O Filho do Mar e o Menino-Que-Sobreviveu
2 Uma Cidade para Dois Irmãos
Durante as primeiras semanas, Sally aprendeu que duas crianças quase da mesma idade conseguiam conspirar contra o sono sem precisar combinar nada.
Harry acordava quando Percy finalmente dormia.
Percy decidia que três da manhã era um horário perfeitamente razoável para exigir leite quando Harry acabara de fechar os olhos.
Harry chorava porque estava com calor.
Percy chorava porque Harry estava chorando.
Quando um dos dois adoecia, Sally passava vinte e quatro horas observando o outro à espera dos mesmos sintomas. Quando ambos adoeciam, deixava de medir o tempo em dias e começava a medi-lo em mamadeiras, panos úmidos, remédios, fraldas e intervalos de vinte minutos em que ninguém gritava.
Em dezembro daquele ano, ela adormeceu sentada no chão da cozinha. Não teve intenção de dormir ali.
Só se sentara por um instante porque Harry finalmente aceitara o jantar, Percy resolvera que uma colher deveria ser lançada para debaixo da geladeira e Sally precisara escolher qual emergência doméstica merecia prioridade.
Lembrava-se de ter recuperado a colher, de ter encostado as costas no armário, e depois acordou com alguma coisa puxando seu cabelo.
Abriu os olhos.
Percy estava diante dela, segurando uma mecha castanha com fascínio científico. Harry estava sentado ao lado dele, mordendo o próprio cobertor. Os dois a observavam.
— Vocês estão planejando alguma coisa — murmurou Sally.
Percy sorriu, e Harry também.
Era uma acusação sem provas.
Ainda assim, Sally desconfiou.
***
Havia contas. Isso pareceu quase ofensivo.
James e Lily estavam mortos, Harry tinha uma cicatriz na testa que ninguém conseguira explicar direito, Sirius desaparecera da vida de todos numa sequência de acontecimentos que Sally ainda não conseguia organizar dentro da cabeça, e mesmo assim aluguel continuava vencendo.
O supermercado continuava cobrando por comida, crianças cresciam e roupas deixavam de servir, consultas médicas precisavam ser marcadas, e o trabalho não se importava com tragédias antigas do outro lado do oceano.
A vida insistia em continuar através de coisas pequenas, e Sally descobriu, com certo espanto, que isso ajudava.
Não era possível passar uma manhã inteira pensando em Lily quando Percy resolvera derrubar cereal no chão e Harry aprendera que conseguia abrir um armário baixo. Não era possível afundar completamente no luto quando alguém precisava tomar banho. As crianças não lhe permitiam transformar tristeza em profissão. E, sem jamais compreenderem o que estavam fazendo, puxavam Sally de volta ao mundo todos os dias.
Harry não era tratado como visitante, mas também não era tratado como relíquia.
Sally não diminuía a voz ao falar com ele porque seus pais tinham morrido. Não permitia que Percy arrancasse brinquedos de suas mãos porque Harry “já tinha passado por muita coisa”. Também não permitia que Harry escapasse de broncas comuns usando olhos grandes e verdes que, às vezes, lembravam Lily de maneira quase cruel.
Ele comia com Percy, dormia perto de Percy, era levado às mesmas consultas. Ganhava roupas, sapatos, brinquedos e resfriados. Fazia birra e aprendia palavras. Caía e levantava. Quando chorava, Sally o pegava no colo. Quando Percy chorava, fazia o mesmo. Quando os dois choravam ao mesmo tempo, fazia o possível e considerava seriamente desenvolver um terceiro braço.
James e Lily não desapareceram do apartamento. Isso Sally recusou-se a permitir.
As fotografias permaneceram. Algumas ficavam em caixas guardadas no alto do armário. Outras apareciam nas estantes e paredes conforme Sally descobria quais conseguia encarar todos os dias sem perder o ar.
Em uma delas, Lily segurava Percy. Sally segurava Harry. James estava atrás das duas, inclinado para caber no enquadramento. Ao lado dele havia Sirius, meio virado para alguém fora da fotografia, como se tivesse sido capturado entre uma piada e a resposta.
Durante muito tempo, Sally não conseguiu guardar aquela foto. Também não conseguiu jogá-la fora, e por isso ela permanecia dentro de uma gaveta.
Uma solução provisória que duraria anos.
Antes de completar dois anos, Harry descobriu panelas.
Foi um erro coletivo.
Sally estava preparando alguma coisa no fogão quando ouviu o armário inferior abrir.
Olhou por cima do ombro. Harry estava agachado diante dele, examinando o conteúdo com seriedade.
— Harry.
Ele olhou para ela.
— Não tira nada daí.
Harry tornou a olhar para o armário. Sally conhecia aquela expressão.
— Harry.
O menino retirou uma panela.
— Eu acabei de...
E Harry colocou a panela na cabeça.
Ela era grande demais, desceu até quase cobrir seus olhos.
Sally ficou em silêncio.
Por trás dela, Percy viu, e seu rosto se iluminou.
Isso deveria ter sido o aviso.
Percy atravessou a cozinha com passos rápidos e inseguros, encontrou uma colher de pau caída perto de uma cadeira e ergueu-a.
— Percy, não...
TONG.
Harry ficou completamente imóvel, e Percy também.
A panela vibrava na cabeça de Harry, e Sally levou uma mão à boca.
Harry ergueu lentamente a panela até conseguir enxergar, e olhou para Percy, que começou a rir.
Era uma gargalhada tão completa, tão satisfeita com a própria descoberta, que ele precisou apoiar uma mão na cadeira.
