sentia falta do meu irmão, mas pelo menos tinha conseguido estar com o Hyoga no hospital.
Nós conversávamos quase todos os dias agora. Ligações, e-mails, mensagens. Era estranho que mesmo não nos vendo todos os dias, nós conversássemos ainda mais.
De alguma forma havíamos conseguido enterrar bem fundo os últimos acontecimentos no hospital. Ele ainda não falava sobre a namorada, mas, de repente, distante das sensações estranhas que a presença física dele me causava, Hyoga havia se transformado de “Hyoga, uma coisa confusa" para “Hyoga, meu melhor amigo".
A primeira quinzena de Agosto passou, e Ikki não conseguiu voltar pra comemorar seu vigésimo terceiro aniversário conosco. Meus pais brigaram outra vez.
O último sábado do mês foi também o dia da primeira apresentação da banda da Misuki.
– Por que você não pega carona com seus amigos? — Minha mãe perguntou quando reclamei por ela não me deixar dirigir o carro até o show — fala sério, eu faria 18 anos em duas semanas.
– Porque Misuki-chan já vai estar lá com a banda. Eles têm que arrumar as coisas.
Yuu-chan implorou, implorou, implorou por um petisco, então lancei uma bolinha de laranja na sua gaiola e cocei a penugem atrás de suas orelhas. Ikki havia deixado Yuu com mamãe antes de partir pra Amsterdã, então estávamos juntos outra vez.
– Akira-kun não pode levar você?
Eu não falava com ele há meses. Ele provavelmente ia, já que estava saindo com a Misuki. Mas, credo, isso significava pegar uma carona com o atual ficante da minha ex! Não obrigado.
– Bem, Shu-chan, é isso ou o metrô. Eu não posso te levar hoje e não vou deixar você sair dirigindo por aí sem carteira. — Minha mãe sentenciou.
Acabei optando pelo Akira. Ele era dois anos mais velho do que nós, e era um idiota com todo mundo. Mas costumava ser legal comigo no ensino médio, então talvez não fosse ser tão ruim.
Exceto que foi. Realmente foi. Os primeiros cinco minutos mais constrangedores e silenciosos da minha vida.
– E então? Como é o pessoal lá na América? — Ele perguntou pra quebrar a tensão.
Eu dei de ombros. — Americano.
Ele riu. — Você é engraçado.
Seu sorriso sem vida era um dos seus menores atributos. Não entendia o que a Misuki tinha visto nele.
– Ninguém em especial? — Ele sorriu e me olhou significativamente. Não sei porquê não lembrava que ele tinha olhos azuis. Misaki comentara que ele tinha uma avó alemã. Ele puxara a cor dos olhos dela.
Engraçado, eu pensei que gostasse de olhos azuis. Mas por que eles eles faziam com que algumas pessoas parecessem fantásticas e outras simplesmente medianas? Era o caso do Akira e do Hyoga, por exemplo. Tecnicamente ambos tinham olhos azuis, mas era como comparar trufas belgas de alta qualidade com um pacotinho de M&M.
Não que Akira fosse feio, ele só não era… uma trufa de chocolate belga.
Eu pensei a respeito da trufa… e sua namorada
– Não exatamente. — Respondi a pergunta dele sobre se havia alguém em especial.
Mr. M&M assentiu. Depois passou o resto do caminho me atualizando sobre quem estava ‘pegando’ quem, e sobre seu desempenho na liga juvenil de basquete.
Eu tentei não parecer desanimado, mas foi impossível suprimir o sentimento de alívio quando enfim chegamos à casa de Show.
Até a hora em que abri minha porta pra descer do carro, e percebi que não estávamos exatamente em uma casa de Show. Estava mais pra uma… pista de boliche?
– Este é o lugar certo?
Akira assentiu.
– Todas as bandas menores de idade tocam aqui.
– Ah… — Mi-chan não tinha mencionado que iria tocar em uma pista de boliche. Mas tudo bem, ainda era legal. E eu tinha esquecido o fato dos meus amigos daqui ainda serem menores de idade. O que era bobeira porque não era como se eu estivesse convivendo com o pessoal em Boston por tanto tempo assim.
Lá dentro nos disseram que tínhamos que comprar uma pista pra podermos assistir ao show. O que significava que teríamos que alugar aqueles sapatos de boliche. Hum, não. Não tinha como eu usar um sapato de boliche. Centenas de pessoas usavam aquelas coisas. E até parece que uma borrifada de Lysoform ia matar todos os germes dos pés fedorentos. Não. Mas não mesmo.
– Tudo bem — Eu disse quando o cara colocou os sapatos no balcão. — você pode ficar com eles.
– Senhor. Você não pode jogar sem sapatos.
– Eu não vou jogar. — Eu expliquei.
– Senhor. Pegue os sapatos. — O rapaz insistiu — Você está atrasando a fila.
Akira pegou os sapatos.
