O Garoto Do Andar de Cima
12 Capítulo 11: O Diabo Veste Prada... E O Afrodite Também
Shun POV
A confeitaria sofisticada na Newbury Street tinha um grosso assoalho de carvalho e um lustre coberto de pequeninos cristais. Eles brilhavam como gotas de orvalho à luz do sol que atravessava o as vitrines envidraçadas. A mulher do outro lado do balcão colocava os bolos extravagantes em caixas de papelão decoradas e fechava cada pacote com uma fita vermelha. Havia uma fila enorme de pessoas, entre residentes e turistas, naquela tarde de Sábado.
Shunrei e eu esperávamos atrás dela, entre pilhas de cookies, bolachinhas recheadas, marshmallows coloridos, e bolinhos confeitados de fondant.
Aquela era a confeitaria preferida do Hyoga, Shunrei dissera. Por isso combinamos de passar por ali e escolher alguns doces antes de irmos visitá-lo. Shunrei e eu havíamos nos encontrado no alojamento na quarta-feira, depois que voltei do hospital. Ela também voltara pra Boston depois que soubera do que aconteceu com o Hyoga. Porque nós agora éramos como uma família, ela dissera. O que pra minha vergonha me fizera chorar mais um pouco.
Nosso assunto girava em torno de Hyoga no momento, e a coisa toda do acidente. Andávamos conversando bastante sobre isso.
– ...E o Seiya precisou voltar a pra casa do avô por causa de uns problemas com a corporação, e não deu mais notícia. — Shunrei estava contando. — Mas a irmã dele ficou por aqui cuidando do Oga.
– Isso é outra coisa. — Eu disse, na ponta dos pés. Estava tentando ver dentro do balcão na frente da fila, mas um homem com uma camiseta colorida da Nike estava bloqueando minha visão. — Você não acha estranho que tenha sido a Saori a cuidar dele nesse tempo? Quero dizer, ela é irmã do Seiya, tudo bem, mas ela e o Hyoga mal se falavam direito.
Shunrei inclinou a cabeça para o lado e sua longa trança negra balançou com o movimento.
– Bem a família dele estava em Paris, Seiya teve que voltar para o Japão, e a maioria de nós também já estávamos em casa, então... — Ela deu de ombros — Além disso, foi ela quem o encontrou naquela noite. Talvez tenha se sentido responsável, não sei.
– Mas e a Freya? — Eu perguntei.
– Ela estava viajando a trabalho. Eu tentei ligar pra ela pra avisar sobre o Hyoga, mas ela não atendeu o celular. Deixei recado pra ela me retornar, mas ela não deu sinal de vida até quarta. Acho que deve ter esquecido de levar o telefone. — ela deu de ombros — Ela sempre esquece.
Eu mordi a ponta do dedo pensativo.
– É. Eu encontrei com ela no hospital na quarta. Ela comentou que estivera viajando, pareceu bastante chateada.
A porta da confeitaria se abriu e um vento fresco de verão varreu a loja. O lustre balançou como gelatina, e o vestido floral de Shunrei rodopiou.
Eu suspirei
– Eu queria poder fazer alguma coisa. Sinto-me tão impotente.
– Eu sei. — Ela disse. — Eu também. E ainda não acredito que vão transferi-lo pra New York amanhã.
Eu pisquei em choque.
– Vão transferi-lo pra New York? — Quando isso havia sido decidido? Por que eu não estava sabendo?
Ela balançou a cabeça confirmando.
– O pai dele queria transferi-lo desde o início, mas os médicos disseram que não sabiam se ele sobreviveria a viagem.
Uma caroço pareceu se alojar na minha garganta, e eu engoli com força. Shunrei continuou:
– Ontem, finalmente os médicos deram autorização para a transferência. O transporte será feito em um jato particular adaptado pra isso. A situação ainda é delicada, mas o pai dele só confia nos médicos de New York então acha que os cuidados vão valer a pena.
