O Garoto Do Andar de Cima
6 Capítulo 6: Pretty Little Lie
Shun POV
Era manhã de uma terça-feira e estávamos sentados esperando pelo início da aula de Economia. Na semana passada havíamos aprendido a montar um organograma macroeconômico, e antes disso a como calcular uma variante a partir de um sistema de dados retro-orientados. Quem sabe qual matéria nós teríamos hoje? Com Abril chegando em sua última semana, o pessoal andava enlouquecendo. Incluindo os professores. Toda semana era matéria nova, e as pilhas e mais pilhas de trabalho e leitura se acumulava.
A pressão nem era tanta pra mim que estava no primeiro ano, mas Shunrei, Shiryu, e Seiya andavam atordoados. Hyoga era um caso a parte. Ele era um maldito com uma memória fotográfica que não permitia que ele esquecesse absolutamente nada sobre o que um dia, porventura, viesse a por os olhos. Então ele estava tranquilo.
Uma vez eu disse a ele que não entendia como ele podia lembrar de tanta coisa que lia, e ele respondeu que não entendia como as outras pessoas podiam não lembrar. Desgraçado.
Mesmo assim, nós quase não conseguíamos mais tempo pra sair todos juntos. Na verdade, a última vez que saímos fora naquela vez, no cinema.
Minha mente voltou àquela noite. Eu sentado ao lado de Hyoga no escuro, sua perna tocando a minha, o olhar que trocamos... Lembrar disso sempre me inundava de vergonha. Quanto mais pensava nisso mais me convencia de que nada tinha acontecido.
Porque de fato nada acontecera.
Quando saímos do cinema, Shunrei anunciou: — O final foi muito repentino. Nem deu pra ver nada de bom.
Eu argumentei, e, na hora em que eu tinha acabado de defender meu ponto de vista, já tínhamos chegado ao dormitório. Eu queria conversar com Hyoga. Entender o que tinha acontecido. Ver se havia algum sinal de que alguma coisa tinha mudado entre nós. Mas Seiya me interrompeu dizendo que precisava falar com ele. E, uma vez que eu nem sabia se realmente queria que alguma coisa tivesse de fato mudado entre a gente, e nem podia expor meu coração que batia estrondosamente, acabei ficando pra trás.
E então nós nos despedimos com muita frieza.
E então eu fui pra cama, confuso como nunca.
O que talvez significasse que tudo aquilo fora meio que coisa da minha cabeça, sabe. Quer dizer, que talvez eu só tivesse exagerado a coisa toda na minha mente. Porque o Hyoga não agiu de maneira diferente no outro dia, no café da manhã. E nem nos dias seguintes. Apenas tivemos uma conversa amigável, como sempre.
Além do mais ele tinha a Freya. Nós éramos garotos. E éramos amigos. Tudo o que conseguia supor era que as aulas de Psicologia deviam estavam afetando meu raciocínio e eu estava projetando minhas próprias confusões no Hyoga.
E por falar em Hyoga... eu senti a ponta da lapiseira dele me cutucando de leve nas costas — ele sempre se sentava atrás de mim nas aulas de Economia. Eu olhei pra porta da sala, por onde o professor Allan entrava, e guardei meu caderno de desenho — estava empenhado no complicado esboço de uma luta entre Gaara e Rock Lee, entes de me perder em lembranças constrangedoras.
O professor pigarreou.
– Muito bem pessoal, já chega. Tiffany, já basta.
Ela jogou o cabelo e suspirou com um olhar para Hyoga.
Ele a ignorou. Bem feito.
– Tenho uma surpresa pra vocês. — Professor Allan disse. — Já que o tempo está mudando e assim teremos mais dias quentes, pensei que vocês fossem gostar de um trabalho ao ar livre, pra desestressar.
Íamos sair pra ganhar pontos extras? Cara, eu amava o sistema de ensino americano!
– Eu organizei uma caça ao tesouro. — Ele levantou uma pilha de papéis. — Há duzentos itens aqui. Vocês serão capazes de encontra-los todos no Public Garden, mas... Vocês terão que usar de todos os conceitos aprendidos em aula pra resolver as equações, e encontrar o número das coordenadas que indicam a localização dos "tesouros".
Ai que inferno!
