O Funcionário do Fast-Food
12 XII — O Vulnerável Sol

XII
O VULNERÁVEL SOL
SENTADO AO LADO DO UZUMAKI, Sasuke percebeu que não suportava a ideia de o cabeça-oca estar sentindo-se triste. Analisando com cuidado, reparou que aquele rosto combinava unicamente com sorrisos, não o pesar incômodo que cobria as órbitas azuladas, nublando a luz que irradiava naturalmente de seus olhos, fazendo com que seu sorriso murchasse debilmente, transformando Naruto em uma figura enfraquecida e frágil, quando sua voz calorosa devia estar preenchendo o quarto, vibrando alegre com piadas que somente ele via graça, já que tinha uma perspectiva tão única, tão fascinante e tão apreciável do mundo. Afinal, somente o funcionário do fastfood tinha tempo, em meio a correria de seu serviço e obrigações, para apreciar a droga de uma tulipa qualquer no meio da rua e empolgar-se com a flor insignificante.
— Desculpe, Sasuke. — A voz, tão fraca e cansada, sussurrou quando os minutos escorreram entre eles. Seu visual abatido fez com que o ar fugisse pelos pulmões do Uchiha, tamanha sua preocupação — Eu sei que te devo uma explicação, mas eu... Talvez se... Argh! Só preciso encontrar uma linha de pensamento, eu acho. — Concluiu desnorteado, desgastado pelo cansaço, curvando-se e bagunçando os próprios cabelos em aflição.
O universitário, em compensação, o presentou com um silêncio compreensível e quebrou a distância entre eles, aproximando-se gentilmente. Vítima da dor dele, Sasuke permitiu que sua mão pousasse suavemente na do amigo, atraindo sua atenção. O azul melancólico penetrou as írises negras e — com sua mão livre — O Uchiha afagou o rosto dele, deixando que os dedos cor de alabastro percorressem a pele do amigo, acariciando com delicadeza as bochechas, tentando transmitir algum tipo de força para o Uzumaki, que fechou os olhos e pareceu esforçar-se para segurar as lágrimas. Abalado por aquela reação, Sasuke entrelaçou as mãos, sentindo o calor da pele dele, apertando-a com urgência e afeto.
Não saberia dizer se o álcool era o responsável por suas reações tão perturbadas e exageradas, contudo tinha a certeza de precisava ajudar o rapaz em sua frente com os demônios que o perturbavam, liberando a tensão daquele pateta, para que os sorrisos voltassem a irritá-lo, até que Sasuke tentasse socar sua face.
— Estou aqui pelo tempo que precisar, Naruto. — O Uchiha prometeu, fechando as próprias pálpebras e deixando que sua testa se apoiasse no ombro do outro. O silêncio que se seguiu não foi de todo ruim e ele viu-se secretamente desejando que o amigo estivesse apreciando o contato entre eles, da mesma forma que estava, pois ali — tão perto do idiota desaparecido —, pegou-se desfrutando mais do que deveria de seu perfume confortante, reparando que a respiração irregular deixava os ombros de Naruto tensos e que, no nervosismo, as pontas de seus dedos brincavam no lençol da cama, enquanto ele balançava o pé, inquieto.
Aguardando que a crise dele passasse, Sasuke ponderou se estava sendo ousado demais em forçar uma intimidade tão grande e, para sua sorte, descobriu que não, pois logo o Uzumaki o puxava mais para perto, deixando que seus braços o envolvessem em um abraço apertado, necessitado e urgente. O Uchiha sorriu desconcertado, agradecendo pelo álcool em suas veias deixarem aquele tipo de coisa mais natural, permitindo que sua mente cheia de regras se desligasse um pouco, de modo que ele pudesse somente aproveitar aquele momento, principalmente depois daqueles dias escuros em que pensara que o idiota tinha morrido.