– Desculpe. — Ele meneou a cabeça. — Misuki-chan comentou como você é com esse tipo de coisa.
– Neurótico? — Eu falei.
– Peculiar. — Ele riu. — Eu acho até um pouco charmoso.
Eu olhei incrédulo pra ele enquanto ele escondia nossos sapatos embaixo de algumas cadeiras em formato de conchas alaranjadas assim que passamos pra área das pistas.
Nós caminhamos até um palco que ficava encostado contra uma das paredes dos fundos. Uma pequena multidão já estava reunida ali. Misuki não estava em lugar nenhum onde eu pudesse vê-la e eu não reconhecia nenhuma outra pessoa.
– Será que eles vão ser os primeiros? — Eu perguntei.
– Você quer saber se eles estão no primeiro ato de uma pista de boliche?- Ele retrucou mordaz, e eu lancei um olhar de repreensão pra ele. Porque aquilo ainda era incrível! Era o primeiro show deles!
Então Akira me ofereceu uma barrinha de chocolate com amendoim e eu comentei que uma mordida naquilo poderia matar meu primo.
Ele riu outra vez.
– Mórbido! — Disse. O que me fez pensar no Hyoga de novo. Porque quando eu disse isso a ele, há três meses, em vez de me acusar de morbidez, ele perguntou com curiosidade sincera. — Por quê? E então eu lhe expliquei que meu primo era alérgico a amendoins.
Imaginei se o Hyoga já tinha voltado da consulta dele com o médico no hospital. Ele tivera alta no começo do mês e passaria por um retorno hoje pra reavaliar seu estado geral. Eu deveria mandar uma mensagem desejando tudo de bom. Peguei meu celular no momento em que a multidão explodia em gritos e aplausos.
Eu deixei o texto de lado.
A banda surgiu, pulsando com empolgação e energia do… quarto dos empregados. Tudo bem. Não era tão glamuroso quanto surgir dos bastidores, mas eles pareciam ótimos.
Misuki, pelo menos, estava radiante. Ela estava usando um vestido preto que deixava à mostra seus braços tatuados, e o seu cabelo, que hoje estava da cor de chiclete, estava espetado para todos os lados.
Ela me encontrou de imediato no meio da multidão e seu rosto se iluminou como uma árvore de Natal. Eu acenei enquanto ela ajeitava a guitarra e se posicionava no microfone, balançando a cabeça com as batidas da bateria que contavam os compassos para o início da música.
– Boa noite. — Ela disse ao microfone — Nós somos os Rovers!
E então o som explodiu.
As mãos do baterista voavam com as baquetas, o Guitarrista tocava a guitarra como se quisesse usá-la para atear fogo em algo, e Misuki tinha aquele grito nervoso de punk-rock.
O pequeno público gritava e pulava e era tudo tão estimulante que eu nem me importei de pular também, abraçado ao Akira.
– Essa banda é fantástica — Alguém disse.
– Eu sei! — Eu gritei em meio ao barulho. Meu coração explodindo de orgulho. Porque Misuki era minha melhor amiga e eu sempre soubera o quão talentosa ela era. E agora todo mundo ali também sabia. E eu não sei o que estava esperando. Que o guitarrista e o baterista pudessem estragar a apresentação dela, talvez. Mas eles também mandaram muito bem.
Misuki gritava roucamente no microfone, acompanhada pelo baixo, enquanto as mãos do guitarrista pareciam simplesmente rasgar as cordas da guitarra, tirando um som que levava todos ao frenesi. Eu já sentia o suor escorrendo pelas minhas costas e, por um momento, me esqueci que estava em uma pista de boliche, ou que estava quebrando tudo abraçado com o atual affair da minha ex.
Então eu senti Akira estreitando o abraço, me puxando na direção dele, como se fosse falar alguma coisa no meu ouvido, e, de repente, seus lábio estavam sobre a minha boca.
Era tão inesperado que eu demorei alguns segundos pra reagir. E então eu o empurrei com força enquanto a música a nossa volta subia de tom, e explodia mais uma vez.
E, em um minuto, tudo estava acabado.
Eu levei as mãos aos lábios enquanto a multidão aplaudia.
Eu havia sido beijado. Eu havia sido beijado por um cara. Um cara que estava supostamente saindo com a minha melhor amiga!
– Obrigada, Tóquio. — Eu ouvi a voz da Misuki outra vez no microfone.
Meu Deus, Misuki! Será que ela tinha visto? Droga, aquela era pra ser a noite perfeita dela! Como eu ia contar isso pra ela? Como dizer que o quase namorado dela era um imbecil?
– Shun, escuta… — Eu ouvi o Akira dizer em meio a novos aplausos. Mas eu não queria escutar. Eu queria vomitar. Eu ia vomitar. Eu estava tentando conter as lágrimas.
– Shun… — Ele chamou outra vez, mas eu já estava indo em direção a saída, a cabeça abaixada pra que o cabelo escondesse meu rosto, empurrando as pessoas no meu caminho.
