O Garoto Do Andar de Cima

23 Capítulo 21 - Abandono


Shun POV

Vamos ver, essa semana eu: Tomei meu primeiro porre. Ataquei sexualmente meu melhor amigo na frente de todo mundo — Correção: ataquei sexualmente meu melhor amigo outra vez, mesmo depois de ter jurado pra mim mesmo que não ia fazer mais isso. — Fui flagrado pela namorada dele. Tive uma crise louca de ciúme e culpa e agredi verbalmente esse mesmo amigo. Ah, não, espera: Tive outra crise louca de ciúme e culpa e agredi verbalmente meu melhor amigo mais uma vez.

Sério, se houvesse um concurso pra ver quem poderia fazer mais mal para si mesmo no período mais curto de tempo, estava certo de que ganharia sem esforço.

Meu irmão ficou uma fera quando descobriu sobre eu estar envolvido naquela coisa do porre coletivo que meus amigos inventaram, e praticamente me arrastou da boate pouco depois da meia noite, e minha mãe me colocou de castigo, sem poder sair à noite, até o final das férias. Agora eu só poderia sair se o Ikki estivesse comigo. O que era totalmente ridículo. Porque não era como se a presença do Ikki tivesse feito alguma diferença na noite de Natal, era?

Mães! Como esperar algum tipo de lógica vindo delas?!

Mas não havia sido um desastre completo, no final. Porque se nada disso tivesse acontecido eu nunca ficaria sabendo que o Hyoga finalmente terminara com a namorada dele.

Esse pensamento era o que havia me sustentado pelo últimos três dias.

O Hyoga e a Freya tinham terminado. Eu mal podia acreditar ainda.

É claro que a notícia seria muito mais animadora se acompanhada de ao menos uma ligação por parte do Hyoga. Não, nem precisava ser uma ligação, podia ser só um e-mail, uma mensagem pequena, sinal de fumaça… qualquer coisa.

Mas infelizmente a única notícia do Hyoga que eu tivera desde o Natal fora um recado, por intermédio do Shiryu, de que ele teria ido às pressas para Paris resolver uns assuntos para o irmão dele.

Isso havia sido ontem à tarde, e eu ainda não conseguia acreditar que o Hyoga sequer se dera ao trabalho de me comunicar pessoalmente.

Depois de tudo aquilo na boate. Depois de ter dito que a única verdade que ele conhecia era o que sentia quando estávamos juntos. Que ele não queria me machucar…

Eu me perguntava se deveria ligar pra ele, mas o que eu ia dizer? “Oi, aqui é o Shun, o amigo que você beijou, depois abandonou. Quer sair?"

Não. Se o Hyoga quisesse falar comigo ele mesmo me ligaria. Afinal, ainda que a história que ele contou pro Shiryu fosse verdadeira não era como se não existissem telefones ou sinal de internet em Paris, não é? Estava na cara que ele estava me evitando.

De repente, o fato dele ter terminado com a namorada já não parecia mais tão significativo.

E justo quando eu achei que as coisas entre a gente finalmente tinham uma chance real de se acertar… Era isso que doía mais do que tudo.

Eu simplesmente não conseguia entender o que tinha acontecido. Ou o que eu podia ter feito pra que ele agisse assim. É verdade que eu o acusara. Que o agredira duramente com palavras em meio a uma crise estúpida de ciúme e choro. Mas eu jurava que já estava tudo perdoado quando ele segurou meu queixo e nossas respirações mais uma vez se misturaram. Quando ele levantou seu copo me desejando um Feliz Natal no final da noite.

E ele não havia dito que queria tentar? Que esperara o ano todo pra me beijar?

Então por quê? Por quê?

Eu olhei para o teto branco do meu quarto, desejando por um momento estar em Boston outra vez. Pelo menos eu ainda poderia acompanhar o barulho dos seus passos.

Sentimental? Sim. Insuportavelmente triste? Também. Idiota? Com certeza.