Harry não riu, mas Percy bateu outra vez.
TONG.
— Percy!
Harry arrancou a panela da cabeça, e Percy deu um passo para trás, ainda rindo. Harry estendeu a mão para a colher.
— Não — disse Sally.
Os dois ignoraram.
Depois de uma luta curta e surpreendentemente determinada, Harry conquistou a colher.
Percy parou de rir, e Harry ergueu a panela.
Sally percebeu tarde demais.
— Nem pensa—
Harry colocou a panela na cabeça de Percy.
TONG.
O silêncio foi imediato.
Percy ficou parado, profundamente ofendido, e Harry começou a rir.
Sally fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, Percy tentava recuperar a colher, Harry puxava para o outro lado e a panela tinha caído no chão.
— Certo. Acabou a banda.
Ela atravessou a cozinha, confiscou a colher de uma mão e a panela da outra.
Harry protestou, e Percy protestou mais alto.
— Vocês dois estão brigando por coisas que pertencem a mim.
Isso não pareceu sensibilizar ninguém.
Mais tarde, olhando uma fotografia que tirara segundos antes do primeiro TONG, Sally pensou que nenhuma pessoa no mundo jamais adivinharia o caos ocorrido logo depois.
Na foto, Harry aparecia com a panela torta na cabeça, e Percy segurava a colher de pau, os dois pareciam inocentes. Era uma falsificação histórica.
Sally guardou a fotografia mesmo assim.
No último dia de julho do ano seguinte, Sally acordou antes das crianças, e ficou deitada por alguns segundos, olhando o teto.
Harry fazia dois anos.
Era uma data simples, mas também não era.
Levantou-se sem acender todas as luzes e foi até a pequena estante da sala.
Havia uma fotografia de James, Lily e Harry ali.
Harry era bebê. James o segurava com um braço enquanto Lily tentava ajeitar o gorro minúsculo na cabeça do filho. James sorria para a câmera. Lily não; estava olhando para Harry.
Sally tocou a moldura.
— Dois anos — murmurou.
A mulher da fotografia continuou olhando para o filho.
Havia dias em que Sally ainda queria ficar zangada com Lily. A raiva não era racional, era uma raiva de irmã.
Você deveria estar aqui.
Você deveria estar fazendo isso.
Você deveria estar reclamando que James comprou um presente barulhento demais. Deveria estar brigando comigo por causa do bolo. Deveria estar escolhendo roupas e tirando fotos horríveis dele.
Não deveria ter me deixado esta parte.
Sally respirou fundo.
— Eu sei.
Lily não tinha escolhido deixá-la, e isso era o pior.
Sally beijou dois dedos e os encostou na moldura antes de começar o café da manhã.
A festa foi pequena porque festas para crianças de dois anos existiam principalmente para adultos criarem lembranças que as crianças não guardariam.
Havia algumas decorações improvisadas. Dois presentes, e um bolo.
Percy ficou ofendido porque os presentes não eram dele.
— Seu aniversário é daqui a algumas semanas — explicou Sally.
Percy apontou para a caixa maior.
— Meu.
— Não.
— Meu.
Harry, aparentemente preocupado com a possibilidade de o argumento funcionar, abraçou a caixa.
— Ha-y.
— Isso mesmo. Do Harry.
Percy cruzou os braços, e Sally achou que a crise estava controlada.
Então trouxe o bolo. Harry observou as duas velas.
Sally cantou. Percy tentou ajudar, embora conhecesse aproximadamente três sons da melodia e nenhum deles na ordem correta.
Harry conseguiu apagar uma vela, enquanto Percy apagou a outra. E Sally decidiu que aquilo ainda contava como cooperação familiar.
— Espera eu cortar.
Harry enfiou o dedo na cobertura.
— Harry.
Ele lambeu, e Percy observou.
Sally viu exatamente o instante em que uma conclusão foi formada.
— Percy, não.
O dedo de Percy entrou no bolo.
— Por que eu ainda falo?
Harry puxou o prato na própria direção, e Percy tentou alcançar o mesmo pedaço. Harry empurrou a mão dele, mas Percy insistiu, até que Harry passou cobertura no rosto do irmão, e o apartamento ficou em silêncio.
Sally apontou para Harry.
— Não.
Percy colocou a mão inteira no bolo.
— Percy!
Ele passou glacê no cabelo de Harry.
Dois minutos depois, havia bolo em lugares onde bolo não deveria estar.
Sally tentava limpar Harry com um pano enquanto Percy circulava a mesa buscando acesso a uma nova área da sobremesa.
— Fica parado.
Harry virou o rosto.
— Harry.
Percy apareceu pelo outro lado.
— Nem pense nisso.
Percy pensou, e Harry tentou escapar.
Sally segurou-o pela cintura e o levantou.
— Chega.
Harry protestou, estendendo a mão na direção do bolo.
— Você já comeu metade da cobertura com os dedos.
Harry se contorceu.
— Mamãe — disse Harry.
Sally parou. Não havia solenidade na voz, nenhuma consciência de que dissera alguma coisa nova. Harry apenas queria descer.
— Mamãe.
Dessa vez, apontou para a mesa, e Sally olhou para ele.
Verdes.
Os olhos eram verdes, a testa ainda carregava a cicatriz, e o cabelo parecia absolutamente determinado a jamais obedecer a pente algum.
— É — respondeu ela.
A voz saiu um pouco diferente, e Harry franziu a testa. Sally percebeu que estava prestes a assustá-lo se transformasse aquilo em alguma coisa grande demais, e por isso apenas beijou a bochecha suja de cobertura.
