O Garoto Do Andar de Cima
5 Capítulo 5: A Um Passo Da Eternidade
Shun POV
Era melhor assim. Era mesmo. Eu estava feliz por ter conhecido a namorada dele. E, conforme as semanas passavam, eu percebia que fora um alívio na verdade. Deixava as coisas mais claras. Não havia nada pior do que você achar que poderia estar sentindo coisas que você não deveria sentir por uma pessoa. E eu nunca havia sentido nada por um garoto antes, e não estava gostando do rumo que os meus pensamentos andavam me levando. Assim ficava mais fácil.
No mês que tinha passado eu também aprendera a conhecer melhor todo mundo. Shunrei era sempre animada, divertida, e um pouco irritada. Seiya tinha um humor parecido com o do Hyoga — não era difícil entender porque eles eram amigos -, embora parecesse um pouco nervoso e distante ás vezes... Mas quem era eu pra falar. Shiryu era calmo, calado e meio misterioso. Ele sempre dava a impressão de que sabia bem mais do que falava. Mas não havia dúvida de que o seu sentimento pela Shunrei fosse verdadeiro.
Hyoga, apesar de amigável, era bem sério e concentrado em sala de aula. A escola toda gostava dele — os professores, os alunos populares, os alunos não tão populares. Bem, e por que não gostariam? Ele era inteligente, engraçado, educado... E, sim, muito bonito também. No entanto, apesar dessa popularidade toda, ele não saía com muita gente. Só com o nosso pequeno grupinho mesmo. E como o Shiryu e a Shunrei estavam sempre ocupados demais um com o outro, e o Seiya andava meio que sumido nos últimos tempos, ele passou a sair... bem, comigo.
Desde a noite em que passáramos juntos na cidade, ele vinha sentando-se sempre ao meu lado. Fosse no pátio, nas refeições, ou na aula de Economia. Provocava-me por causa do meu apelido, perguntava sobre meus animes preferidos, e me ajudava nos trabalhos de francês. E me defendia. Por exemplo, na semana passada quando David Ferguson do segundo ano me chamou de tampinha (tão original) e me mandou "abrir os olhos", só porque eu esbarrei nele no corredor, Hyoga entrou na minha frente e mandou ele "cair fora". Depois ficou implicando com o cara o dia todo.
E, por tudo isso, ridiculamente, algumas garotas pareciam estar com ciúme de mim. A Tiffany, por exemplo. Toda vez que nós tínhamos aula juntos e ela tinha que me passar alguma coisa, ela meio que jogava a coisa em vez de passar. E, nas aulas de Economia, toda vez que o Hyoga me mandava bilhetes, ficava dando palpite nos meus desenhos, ou escrevendo o nome dele nas margens do meu caderno, eu sempre percebia ela olhando com raiva em silêncio, sem nem se mover.
Ontem mesmo, quando eu esbarrei por acaso com ela e duas de suas "seguidoras" no corredor do dormitório, ela disse pra eu "não me iludir" e que eu "nem era bonito o bastante pra roubar o Hyoga da namorada dele".
Oi?
Fala sério, ninguém merecia.
Mas, por outro lado, coitada. Porque qualquer garota que fosse obrigada a uma convivência diária com um garoto tão legal, educado, lindo, engraçado, e com um cabelo perfeito como o Hyoga estaria fatalmente sob grande pressão em não sucumbir a uma grande, ardente, interminável atração por ele.
É claro que como eu não era uma garota eu não corria esse risco.
Na verdade, pensando por esse lado, eu provavelmente estava fazendo um favor a ela. Quer dizer, eu estava impedindo que ela sofresse uma desilusão no futuro, não estava? E, como eu disse, não havia a menor chance dessas coisas todas acontecerem comigo. Era só ver a diferença: A maioria das pessoas tipo a Tiffany, dava risadinhas das brincadeiras do Hyoga e ficava encontrando desculpas pra apertar seu braço. Eu, por outro lado, argumentava e revirava os olhos com indiferença. E, sempre que meu braço sem querer encostava no dele, eu me afastava. Porque nós éramos garotos. E porque era isso que os amigos faziam.
Mesmo assim eu não conseguia deixar de sentir uma coisa esquisita por dentro toda vez que via ele voltando à noite do apartamento da Freya.
