O Filho do Mar e o Menino-Que-Sobreviveu
3 Duas Cartas para Manhattan
H A R R Y
Três dias depois de Percy declarar que estava quente demais para lavar um copo, Manhattan continuava quente demais para quase tudo.
Isso, naturalmente, não impediu nossa mãe de descobrir novas tarefas.
— Não entendo por que temos que limpar o quarto se vamos viajar — disse Percy.
Ele estava deitado atravessado na cama, usando uma camiseta velha, um short que já tinha visto dias melhores e a expressão de alguém injustamente condenado a trabalhos forçados. Havia uma pilha de roupas no chão ao lado dele que deveria estar dentro da cômoda e uma toalha molhada pendurada na cadeira, o que enfraquecia um pouco a posição dele.
— Nós nem sabemos se vamos viajar — eu disse.
— Exatamente. Então limpar é ainda mais inútil.
Eu estava ajoelhado diante da parte de baixo do armário procurando um tênis desaparecido. Tinha encontrado uma revista velha, duas moedas, uma meia que não reconheci como minha e um carrinho de brinquedo sem uma das rodas, mas nenhum tênis.
— Sua lógica piora quando você está com preguiça.
— Minha lógica é ótima.
— Você colocou uma toalha molhada em cima da minha mochila.
Percy ergueu a cabeça, e disse:
— Isso é uma acusação séria.
— Eu vi você fazendo.
— Testemunho suspeito.
Olhei para ele.
— Você precisa de argumentos novos — eu falei.
— Os antigos funcionam.
Da sala, nossa mãe chamou:
— Eu consigo ouvir vocês não arrumando nada!
Percy deixou a cabeça cair de volta no colchão.
— Ela desenvolveu poderes — ele comentou.
— Acho que se chama ter ouvidos.
— Muito poderosos.
Encontrei meu tênis atrás de uma caixa com fotografias.
Eu ia apenas puxá-lo e continuar arrumando, porque aquela caixa ficava ali havia anos e mexer nela sempre acabava levando muito mais tempo do que devia. Só que a tampa estava torta. Uma fotografia tinha escapado e ficado presa num dos cantos.
Era a da panela. Puxei-a.
Eu era pequeno demais para lembrar da cena de verdade. Na fotografia, estava com uma panela na cabeça, quase cobrindo meus olhos, enquanto Percy segurava uma colher de pau como se estivesse prestes a começar uma guerra. Nossa mãe tinha contado a história tantas vezes que eu já conseguia vê-la sem precisar me lembrar: o barulho da colher batendo na panela, Percy rindo, eu me vingando, os dois acabando separados enquanto cada um jurava que o outro tinha começado.
— Achei material comprometedor — falei.
Percy virou o rosto.
— Não.
Levantei a fotografia, e ele sentou de uma vez.
— Guarda isso.
— Por quê?
— Porque você parece ridículo.
Olhei a foto.
— Você está segurando uma colher como uma espada.
— Eu tinha visão.
— Você tinha um ano.
— Exatamente. Talento precoce.
Ele tentou arrancar a fotografia da minha mão. Eu me afastei e bati o ombro no armário. A caixa inclinou e eu a segurei antes que caísse, mas várias fotos deslizaram para o chão.
— Ótimo — murmurei.
— Foi você.
— Você avançou em mim.
— Porque você estava usando evidências de infância fora de contexto.
Ajoelhamo-nos para recolher as fotografias. Havia várias que eu conhecia. Percy e eu cobertos de bolo. Nós dois dormindo no mesmo sofá em direções opostas. Nossa mãe segurando um guarda-chuva quebrado enquanto Percy ria. Eu com dois dentes faltando na frente. Uma fotografia nossa na praia em que a água parecia ter avançado muito mais longe sobre a areia perto de Percy do que em qualquer outro lugar.
Depois encontrei aquela. Lily segurava Percy, nossa mãe me segurava, James estava um pouco atrás delas e Sirius Black aparecia ao lado.
Eu tinha descoberto o nome dele havia pouco tempo. Antes disso, era apenas o homem na fotografia que fazia nossa mãe ficar estranha. Agora era um homem na fotografia que fazia nossa mãe ficar estranha e tinha um nome.
Isso não era uma melhora tão grande quanto eu havia imaginado.
Percy percebeu qual fotografia eu tinha nas mãos.
— Vai perguntar de novo?
— Não.
— Mentira.
— Não agora.
Ele olhou para a porta aberta.
— Técnica.
Guardei a fotografia no fundo da caixa. Eu conhecia aquela estratégia porque usava uma versão dela quando nossa mãe perguntava se eu tinha terminado o dever de casa. Não dizer não. Apenas garantir que o assunto demorasse um pouco mais para voltar. Só que dever de casa acabava.
Sirius Black não parecia estar acabando, nem James e Lily.
Eu sabia mais sobre meus pais biológicos do que sabia quando era pequeno. Sabia que me amavam. Sabia que tinham morrido juntos quando eu ainda era bebê. Sabia que eu estava lá. Sabia que não tinha sido um acidente. E sabia que tinham morrido me protegendo.
Essa era uma frase difícil de carregar porque parecia completa até você pensar nela por mais de cinco segundos.
Protegendo de quê? De quem? E por quê?
Nossa mãe sempre acabava chegando ao mesmo lugar.
Algum dia. Quando você for maior, não hoje.
Aos dez anos, quase onze, eu começava a suspeitar que ficar maior não resolvia tanta coisa quanto os adultos diziam.
Percy me deu um empurrão leve com o ombro.
— Ei.
— O quê?
Ele apontou para o chão.
— Seu tênis.
Olhei. Estava exatamente ao lado do meu joelho.
— Eu sabia onde estava.
— Claro.
— Estava testando você.
— E eu passei.
— Infelizmente.
Ele sorriu e voltou para a própria pilha de roupas. A toalha continuava na cadeira.
— Essa toalha não vai se guardar sozinha — falei.
— Você não sabe.
— Eu sei.
— Coisas estranhas acontecem nesta casa.
Nesse ponto, ele tinha razão. Coisas estranhas aconteciam conosco desde que eu conseguia lembrar. Nem sempre eram grandes. Na verdade, quase nunca eram.
Uma vez, aos sete anos, eu tinha ficado preso do lado de fora da escola depois que um menino mais velho tomou meus óculos e os jogou por cima de uma grade. Lembro de ter ficado com tanta raiva que a grade pareceu diminuir por alguns segundos. Eu passei por cima dela sem entender como e só percebi, depois, que aquilo não fazia sentido.
Outra vez, uma professora tinha cortado meu cabelo muito mais curto do que eu queria para uma apresentação. Na manhã seguinte, ele estava quase igual ao de antes.
Percy dizia que meu cabelo simplesmente se recusava a obedecer a qualquer pessoa. O dele tinha problemas diferentes.
Torneiras pingavam mais quando Percy estava irritado. Poças às vezes pareciam evitar os pés dele ou fazer exatamente o contrário. Na praia, ele podia ficar na água por um tempo que deixava nossa mãe nervosa. Uma vez, quando tínhamos oito anos, eu o empurrei numa piscina durante uma discussão sobre quem tinha trapaceado numa corrida. Ele ficou lá embaixo por tanto tempo que comecei a gritar. Então ele apareceu na superfície, sem fôlego nenhum, perguntando por que eu estava berrando.