Uma batida do meu irmão na porta do quarto me chamando para o café da manhã me tirou dos meus pensamentos.

Eu não estava com fome mas não poderia mais pular o café com a desculpa de que tinha dormido tarde na noite anterior. Até porque eu fora pra cama alegando uma dor de cabeça antes das oito da noite.

Mesmo assim o sono demorara muito a chegar. Não que eu não estivesse exausto. Eu me sentia exaurido. Embora não estivesse cansado fisicamente, andava fazendo um trabalho emocional intenso nesses último dias, e isso provavelmente deveria contar.

Ainda assim não conseguira dormir.

Como poderia quando tudo o que eu conseguia fazer era tentar entender o que eu havia feito pra levar o Hyoga a se afastar daquela forma? Bem, isso, e chorar. Eu achava que já tinha chorado o suficiente essa semana para secar os canais lacrimais, mas aparentemente estava enganado. Ainda havia alguns litros sobrando.

Olhei meu reflexo no espelho do banheiro. Os olhos vermelhos e inchados, o cabelo parecendo uma bola verde de pelos.

"Tudo bem, Shun, Respire. Uma coisa de cada vez.”

Eu lavei meu rosto. Ajeitei o cabelo. Escovei o dente.

Então respirei fundo outra vez pra tomar coragem e abri a porta para o corredor. O cheiro de bacon fritando na cozinha fez meu estômago revirar.

Eu pensara que as coisas poderiam melhorar no dia seguinte, mas agora não conseguia ver como isso pudesse acontecer. A não ser que Hyoga aparecesse. A não ser que ele me explicasse o que estava acontecendo. A não ser que tivesse razões muito fortes pra estar me ignorando.

Eu suspirei, furando com o garfo as gemas dos ovos que o meu irmão havia colocado no meu prato. Elas escorreram em direção as torradas do outro lado, e eu comecei a imaginar que os ovos eram vulcões, as gemas furadas, as lavas, e as torradas, Pompeia. Não tinha nenhuma vontade de comer.

Ikki estava sentado à minha frente agora, concentrado em falar com alguém no telefone. Alguma coisa sobre análise de custos, projeções e níveis de despesa. Ele estava vestindo um terno escuro já pronto pra ir trabalhar. Um laptop aberto sobre a mesa exibia uma tela cheia de números, gráficos, diagramas, e Deus sabe mais o quê.

Eu quase ri. Dificilmente tinha oportunidade de observar meu irmão em seu melhor estilo “magnata das indústrias hoteleiras”.

Ele estava discutindo o projeto de um resort de última geração que a empresa da nossa família estava construindo no Taiti. Ou talvez nas ilhas Fiji. Era difícil ter certeza. Se eu não não estava enganado parte da conversa estava rolando em alemão.

Como ele conseguia dar conta de tudo aquilo e ainda manter as coisas funcionando daquele jeito? Realmente, se o meu pai estava achando que eu seria capaz de uma coisa dessa algum dia, ele tinha mais problemas do que eu suspeitava. Eu mal conseguia dar conta de mim mesmo.

A discussão entrou pelos detalhes e fundamentos técnicos da execução dos prospectos, e eu me desliguei da conversa.

De alguma forma, meu pensamento voou para o livro que estava lendo. Kitchen, da Mahoko Yoshimoto. Minha autora japonesa preferida. Ele contava duas histórias, ambas falando de amor e frustração, mágoa e superação. Mas pinceladas com simplicidade e romance. Não consegui deixar de pensar na minha vida.

Yoshimoto refletia sobre os processos de cura. Seus personagens também eram sofredores, mas de algum jeito eles conseguiam lidar com a dor, aprendendo a amar de verdade. Os persongens sofriam no começo e no meio, mas no fim havia uma solução positiva.

Eu suspirei.

Sinceramente, se existia algum tipo de Deus regendo a bagunça que se tornara minha vida, eu queria poder enviar uma cópia dessas histórias pra ele. Com os finais felizes grifados.