Ele ia até ela toda noite após o jantar.
Na maioria das vezes eu estava estudando no saguão do dormitório com o resto dos nossos amigos quando ele voltava. Ele então se sentava do meu lado, fazia alguma piadinha qualquer, e eu ria fingindo que estava tudo bem. Quando a verdade era que pensar nele e na Freya fazendo 'coisas' doía mais do que eu gostaria de admitir.
Mas talvez fosse normal sentir um pouco de ciúmes do amigos. Talvez todo mundo se sentisse assim. De qualquer forma, eu tinha coisas mais importantes pra pensar. Eu ainda não tinha conseguido sair do Campus sozinho, por exemplo.
Eu sei, meio constrangedor isso. Mas eu não me sentia seguro ainda. Me sentia meio perdido, sabe. Não sabia aonde ir, o que fazer, como falar... Era mais difícil do que as pessoas pensam lidar com outras culturas.
Mas eu tinha um plano. Primeiro eu ia convencer alguém a ir ao cinema comigo. Havia reparado, naquela vez em que saíra com o Hyoga, que havia um cinema pequeno bem próximo da faculdade. Nem precisaríamos pegar o metrô. E não devia ser tão difícil convencer alguém a ir comigo, todo mundo gosta de filmes. E então eu ia mapear o caminho, e anotar tudo o que todos fizessem e falassem. Assim não me sentiria perdido quando estivesse sozinho.
– Shunrei, o que você vai fazer hoje à noite?
Estávamos sentados eu, ela e o Hyoga na mesa de sempre para o café da manhã na cantina.
Ela parou com a caneta sobre caderno em que fazia anotações e olhou pra mim.
Há duas semanas que ela andava concentrada na elaboração do tema do seu TCC. Com a entrada em Março as coisas estavam começando a apertar pra todo mundo na faculdade, mas eu não achava que ela precisasse se preocupar tanto. Não tinha notas menores do que 9,0. Não importava o que ela escolhesse, certamente iria se dar bem.
– Nada, eu acho. — Ela disse, respondendo a minha pergunta sobre o que faria naquela noite.
– Quer ir ao cinema? Está passando 'A Um Passo da Eternidade' no Le Papillon — Eu tinha consultado a programação pela internet antes, é claro.
– Está passando o quê? — Ela piscou intrigada — E nem vou comentar o quão horrivelmente você assassinou o nome desse cinema que você pronunciou.
Legal. Zombar da minha pronúncia era a mais nova sensação entre meu grupo de amigos. Como eu não estava nos EUA a tanto tempo quanto eles, meu sotaque ainda era bem forte. Principalmente para palavras em francês, com todos aquele 'l's e biquinhos.
– A Um Passo da Eternidade. — Eu falei — Ganhou oito Óscars, lembra? Foi muito bom.
– Em que século? — Ela provocou.
– Á-há. — Eu fiz — É sério, você vai gostar.
Ela coçou a testa com a caneta. — Não sei. Não gosto muito de filmes antigos. A atuação é tão: "Ei, cara, velho amigo. Vamos colocar nossos chapéus e nos desentender".
– Ah, pára com isso. — Hyoga olhou por cima de um grosso livro intitulado 'O Livro Negro dos Illuminati'. — Não é esse o encanto? Os chapéus e os desentendimentos?
– Então porque você não vai com ele? — Shunrei falou.
– Porque ele vai sair com a Freya. — Eu disse.
– Como você sabe o que eu vou fazer hoje à noite? — Ele perguntou.
– Vamos. — Eu pedi. — Você vai gostar, prometo. E o Shiryu também. E é uma refilmagem, não o original. É com o Milo Scorpion, e eu ouvi dizer que é ótimo.
– Como você sabe o que eu vou fazer hoje à noite? — Hyoga repetiu.
– Por favor — Eu implorei — Por favooor? Que garota não gosta de ver o Milo Scorpion, heim, heim?
– É... — Ela concordou. — Daria pra martelar um prego com aquelas coxas, não é?!
– Então você vai?
Ela fez uma careta conformada.
– Tudo bem. Mas eu escolho o próximo filme.
– Oba! — Eu comemorei ao mesmo tempo em que tocava a campainha indicando o início das aulas. Eu recolhi minhas coisas e me levantei, jogando a mochila nas costas. — Pode ser na na sessão das oito?
