O Garoto Do Andar de Cima
17 Capítulo 16 - As Time Goes By (Parte 2)
Shun POV
Nós subimos até a Broadway Square, dividindo um guarda-chuva pra nos proteger da neve, e levamos horas examinando cardápios antes de encontrarmos algo que achássemos adequado e que não tivesse uma fila de espera enorme na entrada.
A busca se transformou em um jogo, uma missão, algo em que nos perdemos. Nós queríamos esquecer o inconveniente na catedral. Eu queria esquecer o que sentia por ele.
Quando finalmente descobrimos um restaurante com uma mesa disponível na parte de dentro nós demos um grito de alegria, e eu executei uma dancinha da vitória. O maître pareceu alarmado com o nosso entusiasmo, mas nos acomodou mesmo assim.
O lugar era aconchegante, com temática de grandes obras do cinema clássico, e uma bela vista. Todo decorado com lustres de cristal antigo, as mesas em madeira circular eram cobertas por toalhas finas. Um homem de smoking tocava um piano de cauda no pequeno palco aos fundos, e rostos em preto e branco como de Greta Garbo, Ingrid Bergman, Humphrey Bogart e Clark Gable, enfeitavam as paredes em pôsteres de filmes antigos.
Nossa mesa ficava em um lugar próximo a janela, de onde se tinha uma bela vista da rua agitada e dos teatros iluminados lá fora.
– Um brinde — Hyoga levantou sua taça de água com gás e sorriu depois que o garçom serviu as bebidas. — Ao nosso sucesso em encontrar um local sem fila em Midtown à uma semana do Natal.
Eu sorri de volta, observando no pôster acima da cabeça dele a cena do famoso beijo de Déborah Kerr e Burt Lancaster, em A Um Passo Da Eternidade. A imagem me remetendo automaticamente àquela noite no cinema em Boston. A sensação da presença dele na sala mal iluminada, sua perna encostando na minha, meu coração disparado. Meu Deus, como eu pude ter sido tão cego por tanto tempo?
– À sua recuperação, — Eu falei finalmente, erguendo minha taça — e ao nosso reencontro.
Seu sorriso hesitou por um momento, e então foi substituído por um mais suave.
Ao fundo o pianista dedilhava os primeiros acordes de As Time Goes By.
– Ao nosso reencontro. — Ele concordou. — E às coisas essenciais que permanecem conforme o tempo passa.
– Não importa o que futuro traga. (1) — Eu completei, e nós brindamos.
Pela janela eu pude notar que a neve aumentara do lado de fora, mas nosso restaurante era agradavelmente aquecido por grandes lareiras com madeiras queimando.
O garçom apareceu com nossos pratos. Filé com fritas para agradar meu paladar super sofisticado — sendo irônico -, e Parppadelle tartufado pra ele.
– Então, hum… — Eu comecei — Você não tem que falar sobre isso se não quiser, mas… como você está? Digo, não só em relação a sua saúde. Mas no geral. Sobre tudo que aconteceu, o depoimento e tudo o mais. Você chegou a comentar alguma coisa com o Seiya?
Ele hesitou por um momento. Provavelmente ponderando se deveria ou não entrar naquele assunto. Então deu um suspiro e respondeu:
– Nós conversamos no jantar de Ação de Graças. Eu falei que tinha reconhecido o Radamanthys, mas não mencionei o depoimento.
– E ele? — Eu quis saber.
– Ficou surpreso, claro.
– Hum… — Eu murmurei pensativo — É estranho… Você disse que o cara, o tal Radamanthys examinou você. Tipo, como se estivesse checando seus sinais vitais?
Ele assentiu.
– Ele poderia ter acabado comigo naquela hora se quisesse, mas simplesmente foi embora. Acho que pensou que eu morreria ali.