Nossa mãe nos proibiu de repetir a experiência. Percy alegou que aquilo tornava impossível descobrir quem tinha razão. Nossa mãe disse que esse era exatamente o objetivo.
Naquela época, nós chamávamos essas coisas de coisas estranhas porque crianças são muito boas em inventar nomes que significam absolutamente nada e continuar usando por anos.
Naquele verão, as coisas estranhas estavam acontecendo com mais frequência, talvez fosse impressão.
Ou talvez eu só estivesse prestando mais atenção.
***
Na tarde seguinte, Percy conseguiu perder uma moeda dentro de um copo.
Isso exige explicação.
Nossa mãe tinha nos mandado comprar pão, leite e algumas coisas que ela precisava para o jantar. A mercearia ficava perto o bastante para irmos sozinhos, e nós já tínhamos feito o caminho tantas vezes que eu conhecia as rachaduras mais estranhas da calçada.
Manhattan em julho tinha cheiro de asfalto quente, comida saindo de restaurantes, fumaça de ônibus e ar-condicionado escapando de lojas abertas.
Percy reclamou durante metade do caminho.
— Você reclama mais do calor do que eu — falei.
— Eu tenho motivos.
— Quais?
Ele pensou.
— Muitos.
— Excelente resposta.
— Obrigado.
Compramos o que precisávamos, discutimos sobre um pacote de biscoitos que não estava na lista, perdemos essa discussão para a ausência da nossa mãe — porque nenhum dos dois queria explicar depois por que o dinheiro não batia — e voltamos carregando sacolas.
Foi na cozinha que a moeda caiu.
Percy estava contando o troco. Eu guardava o leite. Nossa mãe cortava alguma coisa sobre a bancada. Uma moeda escorregou dos dedos dele, bateu na borda de um copo com água e caiu dentro.
— Boa — eu disse.
— Foi calculado.
— Claro.
Percy enfiou dois dedos no copo. A água subiu, não espirrou, não transbordou.
Subiu.
Foi só um pouco. Talvez dois centímetros acima da borda, acompanhando os dedos dele como se o copo de repente tivesse ficado mais alto.
Percy parou, e eu também. Nossa mãe deixou a faca imóvel sobre a tábua, e a água caiu de volta. Percy tirou os dedos lentamente, e a moeda estava entre eles. Durante alguns segundos, ninguém disse nada. Então ele olhou para mim.
— Você viu?
— Vi.
— Ela subiu.
— Eu sei.
— Água não faz isso.
— Em geral, não.
Nós dois olhamos para nossa mãe, ela ainda tinha a faca na mão, mas não parecia assustada. Aquilo me incomodou mais do que se ela tivesse gritado.
— Mãe?
Ela pousou a faca.
— Foi estranho — disse.
Percy estreitou os olhos.
— Você está fazendo de novo.
— Fazendo o quê?
— A coisa.
— Isso esclareceu bastante.
— A cara.
Nossa mãe cruzou os braços.
Eu encostei na geladeira.
— A cara de “eu sei uma coisa que vocês não sabem”.
— Eu não tenho essa cara.
Percy apontou para ela.
— Essa.
— Percy.
— Essa mesma.
Ela fechou os olhos por um instante, foi muito rápido, mas percebi.
Eu sempre percebia quando ela demorava meio segundo a mais antes de responder.
— Algumas coisas — disse ela — vão fazer mais sentido em breve.
— Isso é praticamente a definição de resposta que não responde — falei.
Ela me lançou um olhar.
— Vocês dois passaram anos transformando isso numa expressão oficial.
— Porque funciona — disse Percy.
— Guardem as compras.
— Mãe.
— Percy.
— A água subiu.
— Eu vi.
— E isso não parece importante pra você?
Nossa mãe olhou para o copo, depois para ele.
— Parece.
O jeito como ela disse fez Percy parar. Não porque fosse alto, porque não era.
— Então por quê...?
A campainha tocou, e nós três olhamos para a porta.
Percy soltou uma risada sem humor.
— Se isso for outra maneira de escapar da pergunta, é impressionante.
— Guardem o leite — disse nossa mãe.
Ela foi atender, e Percy olhou para mim.
— Seguimos?
— Claro.
Guardamos o leite, e seguimos, mas não adiantou.
Era a vizinha do andar de baixo querendo saber se um pacote tinha sido entregue por engano. Não tinha. Nossa mãe conversou com ela por um minuto, fechou a porta e voltou para a cozinha.
Percy já estava esperando.
— Então?
Nossa mãe pegou a faca outra vez.
— Em breve.
Percy olhou para mim.
Eu ergui as mãos.
— Não fui eu que inventei a palavra.
Ele fez um som irritado.
Na hora, achei que aquilo fosse ser o assunto mais estranho da semana.
Errei por bastante.
***
As cartas chegaram na manhã do dia vinte e quatro.
Acordei com batidas na janela. Não na porta, na janela.
A primeira coisa que pensei foi que algum galho estava batendo no vidro, o que seria normal se morássemos perto o bastante de uma árvore para um galho alcançar nosso apartamento.
Não morávamos.
A segunda coisa que pensei foi em Percy.
— Para — murmurei.
As batidas continuaram, e eu abri os olhos.
Percy estava na cama ao lado, coberto até a cabeça.
— Para o quê? — perguntou debaixo do lençol.
Tac. Tac. Tac.
Nós dois ficamos imóveis.
Percy baixou o lençol.
— Isso veio da janela.
— Percebi.
Tac. Tac.
Sentamos ao mesmo tempo.
Havia uma coruja no lado de fora. Não uma coruja num poste distante, não uma coruja num documentário.
Uma coruja de verdade estava agarrada à estrutura metálica do lado de fora da nossa janela, com as asas ligeiramente abertas e uma expressão que, de algum modo, conseguia parecer impaciente.
Percy piscou.
— Harry.
— Eu estou vendo.
— Tem uma coruja na nossa janela.
— Eu continuo vendo.
— Isso é normal?
— Quantas corujas você costuma receber?
— Nenhuma.
— Então acho que não.
A coruja bateu o bico no vidro.
Tac.
Percy se levantou.
— Não abre.
— Eu nem saí da cama.
— Você tem uma cara de quem vai abrir.
— Você acabou de inventar isso.
— Não. Conheço suas caras.
Ouvi passos no corredor. Nossa mãe apareceu à porta, ainda prendendo o cabelo.
— O que foi?
Apontamos juntos.
Ela olhou para a janela, e parou. Foi exatamente como na cozinha.
Não medo. Reconhecimento. Eu soube antes de ela dizer qualquer coisa que aquilo fazia parte de uma das coisas que ela conhecia e nós não.
— Mãe — falei.
Ela atravessou o quarto.
— Esperem.
— Você conhece essa coruja? — perguntou Percy.
— Não essa.
Ele olhou para mim.
— “Não essa”.
Eu estava olhando para nossa mãe. Ela destrancou a janela.
— Mãe.
— Está tudo bem.
— Tem uma coruja entrando no quarto.
— Eu percebi.
— E isso é parte do “tudo bem”?
Ela abriu a janela, e a coruja entrou. Percy recuou até bater na cama. Eu não recuei, mas só porque estava sentado e achei tarde demais para fazer isso sem parecer que tinha sido ideia dele.
A coruja deu uma volta curta pelo quarto e pousou na escrivaninha. Havia dois envelopes presos por uma fita pequena à perna dela. Nossa mãe ficou completamente imóvel.
A coruja estendeu a pata, e ela retirou os envelopes.
