Ambos estavam deitados na cama apertada como tinham feito nos últimos meses. O inverno chegara e pequeninos flocos de neve caíam ao redor da casa e num buraco no telhado feito por Aldebaran, que só quis consertar uma rachadura. O gigante, por várias vezes, esquecia que nem tudo suportava seu enorme corpo.

A neve que caía dentro da casa não incomodava o casal deitado aos beijos. O buraco no teto iluminava o casebre escuro, mostrando um céu turvo, iluminado por uma Lua turva.

– Vamos embora daqui? – sugeriu o artesão.

– Embora, por quê?

O florista apoiara-se no cotovelo. O taurino continuava e beijar sua mão.

– Achei que gostasse daqui, Aldebaran. É um lugar tranqüilo... Não é o melhor, mas é bom.

– Não é pelo lugar... É que nós mal conseguimos sobreviver aqui. Ninguém quer comprar nossas coisas. Eles não têm dinheiro... Vamos para uma cidade maior.

– Fazer o quê numa cidade maior, Aldebaran? Passar mais necessidades do que passamos aqui?

Os olhos de Afrodite pareciam tristes, pesarosos.

– De quê tem medo, meu amado?

– Não tenho medo.

– Então por que tanta relutância com minha idéia?

– Eu... Afrodite não tinha argumentos. — Seu olhar era distante. — Como quiser.

O florista não ficara bravo, nem magoado. Se tivesse, Aldebaran saberia. Ele poderia não ser tão transparente com a maioria, mas o artesão sabia como lê-lo.

– Vou achar um bom lugar para nós, você vai gostar.

E, dito isso, encheu seu pescoço alvo com beijos.

Em pouco tempo a noticia de que procurava nova casa, em outra cidade, se espalhara, e logo começou a chover interessados no pequeno pedaço de terra de Afrodite. O florista sentia grande pesar quando pensava em deixar aquele belo bosque para trás, com aquele adorável lago, onde ele e Aldebaran se amaram pela primeira vez. Aquele lugar era mágico. Ele não tinha como provar, mas sentia. Gostava da brisa fresca que vinha de manhã, e do vento abafado que subia a sua colina nos dias quentes. A Colina das Estrelas era um lugar maravilhoso. O céu parecia mais próximo, quase dava para tocar. Os vaga-lumes rodeavam tudo, iluminavam tudo. E as estrelas pareciam acompanhar uma melodia, brilhando uma mais que a outra. E a neve parecia um abraço gelado. E, por várias vezes, achara ter visto vultos do lado de fora em dias de neve. Não sentia medo. Lembrava-se do que seu finado amado falava e via aquilo como algo mais que respeitoso.

A única coisa que não era como queria, eram seus cultivos. Suas rosas não eram mais o que costumavam ser. Por mais que as vissem lindas, somente Afrodite as vias ainda necessitadas de beleza. Já foram mais bonitas do que são. Sabia que, principalmente suas rosas, sentiam falta da vida que levara há anos atrás. O que Afrodite nunca percebera era que suas flores refletiam seus sentimentos. Elas pareciam mais vermelhas, nos últimos meses que estivera com Aldebaran. Muito maiores e viçosas do que antes. Se havia algo mágico em Star Hill, eram os sentimentos do florista. Ele pegara aquele canto de terra tão desolado e abandonado e o transformara em sua casa. Aldebaran via isso, mas o florista não. Por isso a certeza de mudança de Aldebaran. Sabia que Afrodite seria feliz em outro lugar, se assim quisesse.

Com muito pesar no coração, Afrodite entregara a um humilde fazendeiro sua terra. Deu adeus a todo o bosque com apenas um olhar.

E, a partir daí começava seu caminho de volta a civilização, as festas, que tão bem conhecia, a sua vida social, cheia de floreios e encantos. Sempre fora convidado a festejos nas cidades. Sua beleza e sua graça encantavam o povo. Mas ele já não se sentia nem tão belo nem tão gracioso quanto era. Sua perda fizera isso a ele. Mas, seria realmente assim? Voltaria à burguesia? O tempo passara e tinha medo da mudança das pessoas. Como elas o veriam?