Ela assentiu.
– Eu bato na sua porta. — Eu disse saindo depressa. Eu tinha Francês na primeira aula, e não podia me dar ao luxo de perder mais pontos por chegar atrasado.
– Tchau Shu-Shu. — O Hyoga gritou quando eu já estava a meio caminho de distância. Provavelmente em uma vingancinha por ter sido ignorado.
Eu ergui o dedo do meio pra ele, e ele riu.
***
– Você vai ao cinema hoje? — Nick disse olhando pra o encarte de propaganda do Le Papillon sobre a minha mesa enquanto verificava o número da página em que eu estava no livro de francês. Como sempre, nós nos juntamos em pares para os exercícios de conversação.
– Vou. A Um Passo da Eternidade. — Eu falei.
– O original ou a refilmagem? — Professeur Leon passou pelas nossas carteiras e Nick rapidamente acrescentou: — Je te présente ma familie. Jean-Pierre est... le oncle.
– Quoi – Professor Leon corrigiu. — Jean-Pierre est quoi oncle.– Eu achei que ele fosse parar, mas ele seguiu em frente. Ufa.
– A refilmagem. Com o Milo Scorpion. Embora normalmente eu prefira os originais — Confessei. Na verdade, estava impressionado que ele soubesse que havia um original.
– Isso é engraçado — ele falou -, não achei que você fosse fã de cinema antigo.
Era a mesma coisa que eu pensava sobre ele mas mesmo assim perguntei.
– Por quê?
Ele encolheu os ombros.
– Não sei. É difícil encontrar pessoas da nossa idade que gostem.
Professor Leon passou outra vez por nós e eu rapidamente emendei a primeira palavra em francês que vi no livro. Frère.
– Marc est mon frère.
Depois vi que queria dizer irmão. "Marc é meu irmão". Opa, desculpe Ikki.
Nick coçou o pescoço, enquanto o professor se afastava.
– Então... — ele sorriu insinuante, passando um dedo pelo meu pulso — quando você vai me convidar, heim?
Eu afastei a mão e fingi estar estudando a árvore genealógica no meu livro. Não era a primeira vez que ele fazia essas coisas. Eu sempre ficava constrangido, e nunca sabia como responder.
E Nick era uma cara legal. Ele era alto, tinha olhos verdes, a pele meio bronzeada e o cabelo tricolor deliberadamente bagunçado, tipo: finjo-que-não-me-importo-mas-me-importo-muito. Várias garotas o paqueravam, e eu não entendia porque ele insistia em agir assim comigo.
– Talvez eu prefira ir sozinho. — Eu disse. O que não era exatamente verdade, mas eu não queria que ele pensasse que eu não queria ir com ele.
– Ou com o Hyoga? — Ele sugeriu.
Nick viva implicando com o Hyoga. O que era ridículo já que, na maior parte do tempo, o Hyoga mal sabia que ele existia.
Na verdade, ele mesmo só sabia do Hyoga pelas coisas que eu dizia e pelo nome dele assinado nas margens do meu caderno.
– E daí? — Eu falei. Por algum motivo não senti vontade de contar que eu não iria com o Hyoga, na verdade, mas com a Shunrei, o Shiryu e talvez o Seiya.
Ele deu de ombros.
– Você é quem sabe.
– Talvez eu só prefira passar mais tempo sozinho para terminar meus desenhos. — Eu falei ainda chateado com aquela implicância sem propósito.
– Claro, seus desenhos — Ele arrancou meu caderno de desenho que estava embaixo do livro 'Francês Nível Um'.
– Ei! Devolve isso! — Eu protestei.
– E o que você está desenhando de novo? — Ele me ignorou, passando as páginas e parando em uma anotação que eu tinha feito no verso de um desenho do Hellsing, para o trabalho de psicologia. O trabalho ganhara complexidade, e o professor prorrogou a data de entrega. Agora nós tínhamos até o final de Abril pra entregá-lo.