– O que há com ele? — Eu escutei alguém perguntar no caminho, mas não dei importância, e logo estava correndo… Correndo… Correndo. Eu sabia que tudo aquilo havia acontecido no calor do momento. Que aquele beijo não significara nada. Mas eu havia sido beijado. Eu havia sido beijado por outro garoto. Um garoto que estava saindo com a minha melhor amiga. O que isso fazia de mim?
Por algum motivo eu pensei no Hyoga.
Eu não gostara de ser beijado pelo Akira. Mas seria diferente se eu fosse beijado pelo Hyoga?
Eu não sabia. Só sabia que queria estar o mais longe possível dali, o mais longe possível daquela noite.
***
– Shun. Shun, calma. A Misuki está saindo com outro cara? — Hyoga perguntou pelo telefone — E o idiota beijou você?
Eu confirmei, gaguejante. Estava sentado em uma guia da calçada no estacionamento, do lado de fora do boliche.
– Preciso que você respire fundo. — ele disse. — Tudo bem? Respire fundo e comece do começo.
Eu inspirei com força, depois soltei todo o ar, obedecendo, e comecei a contar a história de novo.
Hyoga permanecia em silêncio. Eu não sabia o que ele estava pensando. Será que estava me culpando? Será que estava com nojo de mim?
– Você ainda está aí? — Eu perguntei depois de um tempo, em que ele não se manifestou.
– Eu… eu estou aqui. — Ele parecia tenso. — Só… sinto muito em não estar aí, Shun. Com você. Eu queria poder fazer alguma coisa.
Foi impossível evitar que um sentimento de alívio tomasse conta de mim. E então eu percebi que não era só a reação da Misuki que me preocupava. Por algum motivo, eu estava nervoso sobre como o Hyoga iria reagir também.
Eu sorri por entre as lágrimas.
– Você quer vir aqui dar uma surra nele pra mim? — Brinquei.
– É tudo que eu mais quero. — Ele respondeu. Só que ele não parecia estar brincando.
Eu funguei e limpei o nariz. Depois suspirei.
– Eu sou tão idiota. Não acredito que não percebi o que ele ia fazer. O que eu vou dizer pra Misuki agora? E se ela não me perdoar?
– Bobagem. — Ele disse, mais suave — É claro que ela vai te perdoar. Você não tinha como saber. Não foi culpa sua.
– Por quê? Por quê ele fez isso? Ele nem estava interessado em mim.
– Devia estar.
– Não estava!
– Shun, acorda. O cara teria que ser um eunuco pra não se interessar por você.
Houve uma pausa chocante.
– P-porque, claro, você é muito inteligente. — Ele gaguejou — E divertido. Não que você não seja atraente também. Porque você é. Muito. Atraente, eu digo.
Eu mordi o lábio e esperei.
Ele suspirou.
– Você ainda está aí ou já desligou porque eu sou um baita idiota.
Eu ri. — Ainda estou aqui.
Ele riu também. — Cara, você me pegou nessa.
Hyoga disse que eu era atraente. Era a segunda vez que ele dizia isso.
– É que é tão natural falar com você — ele continuou — que às vezes é como se eu estivesse falando com meu irmão.
Tudo bem. Apaguem o que eu disse anteriormente. Ele achava que eu era o irmão dele.
– E como você está? — Eu falei. — Como foi sua consulta? Desculpa eu fiquei o tempo todo falando de mim, quando era pra eu perguntar de você…
– Você perguntou. Foi primeira coisa que perguntou quando atendeu. E, tecnicamente, fui eu que telefonei pra você. E eu liguei pra saber como foi o show, que é sobre o que temos conversado desde então.
– Ah… Certo. — Eu fiquei remexendo nos cadarços do meu tênis — E como você está? O que disseram no hospital?
– Eu estou legal. Os exames estavam ok, e o médico disse que meu corpo tem se recuperado conforme o esperado. — Sua voz pareceu desanimada de repente — Mas eu ainda estou 'em repouso’ e ele não me liberou pra voltar pra faculdade.
– Que bom. — Eu disse.
– Que bom que eu não vou voltar pra faculdade? — Ele zombou.
– Não, idiota. Que bom que você está bem.
Ele riu.
– E… Hyoga…
– Hum?
Eu mordi o lábio.
– Eu vou sentir sua falta.
Ele suspirou.
– Obrigado.
Eu levantei os olhos dos meus cadarços e avistei Misuki andando a passos firmes na minha direção com expressão preocupada.
Eu respirei fundo.
– Eu tenho que ir agora. Misuki está vindo pra cá. Aparentemente eu fui poupado de ter que contar a ela.
– Uow!! — Ele fez — Bem, boa sorte.
– É. Obrigado.
Nós desligamos no momento em que Misuki parava diante de mim.
Eu levantei de onde estava sentado.