– Você o conheceu? — Minha curiosidade levou a melhor sobre mim outra vez — O pai dele?
– Eu o vi ontem. — Ela disse. — Muito distinto. Simpático.
Eu assenti.
– Eu conheci o irmão dele na quarta.
– E? — Ela quis saber.
Eu encolhi os ombros.
– Ele foi... legal.
Ela sorriu.
– Eu sei, ele é tão diferente do Hyoga, não é? Parece meio inacessível.
Shunrei e os outros conheciam os irmãos do Hyoga, porque Camus concluíra seu doutorado em Harvard no meio do ano passado.
– Pra dizer o mínimo. — Eu falei e ela riu — Mas ele foi... agradável. Tem modos impecáveis, e um sorriso muito bonito.
Ela assentiu ainda sorrindo e, de repente, mudou de assunto.
– Você acha que o Seiya é má influência para o Hyoga?
– O Seiya? — Eu falei confuso — Não. Quero dizer, talvez. Não sei. Por que? — Perguntei, notando que a fila aumentara ainda mais. Estávamos quase perto do balcão agora. Podia ver um lampejo de trufas belgas, e a ponta de um muffin brilhante de chocolate e framboesa.
Ela encolheu os ombros.
– Bem, o Shiryu acha que sim. Ele não diz nada, mas parece bem preocupado. E aquela boate que o Seiya levou o Hyoga é muito suspeita também.
Eu arregalei os olhos.
– Você não acha que o Seiya... Que ele... Que ele pode estar envolvido nisso, acha?
– Não! Claro que não. — Ela falou depressa — Eu só acho que foi imprudente. Você sabe, a família do Oga é bem visada, alguém pode ter descoberto quem ele era e o seguido até o campus, não sei.
Eu lembrei do que o Hyoga havia me contado. Sobre o homem na boate. Será que fora mesmo ele que atirara no Oga. E será que ele realmente reconhecera o sujeito que atirara nele? Bem, se fosse esse o caso ninguém parecia saber de nada.
Achei melhor ficar calado também.
– E você acha que a intenção era essa? Sequestrá-lo? — Eu perguntei. A idéia fazendo com que um arrepio de medo percorresse minha espinha.
– A polícia suspeita de tentativa de latrocínio, mas, sei lá... O pai dele não deve andar com aqueles seguranças todos a sua volta à toa. — Ela falou. — De qualquer jeito, foi muito perigoso. E o Hyoga estava tão bêbado. Seiya não devia tê-lo deixado a beber tanto.
– É verdade. Mas acho que ele só estava querendo que o Hyoga esquecesse um pouco as coisas, que se divertisse. — Eu disse, e me contorci um pouco. Também queria que o Seiya não tivesse permitido que o Hyoga bebesse tanto, ou que ao menos o tivesse acompanhado até o campus depois.
Ela suspirou.
– Você tem razão. É só que as vezes eu me sinto como se fosse a vilã da turma, sabe. Sempre dizendo: "Saiam daí", "vocês já beberam demais", e "não é legal", "tomem cuidado". Enquanto Seiya diz: "Dane-se, cara", e "deixa disso", "vamos lá".
Eu assenti. Também gostaria que Seiya não colocasse tanta lenha na fogueira, às vezes.
Nós trocamos um olhar solidário e então finalmente tínhamos conseguido chegar até o balcão.
Ele cintilava com fileiras de tortas de frutas salpicadas com açúcar de confeiteiro, bolos fofos inchados de chocolate derretido, bombas de caramelo, quindins suculentos e amêndoas confeitadas com canela .
E mais cookies.
Pilhas e pilhas de cookies de todos os formatos imagináveis. De coração, casa, coelho, cachorro, papai Noel — embora ainda estivéssemos bem longe do Natal. Enquanto Shunrei debatia sobre recheios de bolos, escolhi um de coelho, um de casa, e um no formato de um rosto sorridente
E então vi as jujubas coloridas e queria morrer ali... Engatinhar por sobre o balcão, encher as mãos com elas, esmagar com os dentes suas delicadas casquinhas e lamber os recheios macios até não poder mais respirar. Estava tão distraído que demorei pra perceber que a moça atrás do balcão estava falando comigo.