— Sou eu. E você continua sem poder voltar para o bolo.
Harry pareceu considerar isso uma traição. Atrás dela, Percy conseguiu alcançar a cobertura outra vez.
— Percy!
O momento acabou porque precisava acabar, mas a vida continuou.
Mais tarde, Sally colocou os dois lado a lado e tirou uma fotografia antes do banho.
Harry tinha glacê no nariz, Percy tinha no cabelo.
Nenhum dos dois parecia arrependido.
Sally colou a fotografia num álbum.
Na página anterior havia James e Lily com Harry.
Não precisou retirar uma imagem para criar espaço para a outra.
***
As primeiras coisas impossíveis começaram pequenas.
Tão pequenas que Harry e Percy demoraram a perceber que deveriam considerá-las impossíveis.
Uma porta trancada abria quando Harry estava desesperado para atravessá-la, um brinquedo colocado no alto de uma estante aparecia no chão sem que ninguém soubesse explicar como.
Uma vez, Harry ficou tão irritado porque Percy havia rasgado acidentalmente um desenho seu que os pedaços de papel se ergueram da mesa e grudaram novamente.
Tortos, mas grudaram.
Os dois ficaram olhando, e Percy foi o primeiro a falar:
— Você fez isso.
Harry encarou o desenho.
— Não fiz — Harry rebateu.
— Fez — Percy insistiu.
— Não fiz.
— Eu vi.
— Você rasgou.
— Sem querer!
— E depois consertou?
Percy ficou em silêncio.
— Não.
Harry também.
Sally entrou na sala, e os dois se viraram para ela. Harry segurava o papel remendado, e Percy apontava para o irmão.
— Foi ele — disse Percy.
Sally observou o desenho, depois Harry, depois Percy.
— Alguém se machucou? — ela perguntou.
— Não.
— Alguma coisa pegou fogo?
Os dois pensaram.
— Não — respondeu Harry.
— Então respirem.
Harry piscou.
— Você não está brava? — perguntou Harry.
— Por quê?
— Porquê… aconteceu.
Sally se ajoelhou diante dele. Conhecia aquela sensação. Conhecia a infância em que alguma coisa respondia a emoções antes que a criança soubesse explicar o que estava fazendo.
— Algumas coisas acontecem quando vocês ficam assustados ou zangados. Isso não significa que fizeram por querer.
Harry olhou para o desenho.
— Isso é normal?
Sally hesitou apenas um instante.
— Para vocês, pode ser.
Percy pareceu gostar especialmente da resposta. Já Harry demorou mais, mas depois assentiu, e voltou a reclamar que Percy tinha rasgado o desenho.
Sally considerou isso um sucesso.
Com Percy, era diferente, mas mão sempre.
Às vezes os mesmos tipos de coisas aconteciam ao redor dos dois.
Um objeto fora de alcance, uma lâmpada piscando ou uma janela que se abria sozinha num momento de irritação. Mas havia outras situações que deixavam Sally parada por tempo demais.
A primeira aconteceu numa piscina.
Percy tinha cinco anos.
Harry estava sentado na borda, chutando água na direção dele.
Sally conversava com outra mãe quando percebeu que Percy havia desaparecido da superfície. Virou-se, e esperou um segundo.
Dois.
Três.
E entrou na água.
— Percy!
Harry apontou.
— Ele está ali.
Sally mergulhou. Percy estava no fundo da piscina, sentado e com os olhos abertos, parecia perfeitamente confortável.
Quando a viu, sorriu.
Sally o puxou para cima, e Percy emergiu confuso.
— Mãe!
— O que você estava fazendo?
— Vendo embaixo.
— Você estava lá havia tempo demais.
Percy olhou para Harry, que deu de ombros.
— Eu contei até quarenta e sete — disse Harry.
— Você contou o quê? — Sally indagou.
— Ele disse que conseguia.
Sally fechou os olhos.
— Claro que disse.
Percy enxugou o rosto.
— Eu conseguia — justificou Percy.
O cabelo dele estava molhado, e sua respiração estava normal. Normal demais.
Sally olhou para a água escorrendo pelos braços do filho, algumas gotas pareciam hesitar antes de cair.
Ela respirou devagar.
— Muito bem. Nova regra.
Percy fez uma careta.
— Toda vez que você começa assim, vem uma regra ruim — Percy reclamou.
— Ninguém fica no fundo da piscina até quarenta e sete.
— Mas...
— Principalmente para provar alguma coisa ao irmão.
Harry tentou parecer inocente, e Sally apontou para ele.
— E você não incentiva — ela disse.
— Eu só contei — Harry tentou se defender.
— Você sempre “só” alguma coisa.
Percy riu, e Harry empurrou água nele com o pé. Percy revidou.
Para os dois, o assunto terminou.
Para Sally, não.
Anos depois, eles chamariam tudo aquilo de coisas estranhas.
Era a categoria mais eficiente.
Harry acordara no telhado baixo de um depósito da escola sem saber como chegara lá?
Coisa estranha.
Percy ficara furioso numa tarde e a água dos copos na mesa começara a tremer?
Coisa estranha.
Uma bola que deveria ter quebrado a janela mudara de direção no último instante?
Coisa estranha.
Uma tempestade começara quase ao mesmo tempo que Percy tivera uma das piores crises de raiva de sua infância?
Possivelmente coincidência.
Sally não acreditava em coincidências com tanta facilidade.
Os meninos, sim.
Principalmente quando a alternativa exigia terminar o dever de casa e pensar.
