O Garoto Do Andar de Cima
24 Extra: Hyoga III
Notas iniciais
Hyoga POV
— Quando eu vou poder voltar pra casa? – Eu perguntei outra vez. Aquela era provavelmente a décima segunda vez que eu fazia essa pergunta apenas naquele dia. Eu ainda estava falando um pouco alto. Minha audição não voltara completamente, embora o médico que me atendera tivesse me garantido que com o tempo ela voltaria ao normal.
Um dos detetives que eu acreditava ser o Saga — era difícil ter certeza – simplesmente suspirou cansado, levantando-se da cadeira em que estivera sentado, em frente a uma escrivaninha, e caminhando até a cozinha do moderno apartamento na 259 East Street com a Sétima avenida, onde eu permanecia gentilmente confinado.
Então era isso que chamavam 'programa de proteção a testemunhas'? Eu pensei. Meu celular havia sido confiscado, meu acesso a internet monitorado, eu havia decorado a programação da televisão, e achava que poderia enlouquecer se olhasse mais uma vez pra aquelas mesmas malditas paredes.
Eu mal podia acreditar no que a minha vida havia se transformado nesses cinco dias. Eu tivera que mentir para minha família, dizendo que passaria as festas no campo com alguns amigos. Tivera que mentir para os meus amigos, dizendo que o Camus me fizera cuidar de uma papelada na nossa matriz em Paris. E, pior, tivera que mentir para o Shun também. Eram tantas mentiras que eu estava começando a achar difícil rastreá-las.
Quando voltou à sala, o detetive trazia chá e alguns sanduíches que colocou sobre mesa de almoço, me convidando pra sentar.
Apesar de tudo, eu até gostava do Saga. Ele era agradável, inteligente, e às vezes parecia meu irmão falando. Nós costumávamos ter boas conversas. O tal Kanon, também era divertido. Ele sempre trazia jogos de video game ou filmes pra assistirmos. Certa vez comentou que o Milo Scorpion, vocês sabem, o ator, era irmão deles. Deve ser legal ter um irmão famoso. Mas, sei lá, se fosse o Johnny Depp seria mais legal, eu acho. Eu prefiro os filmes dele, sabe. Já o outro, que eu descobri chamar Shion, esse nunca aparecia.
Eu me sentei à mesa em frente aos lanches e observei enquanto o Saga acomodava-se ao meu lado, servindo-nos com um pouco do chá gelado antes de se pronunciar.
— O sujeito que você afirmou estar na companhia de Radamanthys na boate na noite do seu atentado em Boston, o homem conhecido como Zelos, foi detido na noite passada. – Ele disse.
Eu fiquei de queixo caído ante esse fragmento de informação.
— Infelizmente — continuou -, o outro rapaz que estava com ele conseguiu escapar. Mas acreditamos que com o interrogatório certo Zelos terá boas informações a nos acrescentar. De qualquer forma, você não precisa se preocupar, garoto, não vai ser chamado pra testemunhar contra ele. Só os crimes que ele cometeu aqui em New York, no passado, provavelmente serão suficientes para mantê-lo atrás das grades por alguns anos.
— Não sabia – eu falei, tomando um gole do chá. – Não há nada sobre sua prisão nos jornais.
— Não, não há. — ele concordou — Nós preferimos abafar o caso pra que a organização acredite que ele ainda está em liberdade. Não queremos que eles saibam que estamos na cola deles. Isso poderia prejudicar o plano, e oferecer riscos desnecessários. Assim, você vai ter que ficar mais algum tempo por aqui. Sua vida ainda pode estar correndo perigo... Pelo menos enquanto eles continuarem pensando que você é a única testemunha que os liga a esse caso.
Eu fiz um muxoxo, enquanto colocava um sanduíche no meu prato.
— E sem mensagens para casa também. – ele advertiu — Sinto muito, mas de acordo com o nosso contato o... indivíduo que atirou em você se mostrou absolutamente intratável e não quis seguir nossas instruções
— Está falando do Seiya, não está? – eu perguntei. – Não, não balance a cabeça. Eu sei que foi ele. Soube no momento em que a arma detonou perto do meu ouvido. Ele tentou me matar – Por incrível que pudesse parecer, minha voz não tremeu nem um pouco dessa vez ao dizer isso. Talvez eu já estivesse me acostumando.