— Obrigada — disse.
Percy fez um ruído.
— Você agradeceu.
Nossa mãe olhou para ele.
— Ela trouxe correspondência.
— É uma coruja.
— Não precisa ser mal-educado por causa disso.
— Eu não sei quais são as regras de educação com corujas!
A coruja pareceu ofendida, e eu quase ri. Quase, porque então vi os envelopes. Eram grossos, de um papel amarelado que parecia antigo mesmo estando limpo. Cada um tinha nosso endereço escrito na frente.
Um dizia meu nome. O outro, o de Percy.
Harry Potter.
Percy Jackson.
No mesmo quarto, no mesmo apartamento, entregues pela mesma coruja.
— São pra gente — falei.
Nossa mãe não respondeu. Ela virou um dos envelopes. Havia um selo de cera no verso, um brasão e um H cercado por quatro animais.
Eu não sabia o que significava, mas ela sabia. Eu vi isso na hora.
Percy também.
— Mãe — disse ele, mais devagar. — O que é Hogwarts?
Ela levantou os olhos, e aquilo acabou com qualquer possibilidade de fingimento.
— Vamos para a cozinha.
Percy apontou para a coruja.
— E ela?
— Vai esperar.
— Por quê?
— Provavelmente quer uma resposta.
Ele ficou me olhando.
— Claro. Normal.
Atravessamos o corredor atrás da nossa mãe.
Eu olhei uma vez por cima do ombro.
A coruja continuava na escrivaninha, observando.
Como se soubesse que, naquele apartamento, três pessoas estavam prestes a ter uma manhã muito pior do que a dela.
***
Nossa mãe pôs os envelopes sobre a mesa, mas não os abriu.
Isso pareceu importante.
Ela colocou três copos de água, embora nenhum de nós tivesse pedido. Depois sentou diante de nós.
Percy pegou o dele, mas eu não toquei no meu.
Os envelopes ficaram no meio.
— Então — disse Percy.
Nossa mãe respirou.
— Então.
— Você sabe o que é Hogwarts.
— Sei.
— E por que uma coruja trouxe cartas.
— Sei.
— E aparentemente isso não é uma coisa que você achou importante mencionar nos últimos dez anos.
— Percy.
— Estou só organizando os fatos.
— Deixa ela falar — eu disse.
Ele olhou para mim.
— Você não está irritado?
— Estou.
Isso o fez calar.
Nossa mãe me observou por um momento.
— Vocês têm direito de estar.
— Isso é um começo ruim — disse Percy.
Ela quase sorriu.
Quase.
— Existe uma parte da minha vida que eu mantive afastada de vocês.
Olhei para os envelopes.
— A parte com corujas?
— Entre outras coisas.
— Quantas outras?
Nossa mãe passou a mão pelo rosto.
— Muitas.
Percy encostou as costas na cadeira.
— Ótimo.
— Vocês precisam me deixar explicar.
— Estamos deixando — falei.
Ela assentiu, e ficou alguns segundos olhando para as próprias mãos. Quando falou, a voz saiu firme.
— Eu sou bruxa.
Percy piscou, e eu achei que tivesse ouvido errado, não porque a frase fosse complicada. Justamente pelo contrário.
— O quê? — perguntei.
— Eu sou bruxa.
Percy começou a rir.
Parou quando percebeu que ela não estava rindo.
— Você está falando sério.
— Estou.
Olhei outra vez para os envelopes, depois para nossa mãe, depois para os envelopes.
Era uma sequência inútil, mas meu cérebro parecia ter decidido que, se eu repetisse o bastante, em algum momento uma das três coisas faria sentido.
Nenhuma fez.
— Bruxa — repeti.
— Sim.
— Tipo... magia?
— Sim.
Percy colocou o copo na mesa.
— Espera. Magia de verdade?
— De verdade.
— Varinhas?
— Sim.
— Feitiços?
— Sim.
— Vassouras?
Nossa mãe hesitou.
— Sim.
Percy virou para mim.
— Vassouras.
— Essa é a parte que te convenceu?
— Estou processando por etapas.
Olhei para ela.
— Prova.
A palavra escapou antes de eu decidir se queria dizê-la.
Nossa mãe não pareceu ofendida, só cansada.
— Justo.
Ela se levantou, foi até um armário alto da cozinha. Não o armário dos pratos, nem o dos mantimentos. O pequeno acima da geladeira onde ela guardava coisas que nunca usávamos, e pegou uma caixa comprida.
Percy se inclinou para frente.
Ela voltou à mesa, abriu a caixa e retirou uma varinha.
Uma varinha.
Não um pedaço de madeira que parecia uma varinha. Eu soube a diferença sem saber como. Talvez fosse o jeito como nossa mãe a segurou. Como se aquilo fosse familiar de um modo que uma pessoa não conseguia fingir.
Ela apontou para a colher ao lado da pia, e a colher levantou. Não houve fio, não houve truque. Ela saiu da bancada, atravessou o ar devagar e pousou no centro da mesa.
Percy ficou com a boca aberta, eu provavelmente também.
Nossa mãe baixou a varinha.
— Isso serve?
Percy apontou para a colher.
— Faz de novo.
— Percy.
— Só pra confirmar.
— Não.
Ele virou para mim.
— Ela consegue fazer a colher voar.
— Vi.
— Nossa mãe consegue fazer uma colher voar.
— Continuo vendo.
Ele se virou outra vez.
— Há quanto tempo você consegue fazer isso?
— Desde antes de vocês nascerem.
— E nunca achou que valia mencionar?
— Percy.
Dessa vez, o nome dele saiu como aviso.
Ele apertou os lábios. Eu olhava para a varinha.
De repente, várias coisas pequenas da nossa vida pareciam ter mudado de lugar sem sair do lugar.
Portas que eu jurava ter visto se fecharem sozinhas, objetos que apareciam onde nossa mãe insistia que os tinha deixado, uma queimadura na mão dela que desaparecera rápido demais. A vez em que uma janela quebrada estava inteira na manhã seguinte e ela disse que o zelador tinha vindo muito cedo.
— Você usava magia em casa? — perguntei.
— Às vezes.
— E fazia a gente achar que não tinha usado.
Ela não respondeu imediatamente.
— Às vezes.
Aquilo doeu mais do que a colher voando deveria permitir.
— Por quê?
Nossa mãe guardou a varinha sobre a mesa, mas não dentro da caixa.
— Porque vocês eram pequenos. Porque havia coisas das quais eu estava tentando proteger vocês. Porque eu sabia que esse dia chegaria e achei que teria mais tempo para encontrar o jeito certo de explicar.
— Dez anos — disse Percy.
— Eu sei.
— Quase onze — corrigi.
Nossa mãe olhou para mim.
— Eu sei.
— E não encontrou?
Foi a primeira vez que a expressão dela mudou de verdade, não para raiva, mas sim para algo pior.
— Não — disse. — Não encontrei.
O silêncio ficou pesado. Percy mexeu no copo, a água balançou e os olhos da nossa mãe desceram para aquilo. Eu vi, e ele também.
— E isso? — perguntou Percy.
Ela ergueu o olhar.
— Vamos chegar nisso.
— Quando?
— Percy...
— Porque você acabou de dizer que magia existe. E anteontem a água fez uma coisa impossível comigo e você fez essa mesma cara.
— Que cara? — perguntei, embora soubesse.
Ele apontou.
— Essa.