Eu pedi por um punhado daquelas jujubas fantásticas, escolhi mais alguns doces para Hyoga e então peguei minha caixa decorada e fui até a fila pagar por tudo. Shunrei já havia pagado suas compras e estava parada do lado de fora da loja conversando com um homem enquanto me esperava.
Tratava-se um senhor de aparência íntegra, com um Pug rechonchudo rebolando na coleira. O homem parecia familiar. Podia jurar que já o tinha visto antes. Ele sorria de forma amigável.
Ele falou alguma coisa e Shunrei sorriu apontando na minha direção. O homem olhou pra mim e acenou simpático pela vitrine. Eu retribuí com um aceno hesitante.
Eles conversaram por mais algum tempo e os olhos dele estavam brilhando, então ela disse algo que o fez arfar. — Não acredito! — Eu pude ler seus lábios a distância. Ele me observou tristemente, e então eles se despediram. Ele acenou pra mim outra vez, e eu lhe dei um adeus trêmulo.
Eu paguei meus doces e caminhei pra fora da loja.
– Quem era aquele? — Eu perguntei — O que vocês estavam conversando?
– Você não o reconheceu? — Ela pareceu surpresa. — Ele é o nosso conselheiro educacional. Ele mora naquele sobrado azul perto da faculdade e leva Jack pra passear no jardim em frente ao nosso dormitório o tempo todo.
Nós pegamos o caminho de volta para o metrô, e passamos por um bando de pombos que não pareciam muito preocupados se estávamos a ponto de pisoteá-los. Eles arrulharam e bateram as asas.
– Jack? — Eu perguntei.
– O Pug.
Uma luz de reconhecimento brilhou no meu cérebro. Claro que eu já o tinha visto. Hyoga e eu esbarrávamos com ele e o Pug nos jardins, e cruzávamo-nos no Public Garden o tempo todo.
– Mas o que ele queria?
– Ele estava perguntando por que não tem mais visto você e seu namorado ultimamente.
Eu pisquei confuso e ela acrescentou:
– Hyoga. — Ela prendeu o riso. — Ele disse que vocês formavam um casal muito bonito.
Eu estava de queixo caído.
– Ele... Eu não acredito que ele achou que eu e o Hyoga éramos namorados?!
Ela começou a rir. Não, a gargalhar. Então parou sem fôlego, e chegou a abrir a boca pra dizer alguma coisa, mas desistiu no último momento.
Eu estava chocado. Completamente, positivamente, chocado.
Nosso conselheiro educacional tinha achado que eu e o Hyoga éramos namorados? Por quê? Não havia nenhum motivo pra ele ter achado isso. Hyoga e eu éramos amigos. Não havia nada entre nós. Nada. Embora ele tivesse dito que gostava de mim na última vez que nos vimos, eu lembrei. O que era o verdadeiro motivo porque eu ainda não havia ido visitá-lo outra vez até agora, diga-se de passagem.
Eu queria vê-lo. Conferi-lo mais uma vez com meus próprios olhos pra saber se estava bem. Mas não sabia o que iria dizer. Deveríamos conversar sobre aquilo? Ou eu só deveria agir como se nunca tivesse acontecido?
Minhas emoções estavam em conflito. Eu estava preocupado com Hyoga, e estava preocupado sobre quem e por que teriam feito isso com ele, e não conseguia me concentrar em nada por mais de um segundo antes que minha mente voltasse àquilo: Hyoga gostava de mim. Mais do que como um amigo.
Sentira verdade nas palavras dele, mas como podia apagar o fato de ele estar dopado? Completamente, positivamente, 110% dopado. Como esquecer que ele tinha namorada? Que nós éramos amigos? Que éramos garotos? Era tudo tão confuso.