— Eu não queria ter sumido — Naruto revelou em um tom doloroso e o universitário pegou-se acreditando em suas palavras sem nenhum tipo de protesto —, mas faz muito tempo que alguém se preocupou de verdade comigo, Sasuke. Acho que acabei me desacostumando e, sinceramente, até agora não consigo entender os motivos de você se preocupar — Concluiu, deprimido e uma risada sem nenhum tipo de humor, carregada de um amargor apavorante fugiu de sua boca — Afinal, sem o tio Iruka eu estou largado pelo mundo, abandonado à minha própria sorte.
— E quanto aos seus pais? — Quis saber, ignorando a vontade de bater nele pela descrença por seus sentimentos.
Naruto balançou a cabeça para os lados e ficou um momento em silêncio.
Quando ele se mexeu, pulou para fora da cama, livrando o Uchiha do contato entre os corpos. Taciturno, se arrastou pelo quarto, abaixando-se na esquecida cômoda de madeira ali perto, abrindo sua última gaveta com cuidado, pois o material começava a descascar. Remexeu em alguns papeis e o barulho de objetos pesados se tocando ressoou pelo ambiente, deixando Sasuke curioso e preocupado de verdade.
Ao ficar em pé, caminhou de volta para a cama e, ao sentar-se, esticou os braços para o estudante de direito. Avaliando com atenção, Sasuke percebeu que ele trazia em suas mãos um jarro de argila pequeno, ordenado por sapos pulando, tão alto quanto podiam, tentando conquistar um céu coberto e decorado por kanjis que demorou para reconhecer.
— Amor. Força. Vida. Felicidade. Determinação. — Naruto sussurrou, recitando o que estava escrito, sem sequer olhar para o objeto — Lembra que eu te falei que meus pais eram bem ligados nos significados das flores? Então, minha mãe adorava fazer os próprios jarros e vasos para as flores que meu pai comprava — A voz falhou, quando ele recolheu o utensílio, abraçando-o com força — E esse aqui foi o último que ela fez, antes de morrer. Ela gravou os Kanjis como uma mensagem para que eu não desistisse, para que lembrasse dela. É seu último presente.
A garganta de Sasuke ficou seca e ele viu-se com dificuldades para respirar, quando começou a processar a informação que o outro lhe dava. Sabia que era algo importante, por isso não deixou que seus olhos abandonassem ele, nem por um mísero segundo.
— Os sapos são uma homenagem ao meu pai, que morreu antes dela. — Completou, puxando de dentro de sua blusa um colar com a figura de um sapo brincalhão — Foi o último presente dele, quando passeávamos pelo parque da cidade. — Riu, mas sua risada era triste e melancólica — Na época foi engraçado, então compramos três colares.
— E onde estão os outros dois?
— Ah, o meu sapo foi o único que restou, por enquanto. Os outros foram cremados com eles, então acho que acabou virando algum tipo bizarro de tradição de família, né?
Naruto comentou aquilo casualmente, tentando amenizar o clima ruim. No entanto, o Uchiha não conseguiu achar graça, mesmo quando a risada forçada dele dominou o ambiente, ecoando dolorosamente pelas paredes que deviam ser urgentemente pintadas. Sasuke continuou sério, mesmo quando o sorrido do Uzumaki cresceu, carregado pela pressão da postura que ele estava acostumado a manter, de que estava tudo bem e de que os outros não precisavam se preocupar.
— Não precisa mentir para mim, Naruto.
E com apenas essas palavras, a falsa expressão de alegria do outro se foi e sua face transfigurou-se, deixando que a dor a dominasse, entregando-se ao luto e sofrimento que a falta de seus pais trazia. Suas mãos, trêmulas e fracas, agarraram o vaso tão bem decorado e ele chorou, deixando que as lágrimas corressem livres por todo seu rosto. Ali, ele liberou o que sua alma guardava e Sasuke, em um reflexo protetor, o envolveu em seus braços, desesperado para mostrar que estava tudo bem não se forte, que algumas vezes era necessário desmoronar, deixando de guardar aqueles sentimentos negativos, escondendo-os do mundo.