***
No ano 2000, Harry e Percy passaram onze horas e vinte e três minutos sem se falar.
Sally sabia o tempo exato porque considerou aquele o período mais silencioso vivido em sua casa desde 1993.
A discussão começou por causa de uma fita de vídeo. Depois mudou de assunto quatro vezes, e, em algum ponto, tornou-se sobre Percy ter usado uma camiseta de Harry sem pedir.
Depois sobre Harry ter escondido um caderno, depois sobre quem tinha quebrado um controle três meses antes, e, por fim, nenhum dos dois lembrava do motivo inicial, mas ambos estavam comprometidos demais com a raiva para admitir.
— Não vou falar com ele — anunciou Percy durante o café da manhã.
Harry, sentado do outro lado da mesa, passou geleia no pão.
— Ótimo — disse Harry.
— Nem ouvi.
— Você respondeu.
— Respondi pra mãe — retrucou Percy.
Sally tomou café, e Harry ergueu os olhos.
— Você estava olhando pra mim — Harry constatou.
— Eu estava olhando pra parede — Percy disse em resposta.
— Eu não sou uma parede.
— Você tem quase a mesma inteligência.
Harry largou a faca.
— Mãe.
Sally ergueu uma mão.
— Não fui eu que comecei uma guerra antes das oito da manhã.
— Foi ele.
— Não falei com você — disse Percy.
— Acabou de falar.
Percy ficou furioso por ter caído na armadilha.
Sally bebeu outro gole de café. Às vezes a maternidade consistia em saber quando não interferir.
À tarde, eles ainda não conversavam.
Percy assistia televisão. Harry lia no chão da sala, de costas para o sofá.
A distância entre os dois era deliberadamente maior do que o tamanho do apartamento justificava.
Sally saiu para comprar pão, e voltou vinte minutos depois.
Encontrou Percy em cima de uma cadeira. Harry segurava a cadeira.
— O que está acontecendo?
Os dois congelaram. Percy apontou para o alto do armário.
— A bola caiu.
Harry corrigiu:
— Ele jogou.
— Você disse que conseguia acertar.
— Não falei pra você jogar dentro de casa.
— Falou que eu não conseguia.
— Isso não é a mesma coisa.
Sally cruzou os braços.
— Vocês voltaram a se falar.
Silêncio.
Percy olhou para Harry.
Harry olhou para Percy.
— Só pra resolver isso — disse Harry.
— Situação emergencial — acrescentou Percy.
— Entendi.
Sally pegou a bola no alto do armário sem usar a cadeira, e entregou a Harry.
— Continuem a guerra.
Cinco minutos depois, ouviu os dois discutindo sobre qual filme assistir.
Aparentemente, a paz tinha sido assinada sem documentação oficial.
Eles conheciam um ao outro por coisas que não apareceriam em fotografia nenhuma.
Harry sabia que Percy mentia mal quando tentava parecer sério demais. Percy sabia que Harry ficava mais quieto, não mais barulhento, quando estava realmente assustado.
Harry sabia que Percy roubava batatas de seu prato porque considerava as próprias insuficientes mesmo quando as porções eram idênticas. Percy sabia exatamente quanto tempo podia provocar Harry antes que o silêncio do irmão significasse que ele passara do limite.
Era um conhecimento acumulado em manhãs, corredores, camas desarrumadas, ônibus escolares, broncas compartilhadas e milhares de pequenas conversas.
Não havia nada heroico nisso.
Era justamente por isso que importava.
Harry tinha oito anos quando começou a perceber que as fotografias não respondiam a todas as perguntas.
Sabia quem James e Lily eram. Sally nunca escondera isso.
— Seus pais — dissera desde que ele tinha idade suficiente para perguntar.
Havia histórias também.
James odiava perder, Lily lia até tarde quando queria terminar um livro. James fazia panquecas horríveis, Lily conseguia ficar muito mais assustadora quando falava baixo do que quando gritava.
Os dois amavam Harry.
Essa parte Sally repetia sem hesitação, mas havia fronteiras.
Harry começou a identificá-las.
Uma noite, encontrou Sally organizando uma caixa de fotografias. Sentou-se no chão ao lado dela.
Percy veio logo depois, atraído menos pelas fotos e mais pela possibilidade de descobrir alguma coisa que Harry descobrisse primeiro.
Harry puxou uma fotografia.
— Essa é minha mãe.
— É.
Lily aparecia sorrindo para a câmera, James estava ao lado.
Harry reconheceu os dois de imediato.
Havia outras duas pessoas na foto. Uma delas era Sally, mais jovem, a outra era um homem de cabelos escuros.
Harry tocou a imagem.
— Quem é ele?
Sally parou, e Percy percebeu antes mesmo de Harry.
— Você fez aquela cara — disse Percy.
Sally olhou para ele.
— Que cara?
— Aquela.
— Excelente descrição.
Percy apontou.
— A cara que você faz quando vai dizer que conta depois.
Harry tornou a olhar para a fotografia.
— Quem é? — Harry perguntou novamente.
Sally levou alguns segundos para responder.
— Alguém que conhecemos na Inglaterra.
— Amigo do meu pai?
— Era.
Harry notou o passado.
— Era?
Sally pegou outra foto da caixa.
— É uma história complicada.
Percy fez uma expressão triunfante.
— Falei.
Harry não sorriu.
— Ele morreu?
Sally parou novamente.
— Não.
— Então por que você fala dele como se tivesse?
Sally fechou a caixa. Não abruptamente, mas fechou.