Meu irmão tossiu chamando minha atenção. A conversa no telefone aparentemente tinha acabado.

— Então… — Ele cruzou os braços sobre o peito. — Que tal me dizer qual é o problema agora? Porque eu não acredito nem por um minuto que isso tudo é só porque a mamãe te deixou de castigo.

É claro que ele não acreditava.

Eu franzi a testa.

— Você fala isso porque não foi você que teve que ouvir os dramas dela. — Eu desconversei.

Ele levantou uma sobrancelha como se não estivesse nem um pouco convencido com aquele argumento e eu cedi frustrado. Não conseguia mentir para o meu irmão.

— Tudo bem. Não é. Mas eu não quero falar sobre isso, está bem? — Eu disse, embora soubesse que acabaria falando. Era o Ikki, afinal.

Mas ao invés de tentar arrancar a história de mim de qualquer forma como eu esperava, ele apenas me olhou por um tempo de forma avaliativa, então assentiu.

— Certo.

— Certo? — Eu ecoei incrédulo — Tem certeza?

Porque aquilo simplesmente não era típico do meu irmão. Sério. Quer dizer, quando que o Ikki me dera o benefício de guardar segredos na vida?

Ele suspirou resignado.

— Mamãe me fez prometer que te deixaria crescer, lembra? O que aparentemente implica em te dar espaço pra resolver os próprios problemas. — Ele explicou. E então acrescentou enfático — É claro que se eu soubesse que isso significava ficar vendo você choramingar pelos cantos sem fazer nada eu nunca teria prometido.

— Eu não estou choramingando pelos cantos! — Eu repliquei com indignação. Aquilo fazia com que eu me sentisse ainda mais patético.

Meu irmão apenas sorriu de lado e eu fui poupado do seu comentário sarcástico pelo barulho do interfone.

— Sim. Eu já estou descendo. — Ele falou no aparelho, então voltou-se pra mim outra vez. — Você vai ficar bem?

Eu dei de ombros, ainda emburrado, e ele riu. Depois terminou de arrumar sua pasta, bagunçou meu cabelo, e saiu.

Eu larguei o prato na pia e me joguei no sofá da sala.

Não tinha vontade de fazer mais nada.

Na verdade a única coisa que sentira vontade de fazer nesses últimos dias fora organizar meu guarda roupa. Já havia feito isso quatro vezes.

Por dentro, no entanto, eu continuava uma bagunça.

Tentei folhear um mangá, mas não conseguia me concentrar em nada. Pensamentos sombrios e amargos me consumiam. Tomado de sentimentos ruins. Sem ar. De repente, joguei o mangá no chão.

Quer saber? Merecia respostas.

Empunhei meu telefone, determinado. Mas minha mão tremeu enquanto o levava até o ouvido.

Eu respirei fundo.

Tinha que saber. Tinha que saber por que ele fora embora. Tinha que saber o que pensava de mim.

O telefone chamou uma vez. E mais uma. Então outra. E de novo…

…Direto para a caixa de mensagens.

***

O resto da semana, eu oscilei entre o desespero total e a fúria ao fogo lento.

Eu não conseguia mais parar de ligar para o Hyoga. Era uma espécie de obsessão.

Perdi a conta de quantas ligações foram, mas foram muitas. Muitas mesmo. Tipo, número de dois a três dígitos.

Ele nunca atendia, e não ligava de volta. Estava claramente me ignorando. Eu sabia que estava me rebaixando, mas não conseguia evitar. Tinha que falar com ele. Se pudesse falar com ele… Mesmo que não fosse ajeitar as coisas entre a gente, podia ao menos ter respostas pra algumas perguntas. Por exemplo, por que ele fizera com que eu me sentisse tão especial? Por que havia agido como se me achasse atraente? Por que havia me beijado daquela forma? Por que terminara com a namorada se pretendia desaparecer no dia seguinte?

