O Garoto Do Andar de Cima
7 Capítulo 7: As Flores Do Mal
Shun POV
– Vocês não acham piquenique no cemitério no Memorial Day uma coisa meio clichê demais? — Seiya falou.
Era a última segunda feira de Maio, dia do Memorial Day nos EUA, o tal feriado que lembra os homens e mulheres que morreram enquanto serviam nas Forças Armadas, e nós estávamos os cinco passeando pelo cemitério Mount Auburn, que parecia muito mais um parque do que um cemitério.
Eram centenas e mais centenas de metros de vegetação abundante e colorida ladeada por caminhos, pontes, e lagos, onde pipocavam esculturas e monumentos clássicos, sobre um tapete de grama verde.
Era estranho que eu estivesse vindo ali só agora. Porque o Mt. Auburn ficava ao lado do cemitério de Cambridge, e era relativamente perto da faculdade. Mas antes tarde que nunca.
– Esse é o primeiro Memorial Day do Shunny, então nós temos que seguir a tradição — Shunrei falou.
Era costume no Memorial Day que as pessoas levassem flores e fizessem piqueniques em frente ao túmulo de seus entes queridos. Obviamente que nenhum de nós tinha algum parente enterrado ali, mas isso não impediu meus amigos de terem a brilhante idéia de escolher um túmulo qualquer e fazer um piquenique.
– Eu não ligo de seguir a tradição — Shiryu falou -, mesmo que seja clichê. — Ele ajeitou a mochila nas costas e seguiu Shunrei por uma trilha para outro caminho.
– E esse é um cemitério lindo. — Eu comentei, seguindo na trilha atrás dele. Estava feliz que meus amigos soubessem andar por ali porque eu estava perdido.
– É um cemitério paisagístico. — Hyoga explicou, logo atrás de mim — Um cemitério que usa paisagismo em um ambiente semelhante a um parque. No início do Século XIX, com as populações urbanas em expansão, os cemitérios estavam ficando superlotados, então criaram esse tipo de 'cemitério rural' em zonas mais afastadas das cidades. O Père Lachaise, em Paris, foi o primeiro cemitério desse tipo a ser inaugurado, e o Mt. Auburn foi o primeiro garden cemetery da América.
– Você sabe muita porcaria inútil, cara. — Seiya zombou atrás dele.
– Eu acho interessante — Eu falei, e Hyoga sorriu.
– Pelo menos o nome é apropriado. — Ele disse. — Esse lugar realmente parece um jardim. Ou, me desculpe — ele se virou pra mim -, será que você preferiria estar na festinha do Nickholas? Pierce London disse que ia levar o bong de cerveja.
O Memorial Day também marcava o início das férias de verão, e, embora nossas aulas na verdade ainda fossem levar algumas semanas pra acabar, nós havíamos recém saído do período de provas, e Nick tinha armado uma festa pra celebrar o 'fim do período de terror'. Palavras dele, não minhas.
– Ah, deixa ele em paz. — Eu fiz um gesto de descaso com a mão — Além do mais, quando sairmos daqui ainda teremos bastante tempo pra curtir a festa. — Eu falei, e então revirei os olhos diante da minha própria afirmação. Nenhum de nós tinha intenção alguma de ir na festa. Exceto o que eu tinha dito ao Nick na hora do almoço, claro.
Hyoga me cutucou com sua garrafa térmica.
– Talvez você esteja chateado porque ele não terá oportunidade de entreter você com todo seu estupendo conhecimento?
Eu comecei a rir.
– Cala a boca.
– E fiquei sabendo que ele tem um requintado gosto pra música também. Talvez te leve a um show cover do Rush.
Bati nele com a minha mochila e ele se esquivou para o lado rindo.
– Ei, eu gosto de Rush! — Seiya falou.
– Você tem problemas — Hyoga riu outra vez.
O clima entre nós seguia leve e animado. O final das provas havia deixado a todos em um ânimo mais amigável e divertido. Até mesmo Seiya parecia ter esquecido um pouco seus problemas — fossem eles quais fossem — e se deixado relaxar com a gente.
– Ah! Aqui está. — Shunrei exclamou quando achou um lugar legal, em frente a um túmulo mais afastado. Ela esticou uma toalha na grama enquanto Shiryu e eu desembrulhávamos os salgadinhos e os sanduíches de presunto e queijo das nossas mochilas.