Nossa mãe soltou o ar.
— Parte do que acontece com vocês é magia.
Eu parei.
— Com a gente?
Ela me encarou.
— Sim.
Percy ficou tão imóvel que o copo parou de girar entre as mãos dele.
— Você está dizendo...
Nossa mãe puxou os dois envelopes para mais perto.
Empurrou um para mim, o outro para ele.
— Hogwarts é uma escola de magia.
Olhei meu nome.
— E essas são...
— Cartas de admissão.
Percy levantou a cabeça.
— Pra nós dois?
— Para vocês dois.
Ninguém falou. Minha mão ficou sobre o envelope.
De repente, eu lembrava da grade que parecera menor. Do cabelo crescendo. De lâmpadas que piscavam quando eu ficava bravo. De coisas quebrando sem eu tocar. De todas as vezes em que nossa mãe dissera que acidentes aconteciam e me ajudara a limpar sem me chamar de mentiroso.
Percy estava olhando para o próprio envelope como se esperasse que ele explodisse.
— Eu sou bruxo — falei. A frase soou idiota na minha boca.
— É — nossa mãe assentiu.
Percy levantou um dedo.
— E eu?
— Também.
— Eu também sou bruxo.
— Sim.
Ele olhou para mim.
— Nós somos bruxos.
— Parece que sim.
— Isso explica muita coisa.
Pensei na piscina.
— Explica algumas.
Nossa mãe olhou para mim tão rápido que soube que eu tinha acertado sem querer. Percy percebeu.
— Algumas?
— Abram as cartas — disse ela.
Resposta que não respondia, mas nós abrimos.
Meu envelope fez um som seco quando quebrei o selo, dentro havia uma carta em papel grosso e mais algumas folhas.
Li meu nome no alto, depois Hogwarts.
Escola de Magia e Bruxaria.
Parei e voltei ao início. Li de novo, mas não mudou.
A carta dizia que eu tinha uma vaga para o ano letivo que começaria em setembro, que deveria comparecer com o material indicado nas folhas anexas e que informações de viagem seriam providenciadas.
A de Percy dizia praticamente o mesmo.
— Primeiro de setembro — ele falou.
— Eu vi.
— Na Inglaterra.
— Eu também vi essa parte.
— Inglaterra, Harry.
— Eu sei onde fica.
— Nunca fomos.
— Isso não faz ela mudar de lugar.
Percy ignorou.
Nossa mãe pegou uma das folhas anexas antes que ele pudesse.
— Essa lista vocês só precisam ler por enquanto.
— Por quê? — perguntei.
— Porque o material não será comprado aqui.
— Onde? — tornei a perguntar.
Ela hesitou só o suficiente para eu notar.
— Londres.
Percy olhou para ela.
— Então nós vamos mesmo para a Inglaterra.
— Vamos.
— Quando?
— Dia trinta.
Nós dois falamos ao mesmo tempo.
— Dia trinta?
Nossa mãe fez uma pequena careta.
Percy foi mais rápido.
— Você já sabia.
— Eu sabia que existia a possibilidade.
— Você já estava planejando a viagem.
— Eu estava me preparando.
— Isso é praticamente a mesma coisa.
— Não é.
Olhei para os envelopes.
— Você sabia que as cartas viriam?
— Eu sabia que vocês poderiam receber cartas de Hogwarts.
— Poderiam?
— Há questões de matrícula, jurisdição, registros...
Percy ergueu a mão.
— Essas palavras parecem escolhidas pra gente desistir.
— Funcionou?
— Não.
Nossa mãe suspirou.
— Eu sabia que vocês tinham magia. Sabia que, chegando à idade escolar, precisaríamos decidir como lidar com isso.
— E decidiu sem contar pra gente — falei.
Ela ficou quieta. A colher que tinha voado ainda estava no meio da mesa, e eu fixei os olhos nela, mas era mais fácil olhar para a colher.
— Eu tomei decisões antes de vocês terem idade para participar delas — disse nossa mãe. — E depois continuei adiando a conversa quando vocês já tinham idade para fazer perguntas melhores. Essas duas coisas não são exatamente iguais.
— Mas as duas aconteceram — falei.
— Sim.
Eu levantei os olhos, e ela não tentou escapar daquilo. Talvez tivesse sido mais fácil ficar bravo se tentasse.
— Eu achei que estava protegendo vocês.
Percy cruzou os braços.
— De escola?
— Não.
— De magia?
— Não exatamente.
— Então de quê?
Nossa mãe ficou em silêncio, e Percy olhou para mim. Ali estava. O lugar onde a conversa batia numa parede, e eu já conhecia aquela parede. Tinha nomes escritos nela.
James, Lily, Sirius, e agora havia outro: Hogwarts.
— Começa do começo — falei.
Nossa mãe inclinou a cabeça.
— Que começo?
— Seu.
Ela pareceu surpresa.
— Meu?
— Você disse que é bruxa. Onde aprendeu?
Percy assentiu.
— Boa pergunta.
Nossa mãe descansou as mãos sobre a mesa.
— Comecei numa escola chamada Ilvermorny, aqui nos Estados Unidos.
Percy franziu o rosto.
— Isso é uma palavra de verdade?
— É.
— Parece que alguém espirrou no meio.
— Percy — mamãe advertiu.
— Continue — eu pedi.
— Eu estudei lá primeiro. Depois participei de um programa que me levou para Hogwarts e terminei parte da minha formação na Inglaterra.
— Então você estudou na nossa escola — falei.
— Estudei — a expressão dela amoleceu um pouco.
— E nunca contou.
— Não — expressão dela voltou ao lugar anterior.
Percy inclinou o envelope para a luz.
— Tem dragões?
— O quê?
— Na escola.
— Essa foi sua primeira pergunta sobre Hogwarts?
— Não. Foi a mais importante.
— Não há dragões andando pelos corredores.
— Isso não foi um não completo.
— Não incentive — falei.
Nossa mãe passou a mão pela testa.
— Hogwarts é um internato. Há alunos de várias partes da Grã-Bretanha e de outros lugares. Vocês vão morar no castelo durante os períodos letivos.
Percy ficou sério.
— Morar?
— Sim.
Olhei para ele, e ele olhou para mim. Aquilo, estranhamente, foi a primeira parte que pareceu de verdade. Cartas, corujas e colheres voando podiam permanecer estranhas dentro da cozinha.
Morar do outro lado do oceano não.
— Sem você? — perguntei.
Nossa mãe olhou para mim.
— Durante as aulas.
— Por meses?
— Existem férias.
— Isso não respondeu.
— Por alguns meses de cada vez, sim.
Percy parou de brincar com o envelope.
— Nós dois?
— Vocês dois.
Isso ajudou, mas eu não disse, e Percy também não, mas vi os ombros dele relaxarem um pouco.
— E como funciona? — perguntei.
— Vocês terão aulas de magia. Algumas práticas, outras teóricas. Feitiços, Transfiguração, Poções, Herbologia...
— Poções tipo caldeirão? — perguntou Percy.
— Tipo caldeirão.
— Isso é melhor do que matemática.
— Vocês ainda precisarão fazer contas.
— Retiro o que disse.
Nossa mãe continuou.
— Quando chegarem, serão divididos em Casas.
— Casas? — perguntei.
— Grupos dentro da escola. Vocês estudam, comem e vivem com alunos da mesma Casa durante boa parte do tempo.
— Quantas?
— Quatro. Grifinória, Sonserina, Corvinal e Lufa-Lufa.