– "Acreditamos que a civilização foi criada sob a pressão das exigências da vida, à custa da satisfação dos instintos. Entre as forças instintuais que têm esse destino, os impulsos sexuais desempenham uma parte importante. Nesse processo são desviados de suas finalidades sexuais e dirigidos a outras, socialmente mais elevadas e não mais sexuais. Esse arranjo, contudo, é instável; os instintos sexuais são imperfeitamente subjugados e, no caso de cada indivíduo que se supõe juntar-se ao trabalho da civilização, há um risco de seus instintos sexuais se rebelarem contra essa destinação. (FREUD, 1916/1980)" – Ele leu, e levantou uma sobrancelha significativamente na minha direção.
– O que tem?
– Nada. Só que talvez seus instintos sexuais desviados em sua finalidade e imperfeitamente subjugados estejam se rebelando contra essa destinação?!
– Cale a boca. — Eu falei, e tentei pegar meu caderno de volta, mas ele o ergueu sobre a cabeça rindo.
– Devolve isso!
Súbito, uma sombra se formou sobre nós. Professor Leon nos observava de cima. O resto da sala olhava pra nós fixamente. Nick soltou o caderno e eu me encolhi.
– Valeu, Nick. — Eu disse baixinho.
– Quando tiverem terminado essa fascinante discussão, por favor, retornem à atividade. — Professor Leon disse, e seus olhos se apertaram. — E duas páginas sobre vos families, en français, pour lundi matin.
Nós concordamos sem jeito e ele nos deu as costas outra vez.
– Para lundi matin? Que droga significa isso? — Sussurrei para Nick.
Professeur Leon nem se deu ao trabalho de se virar.
– Segunda pela manhã, Monsieur Amammya.
***
No almoço eu ainda estava irritado. Lancei minha bandeja com raiva sobre a mesa. A sopa de abóbora caiu pelos cantos do prato e minha maçã saiu rolando. Hyoga a pegou.
– O que está acontecendo com você? — Ele perguntou.
– Francês. — Eu reclamei. Sério, por que eu não tinha ficado com Espanhol ou Alemão mesmo?
– Não está indo bem? — Ele disse.
Eu revirei os olhos.
– "Não está indo bem?" — Imitei, mau humorado, e ele riu.
– Você vai pegar o jeito. — Ele colocou a maçã de volta na minha bandeja.
– Fácil pra você dizer isso, senhor 'fui-alfabetizado-em-Paris'.
Seu sorriso desapareceu.
– Desculpe. Você está certo, foi injusto. Eu me esqueço, às vezes.
Eu mexi minha sopa agressivamente.
– Professeur Leon semper faz com que eu me sinta um idiota. Não sou idiota.
– Claro que você não é. Seria loucura se alguém esperasse fluência a essa altura. Leva tempo pra se aprender qualquer coisa, principalmente línguas.
Eu suspirei.
– Eu só estou cansado de me sentir deslocado e por fora.
– Ei! — Ele chegou mais perto — Você não está por fora.
Tentei um sorriso ante sua tentativa de me animar.
– E quer saber? Danem-se as aulas de francês. — Ele falou — Isso não quer dizer nada. Você deveria passar menos tempo se preocupando com isso e mais tempo... — Ele parou quando algo atrás da mim chamou sua atenção. Sua expressão cada vez mais surpresa. Na verdade, atônita seria a palavra.
Virei-me pra encontrar Nick ajoelhado na minha frente. Sua cabeça estava curvada e ele lançava um pequeno prato no ar, na minha direção.
– Permita-me presenteá-lo com esse pudim de chocolate em sinal das minhas mais humildes desculpas. — Ele disse.
Eu senti meu rosto queimar.
– O que você está fazendo?
Nick olhou pra cima e sorriu.
– Desculpe pelo trabalho extra. Foi minha culpa.
Eu estava sem palavras.
Como não peguei a sobremesa, ele se levantou e a colocou na minha frente de forma muito pomposa. Todos estavam olhando. Eu queria morrer. Ele pegou uma cadeira da mesa do lado da nossa e se posicionou entre mim e Hyoga.
Hyoga parecia não conseguir acreditar.
– Sinta-se em casa, cara. — Ele falou para Nick.
Nick não pareceu ouvi-lo. Ele enfiou o dedo na grossa camada de chocolate e o lambeu. Urgh! As mãos dele estavam limpas?
– Então, você vai me deixar levá-lo no cinema?