Hyoga serviu café pra todos da garrafa térmica que havia trazido e eu tomei alegremente, apreciando o calor agradável que se espalhava pelo meu corpo. Eu costumava achar que café era amargo e nojento antes, mas, como todo mundo, tomava várias xícaras por dia agora.
Shiryu se acomodou ao lado de Shunrei e Hyoga se sentou entre mim e Seiya. Nós atacamos a comida e, em um passe de mágica, havia só migalhas sobre a toalha.
– Você está com folhas no cabelo. — Hyoga disse e ergueu a mão pra tirá-las de lá. Eu amassei as folhas até virar pó e as assoprei de volta no cabelo dele. Nós rimos e nossos olhares se prenderam um no outro mais uma vez. Então, o riso foi se perdendo aos poucos, e eu senti aquela estranha fisgada no estômago. Eu desviei o rosto.
Não havíamos comentado mais nada sobre aquele dia no quarto dele. Até porque eu nem entendia ainda o que tinha acontecido. O que iria falar? Não. Era melhor assim. Hyoga e os outros continuavam achando que eu era apaixonado pela Misuki, e ele continuava indo até Freya toda noite, após o jantar. Nada havia mudado. Embora eu tivesse que admitir que seus passeios noturnos andavam durando cada vez menos ultimamente.
Um pequeno grupo de turistas parou atrás de nós. Eles pareciam confusos. Um cara de barba e óculos, por volta dos seus 30 anos, abriu a boca pra falar, mas Shunrei o interrompeu.
– Skinner é por ali. — Ela apontou pra baixo do caminho. O cara barbado sorriu aliviado e eles continuaram andando.
– Como você sabia o que ele queria? — Eu perguntei intrigado.
Ela deu de ombros.
– É sempre o que eles querem.
– Ou isso, ou Longfellow. — Seiya falou.
– Mas Longfellow é legal. — Hyoga disse. — Pelo menos tem uma boa história. Ele era um poeta famoso, e em uma das suas poesias ele escreveu: "Ontem eu estava em Mount Auburn, e vi minha própria sepultura cavada; Era eu, a minha própria tumba. Eu lhe asseguro, eu olhei em silêncio para dentro dela, sem nenhum traço de pavor. Ela estava em um belo local." Ele morreu algum tempo depois disso e acabou mesmo enterrado aqui.
– Sinistro. — Eu falei.
– É.- Shunrei falou — Mas acho que o Shunny iria gostar mais da estátua de Hygeia, não é?
– Hygeia? — Eu estranhei.
– Ela foi encomendada para a tumba da Dra. Harriot Kezia Caçada, uma das primeiras médicas mulheres em Boston. — Hyoga contou.
– E? — Eu falei. Ainda não conseguia entender o que isso tinha a ver comigo.
– E... Hygeia era deusa da saúde e da higiene. — Shunrei provocou.
– Da higiene, é? — Eu entrei na brincadeira. — Bem, então acho que eu vou ter que dar um 'olá' a ela.
– Nesse caso... Permita-me. — Hyoga se levantou com uma reverência engraçada e eu o segui.
Ele cortou caminho por uma área proibida pra visitantes com um grupo de árvores fechadas e eu fui batendo desajeitadamente nos galhos atrás dele pelo caminho. Nós dois estávamos rindo tanto quando conseguimos sair de lá que acabamos trombando com um guarda. Ele franziu a testa por baixo do chapéu militar e Hyoga abriu um sorriso angelical e encolheu os ombros. O guarda balançou a cabeça mas nos deixou passar.
Hyoga sempre conseguia tudo o que queria.
Ele me guiou por outro caminho ladeado de castanheiras em botão e nós caminhamos pela trilha de pedregulhos com uma calma preguiçosa. Finalmente, saímos em uma área aberta e ele apontou para um grupo de pessoas reunidas em volta de um monumento tirando fotos. Mal dava pra ver o que eles fotografavam. Paramos e esperamos a nossa vez. Um gato magricela saltou de trás de uma lápide e correu em direção aos arbustos enquanto esperávamos e Hyoga lançou.
– Você sabia que este lugar é abrigo de 3.000 gatos?
– Claro, — Eu respondi irônico — está arquivado no meu cérebro na categoria "Felinos de Boston".