– Não sei… — Eu balancei a cabeça — pelo que você falou, ele parecia saber exatamente o que estava fazendo. Não iria cometer um erro bobo desse. E o seu ferimento não infeccionou. Sinal de que não havia ferrugem na arma. O que significa que ele mantinha a arma limpa e em bom estado. Eu li que a maioria das pessoas que usam uma arma não se preocupam em desmontá-la pra limpar o interior do cano, e a ferrugem acaba se acumulando ali, o que pode vir a ser tão fatal quanto o próprio tiro. O fato dele se preocupar com isso demonstra não só que ele sabia o que estava fazendo, como que não era um bandido qualquer. E ele também estava usando um silenciador, ou o vigia teria escutado o disparo. — Eu acrescentei. — Eu só estava me perguntando se… — Eu parei de falar quando vi a expressão dele. Era como se presas estivessem nascendo na minha boca. — Desculpe. Eu estou sendo intrometido, vou ficar quieto…
– Não — ele interrompeu. — Não é isso. É só que… Você é a primeira pessoa que sabe algo assim. Como... como...?
Eu encolhi os ombros.
– Ah. Hum. Eu só estava preocupado, então eu fiz umas pesquisas. Você sabe, então eu…bem... sei. — Eu terminei sem jeito.
Ele ficou em silêncio por um momento, então falou.
– Obrigado.
Eu desviei os olhos para o guardanapo no meu colo.
– Não é nada...
– Não, isso é alguma coisa sim. — Ele retrucou — Uma grande coisa. Quando eu tento falar sobre isso com outras pessoas, todos eles simplesmente desconversam e dizem que é pra eu deixar esses assuntos com a polícia. Eu sei que o meu pai, meu irmão e o Dite têm medo de que eu possa querer fazer alguma coisa que me coloque em risco outra vez. E a Freya simplesmente não se interessa pelo assunto…- Ele se interrompeu de novo, como se tivesse falado demais outra vez — De qualquer maneira, obrigado. — Ele segurou minha mão sobre a mesa.
Eu levantei o olhar pra ele outra vez, e ele me olhou de volta maravilhado.
– D-de nada — eu gaguejei, puxando minha mão pra longe do seu toque com a desculpa de cortar a carne no meu prato.
Ele suspirou, mordendo a unha do dedão. Então voltou a falar sobre seu acidente outra vez.
Passamos o resto do jantar conversando sobre isso. Construindo teorias e falando sobre nossas suspeitas. A preocupação gradualmente foi embora conforme a comida ia sendo devorada. Depois, mergulhamos em um confortável transe com a barriga cheia de mousse de chocolate e, quando saímos do restaurante, havia parado de nevar.
A lua estava cheia, e uma grossa camada branca e fofa recobria os telhados dos prédios, pesava nas folhas das árvores e se acumulava nos cantos das ruas e nas calçadas. As luzes coloridas refletiam-se em todo aquele branco, emprestando um ar mágico a cidade. Era como se o Natal de fato já tivesse chegado.
Caminhamos ao longo da Sétima Avenida, em um silêncio confortável,
– Desculpe. — Hyoga falou de repente. — Eu não queria ficar te enchendo com as minhas maluquices.
Ele estava se referindo a nossa conversa sobre seu acidente durante o jantar obviamente.
Eu inspirei profundamente, sentindo o ar gélido que envolvia meu rosto, enquanto nos aproximávamos do Rockffeler Center outra vez..
– Eu adoro as suas maluquices. — Eu sorri.
Ele sorriu também.
Nós cortamos caminho por uma travessa de acesso proibido entre dois prédios, e eu aproveitei a breve tranquilidade pra atingi-lo com uma pequena bolota de neve.
– Ei! — Ele fez, antes de revidar com uma risada e outra bolota lançada na minha direção.
E então estávamos os dois correndo pela viela deserta.
Eu consegui desviar da bola dele, e o acertei outra vez.
Ele estreitou os olhos e me alcançou, segurando meu braço e conseguindo enfiar um punhado de neve pela gola do meu casaco.
– Uhh!! — Eu estremeci. — Isso não vale!