Eu bufei.
Ele precisava de amizade agora, não de drama. E era por isso que era uma droga que aquilo tivesse tornado ainda mais difícil pra eu me convencer de que as atenções de Hyoga não eram o que pareciam ser, como eu vinha fazendo até então.
***
Quando chegamos ao hospital, Shiryu já estava esperando por nós na recepção. Nós deveríamos subir juntos para o quarto, mas ele recebeu uma ligação poucos minutos depois e teve que sair correndo sei lá eu pra onde.
Shunrei reclamou que ele andava muito cheio de compromissos misteriosos esses dias, e eu acabei subindo sozinho com ela.
Hyoga parecia bem melhor dessa vez, quando entramos no quarto. Ao menos estava lúcido, e sentado mais ereto na cama. Ele estava na companhia de seu irmão novamente. E havia outra pessoa no quarto. Uma mulher linda. Cabelos loiro prateados, olhos claros, pinta de modelo internacional. Ela tagarelava enquanto Hyoga se distraía com a TV, e seu irmão folheava as páginas de um livro sentado no sofá ao lado dela. Será que era a namorada dele?
– ...Então ele colocou o braço nas minhas costas, dirigiu meus passos, e entramos por um porta escura e discreta. — A loira bonita estava contando quando chegamos. — Uma vendedora de voz amigável nos deu as boas vindas e disse pra gente ficar à vontade pra olhar. Achei que conhecia todas as lojas de New York. Ledo engano. Pontos de luz iluminando pequenas peças brilhantes. Vibrador. Vendas pretas de cetim. Artigos de sadomasoquismo. As coisinhas de ônix que pensei serem abotoaduras? Estimuladores de mamilos. Calcinhas, cintas-liga, corpetes. E tudo de qualidade: seda pura, cetim, rendas, couro. "Você quer experimentar alguma coisa?" Ele perguntou ao meu lado, e eu congelei. Ele era um pervertido. Pervertido excêntrico. Me tratando como objeto sexual. Que diabos eu estava fazendo ali?
– O que você esperava de um homem escolhido no cemitério? — O irmão do Hyoga disse, sem levantar os olhos do livro. — Dificilmente te levaria pra comer pizza e ver um filme do Ben Stiller.
– Camie! Que cruel. — A mulher falou, e então parou quando seu olhos azul-piscina pousaram sobre nós, parados na porta.
– Shunrei! — Ela disse com um gritinho, e as duas se cumprimentaram como se fossem velhas amigas.
– Bon Jour — O irmão do Hyoga cumprimentou também, levantando os olhos do livro. E hyoga acenou sorrindo.
– Ei.
Eu acenei de volta e fui colocar as caixas de doces que trouxéramos sobre a mesinha. Depois me aproximei de Hyoga na cama.
– Como você está?
Ele sorriu.
– Bem, e você? — Ele fixou os olhos nos meus e eu me senti corar com a súbita lembrança do nosso último encontro.
– Bem também. — Eu falei sem jeito, e então levantei o rosto pra me deparar com a loira desconhecida olhando fixamente pra mim.
– Que criança adorável. — Ela soltou, piscando os olhos azul-piscina pra mim. — Onde você o encontrou?
– Esse é o Shun. — Shunrei apresentou, caminhando até mim. — Ele é calouro de Administração e está morando no quarto ao lado do meu. E, Shun, este é o Afrodite, o outro irmão do Oga.
Espera. Irmão? Eu pisquei confuso.
Quer dizer que esse era aquele Afrodite, filho da madrasta dele, que o Hyoga mencionara? Então 'ela' era 'ele'? Sério mesmo?
– Hyoga, por que você não nos disse que estava namorando uma criança tão fofa? — Os olhos azul-piscina brilharam
Eu senti minhas bochechas pegarem fogo.