Percy repetiu os nomes em silêncio.
— Sonserina parece perigosa.
— Percy.
— Só estou dizendo.
— Nenhuma Casa é automaticamente boa ou ruim.
Aquilo soou como uma frase que ela já tinha dito antes, talvez para outras pessoas.
— Qual era a sua? — perguntei.
— Em Hogwarts? Grifinória.
— Então vamos pra Grifinória — disse Percy.
— Não funciona assim.
— Por quê?
— A seleção não é hereditária.
Ele apontou para mim.
— Ótimo. Ele ronca. Talvez eu consiga um quarto longe.
— Você fala dormindo.
— Calúnia.
— Você pediu panquecas uma vez.
— Eu devia estar com fome.
Eu sorri sem querer, e nossa mãe também, mas durou pouco.
Olhei outra vez para a lista. Livros, vestes, caldeirão, telescópio, ingredientes, e , numa linha separada, varinha.
— A gente vai ter uma dessas? — perguntei. Olhei para a varinha dela.
— Sim.
— Como escolhe?
Ela abriu a boca, e parou.
— É mais fácil vocês descobrirem pessoalmente.
Percy fez um gesto dramático de exasperação.
— Outra — ele disse.
— Essa não é segredo. Só não quero estragar tudo.
— Existe uma diferença muito pequena entre essas duas coisas na nossa casa — falei.
Nossa mãe não sorriu, e eu me arrependi quase imediatamente. Não porque não fosse verdade, mas sim porque acertou.
Percy olhou para mim, depois para ela.
— Mãe...
— Tudo bem — disse nossa mãe.
Pegou a própria varinha e guardou na caixa.
— Harry tem razão.
— Isso não acontece muito — disse Percy.
— Obrigado.
— De nada.
Nossa mãe fechou a caixa.
— Eu deveria ter contado mais cedo sobre magia.
A cozinha ficou quieta.
— Quanto mais cedo? — perguntei.
— Não sei.
— Cinco anos?
— Provavelmente cedo demais.
— Oito?
Ela soltou um pequeno suspiro.
— Talvez.
— Dez?
— Definitivamente antes de hoje.
Era uma resposta melhor do que eu esperava, por isso fiz a pergunta pior.
— James e Lily eram bruxos?
Nossa mãe não se mexeu, e Percy parou ao meu lado. Eu já sabia a resposta antes de ela dizer, talvez por causa da fotografia, talvez por causa de todas as perguntas antigas que de repente tinham encontrado uma porta nova.
— Eram — disse nossa mãe.
Meu estômago apertou.
— Os dois?
— Os dois.
Olhei para minha carta. Potter, Hogwarts, Inglaterra.
— Eles estudaram lá?
— Sim.
— Em Hogwarts.
— Sim.
— Com você?
Ela assentiu. Foi como se alguém tivesse aberto outra fotografia dentro da minha cabeça, só que eu não conseguia enxergar nada.
James andando por corredores que eu conheceria, Lily sentada em alguma sala onde eu talvez sentasse. Nossa mãe mais nova. Todos eles sabendo sobre uma parte inteira do mundo que eu não sabia que existia naquela manhã.
— E Sirius? — perguntei.
Percy virou o rosto para mim, e nossa mãe demorou para responder:
— Também.
Uma palavra. Só uma. Ainda assim, o nome pareceu mudar de posição dentro de mim.
— Então aquela foto...
— É de pessoas que já se conheciam havia muito tempo.
— Da escola?
— Em parte.
— Você, James, Lily e Sirius.
— Harry — ela disse em tom de advertência.
Era aviso e pedido ao mesmo tempo.
— Eu só quero entender.
— Eu sei.
— Você disse que James e Lily morreram me protegendo.
Nossa mãe fechou os olhos, e Percy não se mexeu.
— Sim.
— Isso tem a ver com magia?
Ela abriu os olhos. Ali estava a parede, eu vi antes mesmo de ela responder.
— Tem.
Meu peito apertou.
— Como?
— Harry...
— De que eles estavam me protegendo?
— Eu vou contar.
— Você sempre diz isso.
— Eu sei.
— Quando?
Minha voz saiu mais alta, não muito, mas o suficiente. Nossa mãe não levantou a dela.
— Na Inglaterra.
Fiquei olhando.
— Por quê?
— Porque parte da resposta pertence ao mundo que vocês estão prestes a entrar. Porque eu não quero jogar nomes e coisas sobre vocês sem contexto. E porquê...
Ela parou. Os dedos apertaram a beirada da mesa.
— Porque essa é uma história difícil para mim também.
Eu sabia que James e Lily tinham sido amigos dela. Sabia pela forma como nossa mãe olhava para as fotografias, sabia pelas pausas, e pelo fato de ela nunca tentar tornar James e Lily menores para caberem melhor na nossa família.
Eles estavam mortos. Ela estava ali. As duas coisas coexistiam desde antes de eu conseguir falar.
Mesmo assim, continuei bravo.
— Difícil pra você não faz deixar de ser sobre mim.
Percy virou o rosto para mim. Nossa mãe ficou muito quieta.
— Não — ela disse. — Não faz.
A resposta tirou parte da força que eu estava preparando.
— Então me conta.
— Não hoje.
Levantei da cadeira, e Percy disse meu nome.
— Harry.
— Não.
Eu não sabia exatamente com quem estava dizendo aquilo. Com ele, com ela ou com a parede.
— Você acabou de contar que existe uma escola de magia, que você é bruxa, que eu sou bruxo, que Percy é bruxo, que meus pais eram bruxos, que vocês estudaram juntos e que a morte deles tem a ver com tudo isso. Mas essa parte é demais?
Nossa mãe também se levantou.
— É.
— Por quê?
— Porque eu conheço você.
— Isso não é resposta.
— Eu conheço o jeito como você junta coisas. O jeito como uma pergunta vira dez. Eu sei o que essa história vai fazer com você e sei que não posso impedir, mas posso escolher não contar metade dela numa cozinha, seis dias antes de atravessarmos um oceano.
Eu queria responder, mas não consegui.
Fixei os olhos na colher, a mesma colher que tinha voado. De repente, odiei aquela colher. Era uma coisa idiota para odiar, mas era concreta.
Percy mexeu a cadeira.
— E eu?
Nossa mãe olhou para ele. A voz dele estava diferente, menos brincalhona.
— O que tem você?
— Harry tem uma história que você não conta.
Ele levantou a mão antes que ela respondesse.
— Eu entendi. Inglaterra. Contexto. Cozinha ruim. Tudo isso.
Eu teria rido em outro momento.
— Mas e eu?
Nossa mãe não respondeu, e Percy apontou para o copo.
— A água.
Os olhos dela desceram.
— Você disse que somos bruxos. Certo. Então isso é magia.
— Parte é.
O silêncio veio tão rápido que pareceu uma coisa física. Percy se inclinou para frente.
— Parte?
Nossa mãe percebeu o que tinha dito, e eu também.
— Que parte não é? — ele perguntou.
— Percy...
— Não.
Agora era ele. Eu me sentei outra vez sem perceber.
— Você acabou de fazer a mesma coisa.
— Eu sei.
— Então tem alguma coisa comigo também.
— Tem perguntas sobre você que ainda não posso responder.
O rosto dele mudou. Percy era melhor do que eu em transformar desconforto em piada. Quando não fazia isso, eu prestava atenção.