— Porque algumas pessoas podem sair da nossa vida sem morrer.
Harry olhou para ela. Havia alguma coisa no rosto de Sally que dizia para não insistir.
Ele conhecia aquela expressão. Não gostava dela, mas conhecia, e Percy também.
Pela primeira vez, Harry começou a compreender que o silêncio dos adultos tinha formatos diferentes.
Alguns meses depois, foi Percy quem perguntou.
— Meu pai está vivo?
A pergunta surgiu durante o jantar.
Sally estava levando o garfo à boca, e parou no meio do movimento.
Harry olhou primeiro para Percy, depois para ela.
— Está — respondeu Sally.
Percy mexeu na comida.
— Então por que ele não mora aqui?
Sally colocou o garfo no prato.
Harry conhecia aquela pausa.
Dessa vez era outra fotografia.
Outro silêncio.
— Porque não pode.
Percy ergueu a cabeça.
— Não pode ou não quer?
Sally respirou fundo.
— Percy…
— É diferente.
— Eu sei que é.
— Então qual?
Harry tentou não olhar diretamente para a mãe, era uma habilidade que desenvolvera. Adultos às vezes diziam mais quando achavam que não estavam sendo observados.
Sally apoiou os braços na mesa.
— Seu pai não foi embora simplesmente porque não queria você.
Percy ficou quieto.
— Isso não responde.
— Não completamente.
— Você sabe quem ele é.
— Sei.
— Harry sabe quem os pais dele eram.
Harry se mexeu na cadeira.
Sally olhou para ele antes de direcionar a Percy.
— E há coisas sobre os pais de Harry que ele também não sabe.
— Isso não é justo.
— Não. Provavelmente não é — Sally admitiu.
Percy pareceu surpreso. Sally raramente concordava quando ele usava “não é justo” como argumento.
— Então conta.
— Ainda não.
Percy empurrou o prato.
— Você sempre fala isso.
— Porque há coisas que vocês precisam ser mais velhos para entender.
— A gente sempre vai ser mais novo do que você.
Harry quase sorriu.
Sally fechou os olhos por um instante.
— Tecnicamente correto. Ainda assim, não muda minha resposta.
Percy se levantou.
— Não estou com fome.
— Você estava cinco segundos atrás.
— Agora não estou.
Saiu da cozinha, e Harry ficou olhando para o corredor.
— Vai falar com ele?
Sally soltou o ar.
— Daqui a pouco.
Harry mexeu no próprio prato.
— Meu pai e minha mãe morreram juntos?
A pergunta atingiu Sally de um modo menos inesperado, mas não menos doloroso.
— Sim.
— Eu estava lá?
Sally olhou para a cicatriz que desaparecia em parte sob o cabelo dele.
— Estava.
Harry esperou.
— Foi um acidente?
Sally demorou um pouco mais dessa vez.
— Não.
Harry ergueu os olhos.
— Então o que aconteceu?
Sally sentiu o peso exato daquilo que ainda não podia abrir.
— Eles morreram protegendo você.
Era verdade, mas não era toda a verdade.
— De quê?
— Harry…
Ele baixou o olhar.
— Quando eu for mais velho — ele disse.
Sally sentiu o fracasso na frase antes mesmo de terminá-la.
Harry assentiu.
Não discutiu.
Isso doeu mais.
Naquela noite, Percy estava sentado perto da janela quando Harry entrou no quarto.
— Mãe mandou você vir? — Percy perguntou.
— Não.
— Mentira.
Harry se apoiou na porta.
— Ela falou que você precisava de espaço — explicou Harry.
Percy virou-se.
— Então por que veio?
Harry deu de ombros.
— Eu moro aqui.
Percy estreitou os olhos. Harry sentou-se na outra cama, e ficaram um tempo sem falar.
Depois Harry disse:
— Pelo menos seu pai está vivo.
Percy soltou uma risada sem humor.
— Isso é melhor?
— É.
— Por quê?
Harry olhou para ele.
— Porque ainda pode aparecer.
Percy puxou os joelhos para o peito.
— Pelo menos você sabe como os seus eram.
Harry franziu a testa.
— Eles estão mortos.
— Mas você tem foto.
— Foto não fala.
— Tem histórias.
— Nem todas.
Percy ficou em silêncio, e Harry também.
Os dois permaneceram irritados com coisas diferentes.
Percy pensava que Harry tinha nomes, rostos, fotografias, histórias. Harry pensava que Percy tinha a possibilidade de uma porta ainda se abrir. Nenhum deles teria sabido explicar que invejava no outro justamente aquilo que mais machucava.
Depois de um tempo, Percy empurrou um pacote de biscoitos na direção de Harry.
— Peguei antes do jantar.
Harry olhou.
— Mãe vai te matar.
— Só se souber.
Harry pegou um.
— Ela sempre sabe.
Percy pegou outro.
— Não sempre.
Sally, do outro lado da porta, decidiu não corrigir essa afirmação.
***
A ida ao aquário começou como uma promessa de não haver incidentes.
Isso deveria ter sido considerado mau presságio.
— Um dia normal — disse Sally enquanto caminhavam. — Estou pedindo apenas um dia normal.
Percy franziu a testa.
— Normal como? — perguntou Percy.
— Sem vocês serem convidados a se retirar de lugar nenhum.
Harry pareceu ofendido.
— Isso aconteceu uma vez — Harry protestou.
— Duas — corrigiu Sally.
— A segunda não foi culpa nossa.
— Uma placa caiu sozinha — disse Sally.
— Foi ele — Percy apontou para Harry.