– Misuki… — Eu comecei, mas não pude terminar porque ela me segurou firme pelos ombros pra olhar nos meus olhos. Ela era quase dois dedos mais alta do que eu.
– Você está bem? — Ela perguntou então. — Com quem você estava falando?
– Estou... — Eu a encarei surpreso — Com o Hyoga.
Ela soltou meus ombros e franziu o cenho.
– Você conversa com ele, mas não conversa comigo. Por que não me procurou pra contar o que tinha acontecido? Por que fugiu? Foi terrível ter que saber de tudo pela boca do Kyo, sabe. — Ela cruzou os braços sobre o peito.
– Me… Me desculpe, eu…
– Não. — Ela me interrompeu com firmeza. — Shun, escute, o Akira foi um imbecil, está bem? E antes que você se acabe de chorar, é bom que saiba que eu não me importo. Não mesmo. Não por ele, pelo menos. Eu e o Akira tínhamos um relacionamento esquisito. E, de qualquer forma, nós nem estamos mais saindo. Então relaxa.
Eu pisquei aturdido com aquela informação.
– Não estão mais saindo? Desde… desde quando?
Ela sorriu maliciosamente.
– Desde que eu comecei a sair com Yuki, há duas semanas.
– O Yuki do segundo ano? O tal do traseiro perfeito? — Eu sorri também, lembrando suas palavras no e-mail que me enviara na minha primeira semana em Harvard.
Ela assentiu rindo, antes de dizer displicente.
– Além disso, eu sempre soube que o Aki-kun tinha uma quedinha por você.
Eu pisquei outra vez
– Oi?
Ela bufou.
– Ah, qual é Shu-Shu, o cara era um imbecil com todo mundo no ensino médio, mas ele era todo amigável com você. Eu achei que ele não fosse mais tão idiota agora. Pelo jeito estava enganada. — Ela deu de ombros — Tanto faz… Só espero que seu francês/russo/americano não tenha ficado muito bravo. — Ela sorriu.
Eu corei.
– Ele não é meu francês/russo/americano… e ele não tem motivo pra ficar bravo. — Eu repliquei, e então lembrei da forma como Hyoga dissera que adoraria dar uma surra no Akira pra mim.
Eu balancei a cabeça pra afastar o pensamento.
Mas Misuki apenas riu, agarrando meu braço e se pondo a me puxar na direção da Van onde os outros membros da banda agora guardavam seus instrumentos.
– Vamos meu pequeno Uke. — Ela zombou — Eu vou te deixar em segurança em casa, longe dos predadores.
Eu revirei os olhos.
– Cala a boca! — Mas já estava rindo também.
No caminho de volta, olhando a cidade passar borrada pela janela, eu pensei mais uma vez em tudo o que tinha acontecido aquela noite, e pensei em Hyoga de novo.
Eu gostaria de poder parar de relacionar absolutamente qualquer tópico ao Hyoga. Ele ainda tinha a Freya. Nós éramos amigos, e estava tudo bem agora. Eu estava feliz assim. Estava mesmo. Então por que esse sentimento estranho de repente?
Eu suspirei cansado. Eu queria estar na cama. Eu queria estar em casa.
Eu queria estar em Boston.
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /18 de Julho de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Você chegou bem?
Já se acostumou com o fuso horário? Eu ia ligar mas não sabia se você já estava acordado ou fazendo qualquer coisa com sua família. São Dez horas da noite aqui e a enfermeira passou apagando as luzes há uns dez minutos.
Como está o clima por aí? Aqui está encoberto pra variar. A neblina é tanta que mal consigo ver através da janela do quarto, mas, se pudesse, certamente descobriria que sou a única pessoa viva em New York.
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /18 de Julho de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Esqueci de dizer...
Ontem vi um cara no hospital com uma camiseta da universidade de Tókio. Não é como se você tivesse tido a escolha de frequentar essa faculdade, eu sei. Mesmo assim perguntei se ele te conhecia, mas ele disse que não.
Também conheci um cara enorme, peludo, com uma roupa de Cinderela. Ele estava entregando presentes às crianças com câncer. O Dite tirou a foto anexa. Eu sempre pareço tão surpreso?
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /18 de Julho de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Já acordou?
Acorda.
Acorda, acorda, acorda…
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De: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com) /18 de Julho de 2010
Para: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com)
Assunto: Re: Já acordou?
Estou acordado. Hiro-chan começou a pular na minha cama há umas duas horas. Ele ganhou a coleção de bonecos do Star Wars de aniversário e está empenhado em conseguir que eu brinque algumas horas com ele.
Talvez eu faça isso apenas em retribuição a satisfação que ele me proporcionou ontem ao “convidar" seu novo animal de estimação (um besouro gigante) pra jantar conosco.
Você tinha que ter visto a cara da minha avó. Fazia tempo que eu não ria tanto. Acho que estou começando a gostar do pirralho.
PS: Adorei a foto. A Cinderela está com certeza dando uma conferida no seu traseiro.