– Vocês vão tirar fotos desses itens e trabalharão em duas equipes. O time vencedor será determinado de acordo com os itens encontrados. E haverá uma premiação. — Ele sorriu novamente, agora que tinha conseguido a atenção de todos. — A equipe que encontrar o maior número de itens até a semana que vem... ganhará dois pontos na média final.
A sala explodiu em assovios e palmas e eu sorri. Ah, agora sim estava valendo a pena.
Professor Allan escolheu os capitães das equipes com base em quem estava pedindo mais alto. Steve Carter — um garoto com cabelo de surfista falsificado — e a melhor amiga de Tiffany, Nicole, foram os escolhidos. Eu soltei um grunhido em lamento e Hyoga riu baixo.
A seleção começou e Tiffany foi a primeira escolhida, é claro. E depois o melhor amigo de Steve. Elementar. Eu cochichei pra Hyoga.
– Aposto dez dólares como eu vou ser o último a ser escolhido.
Tiffany se virou na cadeira na minha direção e abaixou a voz também.
– É uma aposta segura, cabeça de ervilha. Quem iria querer escolher você?
Senti minha mandíbula ranger.
– Hyoga. — A voz de Steve chamou nossa atenção por um momento.
Eu dei de ombros. Bem, já era esperado que Hyoga estaria entre os primeiros escolhidos mesmo.
Todos olharam pra ele, mas ele estava olhando pra Tiffany.
– Eu. — Ele disse, respondendo a pergunta dela — Eu quero o Shun no meu time, e você teria sorte se o tivesse.
Ela ficou vermelha e se virou depressa, mas não antes de me enviar um olhar mortal.
Haja paciência. O que eu tinha feito pra ela?
Mais nomes foram sendo chamados. Mais nomes que não o meu. Hyoga tentou chamar minha atenção, mas eu fingi não perceber. Estava me sentindo humilhado demais. Sempre odiei essa coisa de seleção de equipes. Trauma do meu fracasso esportivo, eu acho.
Logo a seleção estava entre mim, uma garota sardenta de cabelos ruivos chamada Savanna, e um cara magricela que, por qualquer que fosse a razão, era chamado de Strogonoff.
– Savanna — Steve anunciou sem hesitar.
Meu coração parou. Agora estava entre mim e alguém chamado Strogonoff. Concentrei minha atenção na carteira, no desenho que alguém tentou fazer do professor Martinez, de Antropologia, antes da aula de Economia.
Tiffany sussurrou algo no ouvido de Nicole e ela sorriu com desdém pra mim. Meu rosto queimou.
Nicole pigarreou:
– Strogonoff.
***
– Eu não acredito que vc almoçou com o Nickholas, ontem. — Shunrei lançou assim que coloquei minha bandeja sobre a mesa de sempre na Quinta.
– Nick — eu corrigi. — O que tem? Ele é uma cara legal.
– Se você gosta de roedores... — Hyoga implicou. Ele estava sempre implicando com Nick nos últimos tempos.
– Sei que você não gosta dele — Eu falei -, mas poderia, pelo menos, tentar parecer civilizado.
– Por quê? — Ele provocou — Resolveu que vai dar uma chance pra ele?
Eu suspirei com impaciência.
– Sim, marcamos nosso primeiro encontro imediatamente depois de ele ter me pedido em casamento. Por favor. Somos só amigos.
– Ele não quer ser só seu amigo. — Shiryu se meteu.
– Ei, vocês sabiam que o Hyoga e eu temos a tarde livre hoje? — Eu anunciei, em uma tentativa de desviar o assunto daquele tópico polêmico — Vamos ao Public Garden. Trabalho de Economia.
– O "Fugitivo do assunto", seu nome é Shun — Shunrei falou.
– Eu não estou fugindo do assunto. — Eu menti -. Só que não tem nada demais. Ele já entendeu que nós somos só amigos agora.
E isso era verdade. Depois daquele espetáculo no refeitório, Nick enfim havia desistido de me perturbar. Na verdade, ele ainda havia tentado mais uma vez depois daquilo, mas eu inventei que era apaixonado pela Misuki, e finalmente ele havia percebido que não tinha chances.