Ele riu.
Os turistas se moveram para o próximo ponto e ambos sorrimos enquanto nos aproximávamos de Hygeia. Sua estátua, em mármore branco de tamanho natural, estava postada em pé sobre um grande pedestal onde haviam imagens entalhadas. Era linda. Nós tiramos várias fotos — em frente a Hygeia, sentados ao seus pés, abraçados a ela -, e então nos sentamos no gramado um pouco mais afastados.
Hyoga estava entretido na leitura de um folheto explicativo, que algum turista deixara cair ao lado do monumento.
– Legal! — Ele soltou, de repente. — A estátua de Hygeia é a única obra de arte funerária de Edmonia Lewis em um cemitério. Eu não sabia disso.
Eu não fazia idéia de quem fosse Edmonia Lewis, mas assenti mesmo assim o incentivando.
– Por isso ela é considerada um dos monumentos mais significativos do Cemitério das Artes Plásticas. — Ele disse.
Eu olhei outra vez pra estátua. Outro grupo de turistas havia se juntado em volta dela.
– 'Cemitério das Artes Plásticas.' — Eu falei. — Você não acha estranho isso? Quer dizer, eu sempre pensei que é meio bizarro que se possa encontrar tanta obra de arte em cemitérios, sabe.
– É. — Ele concordou. — Mas é compreensível, já que ao longo dos século as pessoas sempre se preocuparam e investiram muito dinheiro em homenagear seus mortos. Existe até um ramo do turismo especializado em incursões por cemitérios, sabia?
– O que? Não.
– Chamam de Necroturismo. — Ele explicou — É uma forma de turismo que envolve a visitação guiada a cemitérios atrás de monumentos e tumbas de personalidades famosas.
– Um pouco arrepiante — Eu falei. — Mas legal.
– É divertido — Ele disse — Principalmente no Halloween. As visitações geralmente são feitas à noite, e, às vezes, ainda são acompanhadas pelo som de flautas e violinos. Eu acompanhei um grupo uma vez, em Paris. Père Lachaise é uma das principais rotas do Necroturismo, por causa dos monumentos famosos e das personalidades enterradas lá.
– Eu sei. Jin Morrison, não é? — Há... Até eu sabia essa.
– Sim, Jim Morrison. — Ele sorriu — E Victor Noir.
– Victor Noir?
Hyoga assentiu.
– Ele era um jornalista que foi abatido em um duelo por um sobrinho-neto de Napoleão. Supõe-se que a estátua no seu túmulo ajuda na... fertilidade. — Ele falou simplesmente como se isso explicasse tudo.
– Hum...? — Eu fiz, o instigando a prosseguir.
De repente, ele pareceu meio sem jeito.
– Bem, trata-se de uma estátua em bronze muito realista, sabe. Ela retrata Victor Noir exatamente como estava quando foi derrubado pelo disparo. Com a boca entreaberta, as mãos inertes, a camisa desabotoada... e uma grande ereção post mortem.
– Não! — Eu arregalei os olhos, prendendo o riso.
Ele assentiu, e um pequeno sorriso começou a se formar em seus lábios também.
– E dizem que se você esfregá-lo 'ali'... bem... isso ajudaria na fertilidade. Então, depois de anos das pessoas indo lá pra esfregá-lo, o pênis dele ficou lustrado.
Eu corei e comecei rir.
– Sério isso? — Eu falei entre risos — Pênis lustrado?
– Muito. — Hyoga disse rindo também.
Eu respirei fundo, tentando recuperar o fôlego.
– Isso é algo que eu definitivamente gostaria ver.
Ele estava tentando se recuperar dos risos também.
– Bem, nós podemos ir até lá no futuro, se você quiser. — Ele disse.
"No futuro". Por algum motivo, senti alguma coisa quente se agitar por dentro. Hyoga pensava em um "futuro" comigo? Eu balancei a cabeça pra empurrar aquele pensamento bem lá pro fundo do meu cérebro.
– E eu tenho direito a outro pedido se tocar o 'victor' do Victor? — Eu brinquei, lembrando da 'fonte dos desejos' na noite do nosso primeiro passeio.
Ele riu, negando com a cabeça.
– Não. Victor lida especificamente com a fertilidade.
– E você o esfregou? — Eu provoquei.