Aldebaran, por outro lado, só via pontos positivos: fantasiava amizades com vizinhos, uma boa casa e servir jantares em ocasiões especiais. Dizia que era isso que fazia. Mas, a realidade era que sentia falta da companhia de alguém. Gostava de ser levado por alguém, como era antes...

Entretanto, nenhum dos dois falava dessas lembranças saudosas um com o outro.

Encontrar o tal contato de Aldebaran não foi fácil. Chegar a tal cidade, tão pouco. Mas, parecia ser um lugar promissor. As pessoas olhavam curiosas para o florista e admiradas com o artesão. Os dois chegaram até a ouvir que deviam ser de algum circo. Quando finalmente encontraram o tal homem que prometera a tal casa, Afrodite sentiu um alívio sem tamanho. Queria se banhar, deixar seu corpo relaxar, depois deitar em uma cama e dormir. A viagem pela estrada de terra acabara com ele.

Mas a realidade era outra. Quando abriram a porta da tal casa, uma nuvem de poeira levantou e alguns insetos correram para debaixo dos móveis cobertos com lençóis amarelados. O artesão viu uma lagrima descendo pelo rosto de Afrodite, porém achou conveniente acreditar que era pela poeira. Se quisesse descansar em um ambiente limpo, teria de limpa-lo.

Aldebaran tratou de tirar as madeiras das janelas, abri-las e deixar o ar entrar para expulsar o cheiro de mofo do local. Tirou os sapatos e arregaçou as mangas da camisa e as barras da calça para começar o trabalho. O florista ainda pensava por onde começar. Deu um suspiro, como que se conformando com a situação, e começou a puxar lençol por lençol. Pegou as almofadas que ali estavam e as levou para fora. Bateu-as e as deixou num canto para tomar sol. Fez o mesmo que o artesão fez, tirou os sapatos e pegou uma vassoura velha. Começou a tirar o pó e as teias do teto, paredes e embaixo dos móveis. Depois foi varrendo o chão. Aldebaran vinha encharcando o chão de madeira com água e um produto de cheiro forte que Afrodite tinha certeza ser veneno. Naquele momento, Afrodite torcia apenas para as madeiras do chão não incharem.

Aquilo durara um bom tempo. Limparam absolutamente tudo da casa e arrumaram de acordo com as prioridades e necessidades deles. Ao terminarem, aquele parecia outra casa. Estava cheia de luz, com seus móveis quase negros e seus adornos dourados. O espelho trincado dava um aspecto misterioso a casa, mostrando vários cantos ao mesmo tempo. O florista gostava daquilo. Pela primeira vez desde que entrara descobrira uma coisa da qual gostou.

A água estava morna na banheira e o florista se afundava na água, deixando apenas a cabeça e os cabelos presos de fora. Seus olhos estavam bem fechados; a espuma rala o relaxava. Ele não percebera o artesão debruçado na banheira e olhando para ele. Mas o artesão percebia o perfume de rosas que ele exalava. Sentiu-se tentado a mergulhar na água rasa com o amante, mas aquela era a hora dele.

Silenciosamente, ele se levantou e foi saindo de fininho.

– Não vá – disse o florista. O artesão se voltou e viu que seus olhos estavam fechados.

Ele se voltou e sentou-se onde estava. Mergulhou o braço na água e puxou um dos pés de Afrodite. Pressionava com delicadeza e depositava beijos nele. Pegou o outro e fez o mesmo. Soltou os pés e tirou sua camisa suja. Quando abriu a calça ouviu a sineta tocar.

Era o homem que conseguira a casa para eles. Aldebaran o convidou a entrar e se sentar. O florista ouvia tudo de seu aposento. Resolveu esperar mais um pouco, na esperança que ele voltasse. Mas o pouco se tornou muito e a água já estava esfriando. Saiu e se enrolou em suas toalhas. Sentou-se na cama nova, que rangia a cada movimento. Esperou mais e sentiu seu corpo esfriar. Pegou suas vestes que estavam em cima da cama e as colocou, puxou o lençol antigo que trazia já de outras mudanças e se cobriu. Não estava disposto a esperar mais.