PPS: Por que seu end. é Hyoga Cygnus?
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /18 de Julho de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Hahahaha
Hahahaha…
Cygnus é meu nick na rede.
PS: A Cinderela estava de olho no traseiro do meu irmão.
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /27 de Julho de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Me salve.
Meu irmão acabou de anunciar que vai casar com a Saori Kido!
Com a Saori! Dá pra acreditar?!
Tudo bem que eles estavam meio que saindo desde que nós voltamos pra New York, mas tipo: CASAR!!!???
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De: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com) /27 de Julho de 2010
Para: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com)
Assunto: Salvando você.
OMG :o :o :o
Já estou empacotando minhas estrelas ninjas.
PS: Pelo menos seu cunhado vai ser o Seiya.
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /28 de Julho de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Re: Salvando você.
Guarde suas estrelas ninjas. O Dite provavelmente vai acabar com ela primeiro.
PS: O Seiya não é conforto o bastante.
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De: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com) /28 de Julho de 2010
Para: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com)
Assunto: Eu adoro o Afrodite.
Kkkkk… e o que o seu irmão fala disso?
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /28 de Julho de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Eu adoro o Afrodite também.
Ele de alguma forma está convencido de estar fazendo um grande negócio.
Ele acha que ela uma pessoa ótima por ter salvado a minha vida, e que somos grandes amigos.
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De: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com) /29 de Julho de 2010
Para: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com)
Assunto: Seu irmão é cego.
Queria poder fazer alguma coisa…
PS: Ela realmente salvou sua vida.
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /30 de Julho de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Re: Seu irmão é cego.
Provavelmente.
Também queria. Mas não vou me meter. Deixo esse papel para o Dite. E se o Camus acha que isso é o melhor pra ele… Difícil vai ser ter que aguentar a Saori nas festas em família.
Acho que vou me teletransportar para o Japão, o que acha?
Vou aí te apanhar e iremos para algum lugar onde nossas famílias não possam nos encontrar. Levaremos o Yuu-chan e o deixaremos correr várias voltas até que ele se canse, e então eu e você vamos dar uma volta. Como fazíamos em Boston. Você lembra? E vamos falar sobre tudo, menos sobre os nossos problemas… ou talvez nem precisemos falar. Nós só andaremos. E continuaremos andando até que o resto do mundo deixe de existir.
Me desculpe. Meu irmão pode casar com quem ele quiser. Ficar preso aqui nesse hospital é que me deixa desse jeito. Mas não vou te chatear com esses detalhes.
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De: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com) /30 de Julho de 2010
Para: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com)
Assunto: Me chateie.
Sinto muito. Por favor, me diga o que eu posso fazer.
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /30 de Julho de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Não se preocupe.
Obrigado. Mas está tudo bem. Só continue fazendo o que têm feito até agora.
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /05 de Agosto de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Até que enfim.
Estou voltando pra casa. Os médicos me liberaram hoje. Mal vejo a hora de deitar em uma cama de verdade. De comer comida de verdade. Eu não aguento mais o Muesli que eles servem todos os dias de manhã. Como alguém pode comer isso? Parece que estou mastigando madeira.
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De: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com) /05 de Agosto de 2010
Para: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com)
Assunto: Pobrezinho.
Muesli? Sério que eles servem essa porcaria no hospital? Que mal fizeram os pacientes aos Deuses todos?
Minha mãe fez Gyudon hoje. Estou mentalmente mandando um prato pra você. Mas, espera, você provavelmente não come Gyudon. Vou procurar no Google alguma comida francesa adequada pra você. Pronto. Coq Au Vin. Estou te enviando mentalmente um prato de Coq Au Vin, então. O que quer que isso seja.
PS: Estou muito, muito feliz mesmo por você estar indo pra casa :)
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /06 de Agosto de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Re: Pobrezinho.
Você sente pena de mim? Eu não sou a pessoa que nunca provou um Coq Au Vin.
PS: Obrigado. Eu estou muito feliz também.
PPS: Eu adoro Gyudon.
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De: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com) /26 de Agosto de 2010
Para: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com)
Assunto: Meus pais brigaram outra vez.
Nada a ver, mas queria contar pra alguém. Dessa vez foi por causa do meu cabelo. Meu pai ligou e disse pra minha mãe que quer que eu o tinja de volta à cor natural, porque acha que eu pareço um garoto de programa comum com eles desse jeito. Sim, ele usou exatamente essas palavras. Como se ele pudesse apitar em alguma coisa.
Bem, tenho que ir. Minha avó acabou de chegar e está gritando pelo seu garotinho. Esse seria eu.
Espero que o Hiro-chan traga outro de seus convidados inesperados para o jantar, mas eu duvido. Mamãe se certificará de revistar todos os seus bolsos antes de deixá-lo sentar à mesa dessa vez. Mas sempre há esperança… XD
PS: Só pra lembrar que no Sábado é a apresentação da Misuki. Deseje boa sorte a ela.
