O Funcionário do Fast-Food
11 XI — Nós Precisamos Conversar

XI
NÓS PRECISAMOS CONVERSAR
CAMBALEANDO PELA PENUMBRA, ignorou o farfalhar das árvores naquela rua deserta e imerso em sua ira, desprezou a solitária lua no céu, com seu brilho pálido e insensível, desdenhando do que ele estava para fazer. Foda-se ela, pegou-se pensando, que se divirta com a minha ruína então.
A chuva noturna pinicava sua pele, encharcando o paletó e deixando seus cabelos ensopados por uma água fria. Com a sola dos sapatos tão bem cuidados afundados em poças de lama, o rapaz curvava-se sobre si, tremendo até os ossos. O vento parecia uivar em seus ouvidos, o desafiando a continuar seu caminho, testando sua resistência.
Ele, por outro lado, não recuou nenhuma vez.
Compreendia que era loucura estar ali — quando a madrugava estava no auge — mas o álcool fornecia a coragem suficiente para que não desistisse do repentino plano que bolara poucas horas atrás, quando virava o liquido amargo em sua garganta, esperando que a bebida o fizesse esquecer da solidão que o acompanhava nas últimas semanas e refletia sozinho, buscando entender se fizera alguma coisa para merecer ela.
Não importava a resposta, a consciência de que havia sido abandonado o machucava mais do que podia suportar e o álcool — ao contrário do esperado — fazia perceber que ele não podia lidar com o desprezo.
O resultado disso foi exposto quando se aproximou de uma casa específica e seu corpo foi embebido pelo amarelo miserável de uma lâmpada. Os olhos estavam vermelhos e encontravam-se perdidos em uma dor comovente, o corpo caminhava em direção à porta, arrastando-se dolorosamente e as olheiras grudavam-se em sua face, denunciando a exaustão mental dele.
Antes que percebesse, seu punho tocou a madeira maltratada pela ação do tempo. O ruído oco se perdeu no barulho da chuva e o rapaz viu-se usando mais força, em movimentos rápidos, que se tornavam cada vez mais desesperados e urgentes.
Os pensamentos tão comumente lineares agora eram uma confusão. Ele conseguia identificar a dor que o silêncio trazia, mas também podia ver a preocupação submergindo aqui e ali. O medo o devorava tão bem quanto a raiva, que sussurrava coisas em seus ouvidos, conspirando e garantindo que não merecia aquela indiferença.
Absorto pela desordem mental, imaginou o que faria se a porta não fosse aberta, significando que seria a hora de pôr um ponto final naquela história. Seus dedos se fecharam com mais força, esmagando-se dentro das mãos alvas e ele socou a madeira, desejando que a porta fosse aberta, mendigando por alguma explicação, ansiando o momento que projetaria seu punho contra ele, exigindo explicações.
Todavia, contrariando seus pensamentos, viu-se paralisado quando a luz jorrou contra sua face e a madeira foi puxada para dentro, revelando as órbitas esbugalhadas de Uzumaki Naruto pasmo em vê-lo ali. O tempo, aos seus olhos, pareceu parar quando um silêncio desconfortante os acompanhou e todas as palavras fugiram de seus lábios, deixando-lhe estático, processando o fato de que o estúpido funcionário do fast-food estava vivo e em segurança, ao contrário do que seus devaneios tentavam fazê-lo acreditar naqueles dias que ficaram sem contato.
Antes que percebesse, seu corpo lançou-se contra o motivo das suas noites de insônia e seus braços o envolveram em abraço sôfrego. Ignorou a provável indiferença da qual seria vítima nos minutos seguintes, permitindo que seu tato sentisse o calor da pele do Uzumaki e a textura de sua pele. Experimentou a sensação de ter a respiração do louro batendo contra seu pescoço e deixou que seu rosto se afundasse nos cabelos tão dourados quanto o sol, experimentando uma maciez terna.