— Não pode ou não quer?
Nossa mãe engoliu em seco.
— As duas coisas.
— Isso não é muito tranquilizador.
— Eu sei.
Percy olhou para o copo. A água estava imóvel.
— Meu pai tem a ver com isso?
Ela respirou fundo.
— Percy.
— Isso foi um sim?
— Não.
— Foi um não?
Ela não respondeu. Ele riu uma vez, sem achar graça.
— Incrível.
— Eu não estou tentando machucar vocês.
— Eu sei — falei.
Os dois olharam para mim. Eu também não sabia por que tinha dito aquilo, talvez porque fosse verdade. Estava bravo, mas conhecia nossa mãe.
Conhecia o jeito como ela verificava se estávamos respirando quando ficávamos doentes. Como deixava comida pronta quando trabalhava até tarde. Como nunca tinha feito as coisas estranhas parecerem culpa nossa.
Conhecia também o jeito como guardava fotografias, como ficava quando eu perguntava por Sirius, como olhava para água perto de Percy.
Adultos podiam amar você e ainda esconder coisas, e eu estava começando a entender que uma verdade não cancelava a outra.
Isso não tornava a segunda menos irritante.
— Eu sei que você não está tentando — repeti. — Mas ainda está acontecendo.
Nossa mãe assentiu devagar.
— Eu sei.
Percy esfregou o rosto.
— Odeio essa conversa.
— Eu também — disse ela.
— Isso ajuda um pouco.
— Percy.
— Muito pouco.
Dessa vez, ela sorriu. Ele não sorriu de volta, mas também não levantou da mesa.
Ficamos ali. Três copos, duas cartas e uma varinha guardada numa caixa que, uma hora antes, eu nem sabia que existia.
— Então — falei depois de algum tempo. — Inglaterra.
Nossa mãe soltou o ar.
— Inglaterra.
Percy olhou para a própria carta.
— E uma escola num castelo.
— Sim.
— Com magia.
— Sim.
— E quatro Casas.
— Sim.
— E talvez dragões.
— Não faça disso uma promessa.
— Tarde demais.
Eu cutuquei o braço dele.
— Você ouviu a parte em que vamos morar longe?
— Estou evitando.
— Percebi.
— Estratégia.
Nossa mãe empurrou as cartas de volta para nós.
— Vocês não precisam decidir se estão animados hoje.
— A gente pode não ir? — perguntei.
Ela ficou séria.
— Podemos conversar sobre isso.
Essa resposta me surpreendeu.
— Mas?
— Mas vocês precisam aprender a controlar o que conseguem fazer. As coisas estranhas não vão simplesmente parar porque vocês preferem ignorá-las.
Percy olhou para o copo.
— Bom argumento.
— E você acha que devemos ir.
— Acho.
— Os dois.
— Acho que vocês deveriam ter a oportunidade.
Percy olhou para mim.
— Você vai?
Olhei para o envelope. Pensei em James, Lily e em nossa mãe mais nova num castelo do outro lado do oceano. Pensei na grade diminuindo, na almofada mudando de direção e na colher atravessando a cozinha.
— Vou.
Ele assentiu.
— Então eu também.
— Você não precisa ir só porque eu vou.
— Eu sei.
— Então por quê?
Percy deu de ombros.
— Talvez tenha dragões.
Joguei um guardanapo nele, e ele finalmente sorriu.
Nossa mãe cobriu o rosto com uma das mãos.
— Hogwarts não sabe o que está fazendo.
Nos dois dias seguintes, descobri que saber que magia existia tornava o mundo muito pior em fingir que era normal.
Antes, uma lâmpada piscava e era uma lâmpada ruim, agora eu ficava olhando. Uma porta batia sem vento e eu pensava em magia. Percy derrubava água e metade dela parecia parar longe demais da borda da mesa.
Nós olhávamos, nossa mãe olhava e Percy apontava.
— Viu?
— Vi — eu dizia.
— Bruxaria.
— Você é literalmente um bruxo há dois dias e já está usando isso pra tudo.
— É uma palavra útil.
Na manhã seguinte às cartas, ele tentou mover uma colher, não aconteceu nada.
Tentou de novo.
Nada.
— Talvez seja a colher errada — disse.
— Claro.
Ele apontou para ela com dois dedos.
— Voe.
A colher permaneceu onde estava.
— Está tímida — concluiu.
— Ou você parece idiota.
— Inveja é feio.
Tentei quando ele saiu. A colher também não se mexeu. Não contei, obviamente.
Nossa mãe se recusou a ensinar feitiços antes de termos varinhas.
— E se acontecer sozinho? — perguntou Percy.
— Acontecer sozinho não é a mesma coisa que tentar provocar sem treinamento.
— Isso parece uma diferença inventada por adultos.
— É uma diferença inventada por adultos responsáveis.
— Pior ainda.
Ela guardou a caixa da varinha em outro lugar. Nós procuramos, não encontramos. Nossa mãe tinha uma vantagem de aproximadamente quinze anos de experiência em esconder coisas e, agora descobríramos, magia.
Não parecia justo.
Também descobrimos que ela sabia mais sobre Hogwarts do que conseguíamos perguntar. Isso não significava que respondia tudo.
— As escadas mexem? — perguntou Percy durante o jantar.
— Algumas.
— Como assim, algumas?
— Algumas escadas mudam.
— Por quê?
— Porque Hogwarts.
Percy olhou para mim.
— Essa foi a primeira resposta dela que eu respeito completamente.
Eu estava olhando uma folha com a lista escolar.
— O que é Transfiguração?
— Mudar uma coisa em outra.
— Tipo transformar uma cadeira numa mesa?
— Em princípio.
— Dá pra transformar Percy numa cadeira?
— Não.
Percy ergueu a cabeça.
— Por que eu fui o exemplo?
— Você estava perto.
— Você poderia virar a cadeira numa cadeira melhor.
— Já tenho você.
— Engraçado.
Nossa mãe fechou os olhos por um instante.
— Eu vou sentir falta do silêncio.
Percy apontou para ela.
— Você não tem silêncio agora.
— Posso sonhar.
Mas havia momentos em que ela ficava quieta demais. Um deles aconteceu quando perguntei se James e Lily tinham usado varinhas parecidas com a dela.
— Tinham as próprias — disse.
— Você lembra?
— Lembro.
— Como eram?
Ela começou a responder. Parou.
— Não lembro dos detalhes exatos o bastante para não inventar.
Aceitei. Não gostava de respostas incompletas, mas aquela não parecia esconder nada. Era uma diferença pequena.
Comecei a aprender a reconhecê-la.
Outra aconteceu quando Percy perguntou se havia escolas de magia em outros países. Ela falou sobre Ilvermorny, contou que ficava escondida dos não mágicos e explicou que o mundo tinha mais de uma tradição.
— Então por que Hogwarts? — perguntei.
A mão dela parou sobre o prato.
— Porque existe história de família lá.
— Minha?
— Sua e minha.
Percy inclinou o corpo.
— E a minha?
Nossa mãe tomou água.
— A sua também, por mim.
Ele percebeu, e eu também. Resposta que não respondia.
Nenhum de nós insistiu naquele momento.
Isso não significava que esquecemos.
A preparação para a viagem transformou o apartamento.
Até então, viagens significavam uma bolsa no banco de trás, comida embrulhada em papel, nossa mãe lembrando três vezes para Percy ir ao banheiro antes de sairmos e Percy dizendo três vezes que não precisava.