Ah, não! Eu não acredito que ele estava me chamando pra sair ali. No meio do refeitório. Na frente do Hyoga!
– Hum... desculpe. — Eu disse, procurando uma desculpa — Mas... eu não vou mais poder sair hoje. Apareceu outra coisa.
– Vamos lá. O que pode ser mais importante do que uma sexta à noite? — Ele acariciou meu braço e eu olhei desesperado para o Hyoga.
– Trabalho de Economia. — Hyoga falou, olhando feio para a mão do Nick — Muita coisa pra fazer. Nós somos parceiros.
– Você terá o final de semana todo pra fazer isso — Nick falou, ainda ignorando Hyoga -. Relaxa, Shunny. Viva um pouco.
– Na verdade — Hyoga disse, seu olhar era de uma frieza terrível -, parece que o Shun tem um monte de trabalhos extras pra fazer neste fim de semana. Graças a você.
Nick finalmente se virou pra encarar Hyoga, e eles trocaram olhares zangados.
– Desculpe. — Eu disse. Sentia-me horrível por dispensá-lo assim. Ele era um cara legal apesar de tudo.
Mas ele só olhou outra vez para o Hyoga, depois para mim, e disse: — Legal. — Ele fez uma pausa. — Entendi.
– O quê? — Eu estava confuso.
– Eu não tinha percebido que vocês... — Ele apontou de mim para Hyoga sugestivamente.
– O quê? — Eu guinchei — Não! Não é nada disso. De verdade. Olha, nós podemos ir ao cinema em outra oportunidade. Só estou ocupado hoje. Com o trabalho de Economia.
Nick parecia chateado, mas deu ombros, se levantando.
– Tudo bem. Nós marcamos uma próxima vez, então.
– Claro. Certo. — Eu disse com alívio — Obrigado pelo pudim.
– Precisando... — Ele falou com uma piscadela cheia de segundas intenções — Vc sabe onde me encontrar.
Ele finalmente foi embora e eu suspirei aliviado.
Então minha ficha caiu: Ah, meu Deus! Eu senti minhas bochechas tão quentes que poderiam derreter. Ele Havia mesmo acabado de flertar comigo? Na frente da escola toda?
– Babaca. — Hyoga resmungou.
– Tudo bem. — Eu falei — Também não precisa falar desse jeito.
Não era legal ter preconceito com as preferências das pessoas. Eu não queria ser alvo do Nick, mas se ele gostava de garotos... bem, ele tinha o direito de ao menos tentar. Embora eu preferisse se ele não fizesse isso em público.
Hyoga me olhou com uma expressão impenetrável.
– Você não estava reclamando enquanto eu arrumava desculpas pra você.
Eu empurrei longe o pudim.
– Por que ele estava me colocando sob os holofotes — Eu disse irritado. — E eu não sou gay.
– Então você deveria me agradecer. — Hyoga falou com frieza.
– Obrigado. — Eu disse sarcasticamente. Sabia que os outros ainda estava olhando, mas estava mau humorado demais pra ser legal. Seiya pigarreou e apontou para o meu pudim com um buraco de dedo.
– Você vai comer isso?
– Fique à vontade. — Eu disse.
Hyoga se levantou tão repentinamente que sua cadeira caiu no chão com um estrondo.
– Onde você está indo? — Shiryu perguntou.
– Lugar nenhum. — Ele falou e saiu, deixando-nos em um silêncio surpreso.
***
– Você me deve 5 dólares. — O Shiryu falou me entregando um ingresso.
Ele tinha ido comprar os ingressos com o Seiya, enquanto eu e a Shunrei ficamos na fila da comida. O saguão do Le Papillon era antigo e cheirava a manteiga e pipoca.
– Buh! — Uma cabeça loira apareceu entre meu ombro e o da Shunrei, fazendo-nos pular como dois gatos assustados.
– Meu Deus, Hyoga! — Shunrei exclamou levando a mão ao peito — Você quer que eu tenha um ataque cardíaco?
– O que você está fazendo aqui? — Eu perguntei.
– A Um Passo da Eternidade, sessão das oito, no Le Papillon, certo? — Hyoga falou.
Ele agia como se nada tivesse acontecido.
– Você não tinha planos com a Freya? — Shunrei falou.