– Não. — Ele riu de novo. — Não preciso de mais esse tipo de problema na minha vida. — Ele girou os olhos, e minha própria risada ficou presa na garganta quando percebi as implicações do que ele tinha dito.
"Larga mão disso, Shun. Você não pode deixar que isso te incomode".
– Bem, eu não me importaria. — Falei depressa — Não corro nenhum perigo, sabe... — E então abaixei a voz para um sussurro zombeteiro. — Ouvi dizer que você tem que fazer sexo de verdade pra conseguir engravidar alguém.
Eu vi o momento exato em que pergunta passou pela cabeça dele. Droga, tinha falado demais outra vez, não tinha?
– Então, hum... você... é virgem? — Ele soava entre envergonhado e curioso.
Argh! Eu e minha maldita boca!
Senti minhas bochechas esquentarem mais do que nunca e abaixei os olhos para as pontas dos meus sapatos.
Ah, meu Deus... O que ia dizer agora? Estava com uma vontade quase irresistível de mentir outra vez, mas a verdade acabou vindo à tona.
– Nunca conheci ninguém com quem eu me importasse o bastante. — Eu disse. — Quero dizer, nunca namorei ninguém especial o bastante. Eu tenho uma regra, sabe.
– Elabore. — Ele falou.
Eu encolhi os ombros.
– Quando eu saio com uma garota eu me pergunto, se o pior acontecesse e ela engravidasse eu seria capaz de enfrentar tudo e assumir a ela e a criança? Se a resposta passar remotamente perto de uma dúvida, então nada feito.
Era verdade. Eu não queria fazer com nenhuma garota o que meu pai biológico fizera com a minha mãe. Eu só não disse que a única garota com quem eu saíra, de fato, fora a Misuki, e que eu nem gostava dela como namorada, é claro.
Ele concordou vagarosamente.
– É uma boa regra.
Seiya, Shunrei e Shiryu apareceram caminhando por trás de nós. Estavam carregando as mochilas com os restos do nosso piquenique.
– Obrigado por nos excluir. — Seiya disse.
– Nós dissemos onde estávamos indo. — Hyoga respondeu, e Shunrei aproveitou que eu estava distraído pra me puxar, junto com Shiryu, para novas fotos perto da estátua.
Seiya se juntou a nós também, e Hyoga sacou seu celular pra fotografar.
Eu pus a língua pra fora em uma careta ridícula e Hyoga riu.
– Brilhante. — Ele disse, batendo uma foto. — Agora vou ver isso toda vez que você me ligar.
Imediatamente, seu celular começou a vibrar e tocar na mão dele e todos nós levamos um susto.
– Assombroso. — Ele disse.
– É o fantasma do Victor, querendo saber por que você não quer tocá-lo. — Eu brinquei.
– Oi, Freya. Espera ai. — Hyoga falou ao telefone.
– Ele te contou sobre o pênis lustrado do Victor? — Shiryu perguntou, e Shunrei revirou os olhos.
Eu assenti.
– Wooo, me acaricie, Hyoga. — Seiya começou a gemer, no que deveria ser a voz do fantasma do Victor.
Nós começamos a rir e Hyoga tentou manter uma cara séria enquanto que se afastava com o celular.
Shunrei e eu nos sentamos no gramado outra vez, enquanto Seiya escalava a base da estátua pra começar a fazer poses pra 'fotos sensuais' com Hygeia, com uma das mãos sobre o seio da estátua.
Shunrei torceu o nariz e suspirou, enquanto Shiryu prendia o riso e fotografava com o celular.
– Vocês dois querem parar com isso? — Ela falou. — Pelo amor de Deus, Seiya, desce daí. O que o seu avô iria dizer, heim?
– Ele ficaria orgulhoso da faculdade para a qual me mandou estar me ensinando modos tão refinados. — Ele zombou, depois se debruçou sobre a estátua e a lambeu.
Shunrei e eu fizemos expressões de desgosto.
– Você vai acabar pegando alguma doença. — Eu falei, tirando meu tubinho de álcool gel da mochila e espremendo um pouco em minhas mãos. — Sério, você deveria passar um pouco disso nos lábios.
Seiya balançou a cabeça rindo, enquanto descia finalmente da estátua.
– Cara, você é tão neurótico. Não acredito que carrega isso pra todo lugar.