Isso de novo? Sinceramente, de onde as pessoas tiravam aquilo?
– O-o que...? — Eu gaguejei.
Hyoga balançou a cabeça um pouco corado.
– Apenas desconsidere. — Disse, e o ruivo levantou os olhos do livro outra vez.
– Dite, deixe o garoto em paz, sim.
– Por quê? — O outro revidou — É tão divertido. — Então se voltou para nós outra vez. — Não liguem, o Camie só está com ciúme porque eu estou com o Carlo, e até o Hyoga conseguiu um garoto fofo pra namorar enquanto ele continua na seca.
– Ah... N-nós não... — Eu tentei dizer mais uma vez, mas fui interrompido novamente. Dessa vez pelo irmão do Oga
– Dite, um homem com o apelido de Máscara da Morte que você conheceu no cemitério non é exatamente o tipo de relacionamento saudável que uma pessoa normal invejaria. E eu jamais me envolveria com alguém da indústria do entretenimento.
– Não cuspa pra cima, Camus. — O loiro disse e então revirou os olhos quando outra pessoa entrou no quarto. Uma garota de vestido justo branco que eu logo reconheci como a irmã do Seiya.
Ela abriu um sorriso falso e acenou quando nos viu por ali, e então seu rosto se iluminou quando os olhos escuros recaíram sobre o irmão do Hyoga.
Ela balançou os cabelos compridos, jogando uma nuvem de perfume adocicado sobre nós, e se reclinou sobre o ruivo, dando um beijo em cada uma de suas bochechas. Ele pareceu sem graça e Afrodite girou os olhos.
– Perfume adorável, Saori. Usa um pouco mais da próxima vez. Não sei se conseguem sentir seu cheiro lá em Manhattan.
Ela se virou para o loiro, e seu cabelo zuniu como em uma cena de comercial de xampu enriquecido com vitaminas..
– Afrodite... — Ela disse como se tivesse acabado de perceber a presença dele ali. — Bonita a maquiagem. Você acha que fica bem com esse lápis de olho?
Linguagem universal das vadias para: "Eu acho que fica um horror".
Ele sorriu com desdém.
– Eu não usaria se não achasse.
Ela suspirou como que enfadada.
– Oh, bem... mas você não deveria usar tanto, sabe. Te faz parecer um pouco vulgar.
– Ao menos eu só pareço. — O loiro cutucou sem perder a pose, e Shunrei murmurou, animada.
– Um a zero pro Dite.
Saori apertou os lábios por um instante, então gargalhou falsamente.
– Ah, Afrodite, sempre tão espirituoso... — Depois desceu os olhos pela echarpe de seda, o blazer estilizado e a calça skinny de couro do outro. — Interessante essa sua escolha de figurino, você mesmo que desenhou? — Ela provocou e Hyoga, ao meu lado, resmungou.
– Já era.
– O quê? — Eu sussurrei. Estava assistindo a tudo suando de tensão.
– Ela não devia ter provocado o Dite nesse quesito. — Hyoga sussurrou de volta. Ele e Shunrei pareciam estar se divertindo muito com aquilo. — Moda é praticamente a 'área' daquele sueco. Ele vai acabar com ela.
Dito e feito. O sorriso no rosto bonito do loiro se ampliou.
– Péssima tentativa, querida, assim você só está expondo a sua ignorância. — Ele apontou pra si mesmo, indicando suas roupas — Prada, pré lançamento de outono. Exclusividade, claro. Quanto a você — Ele desviou os olhos para o vestido branco dela — Chanel monocromático sem graça e... — Seu olhar desceu para a sandália bege de tiras — Jimmy Choo... verão passado. — Ele fez um gesto de descaso com a mão — Se eu fosse você evitaria passar entre a Lexington e a 54 St, sabe, estão vendendo delas às dúzias por 10 dólares em uma lojinha de esquina por lá.
Saori fechou o rosto. De repente, parecia um ser do mal. Principalmente quando comparada à beleza angelical do outro.