— Você estava lá — Harry retrucou.
— Isso não prova nada.
Sally ergueu os olhos para o céu de Manhattan como se esperasse paciência em forma física.
Não recebeu.
No início, tudo correu bem. Percy ficou fascinado pelos tanques, Harry passou mais tempo lendo as placas. Percy lia uma frase, decidia que já sabia o suficiente e corria para o próximo animal, Harry insistia em terminar.
— Você está perdendo tudo — reclamou Percy.
— Eu estou olhando.
— Você está lendo.
— É por isso que colocaram as placas.
— As placas não nadam.
Harry continuou lendo.
Sally sorriu.
Algumas horas depois, chegaram a uma área onde uma grande parede de vidro separava visitantes de um tanque.
Percy aproximou-se imediatamente, Harry ficou alguns passos atrás.
Havia outra família por perto. Um garoto um pouco mais velho batia repetidamente no vidro apesar dos avisos.
— Não faz isso — disse Harry.
O menino olhou para ele.
— O quê?
— Bater.
— Não estou falando com você — e bateu outra vez.
Harry apertou a mandíbula. Percy ainda estava perto do tanque, aparentemente distraído pela água.
Sally percebeu as duas coisas ao mesmo tempo. O rosto de Harry, e Percy colocando a mão no vidro.
— Meninos...
O garoto bateu mais uma vez.
— Para — disse Harry.
— Ou quê?
O vidro desapareceu. Ele não quebrou, tampouco rachou. Simplesmente deixou de estar lá por dois segundos impossíveis.
O garoto gritou e deu um salto para trás, e água avançou.
Sally puxou Harry pelo ombro.
Percy ergueu as duas mãos por puro reflexo, e a água parou.
Não completamente. Não de um modo que alguém pudesse apontar e explicar depois, mas sua trajetória mudou.
Uma massa que deveria ter atingido visitantes em cheio caiu de maneira estranha, inclinando-se para o lado como se tivesse encontrado uma parede invisível.
Então o vidro estava ali novamente.
Alarmes começaram, pessoas gritavam e funcionários correram.
O garoto que batera no vidro chorava, embora não tivesse se machucado.
Percy encarava as próprias mãos, enquanto Harry encarava o vidro.
Sally fechou os olhos por meio segundo.
— Vamos.
— Mãe... — Percy tentou dizer.
— Agora.
— Mas eu...
— Percy.
— Foi o Harry!
Harry virou-se.
— Eu?! — exclamou Harry, indignado.
— O vidro sumiu quando você ficou bravo.
— A água fez aquilo quando você...
— Aquilo o quê?
— Vocês dois — disse Sally. — Andem.
Saíram antes que a discussão atraísse mais atenção.
No caminho para casa, Percy sustentou que a culpa era de Harry, enquanto Harry sustentou que Percy tinha feito alguma coisa com a água. Percy respondeu que água não obedecia pessoas, e Harry apontou que vidros também não costumavam desaparecer.
Isso produziu um silêncio temporário.
— Talvez tenha sido defeito — disse Percy.
Harry o encarou.
— O vidro?
— É.
— E a água?
Percy hesitou.
— Corrente.
— Dentro de um tanque?
— Você é especialista em tanque agora?
— Eu li as placas.
Sally quase riu. Quase.
Os dois continuaram discutindo pelo restante do trajeto. Para eles, havia algo fantástico na possibilidade de terem causado aquilo.
Para Sally, a sensação era outra. Harry estava ficando mais forte, isso ela compreendia. A outra parte… olhou para Percy pelo espelho do táxi.
Ele ainda discutia, gesticulando, completamente inconsciente do modo como a água de uma garrafa esquecida no porta-copos tremia levemente quando sua irritação aumentava.
Sally desviou o olhar.
Havia perguntas cujo tempo estava terminando.
***
Em 2002, os meninos já não eram crianças pequenas.
O apartamento parecia ter encolhido à medida que cresciam. Sapatos ocupavam espaço demais, mochilas apareciam onde não deveriam. Livros de Harry formavam pilhas em superfícies que Sally ainda insistia em chamar de mesas, e as coisas de Percy pareciam incapazes de permanecer no lugar em que haviam sido guardadas.
Havia sempre uma jaqueta sobre alguma cadeira, uma meia perdida e pelo menos um copo abandonado em um cômodo diferente daquele em que deveria estar.
As responsabilidades também cresceram.
Arrumar a cama, tirar o lixo, ajudar com compras, não deixar louça no quarto. Esse último item era violado com impressionante consistência.
A escola criava suas próprias crises.
Harry chegava com observações sobre professores que considerava injustos. Percy chegava com bilhetes.
— Não é um bilhete ruim — explicou certa vez.
Sally leu.
— Você discutiu com o professor.
— Ele estava errado.
— Percy.
— Ele estava.
Harry passou pela cozinha.
— Ele estava.
Sally levantou o papel.
— Você estava lá?
— Não.
— Então como sabe?
Harry abriu a geladeira.
— Porque Percy só conta a história desse jeito quando acha que estava certo.
Percy apontou.
— Viu?
Sally esfregou a testa.
— Isso não ajuda sua defesa.
— Ajuda um pouco.
— Não ajuda.
Harry tirou suco da geladeira.
— Eu achei convincente.
— Você é uma testemunha terrível.
— Eu nem estava lá.
— Exatamente.
Percy sorriu.
Sally teve a impressão inquietante de que estava perdendo a discussão para os dois.
***
As cartas começaram a incomodá-la mais. Não as cartas que chegavam para o apartamento.
Outras.