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /27 de Agosto de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Boa sorte, Misuki.
Seu pai é um idiota. Eu adoro a cor do seu cabelo.
Divirta-se.
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /31 de Agosto de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Garotos de Programa Incomuns
Não, eu não tenho nada a dizer sobre garotos de programa (a não ser que você seria um péssimo garoto de programa, a profissão não tem fama de ser muito limpinha), eu só queria digitar isso.
O que eu queria mesmo é saber se você já falou com a Misuki sobre o que aconteceu no show. Está tudo bem entre vocês?
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De: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com) /01 de Setembro de 2010
Para: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com)
Assunto: Misuki
Está tudo bem entre a gente. Na verdade eu descobri depois de falar com você que ela já não estava mais saindo com aquele cara.
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /01 de Setembro de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Re: Misuki
Isso significa que o caminho está livre pra você?
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De: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com) /01 de Setembro de 2010
Para: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com)
Assunto: Não brinca
Ela está saindo com o Yuki agora. Ele tem o dobro do meu tamanho.
PS: Me desculpe por aquele dia, eu não queria ter dado uma de ‘Drama Queen’ quando seus problemas são tão piores do que os meus. Me desculpe.
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /02 de Setembro de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Você está louco?
Meus problemas são chatos, a sua noite foi um pesadelo. Você já está melhor?
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De: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com) /02 de Setembro de 2010
Para: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com)
Assunto: Re: Você está louco?
Eu estou bem. Estou feliz em ter você pra conversar.
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De: Hyoga Chevalier (hyogacygnus@icloud.com) /03 de Setembro de 2010
Para: Shun Amammya (shunnyamammya@hotmail.com)
Assunto: Então…
Isso significa que eu posso te ligar agora?
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***
A última semana que passei em casa foi também a semana do meu aniversário. De alguma forma, Ikki conseguiu voltar pra casa pra passarmos essa data juntos. Eu não queria admitir que a vingança medíocre do meu pai funcionara, mas a verdade é que eu sentira muita falta do meu irmão.
A boa notícia era que finalmente eu seria maior de idade. Não pra beber ou frequentar baladas noturnas, é claro, mas pelo menos pra poder decidir se eu queria morar com meu irmão em New York. E eu queria. Queria morar com o Ikki. Mas ao mesmo tempo não queria abandonar minha mãe.
Felizmente, eu não precisaria abandonar a minha mãe pra passar o feriado de Ação de Graças e as festas de final de ano em New York com meu irmão. Já que nós não costumávamos comemorar essas datas mesmo, e, conforme o Ikki fez questão de me lembrar, nosso pai sempre esteve fora nesses períodos, e mamãe aproveitava pra viajar com nossa tia.
O que significava que eu iria passar as festas com meu irmão esse ano. Em New York! Com meus amigos. Com o Hyoga.
E essa era a melhor notícias de todas!
A má notícia foi que meu o meu pai também voltou pra casa junto com meu irmão, e minha mãe então resolveu fazer um almoço em família pra comemorarmos meu décimo oitavo aniversário.
E, de repente, aquele se tornou o pior aniversário de toda história dos aniversários de 18 anos.
Primeiro meu pai ficou me sabatinando sobre a faculdade. Perguntando sobre meus “novos contatos”, e ligando para os seus acessores. Depois, ele tentou forçar o Hiro-chan a comer o Teppan de legumes, e quando ele se recusou, meu pai acusou minha mãe de não alimentá-lo corretamente.
Então ela jogou o guardanapo longe e disse que ele não tinha o direito de dizer como ela deveria cuidar do sobrinho dela. E ele começou com aquele discurso de ser o “homem da casa”, e minha mãe retrucou dizendo que ele precisaria primeiro estar em casa se quisesse ser o “homem da casa”. O que deixou meu pai ainda mais irado. E todo o tempo meu avô, que já estava meio surdo, ficava dizendo: “Onde está o molho? Eu não consigo sentir o gosto da carne. Passe o molho!” E então minha avó reclamou que o Donburi da mamãe estava muito seco e foi o limite. Minha mãe ficou louca. Quer dizer, minha mãe começou a gritar feito louca.
E isso deixou Hiro-chan louco também, e ele correu para o quarto chorando. E, quando eu e o Ikki fomos ver como ele estava, o encontramos desembrulhando uma barra enorme de chocolate com amendoins!!
Eu não fazia idéia de onde ela surgira. Ele sabia que não podia comer nada com amendoins!
Então eu arranquei a barra dele e ele chorou ainda mais, e minha mãe entrou correndo no quarto e gritou comigo e com o meu irmão — que não estava fazendo nada, além de tentar consolar o pequeno — como se fossemos nós que tivéssemos dado a porcaria pra ele.
Nenhum: “Obrigada por salvarem a vida do seu primo”. Nada disso. Então meu pai entrou também, e a briga recomeçou, e eles nem perceberam que o Hiro ainda estava lá, e que ainda estava chorando.