Embora Afrodite tivesse acabado de dar mostras de não ser tão angelical assim.
O ruivo se levantou incomodado.
– Di, por que nós não vamos até a sala e deixarmos as crianças conversarem aqui sossegadas. — Ele disse.
– Mas já? — O loiro reclamou, voltando a atenção para o amigo.
– Oui. Já. — Ele falou firme, segurando o braço de Afrodite e praticamente o arrastando dali.
Saori os seguiu, enroscando o braço livre do ruivo no seu, toda sorrisos. Como se não estivesse alfinetando seu melhor amigo há poucos segundos.
Eu não conseguia acreditar. Ela estava mesmo dando em cima do cara descaradamente. Agora entendia porque estivera tão disposta a acompanhar Hyoga no hospital.
Eu a tinha visto apenas algumas vezes até agora e não tínhamos trocado mais do que três palavras, então pensei que ela talvez não fosse tão ruim quanto me lembrava. Exceto que ela era. Ela realmente era. Após ter passado apenas cinco minutos na sua companhia não sabia como Seiya conseguia agüentá-la.
– Eles são sempre assim? — Eu falei, quando a porta finalmente se fechou atrás dos três.
– Não. Às vezes são piores. — Hyoga brincou.
Shunrei suspirou dramaticamente.
– O Afrodite é meu novo ídolo. — Soltou, e todos rimos.
– Um verdadeiro savoir faire, como diria meu irmão. — Hyoga falou, sorrindo.
– 'Saber fazer'? — Eu traduzi, sem entender.
Shunrei riu.
– É uma expressão usada pelo franceses pra designar aquelas pessoas que sabem se sair bem em qualquer situação. — Ela explicou.
Hyoga assentiu.
– O Dite sempre consegue o que quer. Demorou apenas horas para ele cair nas graças de toda a enfermagem e passear por todas as áreas de funcionários, sem uma reclamação sequer da administração.
Eu abri a boca embasbacado — aquele tipo de carisma era impressionante.
Então Shunrei posicionou a mesa hospitalar de refeições sobre o Hyoga, e eu espalhei as caixas de doces que havíamos trazido em cima dela.
Havia cookies, jujubas, amêndoas açucaradas, tortinhas de maça, bolo de frutas vermelhas, e trufas de chocolate belga.
Nós falamos sobre bobeiras. Eu contei sobre a nova caneta nanquim que comprara para os meus desenhos, e Shunrei falou da música rap que o vizinho de quarto de Shiryu insistia em tocar. Então conversamos um pouco sobre o acidente e eu percebi que ele não estava contando a Shunrei a história toda. Mais uma vez ele não falara sobre o tal homem de olhos dourados, por exemplo. Eu só não sabia se isso se devia ao fato de ele confiar mais em mim, ou se ele só estava dopado demais antes pra conseguir esconder alguma coisa mesmo.
O pensamento me fez lembrar daquele dia e eu senti meu rosto esquentar novamente. Hyoga gostava de mim. Minha cabeça girou outra vez. Hyoga gostava de mim mais do que como um amigo. "Pare, Shun. Pare agora mesmo!"
Eu tinha vontade de me estapear, mas em vez disso enfiei uma trufa na boca.
E quase me engasguei com o sabor. Era amanteigada, macia, cheia de chocolate, perfeita. O recheio cremoso explodiu na minha boca, e eu gemi de prazer.
Shunrei riu.
– Tem chocolate no seu queixo. — Ela disse
– Hum...? — Eu respondi, enfiando o resto da trufa na boca e lambendo os dedos em seguida.
Hyoga parecia estranhamente fascinado.
Eu olhei pra ele.
– O quê?
Ele balançou a cabeça.
– Nada. — Disse, então sorriu e pegou uma trufa também.
Eu fiz menção de limpar o queixo, mas Shunrei me impediu.
– Não limpe, está legal. — Ela disse — Parece um cavanhaque.