– Não sou convidado? — Ele abriu caminho entre Shunrei e mim.
– Claro que você é convidado — Eu disse — Só achamos que você estaria ocupado.
– Você está sempre ocupado. — Shunrei falou.
– Eu não estou sempre ocupado. — Ele revidou.
– Está sim. — Shiryu disse. — E o Seiya também, ultimamente.
– Ah, larga mão disso! De novo não. — Seiya reclamou.
– Só estou dizendo. — Shiryu deu de ombros.
Hyoga balançou a cabeça mas não negou, nem Seiya tampouco.
– Sabe o que é mais estranho? — Shunrei lançou pra Hyoga outra vez — Eu só vi a Freya uma vez esse ano. Quando ela não te encontrou no seu quarto na primeira semana de aula. Ela agora é boa demais pra ficar com a gente?
– Nada a ver. — Hyoga desconversou.
– O que vocês fazem toda noite? — As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse contê-las. Droga!
– Sexo. — Seiya falou displicente — É isso que eles fazem toda noite. E nos ignoram.
Hyoga ficou vermelho.
– Sabe, Seiya, você às vezes é tão grosseiro quanto àqueles calouros babacas do meu andar. Aquele Nickholas sei lá o que e seus amigos.
Eu não sabia que o Nick era do andar dele.
Seiya deu um passo a frente e bateu no peito do Hyoga.
– Você está me chamando de babaca?
Hyoga olhou pra ele irritado.
– Não, mas se você não se afastar é bem capaz que eu o chame. — Normalmente ele seria mais paciente, mas talvez ainda estivesse mau humorado por hoje de manhã.
– Ei, ei, ei... — Shiryu interveio, afastando Seiya. — Está tudo bem! O que há de errado com vocês, caras?
Seiya bufou e se afastou até as máquinas de doces. Mas estava claro pra todo mundo que ele andava nervoso demais ultimamente. Até mesmo eu podia perceber isso.
Hyoga suspirou e Shiryu se voltou para a namorada outra vez.
– Olha, sei você sente falta da Freya. Que vocês eram melhores amigas e que dói ela ter seguido em frente, mas você ainda tem a mim... a nós. — Ele completou.
– É que é triste não vê-la mais... — Shunrei balbuciou — Nós éramos tão próximas. — Ela soava como se estivesse prestes a chorar.
Shiryu colocou os braços em volta dela e ela o abraçou apertado, enquanto ele olhava para Hyoga por cima da cabeça da namorada com cara de: "Isso é sua culpa. Conserte."
Hyoga suspirou outra vez.
– Desculpa, você está certa. Eu vou falar com ela, está bem?
Shunrei assentiu e Shiryu se voltou para Seiya quando ele se aproximou outra vez.
– E você cara,- Havia algo diferente na sua conduta normalmente tranquila. — segura a sua onda. Você não pode ficar aí todo nervosinho, sumir durante dias sem falar o que está acontecendo, depois voltar quando bem entende e fingir que está tudo bem.
Seiya desviou os olhos e não disse nada.
Não era exatamente um pedido de desculpas, mas todos aceitaram assim.
Eu respirei aliviado e Shunrei se afastou delicadamente do namorado enquanto pegávamos nossos refrigerantes e baldes de pipoca e seguíamos as luzes amarelo douradas do longo corredor até as salas.
Então Shunrei e Freya eram melhores amigas? Eu pensei. Era ruim o bastante estar separado da Misuki, mas não podia imaginar como me sentiria se ela passasse a me ignorar completamente. De repente, senti-me triste por Shunrei.
– Desculpa, Shun. — Hyoga falou após um longo período de silêncio. — Por hoje mais cedo... e por isso tudo também. Sei que você estava empolgado com o filme.
– Tudo bem. — Eu dei de ombros. Não era grande coisa. — Não é da minha conta. Meus amigo brigam também. Quer dizer... meus amigos lá de Tóquio. Não que vocês não sejam meus amigos. Só estou dizendo que... que todos os amigos brigam.
Argh! Que angustiante!
A tristeza nos envolveu como uma névoa grossa. Retornamos ao silêncio e meus pensamentos começaram a girar.