O problema é que de alguma forma essa história sobre mim e a Misuki se espalhara e agora todos, incluindo meus amigos, achavam que eu era mesmo apaixonado por ela. E eu meio que... bom, deixei que eles continuassem achando.
É, eu sei, não era legal isso. Mas depois que a história havia se espalhado, eu não sabia muito bem como começar a desmentir.
– É mesmo? Então porque ele não pára de olhar pra cá? — Shunrei desafiou.
Eu olhei pra trás e realmente Nick estava olhando pra nossa mesa. Nossos olhares se cruzaram e ele sorriu com um aceno. Eu acenei de volta e Hyoga fechou o rosto.
Eu suspirei. Era sempre a mesma coisa.
***
Boston ficava linda na primavera. As folhas resplandeciam em um verde jovial, as castanheiras ficavam repletas de botões de flores rosa, as passarelas repletas de tulipas amarelo-esverdeadas, e para todos os lugares que se olhava as pessoas estavam sorrindo.
O Public Garden estava lotado naquela tarde, mas era uma multidão agradável. Todos haviam trocado seus casacos de inverno pesados por malhas mais leves, finas, coloridas e macias, e pareciam felizes porque era o primeiro dia quente do ano. Não víamos os raios de sol há meses.
Hyoga e eu deveríamos estar calculando coordenadas, e tirando fotos com os outros, mas estávamos esparramados no chão, em frente a um lago enorme onde casais andavam de pedalinho e crianças brincavam com seus barcos de brinquedo.
Era maravilhoso, uma alívio e tanto, na verdade, poder dar um tempo da correria das últimas semanas. E eu perdendo tudo isso.
O humor de Hyoga havia melhorado consideravelmente depois do almoço. Ele havia voltado a ser ele mesmo, amigável, outra vez. Até agora já tinha me mostrado um jardim, uma ponte, um carrossel, dois monumentos, e um lindo barco aberto apinhado de turistas, que era chamado de Swan Boat, provavelmente por causa do imenso cisne branco que enfeitava uma das pontas. Hyoga disse que estávamos no melhor parque de Boston. Mas eu achava que devia ser o melhor parque do mundo. Senti vontade de trazer Yuu-chan pra brincar ali.
– Eu já te contei de quando eu mudei para os EUA? — Hyoga disse. Nós estávamos deitados um ao lado do outro, encostados contra a borda do lago. Nossos olhos estavam fechados.
– O quê? Não. — Eu falei.
– Eu estava no terceiro ano do primário. Foi terrível.
– O primário é terrível pra todo mundo. — Eu disse.
– Bem, foi pior pra mim. — Ele falou — As outras crianças eram implacáveis. Elas caçoavam de tudo a meu respeito. Meu cabelo, o jeito que eu me vestia, meu sotaque.
– Mas sotaque francês é tão sexy. — Eu deixei escapar, e depois fiquei rezando pra que ele não notasse meu rubor.
– Quando eu tinha nove anos não era. — Ele riu — Eu vivia me metendo em confusão. E meu irmão acabava se metendo em confusão também, pra me defender.
Eu assenti compreensivo. Se fosse parar pra contar todas as vezes que o Ikki se meteu em confusão pra me defender passaria a vida fazendo isso.
– Então, quando o ano acabou, meu pai resolveu encontrar uma escola nova pra mim. Eu queria voltar pra Paris, onde meus amigos estavam, mas meu pai estava abrindo uma filial da empresa em New York, e nós tínhamos que morar ali. Então ele conheceu Brigitta, eu fiz novos amigos, e com o tempo a coisa foi melhorando.
– E você ainda volta muitas vezes pra Paris? — Eu quis saber.
– Nós ainda temos alguns parentes lá, e algumas propriedades, então costumamos dividir nossos verões. O Camus mais do que eu. — Ele acrescentou — Ele adora Paris. Eu não sou tão francês quanto meu irmão, acho. — Ele riu. — Todo mundo diz que eu me pareço mais com a minha mãe.
Eu encolhi os ombros.
– Não sei. Eu te considero mais francês do que qualquer outra coisa. E você não só soa como um, como se parece com um também.
– Pareço? — Ele estava surpreso.
– Sim, por causa da... pela pálida. E aposto que as garotas, pelo menos, não te enchem mais o saco por causa do seu sotaque, não é?!