Correspondências mantidas guardadas, mensagens que exigiam respostas quando os meninos estavam fora. Nomes que pertenciam a partes de sua vida sobre as quais Harry e Percy ainda não faziam perguntas suficientes.
Às vezes o telefone tocava e Sally ia para outro cômodo, e isso não passava despercebido.
— Ela está fazendo a coisa — disse Percy certa noite.
Harry não tirou os olhos do livro.
— Que coisa? — perguntou Harry.
— A coisa de falar baixo.
— Talvez porque você escuta atrás das portas.
— Isso não é prova de nada.
Harry finalmente olhou para ele, e viu que Percy estava perto demais do corredor.
— Você está literalmente escutando atrás da porta.
— Tecnicamente estou do lado.
Harry voltou ao livro.
— Técnica excelente.
Sally surgiu no corredor, e Percy deu um passo para trás.
— Oi.
Ela estreitou os olhos.
— Oi.
— A ligação acabou?
— Acabou.
— Quem era?
— Um conhecido.
Percy esperou, e Sally esperou também.
— Você está ficando muito boa nisso — disse ele.
— Em quê?
— Em responder sem responder.
Harry fez um som que poderia ter sido uma risada.
Sally olhou para os dois.
— Dever de casa.
— Isso não tem relação nenhuma com a pergunta.
— Agora tem.
Percy reclamou, mas obedeceu, por enquanto.
***
No verão de 2003, Harry encontrou novamente a fotografia.
Era a mesma que vira anos antes. Lily segurando Percy, Sally segurando Harry, James ao fundo, e o homem de cabelos escuros ao lado.
Harry estava perto de completar onze anos, e já sabia reconhecer quando uma pergunta provavelmente não receberia resposta.
Fez mesmo assim.
— Esse é aquele homem.
Sally, que dobrava roupas no sofá, não precisou perguntar qual.
Harry percebeu.
— Você lembra.
— Lembro.
— Ainda não vai contar?
Sally dobrou uma camiseta.
— Não hoje.
Harry inclinou a fotografia.
— Ele era amigo dos meus pais.
— Era.
— E seu.
Silêncio.
Harry observou a mãe.
— Seu também.
Sally colocou a camiseta dobrada sobre a pilha.
— Sim.
Percy entrou na sala com uma maçã na mão.
— Quem? — Percy perguntou.
Harry mostrou, e Percy reconheceu a imagem.
— Ah. O cara misterioso.
Sally suspirou.
— Não chamem pessoas reais de “cara misterioso”.
— Então dá um nome — respondeu Percy.
Harry quase sorriu.
Sally olhou para ele, depois para a fotografia.
— Sirius.
Era só um nome, nada mais.
Harry repetiu mentalmente.
Sirius.
— Sirius o quê?
— Black.
Percy mordeu a maçã.
— Sirius Black.
— Isso.
— Nome esquisito.
Sally quase riu. Quase.
Harry continuou olhando para a fotografia.
— O que aconteceu com ele?
A leveza saiu do rosto de Sally.
— Algum dia eu conto.
Percy gemeu.
— De novo não.
— De novo.
Harry deixou a fotografia sobre a mesa, e não insistiu. Mas agora tinha um nome.
Sally sabia que nomes tornavam silêncios mais difíceis de manter.
***
Julho daquele ano chegou quente.
Manhattan parecia reter calor entre concreto, vidro e asfalto mesmo depois que o sol se punha.
Naquela noite, as janelas estavam abertas, o ventilador da sala fazia um ruído repetitivo.
Harry estava no chão com um livro, Percy ocupava quase todo o sofá apesar de ser apenas uma pessoa, e Sally preparava o jantar.
Tudo era normal, tão normal que nenhum deles prestou atenção ao valor daquilo.
— Tira o pé.
Percy não se moveu, e Harry empurrou a perna dele.
— Tira.
— Tem espaço no chão.
— Eu quero sentar no sofá.
— Você estava no chão.
— Agora não estou.
Percy abriu um olho.
— Ainda parece estar.
Harry empurrou o pé de novo, mas Percy resistiu.
— Você ocupa espaço demais.
— Você reclama demais.
— Você deixou seu copo na pia.
Percy franziu a testa.
— O que isso tem a ver?
— Nada. Só lembrei.
— Então lava.
Harry fechou o livro.
— É seu.
— Prova.
— Eu vi você usando.
— Testemunho suspeito.
Da cozinha, Sally falou:
— Percy, lave o copo.
Ele sentou.
— Como você sabe que é meu?
— Porque Harry guarda o copo no quarto até eu ameaçar confiscar todos.
Harry ficou indignado.
— Eu não faço isso — Harry protestou.
Sally colocou a cabeça para fora da cozinha.
— Tem um na sua mesa agora.
Harry pensou.
— Esse tem água.
— Ainda é um copo.
Percy apontou para ele.
— Culpado.
— Você também.
— Mas eu não neguei.
— Você disse “prova”.
— Isso é exigir processo justo.
Sally retornou à cozinha.
— Os dois lavam os copos.
Percy caiu de volta no sofá.
— Está quente demais pra lavar copos.
— É água e sabão, Percy, não mineração.
Harry começou a rir, e Percy jogou uma almofada nele. Harry levantou o braço. A almofada mudou de direção no ar, por muito pouco, mas foi o suficiente para atingir uma cadeira em vez de seu rosto.
Os dois ficaram em silêncio, olharam para a cadeira, e depois um para o outro.
— Você fez isso — disse Percy.
— Não fiz.
— Ela virou.
— Você jogou torto.