Queria que Seiya não estivesse estranho. Queria que Hyoga não estivesse namorando a Freya. Que Freya não tivesse magoado a Shunrei, e que Shunrei fosse mais parecida com a Misuki. E queria que a Misuki estivesse aqui.
Sentamo-nos quatro fileiras acima do centro. As cadeiras eram confortáveis, vermelhas e clássicas. Não demorou para que as luzes se apagassem e começassem a rodar os trailers.
Finalmente os trailers acabaram, o filme começou, e o título apareceu na tela. Sorri para os meus amigos, mas Seiya parecia distante e Shunrei e Shiryu discutiam sobre algo que acontecera no jantar. Hyoga olhou pra mim e sorriu de volta.
– Feliz? — Ele perguntou.
Eu corei e abaixei a cabeça pra que meus cabelos cobrissem minhas bochechas. Elas tinham enrubescido muito mais por causa do sorriso do que de qualquer outra coisa. Eu realmente não conseguia ficar bravo com ele. Acho que ninguém conseguia.
Eu assenti, e ele pareceu satisfeito.
O cinema estava escuro, exceto pelo piscar cinza na tela. Eles passaram os créditos primeiro, com as imagens em branco e preto, como nos filmes antigos.
Milo Scorpion apareceu vestido em uma farda, no papel do Sargento Warden, originalmente de Burt Lancaster, e algumas garotas deram gritinhos e suspiros. Ele conversou com o novato recruta Prewitt. O recruta fez uma careta engraçada e Hyoga riu.
Era estranho mas de repente eu me peguei distraído pelo branco dos seus dentes na escuridão. Por uma mecha de seu cabelo fora do lugar. Pelo aroma leve do seu perfume.
Ele me cutucou devagar oferecendo o descanso de braço, mas eu o recusei e ele o tomou pra si. Seu braço estava muito próximo do meu. Olhei para as mãos dele no escuro. As minhas mãos pareciam tão pequenas comparadas as dele. Mas, pela primeira vez, isso não me incomodou.
De repente, senti vontade de tocá-lo.
Não um empurrão, ou um abraço amigável. Queria sentir a textura da sua pele, desenhar os contornos do seu rosto com linhas invisíveis, passar os dedos no seu pulso. Ah meu Deus, o que era aquilo? O que estava acontecendo comigo?
Ele se moveu, e fiquei com a estranha sensação de que me percebia da mesma maneira. Não conseguia me concentrar. Os personagens do filme estavam brigando, mas, embora tentasse, não sabia o porquê. Por quanto tempo tinha parado de prestar atenção?
Ele tossiu e se moveu de novo. Sua perna encostou na minha... E ficou lá. Paralisada. Ele deveria movê-la. Parecia tão artificial. Como ele podia não notar que a sua perna estava tocando a minha?
Pelo canto do olho, vi o perfil do queixo e do nariz dele, e — ah, meu Deus — a curva dos lábios. Eu ofeguei. Nunca tinha sentido nada assim. Era assustador. Lembrei do que Nick tinha falado na aula de Francês e comecei a suar nas mãos. Que droga eu estava pensando?
Então... ele olhou pra mim. Eu sabia que tinha olhado.
Mantive os olhos na tela, tentando ao máximo mostrar que estava verdadeiramente interessado no filme. Ele pareceu ficar tenso, mas não moveu a perna. Ele estava prendendo a respiração? Eu achava que sim. Eu estava prendendo a minha. Respirei rápido e me encolhi. Soou tão alto e artificial.
De novo.
Outra olhada.
Desta vez me virei automaticamente no momento em que ele estava virando de volta. Era como uma dança. E agora havia um sentimento no ar... Como se algum de nós devesse dizer alguma coisa. "Foco, Shun. Concentre-se."
– Você gosta? — Eu sussurrei.
Ele fez uma pausa.
– Do filme?
Agradeci que as sombras escondessem meu rubor.
– Gosto muito — ele disse.
Arrisquei mais um olhar e ele me olhou de volta. Fixo. Profundamente. Nunca tinha olhado pra mim desse jeito. Nem aquela noite no Museu, nem depois, do lado de fora do dormitório quando chegamos. Virei-me depressa de volta pra tela outra vez, assustado, e então o senti virar-se algum tempo depois.
Minha respiração estava ofegante.
Sabia que ele estava sorrindo, e meu coração acelerou.
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