Ele riu outra vez.
– Não, elas não fazem mais isso.
Eu suspirei.
– Já eu, além de ter um sotaque que não é considerado sexy pelas garotas, sempre serei baixinho.
Ele me cutucou com o ombro.
– E qual o problema em ser baixinho? Napoleão também era baixinho.
Eu ri e revirei os olhos.
– Tá bom. — Falei irônico.
– É sério. Você não deveria reclamar, a maioria dos baixinhos que eu conheço são simplesmente fodásticos. Você já ouviu falar do Audie Murphy?
Eu neguei com a cabeça, e ele continuou.
– Audie era um adolescente baixinho e magricela que queria ser soldado. O cara tinha 1,60m de altura, 16 anos, e pesava pouco mais de 50 quilos quando se alistou na Marinha. Obviamente que ao verem aquele nanico querendo entrar na guerra, os homens da Marinha riram da cara dele. Incansável, Audie tentou se alistar na Força Aérea, mas obviamente o resultado foi o mesmo. Então ele se alistou no Exército. Provavelmente o aceitaram porque o Exército estava pegando qualquer coisa naquela época. Como era de se esperar, Audie foi um fracasso nos treinos de recruta, desmaiando durante o treinamento, e como não demonstrava muito talento para o combate também, seus superiores transferiram-no para a cozinha. Mas Audie insistiu que queria lutar. Resignados com a valentia do recruta, os superiores de Audie o autorizaram a embarcar para a zona de conflito na Itália.
Um pequeno barco à vela passou atrás de nós, e eu suspirei preguiçosamente.
– Chegando na Itália — Hyoga prosseguiu -, imediatamente Audie foi reconhecido por sua incrível habilidade com arma. Ele era tão bom de mira que rapidamente foi promovido a Cabo. Só que após um breve período na Itália, ele contraiu malária, e não conseguiu se recuperar da doença durante quase todo o período da Guerra. Mesmo doente, Audie e seus homens foram transferidos para outra zona de conflito, dessa vez na França. O ano era 1944 e seu esquadrão travou combate contra uma artilharia alemã. Ardilosos, os soldados alemães fingiram se render, e então abriram fogo, ferindo mortalmente o melhor amigo de Audie. Quando o corpo já sem vida de seu amigo bateu no chão, Audie se transformou. Sabe aquele tipo de cena em que o soldado vê o amigo morrendo e grita “nãããããããão!”, e contra todas as possibilidades lógicas, sai matando geral?
Eu assenti e ele continuou.
– Bem, digamos que este tipo de clichê de quinta, certamente é inspirado na vida deste cara, pois foi exatamente isso que ele fez. Audie matou não apenas todos os homens... armados... em dois ninhos de artilharia como fez uma limpa num raio de alcance de 100 jardas. Não satisfeito ele ainda deu cabo de um grupo de atiradores de elite. Graças a isso ele foi condecorado e promovido a comandante, fazendo os caras que o sacanearam anteriormente engolir em seco de vergonha.
– Legal. — Eu falei sinceramente motivado. Eu meio que me identificava com esse Audie Murphy... até a parte em que ele era baixinho, magricela, e passava mal nos treinos físicos é claro.
– E a história não acaba aí. — Hyoga falou — Cerca de um ano depois, ele massacrou todo um exército alemão em uma região de conflito na França, com a ajuda de um esquadrão que se resumia a 19 homens. Não vamos esquecer que ele pesava 50 kg e estava com malária.
Eu ri e ele me acompanhou.
– A história do soldado maluco correu de boca em boca e o exército lhe concedeu todas as medalhas que era possível, incluindo a famosa “Medalha de Honra”.
Ele se mexeu, e suas pernas encontraram um lugar confortável contra as minhas.
– Audie virou quase uma lenda, e, quando a Guerra chegou ao fim, ele escreveu uma autobiografia intitulada “Ao Inferno e de Volta”, e ainda resolveu se tornar ator. Ele chegou a interpretar a si mesmo em um filme, mas o diretor achou que seria impossível mostrar toda a verdade pois o público jamais acreditaria, então o filme teve mais da metade das ações heróicas cortadas. — Hyoga concluiu e nós começamos a rir.