– Eu ouvi dizer que se você usa muito dessa coisa, pode na verdade dessensibilizar os germes e ficar mais doente. — Shunrei falou.
Eu congelei.
– O que? Não!
Shunrei abriu a boca pra dizer alguma coisa, e então parou olhando pra um ponto mais adiante.
Hyoga voltava apressado, saído do meio de uma agrupamento de árvores, e sua expressão não estava da melhores. Será que ele e a Freya tinham brigado?
– Aconteceu alguma coisa? — Eu quis saber, mas ele só negou com a cabeça, antes de dizer:
– Não, nada demais. — E então se voltou pra todos outra vez . -Desculpa aí, gente, mas eu vou ter que ir. — Ele pegou sua mochila.
– O que foi? — Seiya perguntou.
– Tudo bem. Não é nada demais mesmo. — Ele fez um gesto de descaso com a mão e revirou os olhos — Problemas... A gente se vê mais tarde, ok?! — Ele disse se despedindo.
– Ok — Shiryu falou, e nós apenas assistimos em silêncio enquanto ele se afastava.
– O que deu nele? — Seiya perguntou quando Hyoga já estava fora de alcance.
Shunrei se curvou e olhou para os lados, como se prestes a contar um grande segredo. Suas sobrancelhas finas se arquearam.
– Sabe, — Ela disse — Shiryu e eu os vimos brigando há algumas noites.
– Quem? — Eu perguntei.
– Hyoga e Freya. — Ela disse. — Acho que é por isso, sabe? — Ela indicou com o queixo a direção por onde o Hyoga havia saído.
– É? — Eu falei.
– Sim, ele tem estado no limite a semana toda.
Eu considerei a informação.
– É verdade. — Eu disse. — Eu o ouvi caminhar sem parar pelo quarto esses dias. E ele não costuma fazer isso.
Shiryu me olhou estranho.
Bom, não é que eu fizesse questão de ouvir, mas depois que soubera que Hyoga morava no quarto em cima do meu, eu meio que não conseguia evitar ficar reparando nas suas idas e vindas.
– Onde você os viu? — Seiya perguntou a Shunrei.
– Em frente ao metrô. Íamos dizer olá, mas quando vimos suas expressões, mudamos de direção e fomos pelo outro lado. Definitivamente, não era uma conversa que eu quisesse interromper.
– Por que eles estavam brigando? — Eu quis saber.
– Sei lá. — Ela encolheu os ombros — Não deu pra ouvi-los. Mas deve ser ela. Ela está tão diferente agora. Como se achasse que é melhor do que gente, sabe. Só porque está estagiando na Boston Magazine. E o jeito como está se vestindo...?
– Ela sempre foi assim. — Seiya falou com descaso.
– Mas agora está pior. — Shunrei respondeu, e eles continuaram discutindo sobre Freya.
Shiryu permanecia em silêncio. Focado em repassar as foto que tinha tirado no celular. Talvez só não conhecesse Freya tão bem quanto os outros dois pra participar da discussão, mas... Não sei... O modo como se concentrava naquilo... Desviando a atenção da conversa, parecia... deliberado. Proposital. Como se ele soubesse bem mais sobre a situação do Hyoga do que estava deixando transparecer. Será que Hyoga havia conversado sobre isso com ele? Será que... Ah, meu Deus, seria possível?...
Hyoga e Freya estavam terminando?
***
– Um ingresso, por favor. — Eu falei quando cheguei a bilheteira, no Sábado à tarde, fazendo deslizar meus dólares.
O programa do dia era o New England Aquarium. Eu havia estabelecido uma rotina para os finais de semana: café da manhã, estudo, almoço, atração turística.
Depois daquela última vez me sentindo perdido, eu havia tomado uma decisão: Iria explorar Boston. Sozinho.
Eu vagueara até tarde naquele noite. Andar por aí não me ajudara a entender melhor o que tinha acontecido, mas, de alguma, forma me fizera sentir diferente, mais seguro, por dentro.
Desde então eu já tinha conhecido a Freedom Trail, o Faneuil Hall, Chinatown, North End, o Museu de Ciências... Aos poucos ia imprimindo meu caminho pela cidade. Ponto turístico, por ponto turístico. (1)
O New England Aquarium, era uma enorme obra de arte da arquitetura moderna em concreto e vidro. — Se Hyoga estivesse ali comigo provavelmente diria que aquele designer era assinado por algum arquiteto famoso. Eu não tinha a menor idéia.