Inglaterra exigia mais.
Passaportes apareceram numa pasta.
Percy segurou o dele.
— Você já tinha isso pronto.
— Vocês já tinham passaportes — disse nossa mãe. — Isso não é conspiração.
— É exatamente o que alguém numa conspiração diria.
— Arrume suas roupas.
— Mudando de assunto.
— Funciona bastante.
Eu sentei no chão com minha mala aberta.
— Quanto tempo vamos ficar?
Nossa mãe estava separando documentos.
— Agosto inteiro.
Olhei para ela.
— Inteiro?
— As aulas começam em primeiro de setembro. Não faz sentido atravessar o Atlântico duas vezes em poucas semanas.
— Então a gente vai dia trinta e não volta antes da escola?
— Isso.
Percy apareceu na porta com três camisetas nos braços.
— Espera. Um mês em Londres?
— Sim.
— Você ia guardar essa parte até quando?
— Até você me deixar terminar uma frase.
— Isso parece ótimo.
Ele jogou as camisetas dentro da própria mala.
— Está arrumando errado — falei.
— Existe jeito errado de colocar roupa numa caixa?
— Isso explica muita coisa sobre seu lado do armário.
— Minha roupa chega no mesmo destino.
— Amassada.
— Continua sendo roupa.
Nossa mãe apontou para ele sem erguer os olhos dos documentos.
— Dobra.
Percy gemeu.
— Magia existe e ainda temos que dobrar roupa.
— A maior decepção da sua vida.
— Até agora.
Eu ri, e o som saiu normal. Foi estranho perceber isso.
Desde as cartas, eu tinha esperado que alguma coisa na nossa casa mudasse de forma permanente. Que as paredes parecessem diferentes. Que nossa mãe se transformasse em outra pessoa agora que eu sabia que ela era bruxa.
Não aconteceu.
Ela ainda reclamava de copos, Percy ainda roubava comida do meu prato, e eu ainda precisava arrumar minhas roupas.
A diferença era que uma varinha existia escondida em algum ponto do apartamento e duas cartas de Hogwarts ficavam sobre a estante, ao lado de fotografias que agora significavam mais do que significavam na semana anterior.
No fim da tarde, nossa mãe saiu para resolver as passagens.
Quando voltou, trouxe uma pasta com os detalhes do voo.
— JFK para Heathrow — disse.
Percy tentou olhar por cima do braço dela.
— Direto?
— Direto.
— Quanto tempo?
— Tempo suficiente para você se arrepender de não dormir.
— Eu durmo em avião.
— Você nunca atravessou o Atlântico.
— Eu durmo em qualquer lugar.
— Isso infelizmente é verdade — falei.
Percy tomou a folha da minha mão.
— Saímos dia trinta.
Meu estômago fez alguma coisa estranha. Não medo exatamente. Era fácil pensar em Hogwarts como um nome numa carta. Mais difícil era pensar em terça-feira. Malas, Táxi, Aeroporto e Oceano.
— É amanhã depois de amanhã — falei.
— Eu sei.
Nossa mãe me observou.
— Está tudo bem?
A pergunta me irritou sem motivo.
— Está.
Ela não insistiu.
Talvez soubesse que eu estava respondendo sem responder.
Na noite do dia vinte e nove, eu não conseguia dormir.
Percy também não.
Nenhum de nós admitiu primeiro.
O quarto estava mais arrumado do que jamais estivera, o que só fazia parecer que não era nosso. As malas fechadas ficavam perto da parede. Algumas gavetas estavam vazias. Minha carta de Hogwarts estava dentro da mochila, embora nossa mãe tivesse dito que eu não precisava carregá-la comigo o tempo todo.
Eu carregava mesmo assim.
— Harry.
Fiquei olhando para o teto.
— Você está acordado?
— Não.
Houve uma pausa.
— Você roubou isso de mim.
— Funciona.
— Você acha que ela vai contar?
Eu sabia do que ele estava falando.
— Na Inglaterra?
— É.
— Disse que vai.
— Ela também disse “algum dia” sobre Sirius por anos.
Virei para o lado. A luz da rua entrava pelas persianas e cortava o quarto em linhas.
— Isso é diferente.
— Por quê?
— Porque ela deu um lugar.
— Inglaterra é grande.
— Você sabe o que quero dizer.
Percy ficou quieto.
— Você acha que tem a ver com sua cicatriz?
Minha mão foi até a testa. Eu fazia aquilo sem perceber às vezes.
— Não sei.
— Você estava lá quando aconteceu.
— Eu sei.
— E eles estavam te protegendo.
— Eu sei, Percy.
— Eu só...
— Eu sei.
Ele parou, não queria brigar. Eu também não.
Depois de alguns segundos, falei:
— E a água?
Percy se mexeu na cama.
— O que tem?
— Você acha que ela vai contar isso também?
Ele demorou.
— Não sei.
— Seu pai?
— Não sei.
— Você perguntou.
— Eu lembro.
A resposta veio mais seca. Fiquei quieto. Era fácil esquecer que Percy tinha perguntas que não começavam comigo. Não porque ele deixasse, mas porque meu passado ocupava espaço demais às vezes.
— Desculpa.
— Pelo quê?
— Nada.
— Odeio quando você faz isso.
— O quê?
— Pede desculpa e depois diz nada.
— Então por que perguntou?
— Porque queria saber.
— Eu estava pensando no meu negócio e esqueci do seu.
Percy ficou em silêncio.
— Ah.
— É.
— Tudo bem.
— Não sei se está.
— Está.
— Você também está respondendo sem responder.
Ele soltou um riso baixo.
— Família.
Ficamos quietos.
Um carro buzinou na rua, alguém gritou muito longe e o ar-condicionado do apartamento vizinho ligou com um ruído horrível.
— Harry?
— Hum?
— Se tiver alguma coisa muito errada comigo...
Virei a cabeça. Ele estava olhando para o teto.
— Tipo o quê?
— Não sei. É por isso que falei “alguma coisa”.
— Você sempre foi estranho.
— Obrigado.
— Não parece ter te matado.
— Muito reconfortante.
— E eu sou bruxo.
— Eu também.
— Exatamente.
Percy virou o rosto para mim.
— Esse argumento não faz sentido.
— Eu sei.
— Está tentando ajudar?
— Infelizmente.
Ele sorriu no escuro.
— Está ruim.
— Posso parar.
— Não.
Aquilo bastou.
Alguns minutos depois, ouvi passos no corredor. Nossa mãe apareceu na porta.
— Vocês estão conversando?
— Não — respondemos juntos.
Ela ficou nos olhando.
— Última noite em Manhattan e vocês escolhem mentir mal.
Percy levantou a cabeça.
— Tecnicamente, amanhã ainda estaremos em Manhattan.
— Percy.
— Só dizendo.
Ela entrou no quart, sentou na beirada da minha cama, e, por um momento, ninguém falou.
Eu lembrava vagamente de noites muito antigas em que acordava e ela estava ali. De febre. Tempestades. Pesadelos que desapareciam antes da manhã.
Não lembrava da primeira vez em que a chamei de mãe. Ela lembrava, tinha me contado. Agora sabia que, mesmo naquela época, existia uma varinha escondida em algum lugar da vida dela.
— Nervosos? — perguntou.
— Não — disse Percy.
— Sim — falei.
Ele olhou para mim.
— Traidor.
— Você está há uma hora acordado.
— Isso não prova nada.