– Tudo bem. — Eu disse — Entendi. Nunca mais vou reclamar da minha altura, então.
Ele sorriu e eu fechei os olhos outra vez, aproveitando mais daquela sensação. A brisa fresca batendo, o sol sobre o meu rosto, Hyoga ali do meu lado. Aquilo era tão melhor do que estar por aí caçando itens para o trabalho de Economia.
Algum tempo depois, eu percebi que ele estava me chamando e abri os olhos.
– Oi? — Eu devia ter caído no sono.
– Tem um barco no seu cabelo.
– O quê? — Eu pisquei confuso.
– Eu disse que tem um barco à vela no se cabelo. — Ele repetiu, agora mais lentamente, reprimindo o riso.
Eu olhei incrédulo pra ele, mas, aparentemente, ele não estava brincando. Eu tentei levantar a cabeça, e tinha mesmo alguma coisa presa ali. Um garoto agitado, que devia ter por volta de uns oito anos de idade, se aproximou falando em um espanhol muito rápido. Hyoga ria enquanto eu tentava desesperado tirar as velas do brinquedo da minha cabeça. O barco tombou na tentativa e meu cabelo mergulhou no lago. O garotinho gritou, zangado comigo.
– Olá, ajuda por favor? — Eu lancei um olhar exasperado para Hyoga, cujo riso finalmente se reduziu a risadinhas. Ele se levantou quando o garoto impaciente começou a enfiar as mãos no meu cabelo, embaraçando-o ainda mais.
– Ai! — Eu gemi com uma careta.
Hyoga falou ríspido com ele, e o menino soltou meu cabelo. Os dedos de Hyoga mergulharam entre meus fios gentilmente, e, com cuidado, ele foi desembaraçando o tecido, a corda e a madeira. Algumas vezes, as pontas dos dedos dele resvalavam no meu pescoço, ou no couro cabeludo, no processo, e eu sentia pequenas fisgadas elétricas percorrerem meu corpo onde seus dedos tocavam. Mas eram fisgadas boas.
Finalmente, meus cabelos estavam livres do barco e ele entregou o brinquedo ao garoto, dizendo alguma coisa que eu não consegui ouvir direito. Desta vez com a voz mais macia. O menino agarrou o veleiro e saiu correndo.
Eu torci meu cabelo. Urgh!
– A água é bem limpa. — Ele sorriu.
– Claro que é. — Eu falei, irônico. Mas adorei que ele tivesse adivinhado o que eu estava pensando.
– Vem, vamos sair daqui. — Ele se levantou e me ofereceu a mão. Eu aceitei, e ele me ajudou a levantar. Esperei que ele a soltasse quando eu já estava em pé, mas ele não o fez. Em vez disso, me levou pra um lugar seguro, longe do lago.
Era estranhamente agradável andar de mãos dadas com o Hyoga. Confortável. Eu queria que os amigos andassem de mãos dadas assim mais vezes, como as crianças. Nunca entendi o porque de termos que crescer e nos envergonhar de fazer isso.
Nós nos sentamos na grama sob um manto de flores rosa. Olhei ao redor em busca dos policiais que faziam a ronda, sempre ávidos pra remover as pessoas dos gramados, mas não havia nem sinal deles. Shunrei dizia que Hyoga era quase um amuleto da sorte quando se tratava dessas coisas.
Meu cabelo respingava na parte detrás da minha camiseta, mas, de alguma forma, não estava ruim. Nós ainda estávamos de mão dadas.
A gente devia soltar as mãos agora, certo? Quer dizer, aquele era o momento em que o normal seria fazer isso, não é?! Por que não estávamos soltando as mãos?
Voltei o olhar para o lago, e ele fez o mesmo. O sol começava a se por sobre as águas em um espetáculo de cores, mas nós não estávamos preocupados com a paisagem. Sua mão estava queimando na minha, mas nós não as soltávamos.
– Eu queria poder desenhar esse momento — Eu deixei escapar, de repente.
Ele sorriu.
– Às vezes eu invejo você. — Ele falou — Eu queria ter uma habilidade como a sua, sabe. Que me permitisse eternizar momentos que eu nunca quisesse esquecer.