O pior era que eu tinha uma sensação terrível de que a culpa devia ser minha, embora não soubesse o que havia feito pra afastá-lo assim.

Hyoga estava sumido há seis dias, e eu já não sabia mais se ele realmente gostara de mim um dia como eu achara, ou se acabara se arrependendo de tudo e me odiava agora por achar que eu o levara a cometer um erro.

Me sentia tão idiota.

E eu não era idiota.

Bobo talvez, mas não idiota. Fazia uma grande diferença. Só porque gostava mangás e quadrinhos, não significava que eu era estúpido. Podia não saber qual era a capital do Chipre, ou quem era o presidente da Bolívia, mas tinha inteligência emocional. Pelo menos pensei que tivesse. Sempre dera ótimos conselhos sobre a vida das outras pessoas.

A realidade, no entanto, me mostrava que eu era aparentemente incapaz de me aconselhar sobre a minha própria.

Eu remexi minha Coca sem gás curativa com um suspiro cansado.

Coca-Cola sem gás me fazia sentir confortado. Minha mãe costumava me dar aquilo quando eu ficava doente. Tirava o gás pra não irritar minha garganta inflamada. Coca sem gás fazia com que eu me sentisse amado.

Como não tinha ninguém pra fazer isso pra mim agora, fazia eu mesmo.

Estava jogado no sofá empenhado em remexer meu copo pra tirar o gás, depois de ter organizado pela sétima vez meu armário, quando meu celular tocou.

Eu prendi a respiração e saltei pra atender. Mas era apenas a Shunrei.

Depois de um interrogatório sobre o meu bem estar, ela perguntou se eu não queria sair um pouco. Ela já tinha tinha me feito a mesma proposta em outras duas ocasiões mas eu recusara ambas.

Recusei outra vez.

Ainda não me sentira pronto pra uma conversa social. Pelo menos pra nenhuma que não envolvesse um aparelho telefônico ou uma tela de computador entre nós.

Na verdade, estava com vergonha de encarar meus amigos depois do que tinha acontecido na boate. E pior ainda, depois de ter sido desprezado pelo Hyoga nos dias seguintes.

Aquilo não era apenas dolorido, era humilhante também.

Desliguei o telefone sentindo aquele nó esquisito por dento outra vez.

Hyoga havia me abandonado.

O mais irônico era que durante minha vida toda meu maior medo sempre fora ser abandonado. E isso continuava acontecendo.

Quando era criança, costumava dizer pra minha mãe e pro meu irmão: “Será que a gente pode morrer ao mesmo tempo?” Minha mãe prometera que sim. E toda vez que ela ia parar no hospital com uma crise de glicemia, por causa da Diabete, eu tinha medo de descobrir que ela fosse uma mentirosa.

Meu estômago deu outra reviravolta, e eu corri para o banheiro e levantei a tampa da privada pra vomitar mais uma vez.

Sabia que não devia me sentir daquele jeito. Quer dizer, não era grande coisa. Relacionamentos mudavam o tempo todo. Não era como se alguém tivesse morrido ou algo assim.

Eu não ia enlouquecer, ou entrar pra igreja, nem ia cortar meus pulsos com uma faca de legumes por causa disso.

Então porquê tinha que doer tanto?

Notas finais
Oi de novo, Como prometido, eis aqui mais um ch pra vcs. Espero que gostem apesar da angústia. Tadinho do Shuny, totalmente no escuro, abandonado, e justo quando ele achou que as coisas iam se ajeitar. É mais um casal que Pandora atropelou com seus planos u.u E estamos entrando em uma nova fase da fic a partir de agora, com o mais participação do Oga, do Shiryu e de outros personagens. Com mais ação, e com a chegada definitiva de Pandora a trama o/. Espero que curtam ;) Enfim, capítulo mais curtinho dessa vez, mas espero que dê pra se divertir ˆˆ. E calma que logo, logo tem mais ;). Bjos