Então Ikki e eu o levamos para o quintal e demos biscoitos pra ele, e ele ficou lá, correndo em círculos, enquanto meus pais gritavam um com o outro dentro de casa e meus avós continuavam sentados à mesa, como se todos fossemos voltar e terminar nossa refeição normalmente.
Finalmente, minha mãe se desculpou conosco, e meu pai foi quase, quase humano, e pediu desculpas também. E todos se reuniram para a hora do bolo como se nada tivesse acontecido.
Sério, qual era o problema com a minha família, afinal?
Mais tarde, naquele mesmo dia, a Shunrei me ligou pra me desejar feliz aniversário, e à noite Misuki apareceu.
Ela me deu um kit profissional de desenhos de presente, e, como nós não tínhamos nenhum lugar pra ir, resolvemos ficar em casa mesmo, com o Ikki e meu primo — meus pais tinham saído pra jantar com um casal de amigos empresários do meu pai.
Então Ikki fez seu famoso Lámen com queijo e nós ficamos no sofá assistindo O Demolidor. Depois, Ikki foi cuidar de seu trabalho na mesa da sala, e Misuki, Hiro-chan e eu ficamos brincando com os bonecos dele do Star Wars no tapete.
Han Solo atirou no meu Clone antes de ir pra trás de uma almofada para ter cobertura.
– É uma boa que eu esteja usando a minha jaqueta à prova de raios laser! — Eu disse.
– Não existe jaqueta à prova de raio laser! você está morto! — Han correu para trás do sofá. — Uhuhhuhuhu.
Misuki pegou a rainha Amidala. — Han você está em perigo! Vá para o outro lado! O Clone está usando sua jaqueta à prova de raios laser.
Han continuou atirando.
– Tudo bem — Amidala disse. — Deixe para uma mulher fazer o trabalho de um homem. — Misuki deu uma pancada na cabeça do Clone com a cabeça da própria boneca, e fez com que ele caísse do sofá.
Han pulou do sofá e começou a atirar de novo.
Eu peguei o jovem Obi-Wan. — Ohhh, Amidala. Você está radiante hoje. Me dá um beijo. Beijo, beijo, beijo.
– Não. — Hiro agarrou Obi-wan da minha mão. — Sem beijo.
Misuki apanhou outro boneco da caixa de brinquedo. Era um Nômade Tusken — Ohhh, Amidala. Beijo. Beijo, beijo. — Ela entrou na brincadeira.
– Os Nômades não beijam! Eles atacam! — Hiro esbravejou, tomando o boneco da mão dela também.
Foi quando o telefone da cozinha tocou. Sem dúvida era minha mãe ligando pra saber se estávamos bem. Hiro-chan saiu pulando pra atender, enquanto Misuki e eu procurávamos um namorado adequado pra Amidala pra irritar mais meu primo.
– Eu não entendo você — eu o ouvi dizer no telefone -, por favor fale em japonês.
– Hiro-chan, quem é? Simplesmente desligue. — Ikki falou de seu lugar à frente do laptop na mesa.
– Ahá! Luke Skywalker! — Misuki tirou o boneco de Luke da caixa e deu uma olhada nele. — Que não tem um braço, mas tudo bem. — Ela deu de ombros.
Luke e Amidala se beijaram.
– Espere! — Eu disse — Ela não é a mãe dele?
Misuki fez uma careta de nojo e atirou o boneco para o lado como se ele a tivesse ofendido pessoalmente, antes de se enfiar na caixa de novo.
– Você fala engraçado. — Eu ouvi Hiro dizer outra vez. — Eu não consigo te entender… Shun? Você quer falar com o Shun?
Eu fui até a cozinha.
– Quem é? — Eu perguntei, tirando o telefone da mão dele. — Alô?
– Ei! — Uma voz animada disse do outro lado.
Eu a reconheci na mesma hora, e meu coração acelerou.
Não era possível!… Como?
– Hyoga? É você mesmo?
Ele riu.
– Sim, sou eu.
– Acho que é o namorado do Shun lá da América. — Eu escutei meu primo dizer a alguém, a distância.
– Cala a boca, pirralho! — Eu gritei pra ele.
– Como? — Hyoga respondeu.
– Ah, não. Eu não estava falando com você. — Eu emendei, sem graça.
– O Shun não tem namorado, Hiro-chan, ele é um menino como você — Eu pude ouvir meu irmão explicando.
– Mas ele parece uma menina. — Hiro respondeu.
Eu emiti um grunhido e escutei risadas do outro lado da linha.
Misuki dava gargalhadas na sala também.
– Como conseguiu esse número? — Eu perguntei para o Hyoga, agarrando o telefone e o arrastando comigo até o quarto.
– Bem, veja só, eles sempre exigem que a gente forneça um número de telefone fixo no cadastro da faculdade, sabe. E Sérgio ficou muito feliz de me informar qual era o seu. Ele disse que nós formávamos um lindo casal.