Eternizar momentos que ele nunca quisesse esquecer? Eu senti uma fisgada por dentro e minhas bochechas ficaram quentes.
– O que me lembra... — Ele continuou — Que eu tenho uma coisa que eu quero te dar.
Eu olhei pra ele surpreso.
– Pra mim?
Ele assentiu.
– Está lá no meu quarto. Chegou ontem pelo correio. Vamos lá buscar?
– Sem avisar ninguém?
– Eles nem vão perceber — Ele sorriu e se levantou, me puxando pela mão.
Nós saímos do parque de mão dadas. E continuamos assim por todo o caminho até chegar ao metrô que nos levaria de volta à Cambridge.
***
Quando chegamos ao seu andar e ele me conduziu pelo corredor me senti estranhamente nervoso e agitado. Eu nunca tinha estado no quarto dele antes. Sempre nos encontrávamos na sala ou no meu quarto.
– Lar, doce lar. — Ele tirou um chaveiro escrito "Route 66 Abbey Road" do bolso. Outro souvenir garimpado pela internet, eu supunha.
– Ei, 511! — Eu observei surpreso o número afixado à porta dele. — Seu quarto é exatamente em cima do meu. Você nunca me disse...
Ele sorriu.
– Talvez eu não quisesse que você me culpasse por mantê-lo acordado à noite com meus passos.
– Cara, você faz barulho. — Eu falei.
– Eu sei, desculpe. — Ele riu e abriu a porta pra mim — É que eu não consigo dormir cedo.
O quarto dele era mais organizado do que eu esperava. Os quartos de garoto normalmente eram nojentos. Não o meu, é claro. Eu falo dos garotos normais. Que não são obcecados com limpeza. Principalmente se estão vivendo por conta própria. Montanhas de cuecas encardidas, camisetas manchadas de suor, camas desarrumadas com lençóis que não são trocados há semanas, pôsteres de garrafas de cerveja e mulheres em biquínis minúsculos, latas de refrigerante vazias, saquinhos de salgadinhos, partes aleatórias de aeromodelos e jogos de vídeo game deixados de lado.
O quarto do Ikki era assim. Sempre me deixou maluco. Eu nunca sabia quando podia acabar sentando em um pacote velho de molho pra batatas.
Mas o quarto do Hyoga era arrumado, e tinha o cheiro dele. Um cheiro bom e limpo. Sua cama estava feita e tinha só uma pilha de roupas no chão. Não havia pôsteres de mau gosto, só dois cartazes dos Beatles e um Mapa Mundi antigo grudados na parede. E livros. Nunca tinha visto tantos livros em um só quarto. Eles estavam empilhados ao longo das paredes como torres. Livros grossos, antigos e bem conservados, livros novos com suas capas brilhantes, e brochuras esfarrapadas. Tinha pra todos os gostos.
Na mesinha de cabeceira estava o despertador de submarino amarelo, e tinha um MacBook Pro de última geração sobre a escrivaninha. Uau!
Hyoga pareceu constrangido por isso. Todo mundo sabia o preço de um computador daqueles, e não era qualquer estudante que poderia ter um.
Eu coloquei as mãos nos bolsos e olhei pra ele outra vez.
– Então... — Disse — o que você queria me dar?
– Está bem aqui — Ele alcançou sua mochila aos pés da cama. — Desculpe não estar embrulhado.
Ele me entregou um caderno de espiral pra desenhos.
Eu estava confuso.
– Hum... Obrigado.
– É pra canhotos, está vendo? — Ele inverteu a posição do caderno e virou as páginas. — Eu o vi em um site e lembrei de você. O seu já está cheio com desenhos, bilhetes, e anotações das aulas, então achei que precisaria de um novo.
Ele o havia visto em um site e se lembrado de mim? Ninguém nunca se lembrava de que eu desenhava com a mão esquerda. Senti um nó se formar na minha garganta.
– É perfeito. — Eu falei com voz fraca.
Ele esfregou o cabelo sem jeito, espalhando-o em todas as direções.
– Eu sei que não é grande coisa, mas...
– Não. É perfeito. Obrigado. — Eu agradeci, agora mais firmemente, e nós sorrimos um para o outro.
De repente, estávamos os dois parados. Ele estava tão perto de mim... Seu olhar estava preso no meu. O ar começou a ficar denso e eu senti meu coração acelerar como louco outra vez.