Então eu o imobilizei com meu ombro contra seu peito, como o Ikki havia me ensinado, até que ele caiu no chão, sobre um grande monte de neve. Eu passei uma perna por cima do tronco dele e me sentei ali, prendendo os ombros dele com ambas as mãos, como Ikki me explicara. Ele sempre achara que ensinar técnicas de ataque ao irmão caçula era importante.
Eu soltei uma mão do seu ombro e tentei me esticar um pouco pra jogar um punhado de neve pra dentro do casaco dele também. Mas era meio difícil atacar alguém que estava rindo tanto quanto o Hyoga estava. Até porque, eu estava rindo muito também. Para piorar, assim que minhas mãos chegaram perto da gola do casaco dele, ele segurou meus pulsos e me fez cair de costas na neve ao seu lado.
E, quando eu menos esperava, lá estava ele, em cima de mim, exatamente como eu havia estado alguns segundos antes. Só que, em vez me segurar pelos ombros, ele segurou meus pulsos, pra que eu não jogasse nada nas costas ele.
A posição não era muito confortável, tinha neve entrando pela gola do meu casaco, embaixo do suéter, pelo pescoço, mesmo assim eu não lembrava a última vez que rira tanto, e Hyoga, sobre mim, ria ainda mais.
Eu tentei me soltar mas foi em vão. O calor do corpo dele estava fazendo com que eu me sentisse um pouco mais aquecido pela primeira vez desde que saíra do restaurante. Era uma sensação boa… Boa demais… Mais do que podia ser.
Eu tentei sair debaixo dele mais uma vez.
– Tudo bem, eu me rendo. — Eu falei percebendo que seus olhos muito azuis, eram rodeados por um círculo tão escuro que era quase cinza. — Você já pode me soltar agora.
Um casal apareceu na travessa e olhou pra nós como se fôssemos malucos, mas nós nem ligamos.
– Não sei… — Ele falou — Você pareceu muito determinado há alguns segundos. Ainda não estou convencido de que, quando eu virar as costas, você não vai me enfiar um punhado de gelo na coluna.
Ele mordeu os lábios pensativo, o que infelizmente acabou atraindo meu olhar pra sua boca. Ela estava tão… tão… próxima.
Eu estava começando a me sentir um pouco sem ar, e não era porque o peso do corpo dele estivesse dificultando a minha respiração, considerando que ele estava sentado em cima dos meus quadris.
– Tem neve derretendo nas minhas costas, ok? — Eu disse um pouco desesperado pra sair daquela posição — Me deixe levantar.
Mas tudo o que ele fez foi aproximar o rosto um pouco mais do meu. Os olhos fixos nos meus, sua respiração fazendo cócegas na minha boca.
– Hyoga… — Eu implorei, sem fôlego, sentindo meu rosto ficar vermelho. De repente, a neve ao redor do meu pescoço já não parecia mais estar tão gelada. Na verdade, estava até refrescante.
Ele balançou a cabeça, como se saísse de um transe, então saltou pra longe de mim como se eu o tivesse chutado.
– Desculpe. — Ele disse estendendo a mão pra me ajudar a levantar também.
E eu fiquei em pé ali parado, sacudindo a neve dos cabelos, e tentando entender o que havia acontecido.
Hyoga me ajudou na tarefa de espanar a neve das costas do meu casaco, e, quando eu olhei pra ele de novo, ele era o Hyoga de sempre outra vez. Sorrindo e me arrastando pela mão, conforme saíamos da travessa calma pra mergulhar novamente na massa de turistas próximo a Avenida das Américas.
– Vamos. Eu quero te levar em um lugar. — Ele disse — Você já esteve no Top The Rock?
– Top The Rock? — Eu falei ainda meio confuso com tudo aquilo. — Não. — Então verifiquei as horas no meu relógio de pulso e acrescentei. — Mas já deve estar fechado a essa hora.
– Você está na cidade que nunca dorme, Shu-Shu. — Ele piscou.
E ele estava certo, claro. Porque embora já passasse das dez horas o Rockffeler Plaza ainda estava lotado, e havia uma fila de turistas em frente ao GE Building, o Top de Rock, quando chegamos lá. Mas como Hyoga conhecia um dos rapazes que trabalhavam ali, nós conseguimos passar na frente.