Depois da bilheteria, o saguão se abria para um amplo salão com fotos, souvenirs, um grande mapa do local, e um balcão com folders explicativos e fones de ouvido para visitas teleguiadas. Eu fiquei feliz em constatar que havia japonês entre os idiomas disponíveis.
Como esperado de um Sábado à tarde, o Aquarium estava lotado de crianças bastante animadas, e, durante duas horas, eu vi a tartaruga marinha, os pinguins, a Anaconda. Aprendi sobre os recifes de corais, as lagostas e o peixe elétrico. Assisti ao show das focas, e acariciei as costas do tubarão cinzento. O tempo passou em um piscar de olhos, e logo eu já estava outra vez parado sob os postes de iluminação recém acesos na rua, perdido em um sonho confortável, pensando no que iria ver no final de semana seguinte.
No caminho de volta, passei por um mini mercado e entrei pra comprar xampu. Quando estava saindo vi alguém familiar do outro lado da avenida.
Não conseguia acreditar... Hyoga!
Ele estava parado com as mãos nos bolsos, e olhava de tempos em tempos para o relógio como se esperasse alguém.
Meu coração acelerou, e eu estava a ponto de chamar seu nome, quando percebi que ele não estava mais sozinho. Freya saíra de uma loja ao lado de onde ele estava encostado e agora eles estavam conversando. Eu não conseguia ouvir o que eles diziam mas seus lábios se movimentavam rápidos. Pareciam estar brigando.
Eu me escondi atrás de uma placa do metrô pra observar sem ser visto e agucei os ouvidos.
Tudo bem, sei que não deveria fazer isso. Mas eram Hyoga e Freya discutindo ali... era o mistério que que vinha me atormentando por toda a semana.
Eles continuavam discutindo. Hyoga olhava pra baixo agora e Freya gesticulava e parecia falar ainda mais rápido e acaloradamente. Infelizmente o barulho da rua era alto demais pra que eu pudesse escutá-la. Senti a culpa se arrastando outra vez. Eu deveria sair dali... mas... não conseguia.
Do outro lado da rua, Freya gritou alguma coisa pra Hyoga e saiu pisando duro. Um grupo de estudantes passou por mim bem nesse momento, colocando-os temporariamente fora do meu campo de visão. Droga.
Eu me inclinei para fora do meu esconderijo pra ver melhor. Queria saber se Hyoga iria atrás dela.
Ele não foi.
Ao invés disso estava cruzando a rua na minha direção.
Ah, não. Ah, não. Ah não.
Ele olhou diretamente pra mim.
– Shun?
– Hum... Oi. — Eu disse, desviando os olhos. Meu rosto estava em chamas. Eu gostaria tanto de poder voltar no tempo. Mudar a cena. Apagá-la. Destruí-la.
A expressão dele passou de confusão à indignação.
– Você estava espiando? — Ele falou.
– Eu... Desculpe... — Eu disse, ainda sem olhar pra ele. Não sabia onde enfiar a cara.
Ele balançou a cabeça entre incrédulo e chocado.
– Eu não acredito que você estava ouvindo escondido.
– Foi um acidente.- Eu falei depressa. — Eu estava passando por aqui e... você estava lá. E eu soube que você e a Freya estavam com problemas e... e... eu fiquei curioso. Sei que foi errado. Desculpe. — Eu olhei para o chão outra vez.
Ele levantou o queixo de modo arrogante.
– Bem — ele disse impassível -, espero que o que você tenha ouvido tenha satisfeito suas expectativas. — E então passou por mim sem olhar pra trás. Eu agarrei seu braço.
– Espere! — Eu pedi — Eu não consegui ouvir nada.
Ele parou, parecendo considerar a informação.
– Você jura? — Ele falou vagarosamente. — Jura que não ouviu nem uma palavra da nossa conversa?
– Juro. — Eu falei sincero e ele pareceu relaxar um pouco.
Eu tomei coragem e toquei sua mão. Achei que ele fosse me repelir imediatamente, mas, contra todas as possibilidades, ele a segurou de volta. E, antes que nos déssemos conta, estávamos caminhando de mão dadas pela rua.