– Sérgio… Aquele nosso orientador educacional? — Eu perguntei — O do Pug?
Hyoga confirmou e eu me joguei na cama, sentindo meu rosto esquentar.
– Ah, não!
Hyoga riu outra vez.
– Feliz aniversário, Shu-Shu! — Ele disse. Então perguntou: — O que aconteceu com o seu telefone?
Eu procurei meu celular pelo quarto, encontrando-o atirado sobre a escrivaninha… sem bateria.
– Você esqueceu de carregá-lo? — Ele falou surpreso quando eu lhe informei do ocorrido.
– Não acredito! — Eu lamentei — Eu não sou assim.
– Eu sei. Por isso fiquei chocado quando caiu na caixa postal. Mas estou feliz em ter o seu número de verdade agora. A gente nunca sabe.
Eu sorri. O esforço extra que ele tivera que fazer para me ligar me deixou feliz.
– Que horas são aí? você não devia estar dormindo?
– São dez da manhã, e eu acordei já faz uma hora com o Dite espancando a minha porta pra eu descer pra tomar o café no jardim. E como foi seu dia? Muitos presentes?
– Só algumas roupas da minha mãe, um kit pra desenho da Misuki, e um cordão de prata com um pingente de coração do meu irmão.
Ele riu.
– Você ganhou um pingente de coração? Do seu irmão?
Eu bufei.
– Eu me recuso a falar sobre isso.
Ele riu ainda mais.
Sério, eu estava grato pelo carinho do Ikki, mas não é como se eu fosse o tipo de cara que andaria por aí com um pingente em formato de coração. Do irmão. Ikki às vezes esquecia que eu não tinha mais cinco anos.
Misuki enfiou a cabeça pela fresta da porta pra se despedir. Eu fiz um sinal de que ligava pra ela amanhã, e ela acenou com um ‘thauzinho’, antes de sair.
– Me conta sobre a festa então. — Hyoga falou — Você teve uma festa, não teve?
– A pior de todas… — Eu suspirei. Então me ajeitei melhor nos travesseiros e me pus a contar sobre meu trágico almoço pra ele.
O engraçado é que conforme eu falava com ele, e ouvia suas risadas e comentários divertidos do outro lado, eu sentia um sorriso se abrindo no meu rosto também. Eu falara com a Shunrei algumas vezes durante as férias, mas nunca era tão divertido quanto falar com o Hyoga.
Em algum momento Hiro-chan entrou no meu quarto, já vestido no seu pijama de Super-Man.
Eu apenas bati em um espaço vazio ao meu lado na cama. Hiro-chan veio pulando para o meu lado, se enroscando nas minhas cobertas. Eu fiquei brincando com os cabelos dele.
– Pelo jeito Super-Man vai dormir comigo essa noite. — Eu comentei no telefone, vendo os pequenos olhos de Hiro pestanejarem até se fechar.
– Hiro? — Hyoga perguntou.
Eu confirmei enquanto afastava a franja da testa do meu primo.
– Em seu pijama azul do Super-Man. — Eu completei e Hyoga riu.
– Né... Shu-chan, — o pequeno abriu os olhos chamando nossa atenção — quando eu for pra América com a mamãe outra vez, você me apresenta o seu namorado?
Eu bufei frustrado e Hyoga gargalhou do outro lado. Eu só podia esperar que ele não entendesse japonês.
– Parece que seu super herói está animado, apesar de não ter entendido uma palavra do que eu disse.
– ‘Você fala engraçado’. — Eu sorri, zombando.
Eu adorava o som da voz dele.
– Olha quem fala! — Ele retrucou, e meu sorriso se abriu mais ainda.
Hiro-chan já ressonava outra vez no meu colo, Ikki apareceu pra me dar boa noite, e, pela primeira vez desde que chegara em casa, eu me sentia completamente feliz.
Era estranho. Casa. Como eu pude querer estar ali por tanto tempo, só pra perceber que ela se fora?
Eu finalmente estava lá… tecnicamente na minha casa… só pra descobrir que não pertencia mais àquilo… que meu lar agora era em outro lugar.
Mas não… Isso também não estava certo
Eu sentia falta de Boston, sim, mas lá também não era a minha casa. Era mais algo como sentir falta… disso. Daquele calor pelo telefone. Seria possível que ‘lar’ fosse uma pessoa e não um lugar? Mamãe e Ikki costumavam ser meu lar antes. Talvez Hyoga fosse meu novo lar agora. Meu lugar no mundo.
Fiquei refletindo sobre isso a medida que nossas vozes foram se cansando e nós paramos de conversar. Só ficamos na companhia um do outro. Minha respiração. Sua respiração. Minha respiração. Sua respiração.
Eu não poderia nunca dizer a ele, mas era verdade.
Isso era o meu lar… Nós dois.
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