Ele pegou a carteira e pagou ao rapaz pela nossa entrada entrada. Eu tentei pagar minha parte, mas ele insistiu.
– Feliz dia de Nossa Senhora de Guadalupe atrasado. — Ele disse, entregando meu ingresso.
Eu bufei, reclamando que aquilo nem existia, e ele riu.
– Aquele era o Isaak. — Ele explicou sobre o garoto que nos ajudara a furar a fila, conforme subíamos o elevador panorâmico que nos levaria ao mirante no septuagésimo andar. — Ele estagia com o Camus na empresa, e faz uns bicos aqui também, pra ajudar a pagar a faculdade.
– Hum…. — Eu fiz. Mas não estava prestando atenção de verdade. Estava mais entretido no teto de vidro do elevador que fazia com a gente meio que se sentisse dentro de um vídeo game gigante.
Hyoga percebeu isso e riu da minha distração.
Nós descemos no primeiro observatório no 67º andar e Hyoga me arrastou escada acima até o 70º.
Apesar da fila do lado de fora, o mirante não estava lotado. Eu corri até o parapeito de vidro. A vista ali de cima era impressionante. Uma vista 360º espetacular de toda a cidade. Dali dava pra ver o Empire State Building, o Chrysler Building, a Times Square, Hudson River, East River, a ponte do Brooklyn e a Estátua da Liberdade iluminadas… um oceano de luzes na escuridão.
Eu me debrucei no parapeito e soltei um grito sentindo o vento gelado bater contra o meu rosto. Minha voz ecoou noite adentro e Hyoga riu. Então ele se debruçou também, ao meu lado, e, juntos, gritamos de novo. O mais alto que conseguimos. As pessoas em volta lançavam olhares de censura na nossa direção, mas nós nem ligávamos. Era tão entusiasmante.
Então um segurança apareceu na porta e nós ficamos quietos. Hyoga ainda sorria. O vento estava forte e lançava nossos cabelos por todo lado. Meu nariz parecia uma pedra de gelo.
– Bem vindo a New York, Shun. — Ele disse, como na Prudential Tower, em Boston.
– Obrigado. — Eu respondi. E dessa vez fui eu quem disse: — Eu estou feliz em ter vindo.
Ele sorriu. Nossos olhares se cruzaram de novo, e, por um momento, meu rosto enrubesceu outra vez com a sensação esmagadora de que ele sabia exatamente o que eu estava sentindo.
Ele deu um passo a frente e eu prendi o fôlego com a nítida percepção de que ele ia dizer alguma coisa, mas ele apenas desviou o olhar outra vez para o horizonte.
Eu esperei por um momento agonizante, e então, quando eu já tinha desistido de que ele fosse falar algo, ele lançou:
– Shun… Você já teve oportunidade de olhar aquele livro de poesia que eu te dei?
Eu pisquei atordoado. “Como?”
De todas as coisas que eu poderia pensar que ele fosse dizer, aquela certamente não era uma delas.
– Ah… Uh… Ainda não. — Respondi hesitante, e virei a cabeça na direção dele de novo, tentando ler em seus olhos o que aquilo significava, mas ele desviou o rosto outra vez.
– Ah, certo… tudo bem então. — Ele encolheu os ombros. Depois se calou desanimado.
E eu só consegui ficar ali, olhando pra ele, como se estivesse vivendo algum tipo de Deja Vous esquisito. Com aquela já conhecida sensação de estar perdendo alguma alguma coisa.
Ainda estava tentando imaginar o que seria quando descíamos o elevador de volta à rua. E mais tarde, enquanto caminhávamos pela 49 St., na direção do metrô, conversando amenidades.
E provavelmente teria continuado pensando sobre isso se um homem vestindo uma camiseta com os dizeres ‘Stop Aids’ sob o casaco, não tivesse pulado na nossa frente com uma mão cheia de alguma coisa que ele entregou para o Hyoga antes de sair pra abordar um casal mais adiante. Eu olhei para os pequenos quadradinhos prateados nas mãos do Hyoga e senti meu rosto arder.
