O Florista de Star Hill
6 O engolidor de espadas
Notas iniciais
Deu um impulso para frente, como que querendo seguir até onde eles estavam, mas algo o segurou, ou melhor, alguém. Sentiu as mãos quentes segurarem a sua, então recuou. Seus pensamentos voltaram ao lugar, mas sua vontade de ir até lá, não. Mesmo assim se conteve.
O florista olhava ao redor, maravilhado. Há quanto tempo não tinha uma noite como aquela? Cheia de pessoas falando e rindo, sem caretas invocadas e as luzes das lamparinas queimando a óleo. Percebeu que se esquecera de Star Hill. Não sabia mais o que sentia quanto àquele lugar. Mas este pensamento se afastou de sua mente quando viu músicos na rua. Seu sorriso cresceu nos lábios. Agarrou-se a um doa braços de Aldebaran, esquecendo-se até das pessoas ao redor. O circo chegava à cidade.
– Que sorte a nossa! Ver o espetáculo chegando logo agora que chegamos!
– Há anos eu não via o circo!
O artesão a vira os olhos do florista brilhando, mas nunca brilhando como os de uma criança. Ele se admirava com os contorcionistas, Milo e Hyoga, seus olhos viajavam pelos gêmeos que brincavam com o fogo, e levou um breve susto com um pulo de uma das trapezistas que usava uma máscara sorridente. Fora proposital, mas ousado da parte dela. Mas, seu espanto foi com Shura, o Engolidor de Espadas. Já vira engolidor de espadas antes, mas nunca nenhum manuseando aquele modelo. Era diferente. Parecia ser mortal. Seu fascínio só aumentava. Ouvia o narrador cantando os nomes de todos eles, a banda causando a sonoridade dos eventos e as palmas e gritinhos, todos tão surpreendidos quanto ele. Mas todo aquele alvoroço foi breve. O florista olhava o espetáculo se distanciar. Sabia que eles se instalariam em algum lugar por ali e iria ver tal show.
Em casa, finalmente, o florista deitou-se na cama ao lado da de Aldebaran. Seu coração ainda pulava quando pensava no circo. Não sabia o motivo de tamanha fascinação, porém, aquilo o deixava em total maravilha. O artesão percebera isso. Ele próprio não sentia tanta empolgação, mas se empolgava pelo companheiro.
– Afrodite...? – perguntou, olhando a cama ao lado.
– Sim...
– O que desse circo te fez tão feliz?
– Me lembra minha infância, onde tudo era novo... Não te recorda da sua assim?
– Sim, me recordo de minha infância, entretanto, talvez não como a sua.
Estendeu a mão para Afrodite que enlaçou seus dedos aos de Aldebaran. Então, como se acordasse de um sonho, aquela euforia sumira e um frio em sua barriga surgiu. Levantou-se em um pulo e deitou-se na cama do artesão. O abraço que recebeu foi quente e o corpo dele foi como um mar de conforto. Ouvir o coração dele tão junto do seu era acalentador. As mãos firmes do artesão o puxaram até ficarem cara a cara e o beijo foi inevitável.
Afrodite acordou na manhã seguinte sentindo uma brisa abafada tocar seu corpo. Percebeu que estava nu. Sentiu o braço forte de Aldebaran lhe agarrar o corpo, mas este estava dormindo ainda. Passou um dos braços por cima da cabeça dele e acariciou seus cabelos lisos. Os fios grossos eram enrolados nos dedos delicados, as unhas finas roçavam a cabeça dele provocando leves cócegas que fazia o gigante resmungar algo durante o sono. Afrodite rira de leve com a cena. Voltou sua atenção para a janela semi-aberta. Alguns pingos de chuva começavam a cair do lado de fora. Desvencilhou-se do abraço do gigante, vestiu-se com um roupão apenas e abriu a janela de vez. O céu estava nublado, mas ainda assim estava claro. Debruçou-se sobre o para-peito e ficou observando o movimento da rua. Viu, ao longe, uma tenda colorida sendo levantada. Era a do circo. Novamente a euforia tomara conta dele. Fechou os olhos e respirou fundo para tentar esquecer todos os pensamentos que agora tomavam conta de sua mente. Ao abri-los novamente percebeu que não funcionou. Entrou correndo e fechou a janela. Aldebaran. Era com ele que sua ansiedade ia embora. Mas não foi. Não dessa vez. Num impulso impensado Afrodite se vestiu e saiu em direção ao circo. O florista viu algo que mexeu com ele e precisava colocar aquilo em ordem.