Eu sujei o dedo no chocolate espalhado pelo meu queixo e fiz um bigode.
– Melhorou?
– Só se você quiser ser chamado de Hitler. — Ela riu.
Melequei o dedo de novo e fiz uma voltinha no bigode de um lado só.
– E agora?
– Está torto. Vem cá. — Hyoga puxou meu rosto, mergulhou o dedo com cuidado no borrão de chocolate e fez o outro lado com sua mão firme. Eu estremeci com o toque. Ele estava perto. Muito perto. Sentia sua respiração morna fazendo cócegas na minha boca.
Entreabri os lábios. Ele ainda segurava meu rosto. Então levantei os olhos e percebi que os dele continuavam fixos na minha boca. Finalmente piscou e se afastou.
Eu inspirei fundo, só então percebendo que estivera prendendo o fôlego.
– Ficou ótimo! — Shunrei falou rindo e eu olhei meu reflexo no vidro da janela. Deparando-me com um bigode enorme, curvado. Estava hilário.
Eles riram e aplaudiram, e Shunrei tirou uma foto. Então fingi torcer as pontas do meu bigode de chocolate, e eles quase se mataram de rir.
Limpei meu rosto com um lenço umedecido que tirei do bolso e sorri de volta
– O que é isso? — Shunrei acenou com a cabeça para o lencinho.
– Lenços umedecidos de bebê. — Eu disse. — São melhores do que guardanapo.
Hyoga balançou a cabeça.
– De onde veio essa porcaria? — Ele sorriu — O que mais você está levando nos bolsos, heim? Trapos pra tirar pó? Lustra móveis?
– Cuidado. — Eu falei — Ou eu vou esfregar esse lenço em outra coisa.
Ele sorriu com ironia.
– Só se for entre quatro paredes. — Zombou, e eu arregalei os olhos, sentindo minhas bochechas ferverem ao me dar conta das implicações do que tinha dito.
Ah, não!
Shunrei revirou os olhos.
– Por favor, esperem até eu ir embora pra desenvolver essa conversa, Sim?
Eu mordi os lábios e Hyoga riu.
Então usei a desculpa de jogar o lenço sujo na lixeira do banheiro pra me afastar um pouco, e quando voltei de alguma forma a conversa havia descambado pra uma discussão sobre pêlos estranhos.
Shunrei contou sobre um tio que uma vez raspara toda a barba, exceto a que crescia no contorno do rosto. Eu comentei minha situação vergonhosa de aos 17 anos ainda não ter um mísero fiozinho no rosto, e Hyoga então falou sobre uma suposta lenda sumeriana, segundo a qual isso seria um castigo a Caim por ter matado seu irmão, Abel. Os Anunnaki, grupo de divindades suméricas, teriam lhe tirado essa informação genética, para que fosse possível reconhecer sua descendência amaldiçoada.
Legal, eu era amaldiçoado. Acho que eu meio que já andava desconfiando disso.
Então o telefone de Shunrei começou a tocar e Hyoga se inclinou na minha direção quando ela se afastou.
Seu rosto estava perto demais outra vez. Eu prendi a respiração. Droga!
– Sobre aquele dia... — Ele falou hesitante. — Quando você esteve aqui me visitando da outra vez, eu digo...
– Tudo bem. — Eu o interrompi depressa. Estava nervoso, não queria tocar naquele assunto. Porque o que iria dizer? Ele claramente não se lembrava do que tinha acontecido e eu que não estava disposto a ter que reavivar sua memória — Não tem importância.
Ele piscou.
– O que não tem importância?
Eu mordi o lábio.
Opa. Quase.
– Nada.
– Eu fiz alguma coisa? — Ele parecia confuso.
– Não, você não fez nada. Você só.. — Eu procurei desesperadamente por uma desculpa, então me lembrei do incidente com a garrafa plástica. — Derrubou uma garrafa d'água, foi isso.