— Eu nunca jogo torto.
Harry ergueu uma sobrancelha.
— Isso é objetivamente falso.
Percy pegou outra almofada.
— Quer testar?
— Não dentro de casa — disse Sally.
Percy largou a almofada.
— Ela ouve tudo.
Harry tornou ao livro.
— Você ainda não descobriu isso?
Percy levantou-se resmungando e foi lavar o copo, enquanto Harry permaneceu no chão.
O ventilador girava, carros passavam lá embaixo, algum vizinho tinha música ligada e a cozinha cheirava a comida. Não havia nada de especial naquela noite.
Era apenas a casa deles.
Sally apoiou uma mão na bancada e observou Percy abrir a torneira.
A água bateu no copo e, por um instante, pareceu subir um pouco mais alto ao redor dos dedos dele antes de escorrer.
Percy não percebeu, enquanto Harry percebeu outra coisa.
— Mãe.
— Hum?
— Está olhando estranho.
Sally desviou os olhos.
— Estou olhando normal.
Percy desligou a torneira.
— Não estava.
Harry fechou o livro.
— É a mesma cara — Harry constatou.
— Que cara?
Percy ergueu o copo limpo.
— A cara de “tem alguma coisa que eu não vou contar pra vocês”.
Sally olhou para os filhos.
Dez anos.
Quase onze.
Harry com o cabelo de sempre, os olhos de Lily e a cicatriz parcialmente escondida. Percy com aquela inquietação impossível de conter e gotas de água nos dedos.
Durante quase uma década, Sally os mantivera próximos o bastante para protegê-los das partes do mundo que ainda não compreendiam.
Durante quase uma década, isso bastara. Agora, cada ano parecia arrancar um pouco mais de controle de suas mãos.
As coisas estranhas estavam ficando menos pequenas, as perguntas ficavam melhores, e os silêncios ficavam piores.
— Talvez eu esteja só pensando — respondeu.
Percy apontou para Harry.
— Resposta que não responde.
Harry assentiu.
— Definitivamente.
Sally cruzou os braços.
— Querem que eu pense em tarefas para vocês?
Percy recuou.
— Resposta excelente.
Harry abriu o livro imediatamente.
— Não tenho mais perguntas.
— Covardes.
— Sobreviventes — corrigiu Percy.
Sally balançou a cabeça.
Pouco depois, jantaram.
Percy roubou uma batata do prato de Harry, que espetou a mão dele com o garfo, sem força suficiente para machucar.
Sally mandou parar.
Percy negou ter começado, Harry lembrou uma lista de ocasiões em que ele começara, e a discussão desviou para quem escolheria o filme no fim de semana. Depois para quem tomaria banho primeiro, e depois para uma promessa que Percy jurava que Harry havia feito e Harry jurava que Percy inventara.
Nada foi resolvido.
Mais tarde, Sally mandou os dois se prepararem para dormir.
Percy reclamou do calor, Harry lembrou que ele reclamaria do frio em seis meses. Percy disse que as duas coisas podiam ser ruins, Harry disse que isso era conveniente.
Sally mandou ambos escovarem os dentes.
Percy esqueceu o copo na pia outra vez, e Harry esqueceu o dele na mesa.
Quando finalmente desapareceram pelo corredor, ainda discutiam.
— A luz fica apagada.
— Eu sei.
— E nada de conversar até meia-noite.
— A gente nunca faz isso — respondeu Percy.
Harry disse:
— Essa foi uma mentira ruim até pra você.
— Cala a boca.
— Boa noite! — gritou Sally.
Duas vozes responderam ao mesmo tempo:
— Boa noite!
Segundos depois:
— Mãe, o Harry...
— Percy!
Silêncio.
Sally sorriu, e foi até a cozinha.
Guardou o que restara do jantar, lavou o copo, recolheu o livro de Harry do chão e colocou a almofada no sofá.
Pequenos gestos. A arquitetura invisível de uma vida.
Passou pela estante e viu as fotografias.
Harry e Percy cobertos de bolo. Harry com uma panela na cabeça e Percy segurando a colher como uma arma. Lily, James. Imagens separadas por anos, perdas, segredos e coisas que ainda não tinham nome.
Sally apagou a luz da sala.
Do corredor, ouviu um sussurro.
— Você está acordado?
— Não.
— Então como respondeu?
— Percy.
— O quê?
— Dorme.
— Estou tentando.
— Tenta quieto.
Sally encostou por um instante no batente da porta sem entrar, e sorriu.
Não sabia quanto tempo ainda teria antes de precisar abrir as partes da história que mantivera fechadas.
Não sabia quanto tempo conseguiria continuar colocando magia, água impossível, fotografias antigas e perguntas sobre pais na categoria segura de coisas para depois.
Mas naquela noite ainda havia depois.
Naquela noite Harry e Percy eram apenas dois meninos num quarto quente demais em Manhattan, discutindo sobre quem estava impedindo quem de dormir.
E Sally era a mãe que, em alguns minutos, teria de voltar ali e mandar os dois calarem a boca.
O apartamento era pequeno, barulhento e desarrumado.
Havia um copo na pia que ninguém admitia ter deixado, fotografias demais nas estantes e perguntas demais esperando o momento certo.
Era também uma casa. Muito antes de qualquer escola distante lhes dizer o que eram. Muito antes de guerras, profecias e nomes antigos tentarem decidir quem deveriam se tornar.
Eles já sabiam uma coisa.
Sally era mãe deles.
Harry e Percy eram irmãos.
E aquela era a família que tinham construído juntos.
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