Não. Aquilo não estava certo. Nós éramos amigos. Amigos. Ele tinha namorada. Meu Deus, por quê eu precisava me forçar a lembrar disso o tempo todo? Dei um passo pra trás, e desviei o rosto.
Hyoga pareceu desconfortável.
– É você? — Eu falei depressa apontando a foto de um garotinho ruivo de óculos com um bebê loiro nos braços, em um porta retrato sobre a escrivaninha. Estava desesperado pra mudar o clima entre a gente.
Ele não respondeu. Olhei de volta, e ele ainda estava olhando fixamente pra mim.
Então, respirou fundo.
– Sim, sou eu. Com meu irmão. — Sua voz estava estranha.
– Nossa, você era tão fofo. Muito, muito fofo mesmo... — Eu virei de costas pra ele pra examinar a fotografia. Por algum motivo não conseguia olhar em seus olhos.
– Shun... — Ele chamou.
– E isso aqui é em Paris? — Eu continuei falando.
– É, na casa em que eu cresci.
– Ah.
– Shun... — Ele tentou outra vez.
– Hum? — Eu ainda estava de costas, segurando o porta retrato.
– Aquela garota. Misuki. Você... gosta mesmo dela?
Eu senti minhas costas se contorcerem, meu estômago deu uma reviravolta, e eu inspirei fundo.
– Eu... — Eu mordi o lábio — é claro. Ela... ela é minha amiga.
Ah, droga.
– O que eu quero dizer é... se você ainda é apaixonado por ela? — Ele falou hesitante — Se seus sentimentos não mudaram... Desde que você chegou?
Por que ele estava me fazendo aquelas perguntas? Eu não sabia o que responder. Sentia meu corpo totalmente congelado por fora, ao mesmo tempo em que meu coração parecia que ia explodir pelo lado de dentro.
Por que diabos mesmo eu tinha inventado aquela história?
– Não é uma questão de como eu me sinto... — Eu disse finalmente. — É claro que eu ainda gosto dela... — Ah meu Deus, o que eu estava fazendo? "Cala a boca, Shun, cala a boca!". — Mas não sei se ela ainda está interessada em mim.
Ele chegou mais perto. Eu podia sentir o calor do seu corpo contra minhas costas agora. Eu prendi a respiração.
– Mas você ainda está interessado nela?.
– E-eu... não sei. — "Cala a boca! Cala a boca!" — Quer dizer, s-sim. — "CALA A BOCA! CALA A BOCA! CALA A BOCA!" — Acho que sim. É. Sim.
Ah, não!
– Certo. — Ele se afastou outra vez. E depois de uma pausa, completou. — Que bom.
Eu me virei pra ele sem desviar os olhos do chão. Eles pareciam colados ali.
– É... muito bom. — De alguma forma consegui engolir todo bolo que tinha se instalado na minha garganta. — Acho que eu deveria ir agora, então. Tenho certeza de que você deve ter planos com a Freya.
Ele parecia atordoado.
– Tenho. Digo, não. Quer dizer, não sei. Se você não for fazer nada...
– Então te vejo mais tarde. — Eu o ignorei e abri a porta. De repente, não conseguia ficar mais um minuto ali dentro — Obrigado pelo presente. — Bati no caderno que segurava espremido contra o peito.
Hyoga parecia estranhamente magoado.
– Sem problema. Que bom que gostou.
Eu fechei a porta correndo e desci de dois em dois os degraus em direção ao meu quarto. Meu rosto estava quente. O que tinha acabado de acontecer? Em um minuto estávamos bem e no outro foi como se eu não conseguisse controlar minha própria língua. Como se não pudesse fugir rápido o bastante. Por que eu tinha falado tudo aquilo? Desde quando eu me tornara uma espécie de mentiroso compulsivo?
Eu senti as lágrimas chegando. Muitas. Eu precisava sair dali. Precisava de ar fresco. Precisava sair do dormitório. Eu passei reto da porta do meu quarto e continuei descendo...
E não parei até estar fora do Campus.
De frente ao vagão do metrô.
Estava cansado de me sentir perdido. Era hora de eu também buscar as minhas próprias coordenadas.
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