Ele abaixou a cabeça e lamentou.
– Desculpa, Shun, sei como você é com limpeza.
Eu abaixei os olhos, constrangido de ser lembrado por causa disso.
– Tudo bem. — Eu falei. — De verdade. Eu arrumei tudinho.
Ele piscou outra vez.
– Você... arrumou?
– Hum... Sim. — Eu confirmei.
– Quer dizer que você veio me visitar e acabou limpando o quarto? — Eu vi a expressão de descrença crescer em seu rosto.
– Não foi bem assim. — Eu estava fazendo um esforço enorme pra não dizer nada, mas as palavras pareciam sair antes que eu percebesse. — Você estava dopado, e eu limpei porque quis.
Ele balançou a cabeça, e, como se a conversa já não estivesse desconfortável o bastante, ele passou pra outro tópico ainda mais penoso.
– Eu... — Ele olhou pra Shunrei certificando-se de que ela ainda estava distraída ao telefone, então se inclinou ainda mais pra perto e baixou a voz. — Eu disse alguma coisa... em especial... pra você naquele dia?
Ah, droga.
– Em especial? — Eu me fiz de desentendido.
– É que... eu só me lembro vagamente de ter estado com você aqui no quarto. Mas eu poderia jurar que tivemos uma conversa sobre... bem, sobre algo.
Meu coração acelerou. De repente, o simples ato de respirar parecia me exigir um esforço enorme. Ele se lembrava!
Quer dizer, mais ou menos, mas mesmo assim. O que isso significava? O que eu deveria dizer agora? Definitivamente não estava preparado pra essa conversa.
Esperei mais um pouco.
– Sobre o quê?
Ele pareceu desconfortável.
– Eu... hum... eu disse algo estranho sobre... a gente?
E lá estava.
– Sobre a gente?
Ele assentiu.
– Sobre a nossa... amizade. Ou sobre... meu namoro?
Ah, meu Deus!
Eu olhei pra ele. Olheiras negras sob os olhos. Cabelo sem lavar. Rosto pálido. Ele parecia tão abatido. Minha vontade era esticar a mão, apertar a dele e dizer que tudo ficaria bem. Ele não devia estar ali, eu pensei. Não naquela cama de hospital. E não seria eu a acrescentar mais um problema a vida dele. Não importando o quanto quisesse saber a verdade.
Não, eu não podia dizer nada a ele. Não podia lhe cobrar respostas. Porque, ainda que gostasse de mim, não era o momento de ele começar um novo relacionamento agora. Ou pra lidar com o término de outro. Ainda mais se considerarmos todas as complicações envolvidas em um relacionamento com outro garoto. Eu mesmo não tinha certeza se estava pronto pra isso ainda.
E, se ele não gostasse de mim, então provavelmente perderia sua amizade. As coisas entre nós ficariam muito, muito estranhas.
E naquele momento Hyoga precisava de amizade.
E pra mim estava tudo bem assim. Juro. Eu estava preocupado demais com a situação do Hyoga pra me preocupar em pensar nele de outra forma. Ele precisava de algo familiar naquele momento. E Freya era essa pessoa. Não eu.
Eu me mantive inexpressivo, mas sincero.
– Não. Conversamos sobre seu acidente. Só isso.
Era a resposta certa. Ele pareceu aliviado.
Também vinha pensando em coisas familiares ultimamente. Sentia falta do Ikki, da minha mãe, e de Misuki... Não nos faláramos nem uma vez desde que desembarcara em Boston há uma semana. É que com tudo o que vinha acontecendo nos últimos dias, eu andava distraído demais o tempo todo.
Hyoga partiu na manhã seguinte para o hospital em New York. Nós não voltamos a nos encontrar, e na mesma noite eu peguei meu vôo outra vez de volta a Tóquio.
Não sabia se havia tomado a decisão certa. Estava me sentindo estranho.
Era tudo muito confuso.
Fale com o autor