Naquele momento, Uchiha Sasuke viu-se tomado por uma extraordinária sensação de alívio, quando o medo foi descartado no frio da madrugada. As incertezas quanto ao idiota em sua frente estarem ou não vivo começaram a ceder, quando a respiração acelerada dele começou a afastar o silêncio que os cercava e o universitário agradeceu pela vida dele não ter sido tomada pelas incontáveis conspirações que criara em sua mente. Sasuke não saberia o que fazer se aquele estúpido tivesse sido morto e percebeu que a existência dele significava muito para si.
Saboreou um sentimento diferente quando os braços de Naruto o embalaram em um abraço forte, apertando seus ombros com força, deixando que suas mãos explorassem o paletó encharcado do Uchiha, como se não acreditassem que ele fosse de carne e osso. Deleitando-se com tanto carinho, o universitário entendeu que o loiro enfrentava uma luta mental para concluir que ele estava mesmo ali, em sua frente, para vê-lo
— Imbecil. — Viu-se obrigado a cortar o torpor deles, afastando-se o suficiente para cravar sua mão da gola da roupa dele — Foram três semanas. — Murmurou com os olhos pregados no chão, perdido em uma dor palpável — Pensei que éramos amigos, Uzumaki.
Sua angústia não passou despercebida pelo rapaz, que recuou um passo para trás quando o amigo ergueu os olhos tomados por uma fúria devastadora.
— Se passaram três semanas e você sequer se deu ao trabalho de me explicar o que estava acontecendo! — Vociferou, o puxando para perto — Cheguei a pensar que tinha morrido, porra!
— Eu posso explicar. — Sua voz era fraca e abalada.
— Então eu mereço uma explicação? — A ironia era cortante e cruel — Depois de ter feito o papel de um completo otário, enviando mensagens e mensagens, ligando e sendo rejeitado, ainda acha mesmo que mereço uma explicação? — Riu, sem nenhum humor.
— O número privado era seu?!
A boca do Uzumaki estava aberta e ele fitava o Uchiha em completo choque, como se não tivesse se dado conta do detalhe até então.
— De quem mais iria ser, caralho?!
— Eu não sei! Pensei que fosse alguém tentando me cobrar alguma fatura, boleto ou qualquer porcaria que fosse atrasada!
— Você é um idiota, Uzumaki. Um completo imbecil do caralho. — Sasuke rosnou, o empurrando para longe — Sou mais otário ainda por ter te considerado um amigo, quando claramente você estava pouco se fodendo para mim.
Dessa vez, o funcionário do fast-food que o puxou pela gravata.
— Não ouse dizer isso!
— Estou mentindo, Uzumaki? — Sasuke usou a indiferença para esconder a tristeza que esmagava seu coração e se afastou. O álcool o deixou zonzo e ele cambaleou, usando a parede como apoio para não ir ao chão.
— Você andou bebendo?
— Isso importa? — Cuspiu, indicando para que ele não se aproximasse.
— É claro que importa! Somos amigos!
— Não torne a dizer isso ou irei te socar, Uzumaki.
Viu quando o loiro trincou a mandíbula, remoendo algo em seu interior e aproveitou sua hesitação para expor o que o atormentava.
— Você deixou óbvio que não temos laço algum.
— Cale a boca! — Naruto urrou, jogando-se contra ele — Você não sabe o que aconteceu para estar falando desse jeito! Juro que queria ter falado com você, mas não deu! Não deu mesmo!
— Se quisesse, teria dado. — Foi a resposta, quando ele se viu empurrado para a chuva — Sempre arrumei um tempo para responder suas baboseiras sobre flores e lanches daquela porcaria do Mcdonalds, mesmo que estivesse afundado em provas e seminários — Declarou, usando sua força contra o Uzumaki.
A dor atravessou os olhos claros quando Naruto o fitou horrorizado. Sasuke, por outro lado, arrependeu-se amargamente das palavras no minuto em que as pronunciou, odiando-se por ser tão facilmente manipulado pela própria fúria. Pesaroso, tentou resmungar um pedido de desculpas, mas foi impedido pelo loiro que pulava em cima de si, confrontando-o pelo ataque anterior.
