O Florista de Star Hill

3 O florista e o artesão


Nem bem amanhecera e o gigante o esperava em seu jardim. Aquilo foi uma surpresa para ele. Não esperava encontrar ninguém, logo cedo, ainda mais tão próximo de suas rosas. Um “tsc” fugiu de seus lábios demonstrando o quão desagradável era aquilo. Aldebaran estava tocando em suas rosas.

- Se continuar a mexer nelas, pode ferir suas mãos. – alertou o florista.

- Não acho que elas possam causar tanta dor, caso isso aconteça...

- Eu não disse que elas é que vão feri-lo.

O estrangeiro sentiu o olhar cortante sobre si. Notou que fora longe demais.

- Perdão. Não era minha intenção chateá-lo. Não vai se repetir.

O florista nada respondeu, apenas se abaixou e remexeu a terra em volta de uma das rosas com as mãos. Aldebaran afastara-se alguns passos dele e ficou a observar.

Seus cabelos, tão dourados como os raios de Sol que começavam a brilhar, estavam presos com uma fita grossa, feita de um trapo qualquer. Mas não estava feio.

- Quê tanto me olha? – perguntou Afrodite, sem se virar. Não precisava se virar para saber que estava sendo observado.

- N-nada! É que...

- Se não é nada, então não olhe. Não gosto que me encarem.

O tom de voz de Afrodite era ríspido.

- Escute aqui – disse Aldebaran impondo-se –, eu não sei de onde vem tanto mau humor, mas eu não mereço sofrer por causa dele. Estou sendo gentil com você! Você nem mesmo agradece uma gentileza! Aprenda a ser bom com as pessoas!

- Eu já fui bom e não valeu à pena!

Eles levantavam cada vez mais a voz.

- De repente não foi o suficiente! Acho que a pessoa não suportou esse seu azedume, por isso se afastou de você!

- Eu não...!

Os olhos de Afrodite se encheram de lágrimas. Ele se levantou andou em direção a porta, mas Aldebaran o pegou pelo braço. O florista tentou puxar, mas estava sem forças.

- Por que evita falar comigo? – perguntava o gigante – Por que nem mesmo me olha? Não sou bom o suficiente para você? Será que não sou bom pra ninguém?

- Do que você está falando?

- Você não é o único desprezado nesse mundo, florista. Ao menos você é desejado...

Naquele momento, Afrodite viu a cabeça dele se abaixar e lágrimas caírem no chão; por que o magoara, afinal? Pelo o que lembrava, nunca havia sido mal tratado pelo artesão.

- Me desculpe... – foi a única coisa que saiu de sua boca.

Aldebaran ajoelhara-se aos pés de Afrodite.

- Eu não sei o que houve com você, artesão, mas deve doer muito, já que consegue derrubar um homem do seu tamanho.

- Dói tanto quanto o que aconteceu a você. É que as pessoas pensam que eu não tenho sentimentos.

Ele sentiu as mãos finas pousarem em seu rosto.

- Perdoe-me... Aldebaran.

Ele balançou a cabeça, como se dissesse “sim”. Era a primeira vez que o ouvia dizer seu nome sem desdém.

- O que te aconteceu de tão duro, que te faz chorar como criança, artesão?

Ele só levantou os olhos.

- Vamos, diga-me o que lhe aconteceu, e quem sabe conto a minha história.

- Já amou tanto uma pessoa que chegou ao ponto de abandonar tudo por esse alguém, inclusive seus amigos... Tudo! Eu amei. Amei um rapaz, que cheirava a jasmim, e que fingia ser feliz comigo. Ele amava outro. Um ser mais elevado que ele. Um homem que estava mais próximo de deus, mais que qualquer outro.

“Ele gostava de ficar comigo. Às vezes penso que não era por mal que ele o fazia. Às vezes tenho certeza que fazia de propósito, ficando perto de mim apenas quando queria algo. Ele não é má pessoa. Nem oportunista, creio eu; Acho que às vezes ele se sentia só. E o que mais me irrita é que eu não lutei por ele. No fundo eu sabia que perderia. Não era a mim que ele amava. Eu sabia. Eu sei disso, até hoje. Mas quero a felicidade dele. É isso que desejamos a quem amamos, não é? A felicidade da pessoa.”

Afrodite não esperava que o gigante fosse abrir seu coração com tamanha facilidade. Ele simplesmente contou tudo, sem se importar. Seria aquilo, então, a tal da “confiança”? Ou teria ele feito aquilo apenas para que o outro se abrisse. E o que ele ganharia por isso? Aquilo tudo era verdade, e ele sabia disso.

- Comigo foi parecido... Quem eu amava também tinha outro alguém. Mas ele nunca me deixou, nem me deixou ir. Esse alguém, que ele tanto amava, é que o levou de mim.

“Eu amei um homem. Ele era um tanto sádico, mas tinha um bom coração, bem no fundo. Eu sei disso. Aquele jeitão estúpido, que só ele tinha, mas que mesclava ao carinhoso. Era divertido, gostava de uma bebida e uma farra. Me levava para farrear com ele. Ah, como eu me arrependo de ter ido embora aquele dia e o deixado sozinho. Era uma noite quente e ele queria beber, ver gente, afinal, era um festival lindo daquele condado. Todos nos conhecíamos, ninguém tinha problemas com ninguém. Era tão perfeito. Mas, foi então que aconteceu...”