Ele olhava fixamente para a calçada, mas não parecia mais bravo. Parecia... envergonhado.
– Ei. — Eu falei. — Está tudo bem. Todos os casais brigam.
Ele balançou a cabeça.
– Você não entende. — Ele falou, e me olhou tão intensamente que tive medo de deixar de respirar. — Não tem nada de 'bem' naquilo. Eu não tenho sido honesto com ela.
Ele desviou o rosto. Eu pensei que ele fosse continuar, mas ele só voltou a caminhar sem dizer mais nada. Eu achei melhor não insistir.
Nós ficamos em silêncio outra vez. Nossas mãos ainda unidas. Não sei por quanto tempo ficamos assim, nem quanto havíamos andado. Duas quadras, talvez? Quatro?... Só sei que, de repente, não havia mais aquele sensação incômoda entre nós, em vez disso, havia um sentimento estranho, mas bom, confortável, no ar.
Nós cruzamos uma ponte e passeamos pelas margens do Charles River. Eu o ensinei a quicar pedrinhas na água — não acreditava que ele não sabia fazer isso.
Não voltamos a tocar no assunto da briga dele com Freya.
Então começou a chover, e nós corremos para nos abrigar em uma livraria. Lá dentro, fomos tomados de surpresa pelo caos.
Uma multidão de clientes lotava os balões da loja, e, para todos os lugares que se olhava, viam-se livros, livros e mais livros. Mas não era como nas lojas de livros comuns, onde tudo era extremamente organizado nas prateleiras, nas mesas, e nos displays. Ali os livros cambaleavam em pilhas vacilantes, caiam das cadeiras, e despencavam das prateleiras. Havia caixas de papelão transbordando com livros, e até um gato rajado tirando uma soneca ao lado de uma pilha de livros. A sensação era a de estar em uma daquelas lojas do 'Beco Diagonal' de Harry Potter.
Eu caminhei por ali entre deslumbrado e meio aterrorizado. Tinha medo de esbarrar em alguma coisa. A impressão que dava era de que um toque errado poderia por abaixo a loja. Ela iria ruir e nós seríamos soterrados em uma avalanche de páginas amareladas.
A chuva batia contra a janela. Abri caminho por um grupo de turistas e examinei a seção de ficção. E então, surpresa: Havia uma seção de literatura Japonesa por lá. E haviam mangás! Dezenas deles. Meu coração acelerou e eu peguei um volume, reverente. Abri-o devagar, admirando os traços, sentindo a textura, cheirando as páginas. Meu Deus, estava sentido tanta falta disso!
– Você nunca tinha vindo aqui? — Hyoga perguntou me assustando. Não tinha percebido que ele estava do meu lado.
Eu fechei o volume, negando com a cabeça.
– É uma livraria bem conhecida. — Ele falou surpreso. Estava segurando uma coleção de poesias. "As Flores do Mal" de Charles Baudelaire, edição bilíngue.
– Você já leu? — Ele perguntou, mostrando o livro.
Eu balancei a cabeça negativamente outra vez.
– Que bom. — Ele disse. — Porque eu acabei de comprar pra você.
– O quê? — Eu pisquei.
– Você vai precisar dele. — Ele disse simplesmente — Para as aulas de francês. Você ia ter que comprar de qualquer maneira. Então... — Ele me estendeu o livro — Abra.
Confuso, eu peguei o livro das mãos dele e o abri. Havia um carimbo na primeira página: "International Press of Boston. Prudential Tower, Massachusetts".
– Prudential Tower? — Eu falei, lembrando-me da nossa primeira volta pela cidade juntos.
– Pelos velhos tempos. — Ele sorriu. — Vem, a chuva parou. Vamos sair daqui.
***
Nós voltamos pelo mesmo caminho que tínhamos feito na nossa primeira noite na cidade. Um grupo de turistas japoneses passou por nós fotografando tudo com suas câmeras e eu perguntei:
– Você acha que eu sou assim? — Eu apontei para o grupo.
Hyoga focou no senhor que vinha a frente segurando uma bandeirinha.
– Assim como? Calvo? Acima do peso? Sem graça?
Eu fiz uma careta pra ele. Depois sorri.