Cedendo ao seu peso, os dois foram ao chão e rolaram pelo solo lamacento, trocando socos e chutes. Palavrões foram despejados em miseráveis poças d’águas, abafados pelo barulho persistente de uma chuva gélida, enquanto as roupas eram impregnadas pela sujeira da rua.
Em determinado momento, Sasuke berrou sua raiva contra o rapaz. Seu timbre vibrou no ar, carregando uma dolorosa cólera e transparecendo toda mágoa que preenchia seu interior. O comportamento animalesco paralisou o loiro e o universitário aproveitou esse momento para agarrá-lo pelo pescoço e, coagido pelo álcool, cuspir toda a frustração que acumulara naqueles dias.
— Cheguei até ir na porra do Ichiraku atrás de você! Comprava cafés e ficava lá sentado, por horas, esperando que você aparecesse, caralho! Via flores e pensava em te mandar fotos, sabendo o quanto iria apreciar, mas te pergunto: para quê? Já que não respondia porra nenhuma!
Naruto tentou afastá-lo, vociferando que ele deveria ter feito isso.
— Sei que aquele dia da Akatsuki posso ter exagerado e peço desculpas — Uchiha continuou seu monólogo, ignorando-o. A dor ficou evidente em sua voz quando ela falhou e ele desviou o olhar —, mas nada disso explica você ter desaparecido desse jeito, Naruto. Nada!
Conseguindo-se livrar dele, o Uzumaki o empurrou e Sasuke tornou a cair em cima dele, temendo que ele fugisse sem antes saber como o estudante de direito se sentia.
— Você é um dos poucos amigos que eu tive. — O Uchiha desabafou sentindo seus olhos arderem, quando Naruto repeliu ele mais uma vez — Eu deveria te socar até o sol nascer, só para você saber como é bom o sentimento de abandono!
— E quem disse que eu não sei? — Gritou, abalado — Pode apostar que sou a pessoa que mais sabe disso, seu desgraçado! — Garantiu, investindo seu punho contra o peito dele — Acha que esses dias tive tempo para qualquer coisa? Precisei trabalhar sem parar, Sasuke! Não tenho a vida estável como você, porra!
Embebido pela chuva e a lama, o universitário ofegou.
— Então por que me abandonou? Por que não falou comigo? Se tinha algum problema, era só me procurar porra! — Indagou, arrastando-se e encontrando dificuldades em enxergar na tempestade. — Eu te ajudaria!
— Você não entenderia!
Aquilo foi a gota d’água para Sasuke e ele viu-se afastando com repulsa do outro rapaz, mergulhado em um ódio latente.
— Não confia em mim. — Lamentou choroso em um tom trêmulo — Depois de tudo, continua a não confiar em mim. Ou então, está mentindo.
Naruto levou seu comentário como um insulto e o atacou mais uma vez.
— Por que continua com isso? — O universitário gritou, ressentido — Já te falei um milhão de vezes que estarei ali quando você precisar e você nunca me deixa te ajudar, Naruto! Em todos os momentos, sempre corre e tenta disfarçar o que quer que te assombre. Como posso fazer algo desse jeito? Me diga!
Sem respostas, Sasuke suspirou decepcionado e sorriu sem humor, partindo para cima dele, querendo descarregar a desordem interior, que consumia cada pedacinho de sua sanidade. Céus, era pedir muito para que aquele estúpido loiro confiasse em si, quando o estudante de direito provava a cada momento que estaria ali com ele?!
A confusão tornou-se mais intensa a medida que o céu desabava acima deles e o bêbado Uchiha tentava acompanhar a rapidez de tudo que acontecia diante de si, compreendendo subitamente que os reflexos do Uzumaki eram muito bons — pois este desviava sem nenhuma dificuldade de seus golpes —, demonstrando que o amigo tinha alguma experiência em brigas, já que seus movimentos pareciam seguir uma lógica e ter uma base fundamentada.
— Eu quis! — O Uzumaki rugiu desesperado em certo momento, ficando por cima do Uchiha e erguendo o punho contra ele — Acha que eu não quis te mandar mensagens, Sasuke? Eu quis, porra!