Ele balançou os ombros de leve como resposta.
— Não. – eu falei – Não precisa me tratar como criança. Fui um idiota. Vejo isso agora. Ele se sentiu mal na primeira vez, quando Radamanthys atirou em mim em Harvard. Porque de certa forma foi culpa dele, por ter me levado àquele lugar. Ele sabia o que eles estavam planejando. Sabia muito bem. E então se culpava.
— Acho que sim – foi tudo o que ele disse, e de modo suave.
Eu o ignorei.
— Mas então ficou claro que pra eles eu significava um risco, não é? Por causa do que eu sabia. Eu fui estúpido de ter comentado com o Seiya no jantar de Ação de Graças que estava consciente naquela hora. Que reconhecera Radamanthys. Eles perceberam que eu poderia falar. Não apenas sobre o envolvimento do Seiya, mas sobre como Radamanthys tentara me matar. Então, resolveram se livrar de mim.
— Se isso lhe servir de conforto – Saga falou, dando uma mordida no sanduíche em seu prato antes de beber um gole do chá -, não tenho a impressão de que seu amigo tenha gostado da incumbência. Quero dizer, matar você. Acredito que ele estava fazendo aquilo porque os próprios interesses, quem sabe a própria vida, estava em risco.
— Mesmo assim – eu retorqui indignado -, ele não tinha que ter levado aquilo adiante. Poderia ter fugido.
— Ah, sim – ele falou com um leve sorriso. – Mas então a irmã dele talvez não tivesse o privilégio de se casar com o seu irmão.
Eu fechei a cara.
— Ah, como se eu fosse permitir isso agora. Quero dizer, casar com a irmã daquele salafrário. Ela obviamente também está envolvida nisso tudo. Foi uma armação! Quando eu não sabia, tudo bem, mas agora...
— Não se preocupe – ele exibia um sorriso enigmático –, eu duvido que o seu irmão ainda vá querer se casar com ela, de qualquer forma. Mas isso, é claro, é algo que você e ele terão que resolver depois.
— Vou contar a ele – eu falei, mais pra mim mesmo — Se pelo menos houvesse um jeito de deixar a coisa toda da bebida e da boate de fora...
— Você vai ter muito tempo pra pensar nisso – ele pôs o prato e a xícara vazios de lado – . De todo jeito você não vai falar com sua família até que saibamos que isso é seguro.
— Mas ele tem o direito de saber – eu insisti, mais alto dessa vez. – Ele tem o direito de saber com que tipo mulher está se casando. Não vê? Em primeiro lugar, a culpa é minha de ele ter se envolvido com ela. Ela e o irmão me fizeram de bobo, fizeram a nós todos de bobos. Com seu nome, suas ligações e seu charme. Achávamos que fossem respeitáveis.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Bem... o nome Kido é bem respeitado. Eles são uma das famílias mais antigas do Japão. O nome Kido remonta...
— Mas por trás de tudo isso – eu falei interrompendo-o –, eles não são nada melhores do que o Radamanthys e seus comparsas.
— Talvez seja assim – ele disse, sério. – Mas não quero que você deixe esse apartamento ou mande mensagens pro seu irmão, seu namorado, ou quem quer que seja. Mais tarde, se quiser...
E então parou de falar quando seu telefone começou a tocar.
— Oi, Kan. – eu o ouvi atender.
O que quer que o Kanon tivesse falado ele não pareceu gostar a considerar a súbita mudança de expressão em seu rosto.
— Certo... Eu entendi, Kan, você sabe o que fazer... — Ele relanceou rapidamente o olhar na minha direção, e o inglês imediatamente deu lugar ao grego em que eles sempre falavam quando não queriam que eu entendesse.
Meu cérebro só conseguiu distinguir as palavras 'Milo', e 'proteção', antes de se perder outra vez nos próprios dilemas.
Eu tinha que dar um jeito de sair dali, eu pensei. Eu precisava contar ao meu irmão sobre a Saori... Sobre tudo. Ele tinha o direito de saber.
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