– Assim óbvio. — Eu disse — Como aquele cara. — Eu indiquei um jovem no grupo. Ele vestia mochila com uma bandeira do Japão pregada nela, camiseta com os dizeres "I Love Boston", faixa na testa, um tripé pendurado no ombro, e não parava de tirar fotos com sua câmera.
Hyoga riu.
– Claro que não. — Ele disse. — Aquele cara parece que saiu de um filme tipo: "Os Nerds vão à Boston", e você é bonito.
Eu tropecei e caí na calçada.
– Você está bem? — Seu olhar estava evidentemente preocupado.
Eu desviei os olhos em outra direção enquanto ele pegava minha mão, juntava minhas sacolas caídas, e me ajudava a levantar.
– Eu estou bem. — Eu disse limpando os pedregulhos das mãos. Ah, meu Deus, eu era um desastre! — Você disse que eu sou bonito?
Era sério aquilo?
– Bom... Ah, você sabe que é lindo, não sabe? — Ele falou. — Vai dizer que nunca percebeu o jeito como as pessoas olham pra você?
– Se elas olham é porque eu estou sempre fazendo papel de idiota. — Eu ergui minhas mãos arranhadas pra ele.
Ele balançou a cabeça.
– Vê aquela garota? Ela está olhando pra você agora. — Ele apontou para um ponto além do meu ombro e eu me virei para encontrar uma garota morena olhando pra mim da fila de um restaurante. Ela soltou risadinhas quando eu olhei.
– E aquele cara. — Hyoga falou apontando outra vez, e eu dei de cara com um jovem de cabelos longos me olhando fixamente.
– Por que eles estão olhando pra mim? — Eu perguntei surpreso.
Ele sorriu. — Acho que gostam do que vêem.
Eu corei outra vez e Hyoga continuou falando.
– No ocidente é normal olhar pra alguém atraente, sabe. Nós, ocidentais, não desviamos o olhar como vocês, orientais, fazem quando achamos algo bonito. Você não percebeu?
Eu senti meu rosto esquentar mais ainda. Ele tinha dito que eu era atraente? Hyoga me achava bonito?
– Humm, não. — Eu falei, mordendo o lábio. — Eu não tinha notado.
– Bem, então é melhor começar a reparar. — Ele disse e eu assenti em silêncio, mas estava olhando para o chão... Para os galhos das árvores, para o grupo de turistas japoneses. Qualquer lugar menos ele.
Nós entramos na mesma praça em que paramos pra lanchar na primeira noite e então estávamos parados em frente a 'fonte dos desejos' de novo.
– Acho que eu quero fazer um pedido dessa vez. — Hyoga disse, e se posicionou em frente a fonte.
Ele pegou uma moeda e fechou os olhos e eu fiquei me perguntando se ele estava pensando na Freya enquanto fazia isso.
Por que ele tinha que estar com ela? As coisas seriam diferentes se nós tivéssemos nos conhecido antes? Se não fôssemos garotos? Eu não queria pensar nessas coisas, mas não conseguia.
Nós nos sentamos no mesmo banco que tínhamos sentado na primeira noite e ficamos observando alguns casais que passeavam de mãos dadas por ali.
O vento soprou mais forte e eu me encolhi. Ele passou um braço pelos meus ombros e o calor dele me envolveu como um cobertor.
– Vem, vamos pra casa. — Ele disse, e a palavra fez meu coração bater.
Casa. Harvard era minha casa agora? A minha casa era a dele também?
Meu coração acelerou mais um pouco. Será que ele também se sentia assim?
Ele havia dito eu era bonito, mas eu não sabia se isso tinha sido só um gracejo comum, uma coisa do 'Hyoga-amigo-de-todos', ou se isso tivera algum significado especial pra ele. Será que eu via um Hyoga diferente do que todos viam? Será que ele me via diferente dos outros?
Às vezes eu achava que sim. Mas talvez estivesse só confundido nossa amizade com outra coisa... Porque eu estava começando a querer confundi-la com outra coisa.
Notas:
1 - Todos esses são pontos turísticos de Boston. Freedom Trail é uma rua de 2,5 Km por onde se fazem passeios guiados pela parte histórica de Boston. O Faneuil Hall, ou Faneuil Hall Marketplace, é um mercado que também incorpora construções históricas, com lojas, restaurantes e artistas de rua. Chinatown e North End, são os bairros chinês e italiano, respectivamente.
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