O Uchiha grunhiu uma ofensa e fechou os olhos quando a mão do amigo veio em sua direção. Ele esperou a dor do soco, que felizmente não veio. Contrariado, abriu as pálpebras e encontrou o braço no Uzumaki afundado no chão, ao lado de sua cabeça.
Erguendo os olhos, deparou-se com Uzumaki Naruto o fitando intensamente. As mechas douradas pareciam opacas, ensopadas pela violenta chuva. As órbitas azuladas derramavam-se sobre ele, implorando por um perdão, carregando um sofrimento comovente. Seus lábios estavam curvados em um bico trêmulo e Sasuke compreendeu que o amigo reprimia um choro certeiro.
— Seu imbecil. — Resmungou desarmado pelo sentimento de proteção que tomou conta de si inesperadamente e usou suas mãos para retirar o braço do amigo do chão. Naruto gemeu de dor e Sasuke franziu o cenho, estranhando o comportamento — O que aconteceu com você, dobe?
O funcionário do fast-food balançou a cabeça para os lados, sinalizando que não era nada importante. O Uchiha, por outro lado, não ficou satisfeito com essa resposta e levantou a manga do suéter marrom dele, descobrindo a cicatriz de um corte horroroso em seu antebraço.
Sentindo o coração acelerar, Sasuke o empurrou e sentou-se rapidamente, pouco se importando onde estavam ou o que estavam fazendo. Debaixo da chuva, estudou o machucado com cuidado, ignorando o Uzumaki mentindo que tinha se cortado cozinhando qualquer coisa.
O pânico tomou conta de seu olhar quando entendeu que aquele ferimento era decorrente de uma facada. Avaliando a profundidade, ficou óbvio que o amigo tinha sido esfaqueado recentemente e a súbita compreensão arrancou, mais uma vez, todas as palavras da boca do universitário, que encarou o amigo com intensidade, sem conseguir articular nenhuma frase.
— Muita coisa aconteceu. — Naruto murmurou, abaixando a cabeça.
Delicadamente, o Uchiha o puxou para perto e o envolveu em um abraço apertado, imaginando em que tipo de situação aquele idiota poderia ter se metido. Um genuíno medo apresentou-se e devorou seus pensamentos quando ele concluiu que o Uzumaki poderia estar morto. A vergonha por suas reflexões egoístas o deixaram desconcertado e Sasuke apertou o corpo do amigo contra si, agradecendo por sentir sua respiração, por ele ainda estar ali brigando consigo e não embaixo da terra, destinado aos vermes e solidão que a morte trazia.
— Estou aqui. — Sussurrou, experimentando espasmos corroerem seu corpo pelo medo de perder o idiota em sua frente. Memórias explodiram em sua mente e o pânico instalou-se em seus pensamentos, quando ele lembrou-se do passado — Confie em mim, Naruto. — Suplicou, tremendo pelas recordações que o assombravam.
Embaixo da chuva, conseguiu identificar quando o funcionário do fast-food derramou suas lágrimas, aconchegando-se no abraço quente do Uchiha, que retribuiu na mesma intensidade, tentando expor o quanto se preocupava com ele, transmitindo seu carinho e afeição.
Continuariam ali, se não fosse uma cansada voz masculina sobrepondo-se ao barulho da chuva. Sasuke levantou a cabeça e observou que ela provinha de um homem simples, na entrada da porta da casa do Uzumaki, fitando-os aflito.
— Naruto? O que está fazendo na chuva?!
O loiro levantou a cabeça e por seu olhar transmitiu sentimentos que Sasuke não gostou. Havia um pesar e cansaço ali, assim como uma preocupação excessiva, que parecia não ter fim. Ele pôs-se de pé e, após ajudar o amigo a fazer o mesmo, caminhou na direção da casa, tentando disfarçar a voz apreensiva.
— Ei, tio! Você não deveria estar na chuva!
— Eu que te digo isso! Quer ficar doente, Naruto?
— Felizmente tenho a saúde de ferro, então ficarei bem!
O homem bufou e arregalou os olhos quando os dois se aproximaram.