“Comecei a discutir com ele, por um motivo idiota qualquer. Tão idiota que nem me lembro mais do mesmo. Trocamos alguns socos entre nós, pois, ainda sou homem, apesar de tudo. Não aceito que levantem a mão para mim... Não aceitava, melhor dizendo. Eu o deixei com o nariz sangrando e fui embora com o olho roxo, desejando a morte dele. E, quem diria, foi ela, o maior amor da vida dele, que foi ao encontro dele. A Morte. Ele falava tanto sobre ela. Dizia tê-la encontrado em sua infância, e depois, enquanto crescia. Só sabia falar dela. Era maravilhado por ela”

“No outro dia, sentindo a falta dele, por ele não ter voltado pra casa, fui procurá-lo. Refiz o caminho da outra noite, e o encontrei. Lá estava ele, boiando na água, o rosto para baixo. Odiei-me naquele dia. Sinto ódio de mim até hoje!”

- Mas não foi culpa sua!

- Sim, foi sim! Eu o deixei sozinho, bêbado e machucado, perto do rio! Eu não podia ter feito aquilo!

Afrodite tinha as mãos trêmulas. Seu rosto estava vermelho pelo choro. Ha quanto tempo não chorava? Quando se abriu daquela forma a alguém?

Sentiu os braços do artesão envolve-lo. O contato humano, que ha tanto não tinha, o acalmava. O tempo que passaram naquele lugar foi irrelevante para Afrodite, mas o calor do Sol já o incomodava, sua pele estava apenas acostumada ao mormaço.

Ambos entraram no casebre e sentaram-se desolados.

- Percebeu que acabamos de perder um dia de trabalho por causa disso, né? – comentou Aldebaran, começando a rir.

Afrodite soltou um leve risinho. – De que importa? Hoje o dia amanheceu mais quente que o normal. As rosas murchariam mais rápido. Deixe-as aí mesmo, plantadas à sombra.

- E, o que faremos agora? Quer dizer... Não quero voltar a minha casa e ficar remoendo isso, nem quero te deixar sozinho, fazendo o mesmo. Mas não quero ser um peso durante seu dia, Afrodite.

- Você não é peso algum. É um companheiro e tanto, Aldebaran...

Afrodite tocou a mão de Aldebaran com a sua. Fez uma caricia inocente nela. Mas o toque fez os pelos do braço do artesão eriçar.

- Já andou por aquele bosque? – perguntou Aldebaran, tentando disfarçar.

- Por parte dele.

- Então você viu aquele lago mais ao fundo.

- Qual? Aquele pequeno, bem no meio?

- Não. O maior. Se você for mais em direção ao fundo, vai ver. Tudo ali cheira a terra molhada. Parece que nunca havia sido pisado por um humano.

- Até você entrar lá.

- Fui procurar matéria-prima. Venha comigo, vou te mostrar!

Antes que pudesse dizer não, Afrodite já fora levado pelos braços. Foram descalços. O chão do bosque era úmido e fresco. Uma sensação de alivio percorreu Afrodite. Quanto mais andavam, mais fresco ficava. A caminhada se tornava mais longa. Começou a pensar se Aldebaran não o atraiu para matá-lo. Mas riu da própria idéia ao ver o tal lago.

Era lindo.

A pouca luz que adentrava o local, todo cercado de árvores, refletia na água e brilhava como prata. Se olhasse bem, poderia perceber animais, que ele achava nem viver mais naquela região, olhando-os através das arvores. Mas, a única coisa que percebeu foram as costas desnudas a sua frente. Aldebaran despia-se sem pudor.

- O que está fazendo?

- Me preparando para mergulhar.

- Nu?

- Se entrar de roupa, vai sujar de tinta a água que os animais daqui bebem. Eu sei por que já aconteceu comigo. Vamos...

Aldebaran disse “vamos” e entrou na água. Afrodite observava o gigante mergulhando e molhando os cabelos longos. Olhou em volta e, a muito custo, tirou suas roupas.

O corpo alvo revelava mais músculos que Aldebaran imaginara. Apesar do rosto bonito, Afrodite se mostrava bem másculo. Mas seus movimentos ainda assim eram um tanto delicados. Não esperava menos do florista.

Afrodite foi entrando na água, pé ante pé, cobrindo com as mãos suas partes intimas. Foi mergulhando o corpo aos poucos, acostumando-se a temperatura da água.

- E então, o que achou deste lugar?

- É... divino.

Enquanto mexia os pés, Afrodite sentiu algo tocar-lhe a perna. Olhou em volta e viu vários peixes, de cores e tamanhos diferentes nadando em volta deles, sem se incomodar com a presença dos humanos. Caçavam pequenas frutas e minúsculos insetos que caíam na água.

- Relaxe... Eles não vão te fazer nada.

Os olhos azuis de Afrodite pareciam ainda mais vivos naquele lugar. Com cuidado, Aldebaran foi se aproximando dele. Deslizou suas mãos pelo rosto do florista. Pensou que haveria relutância da parte do menor, mas não houve. Ele se deixou levar pelo toque carinhoso do gigante. Foram aproximando os rostos. E então, em um leve movimento, seus lábios se tocaram. Um beijo pacífico, livre de maldades, mas que logo foi aumentando sua intensidade.

- Estamos indo muito longe, artesão... – disse Afrodite, entre beijos.

- Não estamos nem perto de onde eu quero te levar. – respondeu Aldebaran.

Notas finais
O quêêê??? Toda essa demora, pra postar só isso?Pois é -.-
Ando trabalhando demais, mas consegui esse domingo pra rever o cap e dar continuidade...
Semana que vem posto mais..,. Quero ver se faço um lemon (hohohooho)
Desculpem os erros!!! Bjos ^3^