– Você disse ser artesão, não é?

– Sim.

– Todos os dias há uma feira aqui. Se quiser começar a vender algo, tente faze-lo para os vendedores de grãos e sementes. Eles sempre precisam de bacias, baldes e o diabo a quatro, para manter aquele monte de porcaria. Enfim... é apenas um conselho que estou lhe dando.

– E vou segui-lo. Muito obrigado! – disse de forma simpática.

Ficaram conversando durante um tempo. Tirar dúvidas sobre as cidades e os habitantes dela era essencial, sem contar que aquele senhor era uma boa companhia. Mas esquecera-se de Afrodite, e quando o homem foi embora e ele decidiu voltar para o amante, já era tarde. O florista estava dormindo como uma criança que brincara o dia todo. Sua perna estava caída para fora da cama e o artesão a levantou. Cobriu-o com todo zelo que tinha e beijou sua testa. Esperou para ver se ele o chamava, mas desta vez só pode ouvir a respiração dele, nada mais.

A manhã seguinte começou de forma confusa para Afrodite. Ele demorou a se lembrar de que já não morava em Star Hill. Sentiu um pesar no coração, mas não tão grande quanto o da partida. Mesmo assim, se levantou e arrumou e seguiu pela casa. Foi para o quintal. Havia um belo espaço sem nada. Estava descalço e andou até o local. A terra era macia e úmida. Abaixou-se e encheu a mão com ela.

– Perfeita.

Viu Aldebaran dando um acabamento em um pequeno jarro, sentado num canto sob a sombra de uma jovem árvore.

– Para quem você fez?

– Para a banca de grãos. Enquanto você dormia, eu fui até lá e ofereci. Ele pediu de vários tamanhos.

– Quais tipos de grãos eles vendem? Por acaso teria sementes de flores?

– Têm. Mas, você não tem as suas?

– Tenho, mas é sempre bom ter uma variedade maior. – disse, sentando-se ao lado do artesão.

– Já estão prontos?

– Amanhã vão estar.

– Me diga uma coisa... Vai usar aquele pedaço de terra?

O gigante sorriu.

– Não. Pode ficar a vontade pra usar.

Ele sabia que aquelas perguntas do florista não eram à toa. Afrodite se distraiu com o trabalho do artesão e não o viu reclinar-se sobre si. Só sentiu o beijo dele repousar no canto de sua boca.

– Você está louco? Não estamos mais em minha casa. Aqui podem nos ver.

– Que vejam.

– Já viu o que fazem com homens como nós? Não quero que aconteça comigo.

– Olhe a sua volta. Não há ninguém aqui por perto, só nós.

O florista olhou em volta e constatou o que ele dissera. Passou a mão pelo rosto largo do artesão e deu-lhe um beijo carinhoso nos lábios.

– Não abusemos da sorte.

Na mesma noite, como combinado, o artesão entregou os vasos terminados ao comerciante. Dessa forma, sua primeira parceria naquele lugar já estava feita.

Andar naquela cidade, tão iluminada a noite, trazia boas lembranças a ambos. Estavam consideravelmente bem vestidos, para quem acabara de vir do campo. Suas roupas já tinham certo tempo, mas não perderam a classe. Seus cabelos amarrados para trás num laço frouxo, mas bonitos. Mesmo tão diferentes de tudo e de todos, eles conseguiam se misturar às pessoas. Só eram vistos por quem realmente prestava atenção no que queriam. E alguém os vira. Mas prestava atenção em somente um deles.

Notas finais
Capítulo corrido, né?! Ando lendo muitos romances policiais, onde tudo acontece rápido demais, sem contar filmes... Mas o importante é que eu postei, e resolvi prolongar o final da fic colocando mais uns capítulos dramáticos nele... Até o próximo cap. Bjos ^3^