— Olha como estão encharcados! Vamos, os dois passem para dentro logo! Vou buscar umas roupas!
Sasuke adoraria rir da cena levemente cômica, entretanto algo estava errado.
Captou isso quando vislumbrou as órbitas azuladas de Naruto tão tensas. Um receoso sorriso encontrava-se em seus lábios, mas não havia espaço para alegria em sua face. Em sua frente, o homem de cabelos castanhos — que reconheceu ser o mesmo da foto de perfil do WhatsApp do amigo — tinha olheiras profundas embaixo de seus olhos. Ele parecia pálido e uma estranha magreza tomava conta de seu corpo.
Entrando dentro da casa do Uzumaki, percebeu que esta era excessivamente simples — não haviam decorações na sala, somente os móveis básicos de um lar. Observando com mais atenção, distinguiu que a mobília parecia ser de segunda mão, assim como antiga, exatamente como se pertencessem a outro século e mesmo sob efeito de álcool, constatou que naquela residência não havia espaço para luxos: os objetos e móveis ali dentro eram somente o essencial para a sobrevivência humana.
A realidade da vida de Naruto o afetou mais do que imaginava e ele não gostou do sentimento de incapacidade que o assolou. O Uzumaki merecia muito mais do que aquela acanhada vida, em um bairro tão pobre e com horas de serviço exorbitantes.
— Desculpe pelo estado da casa, não tive tempo para limpá-la nos últimos dias. — Naruto pronunciou de repente, o guiando para seu quarto.
A vergonha em seu olhar destroçou o coração do Uchiha, pois ele parecia constrangido pelo fato de o universitário estar em um lugar tão simples e demonstrava isso tentando organizar todos os objetos que suas mãos podiam alcançar, assim como não o fitava diretamente. Sasuke quis socá-lo e berrar que a amizade dos dois ultrapassava detalhes tão insignificantes quanto àqueles. Entretanto, somente respondeu:
— Não se preocupe.
Já dentro do quarto e depois de trocar de roupa, Sasuke sentou-se na cama do amigo e suspirou, observando que havia apenas a cama e uma cômoda de madeira, tão antiga que encontrava-se descascando, mal suportando permanecer em pé. Em cima do móvel um porta-retratos chamou sua atenção e ele aproveitou que o Uzumaki estava no banheiro para examinar o objeto.
Ali descobriu a foto de um Naruto criança na praia, cercado por um homem de cabelos igualmente dourados, cujo parecia rir de alguma coisa que uma mulher ruiva o contava, com bastante animação. Supôs que eram seus pais, pela intimidade que compartilhavam. Por fim, no meio, o menino tinha o sorriso mais sincero do mundo, transmitindo paz e alegria com uma intensidade que Sasuke jurava não ser possível existirem.
Naquela fotografia, Uzumaki Naruto era a própria vida. Sua felicidade era contagiosa e ele aparentava não ter nenhum problema. A euforia o cercava e nem mesmo o mar ao fundo possuía o resplendor tão vivo dos olhos claros daquela criança. A natureza e os adultos se curvavam perante a luz do menino.
Ele é extraordinário, Sasuke pegou-se pensando, atraído cada vez mais pela imagem. As órbitas escuras percorreram o rosto em êxtase do Naruto criança e ele perguntou-se sobre o que aqueles dois conversavam e riam. Quis também descobrir os motivos dos sorrisos do amigo não serem mais tão vivos como ali, meditando sobre o que teria acontecido em sua vida para que o Uzumaki se reprimisse tanto e fugisse daquele sentimento pleno que exprimia na foto.
— Sasuke? — A voz dele se aproximando fez o Uchiha guardar a fotografia rapidamente — Desculpe a demora, aproveitei e fui colocar a água para ferver para fazer um café. — Explicou, sem jeito, coçando a nuca.
— Não precisava, dobe.
O loiro fez bico.
— Você está na minha casa, então não resmungue — Declarou tentando disfarçar o constrangimento.
— Isso lá é jeito de tratar um amigo, Naruto?! — A voz do homem de cabelos castanhos disparou, quando ele entrou no quarto — Desculpe os modos do meu sobrinho, ele é desprovido de noção. — Naruto revirou os olhos e eles riram — A propósito, sou o Iruka.