Camisinhas. Ah, meu Deus! Que humilhação!
Hyoga também estava com o rosto completamente vermelho enquanto guardava de qualquer jeito os pacotinhos dentro do bolso do casaco. Nós não falamos, nem mesmo olhamos um para o outro, enquanto virávamos a 49 St. com a Quinta Avenida até a minha entrada de metrô.
Um homem de bochechas vermelhas estava parado lá, vendendo cestos repletos de ostras no gelo. Suas mãos deviam estar congelando, mas eu trocaria de lugar com ele numa boa naquele momento.
– Bem… — Hyoga disse quando chegamos. — Acho que é isso.
Eu olhei para ele.
– É… Bem, então… boa noite.
– Vejo você amanhã? — Ele perguntou — Podíamos almoçar no The Mercer (2).
– Seria ótimo. — Eu falei desanimado. Apesar do incidente com as camisinhas não queria que aquela noite terminasse ainda.
– A menos que... — Ele se interrompeu.
‘A menos que o quê?’ De repente, eu estava ansioso.
Ele parecia hesitante, mudando de ideia.
Eu esperei.
O momento passou. Lancei um olhar interrogativo pra ele, mas ele apenas desviou os olhos.
– Certo…. — Era difícil não demonstrar o desapontamento na minha voz, embora nem eu mesmo soubesse pelo que estava esperando. — Vejo você amanhã, então.
Eu fui descendo as escadas e olhando para trás. Ele ainda estava olhando para mim. Levantei minha mão acenando. Ele estava estranhamente parado. Desci mais alguns degraus, balançando a cabeça. Não entendia como as coisas podiam mudar de perfeitas a estranhas entre nós. Era como se fossemos incapazes de estabelecer uma interação humana normal.
Não, esquece isso, Shun.
Eu entrei no túnel subterrâneo, e então senti uma mão se fechar sobre o meu braço.
Meu coração parou.
Eu me virei pra encontrar Hyoga diante de mim outra vez.
– Espere! — Ele falou ofegante, depois de ter provavelmente descido correndo a escadaria — Eu só… eu só queria… — Ele parecia nevoso — Obrigado por hoje. Foi um dos poucos dias bons que eu tive em muito tempo. Não, — ele se corrigiu — esse foi um do muitos dias bons que eu tive desde que você chegou. Eu só… não quero que isso acabe. Não quero ficar sozinho agora.
– Uh. — Eu não conseguia respirar.
Ele estava parado diante de mim, examinando o meu rosto.
– Eu queria ficar com você mais um pouco. Nós podíamos… não sei… ir pra minha casa, escolher um filme pra assistir. Eu não queria que terminasse agora.
Eu continuei em silêncio. Simplesmente não conseguia obrigar minha voz a responder.
Ele mordeu o lábio.
– Tudo bem se você não quiser… Digo... Não quero que você se sinta desconfortável...
– Não! — Eu falei finalmente — Quero dizer... — Minha cabeça estava girando. Eu mal podia pensar em linha reta. — Sim. Sim, claro, tudo bem.
Ele ficou parado por um momento… E então assentiu.
Nos voltamos à rua em silêncio e caminhamos por duas quadras até o estacionamento onde ele havia parado o carro. Um esportivo preto antigo restaurado. Porque, claro, como a maioria dos jovens americanos Hyoga dirigia desde os 16 anos.
Ele riu quando eu me queixei dessa injustiça que me deixava em mais uma óbvia desvantagem em relação a ele — como se já não houvesse tantas -, e cerca de meia hora depois descíamos na impressionante mansão estilo neoclássico que ele dividia com os irmãos.
Eu já havia estado lá com Hyoga antes ao longo daquelas três semanas, mas por alguma razão, naquela noite, me sentia inquieto.
A casa estava escura e vazia quando entramos, e eu não conseguia decidir se isso me deixava mais tenso ou aliviado.