— Eu sinto falta deles. — Naruto desabafou — Há dias que são muito difíceis, sabe? Há dias que eu só queria chegar em casa e ser cumprimentado por minha mãe, com suas tigelas gigantes de lámen e bolinhos de arroz.
— Eu sei. — Sasuke sussurrou, afagando os cabelos tão dourados — Está tudo bem em se sentir assim, Naruto. — Garantiu, deixando que as lágrimas dele molhassem suas roupas.
—Eu sei que você não tem nada a ver com isso, mas é doloroso, Sasuke. É cansativo aguentar tudo isso, cuidar do tio Iruka, manter a casa, estar sempre pronto para mais um dia de luta.
— Você não é de ferro, dobe, — O Uchiha pontuou, ficando face-à-face com o funcionário do fastfood — E é errado deixar que as pessoas pensem que é.
— Mas...
Estalando a língua, Sasuke deixou que as mãos segurassem seu rosto — uma em cada lado — e permitiu que as testas se colassem. Dessa forma, seus olhos conseguiram captar toda a luminosidade e intensidade que aquelas duas esferas azuladas produziam e, antes que percebesse, o mundo pareceu sumir ao seu redor. Importando-se apenas com Uzumaki Naruto, Sasuke garantiu que ele prestava atenção em cada palavra que diria, esforçando-se para ignorar os soluços dele, preocupando-se apenas em transmitir sua mensagem, para que ele se sentisse bem.
— Você é um ser humano, dobe. Não é a porra de um herói de um filme imbecil. — O funcionário do fastfood tentou desviar o olhar, mas Sasuke o segurou com força —Você não merece o que a merda do mundo te dá, se quer saber minha opinião.
— Eu sei que mereço o pior, Sasuke. Eu sei que podia ajudar mais o Tio Iruka, sei que podia conseguir outro serviço, fazer mais horas extras, mas... eu ando tão cansado e...
— Nem fodendo que vou permitir isso! — Trovejou, pressionando a testa do outro com a sua — Escute o que estou dizendo, idiota.
Naruto assentiu e o Uchiha suspirou.
— O que quero dizer é que você é admirável. A maioria das pessoas já teria desistido se levasse a vida como a sua e eu lamento muito a morte dos seus pais, acho que você não merecia isso. No entanto, você sabe que eu, o Itachi e a Sakura já te consideramos da família, então não vem com drama de órfão que aquela irritante reclama todo dia que sente sua vida, enquanto o Itachi falta chorar afirmando que não sabe como vai viver sem provar sua comida novamente.
Um curto sorriso despontou nos lábios do Uzumaki e o universitário ficou surpreso em como viu-se aliviado por aquilo, alegrando-se por saber que estava no caminho certo.
— Acho que, onde que que seus pais estejam, eles estão orgulhosos de você.
— Obrigado, Sasuke.
— Calado, ainda não terminei.
Bufando, o Uzumaki revirou os olhos.
— E mais importante, não se esqueça disso.
Fechando os olhos, Sasuke cedeu ao impulso que tentava lhe dominar desde o momento que o idiota de cabelos dourados tinha aberto a maldita porta, revelando que estava vivo e bem: com o coração palpitando e seu corpo acelerado pelo efeito da bebida, o Uchiha ignorou sua mente problemática e permitiu-se agir como bem queria, deixando que seus lábios roçassem levemente nos do rapaz que havia tirado seu sono no último mês. Com as pálpebras fechadas, ele fugiu de assistir qual seria a reação de Naruto, temendo que esse o afastasse e selou os lábios deles, com carinho e afeição.
Foi apenas por alguns segundos, um toque singelo e sem qualquer pretensão, mas quando se afastou levemente, Sasuke topou com os gigantes olhos azuis o encarando, em surpresa e alegria genuína. Os dois sorriram e o Uchiha pigarreou, atraindo mais ainda a atenção dele.
— Você é importante para mim, Naruto. — Confessou, deixando-se levar pela emoção.
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