— Me chamo Sasuke.
Um modesto sorriso acompanhou Iruka, quando este caminhou para perto do universitário. Naruto correu para ajudá-lo e Sasuke percebeu que o homem tinha em seu passo certa dificuldade, como se pudesse parar estatelado no chão a qualquer minuto. Quando ele se sentou ao seu lado, as dúvidas de Sasuke se concretizaram: havia algo muito errado naquela família.
Começou com os movimentos de Iruka, a princípio imperceptíveis. Seus dedos se moviam como se tivessem vida própria, cutucando a calça, levantando-se e fechando rapidamente. Em seguida, as mãos rodopiavam, estapeando o ar. Algumas vezes, os braços se mexiam como se quisessem ser arrancados do corpo. Os movimentos pareciam ser involuntários e espasmos tomavam o controle dele, tornando-se agoniante para Sasuke, que viu-se desejando que aquilo parasse.
— O Naruto me falou de você. — O homem comentou e o Uzumaki bufou, não acreditando que ele estava dizendo aquilo. Para Sasuke, foi uma surpresa que eles não demonstrassem um pingo de interesse na anormalidade que ocorria naquele quarto.
— Não me envergonhe, tio.
— Só estou falando a verdade. — Iruka riu.
Um silêncio desconfortável acompanhou a risada dele e Sasuke viu-se na obrigação de quebrá-lo.
— Espero que tenha falado bem.
Iruka piscou, desorientado.
— Falado o que?
O Uchiha lançou um olhar confuso para o amigo, perguntando-se se estavam brincando com sua cara. Soube que não quando Naruto murmurou um silencioso pedido de desculpas e forneceu ao tio um aperto amigável em seu ombro.
— O Sasuke espera que eu tenha falado bem dele para você. Lembra-se disso?
— Claro. — A lucidez pareceu voltar e foi possível identificar alívio na face do Uzumaki — Ficaria enojado se soubesse o quão bem ele fala de você, Sasuke.
— Mudando de assunto, você deveria estar dormindo, Iruka. — Naruto desconversou, fuzilando-o pelo olhar.
— Não consegui. O Kakashi não trouxe os remédios quando veio aqui.
O funcionário do fast-food olhou agoniado para Sasuke, suplicando silenciosamente que o perdoasse pelas recentes informações. O Uchiha, por outro lado, tentava compreender o que tudo aquilo queria dizer, tentando juntar as peças de um quebra-cabeça que começava a explicar os porquês de Naruto trabalhar tanto e ter tão pouco dinheiro disponível.
— É verdade que você cursa Direito? — Iruka chamou a atenção do universitário, que confirmou acenando com a cabeça — Deve ser bem exaustivo, não é?
— Um pouco, sim.
Fitando-o diretamente, Sasuke reconheceu o mesmo olhar de curiosidade que captava algumas vezes no Uzumaki.
— Imagino que por estar aqui em um horário desses, o Naruto deve ter aprontado alguma coisa — Grunhiu, presenteando o jovem loiro com um olhar bravo — Vou deixar vocês sozinhos para conversar, então.
— Não precisa se preocupar com is...
— Faço questão! Vou aproveitar e fazer alguma coisa para comermos.
Levantando-se com dificuldades, o homem se arrastou para fora do quarto, deixando os dois jovens sozinhos. O Uzumaki esfregou o rosto com as mãos, respirando fundo e caminhando pelo quarto, parecendo organizar seus pensamentos. Sasuke o assistiu em silêncio, aflito pela dor e exaustão do outro.
— Naruto — sussurrou, gentilmente quando ficou em pé e foi até o amigo —, não precisa falar nada. Depois conversamos, se você quiser.
— Não. — Foi sua resposta, quando ergueu a cabeça, deixando que as lágrimas rolassem livremente por seu rosto — Nós precisamos conversar e eu te devo uma explicação.
Sasuke assentiu, o abraçando.
Finalmente o amigo confiaria nele.
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