Suas roupas estavam amarrotadas e mal vestidas. Nem seus cabelos estavam escovados. Mas estava longe de estar feio. Ao chegar ao local em que o circo se instalara, ele começou a procurar a pessoa que lhe interessava. Via todos trabalhando de um lado para o outro, montando suas pequenas barracas com bugigangas e porcarias, mascaras e brinquedos, aberrações e maravilhas. E uma dessas aberrações era ele. O engolidor de espadas. Correu até ele.
O engolidor de espadas percebeu que estava sendo observado e, não gostando nem um pouco, virou-se e disse:
– Hoje à noite o circo estará aberto. Se quiser ver algo, pague sua entrada!
Seu sotaque provava que era de longe. Seus olhos passavam longe do florista, desinteressados na pessoa ali parada. Ele afiava a espada, ou pelo menos parecia fazê-lo.
– Não vim ver nada. Não agora. Vim tirar uma dúvida.
– Se quiser entrar para o circo, tem que falar com Camus. É ele quem cuida de contratações.
– Não vim para isso, também.
– Então, para quê?
Agora os olhos dele passeavam pelo rosto do florista. Parecia reconhecê-lo da noite passada. Impossível não reconhecer.
– Você tem... Tinha um irmão, não é? De criação. Ambos órfãos. Estou errado?
– Como você sabe?
– Seu irmão tinha um companheiro, não tinha?
O circense se calou. Sentiu a boca secar. Uma veia em sua cabeça começou a saltar.
– Era o Giovanni, não era? Não era? Me responda! – gritou o florista, mostrando impaciência.
– Sim... E o que você tem com isso?
– Era eu o companheiro dele...
O florista abaixou a cabeça e se entregou ao choro.
– Eu sei... Ele me mandou alguns desenhos...
– Vocês eram muito chegados? – perguntou, tentando enxugar os olhos.
– Não mais depois que ele te conheceu.
Afrodite deu um longo suspiro e soltou um murmúrio que somente o circense ouviu:
–... Sinto muito...
E foi embora o deixando sozinho em sua arena.
–x-
– O que houve? – perguntou Aldebaran ao ver Afrodite entrando na casa aos prantos.
– Nada...
Ele subiu as escadas e se trancou no quarto. O artesão ficou sem reação. Queria ir até lá e perguntar o que houve, mas sentia que devia deixar o parceiro sozinho por um tempo.
Horas depois, Aldebaran abriu a porta vagarosamente. O florista estava deitado na cama. Parecia estar dormindo, e estava. O artesão chegou mais perto ainda e o ajeitou no colchão. Assustou-se quando ele acordou.
– Se sente bem? – perguntou Aldebaran, aproximando sua mão do rosto dele.
Ele demorou a responder
– Sim, acho que sim... Perdão por ter entrado daquela forma. Não era minha intenção ser rude.
– Você todo o direito de agir como agiu. Estava claramente em seu rosto que acontecera algo. Se eu puder ajudar, me chame. Se quiser que eu não me intrometa, apenas avise.
– Hm... Eu acho que esse problema já está terminado.
Ele olhava para a janela, o olhar distante.
– Que bom. – sorriu o artesão.
Mas Afrodite sabia que não estava. Podia sentir o medo de se levantar e tocar sua vida. Sentia-se culpado de estar vivo. E encontrar o irmão de seu falecido companheiro despertara, novamente, essa sensação que há meses não tinha.
Do lado de fora da casa, Aldebaran trabalhava em seus artesanatos. Agora, além de fabricar seus costumeiros jarros e vasilhas, ele também tinha que fazer mesas. Sabia como fazê-las, mas não era fácil. Mas ele mesmo se oferecera para fazer o trabalho, então teria de dar o máximo de si.
Enquanto trabalhava não percebera os olhos o observando. Mas olhou quando a porta de madeira dos fundos se abriu.
– Mu?
Fale com o autor