Nós subimos até o quarto dele e escolhemos uma nova versão de Slacker, uma comédia americana preguiçosa, pra assistir.
Ele sorriu e apagou a luz. Nós nos ajeitamos na cama pra assistir, e foi absolutamente, positivamente, completamente, desajeitado.
Ambos estávamos deitados rígidos e retos, temendo tocar o outro. Era como naquela noite, em Boston, outra vez. Nós dois no quarto dele… o cheiro dele na roupa de cama, o calor do seu corpo, o barulho da sua respiração no escuro, o suave ondular no colchão a cada inspirar e expirar. Eu mal ousava respirar. Ao meu lado Hyoga suspirou, trocou de posição e voltou a suspirar.
O quarto estava em silêncio, exceto pelos barulhos dos personagens na tela. Alguma coisa acontecia no filme, mas eu não conseguia prestar atenção. Eu, vagarosamente, movi minha perna até que meu pé descalço tocou no seu tornozelo. Sua inspiração foi nítida.
E então ele se aproximou. Só um pouquinho. Olhei pra baixo e vi que sua camiseta levantara na parte de trás, mostrando uma pequena parte das suas costas. Sua pele era macia e clara.
Era a coisa mais sexy que eu já vira.
Ele se mexeu de novo e eu me mexi também. E então estávamos com os braços encostados um no outro, as pernas encostadas uma na outra.
Eu podia ouví-lo respirar profundamente agora. Sentia o perfume do shampoo que ele usava. O aroma de amaciante da sua camiseta. O perfume cítrico. Um leve traço de pós-barba. E algo mais. Algo típico dele, que fazia com que todos os meus sentidos se tornassem hipersensíveis à sua presença.
Ele havia dito que gostava de mim, eu pensei. Ele realmente dissera. E, mesmo que estivesse dopado, não teria dito isso se não houvesse pelo menos alguma verdade nisso. Certo?
Sua mão apertou a minha, no escuro. Eu olhei pra ele e ele me olhou de volta no mesmo instante. Seus olhos azuis mergulhados nos meus.
Ele era tão bonito, tão perfeito. Eu estava tonto. Meu coração saltou, meu pulso disparou.
Eu devia ser masoquista para continuar a me meter naquelas situações. Eu precisava de ajuda. Sério. Eu precisava consultar um psiquiatra, ou ser trancado em uma cela acolchoada, ou uma camisa de força, ou algo assim.
Minha cabeça oscilou pra frente na direção dele, e ele fez o mesmo.
– O que estamos fazendo? — Sua voz estava rouca, forçada.
Mas eu não tinha resposta pra aquilo. Apenas fechei os olhos, e senti quando nossos lábios se encostaram levemente.
Um breve toque, nada mais, e bastou para que eu sentisse minha pele repuxar como se pedisse que ele chegasse mais perto, os lábios formigando, implorando…
Será que ele percebia meu coração batendo descompassado? O jeito como minha pele estava arrepiada? Teria ele sentido como eu ficara quente, e depois frio?
– Shun… — Ele murmurou. Estava tão perto que eu podia sentir sua respiração na minha boca
Sabia que não era certo. Sabia que devia me afastar, mas não conseguia. Não queria.
Eu precisava sentir aquele toque de novo. Precisava sentir seus lábios nos meus mais uma vez. E eu sabia que ele sentia a mesma coisa. Não tinha que perguntar a ele. Eu simplesmente sabia, assim como conhecia meu próprio reflexo.
Sua respiração ficou mais próxima. Os dedos dele resvalaram pela parte de dentro do meu pulso e eu arrebentei em chamas.
– Me beije, Hyoga — Eu pedi.
E então, ele me beijou.
Nota:
1- Aqui Hyoga e Shun brincam com parte da letra de As Time Goes By :
“The fundamental things apply
As time goes by
And when two lovers woo
They still say, I love you
On that you can rely
No matter what the future brings”
2 — Famoso restaurante de comida típica americana.
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