Nossa mãe passou a mão pelos meus cabelos e tentou afastá-los da testa. Eles voltaram para o lugar.
— Você também está nervosa? — perguntei.
— Muito — ela sorriu de lado.
Percy sentou.
— Você já fez essa viagem.
— Não esta.
— É o mesmo oceano.
— Não são os mesmos meninos.
A frase ficou no quarto.
Olhei para ela.
— Você se arrepende?
— De quê?
— De contar.
Ela respondeu sem esperar.
— Não.
Depois pensou melhor.
— Eu me arrependo de ter esperado tanto.
Percy cruzou as pernas.
— Isso é quase um pedido de desculpas.
— É exatamente um pedido de desculpas.
Ele pareceu surpreso, e eu também.
— Desculpa — disse nossa mãe. — Não por tentar proteger vocês. Eu faria muita coisa de novo para manter vocês seguros. Mas por deixar proteção virar silêncio por mais tempo do que deveria. Vocês tinham direito de saber que essa parte de vocês existia.
Não sabia o que responder, então fixei os olhos numa ranhura da madeira da cama. Em dificuldade, detalhes concretos eram melhores. A ranhura parecia um rio minúsculo.
— E o resto? — perguntei.
Minha voz saiu baixa. Ela soube o que eu queria dizer.
— O resto eu também vou contar.
— Tudo?
Silêncio.
Eu levantei os olhos.
— Tudo o que for meu para contar — disse ela.
Era uma resposta cuidadosa, não completa. Mas honesta o bastante para eu perceber a diferença.
Percy também.
— Isso inclui meu pai? — perguntou.
Nossa mãe ficou muito quieta.
Ele soltou o ar pelo nariz.
— Certo.
— Percy...
— Não. Tudo bem.
— Não está.
— Eu sei.
Ela estendeu a mão, e Percy hesitou. Depois deixou que ela segurasse a dele.
— Algumas verdades envolvem mais pessoas do que só nós três — disse nossa mãe. — E algumas têm riscos que vocês ainda não conhecem.
— Magia? — perguntei.
Ela me olhou.
— Entre outras coisas.
Percy fez uma careta.
— Odeio “entre outras coisas”.
— Vai aparecer bastante na vida de vocês.
— Ótimo.
Nossa mãe puxou a mão dele.
— Venham aqui.
— Mãe...
— Não façam isso parecer mais humilhante do que é.
— Você está tentando abraçar dois garotos de quase onze anos ao mesmo tempo — disse Percy.
— Tenho prática.
Ela nos puxou mesmo assim, Percy reclamou, eu reclamei porque ele reclamou, mas nenhum de nós saiu.
O abraço ficou torto porque ele estava na cama dele, eu na minha e nossa mãe entre as duas, inclinada de um jeito que provavelmente doía nas costas.
Foi ridículo. Também ajudou.
— Vocês vão continuar brigando na Inglaterra? — perguntou ela.
— Claro — disse Percy.
— Provavelmente — falei.
— Ótimo. Eu ficaria preocupada se magia resolvesse isso.
Percy apoiou o queixo no ombro dela.
— Você podia usar feitiço.
— Para quê?
— Fazer Harry admitir quando está errado.
— Magia tem limites.
— Ei.
Eles riram, e eu também.
Mais tarde, depois que nossa mãe saiu, Percy falou no escuro:
— Harry?
— O quê?
— Se a gente acabar em Casas diferentes...
Eu pensei nas quatro palavras estranhas.
Grifinória. Sonserina.
Corvinal. Lufa-Lufa.
— Ainda vou saber quando você deixou um copo na pia.
— Isso não foi o que eu quis dizer.
— Eu sei.
Ele ficou quieto.
— Você também vai saber quando eu deixar o meu.
— Você nunca admite.
— Isso faz parte.
Percy virou para a parede.
— Boa noite.
— Boa noite.
Dessa vez, dormimos.
Na manhã do dia trinta, Manhattan parecia exatamente a mesma.
Achei isso ofensivo.
Táxis buzinavam, gente andava rápido demais, um caminhão bloqueava parte da rua e alguém discutia com alguém na calçada.
O céu estava claro e quente, e nenhuma pessoa que passava pelo prédio parecia saber que duas cartas entregues por uma coruja tinham transformado quase tudo que eu entendia sobre minha vida.
Nossa mãe conferiu os documentos três vezes. Percy perdeu o passaporte por quatro minutos.
Estava no bolso dele.
— Não diz nada — falou quando encontrou.
— Eu nem abri a boca.
— Seu rosto abriu.
— Isso não faz sentido.
— Faz pra mim.
As malas ficaram junto à porta.
Olhei o apartamento. Não era a primeira vez que saíamos por alguns dias, mas era a primeira vez que eu sentia que a casa ficaria esperando.
A almofada do sofá estava um pouco torta, havia um copo na pia e dessa vez, eu tinha certeza de que era meu.
Não falei.
As fotografias continuavam na estante. Por um instante, pensei em pegar a de James, Lily e Sirius, mas não peguei. Eles já estavam indo comigo de um jeito ou de outro.
Nossa mãe apareceu com a bolsa no ombro.
— Prontos?
Percy olhou para mim, eu olhei para ele.
— Não — respondemos juntos.
Nossa mãe sorriu.
— Ótimo. Vamos.
— Isso não deveria ter feito você esperar? — perguntou Percy.
— Se eu esperasse vocês se sentirem prontos para tudo, ainda estaria tentando convencer os dois a usar colher quando eram bebês.
— Eu uso colher.
— Às vezes.
Ela abriu a porta.
Percy pegou a própria mala, eu peguei a minha, e então parei. Minha carta de Hogwarts estava no bolso da mochila. Toquei nela só para conferir. Ainda estava ali. Nossa mãe percebeu, mas não comentou.
Fechei a porta do apartamento atrás de mim.
No elevador, Percy apertou o botão do térreo.
— Última chance de fugir — disse.
— Você primeiro.
— Eu perguntei primeiro.
— Não perguntou nada.
— Implicação.
— Palavra grande.
— Escola de magia. Estou me preparando.
Nossa mãe encostou a cabeça na parede do elevador.
— Um mês em Londres.
— Você escolheu ter filhos — disse Percy.
— Um deles eu escolhi.
Ele virou para mim. Eu acertei o braço dele antes que começasse.
— Nem pensa.
Ele começou a rir.
As portas se abriram, e saímos. O táxi esperava na rua. O motorista ajudou com as malas, nossa mãe conferiu os documentos pela quarta vez, Percy tentou pegar o lugar junto à janela e eu lembrei que táxis tinham duas.
— Estratégia ruim — falei.
— Eu queria esta.
— Por quê?
Ele olhou para fora.
— Melhor vista.
Entrei pelo outro lado.
Nossa mãe ficou entre nós por alguns segundos enquanto ajustava a bolsa, então Percy reclamou que estava sendo esmagado e ela mandou que ele parasse de dramatizar.
O táxi arrancou.
Nosso prédio começou a ficar para trás. Eu conhecia aquelas ruas. Conhecia os sinais, as lojas, as esquinas. Os lugares onde Percy e eu tínhamos corrido, brigado, caído, comprado coisas que nossa mãe não tinha pedido e voltado para casa antes que alguém percebesse.
Tudo parecia menor visto pela janela de um carro que estava nos levando embora por tempo demais.
— Ei — disse Percy.
Olhei. Ele apontava para o vidro, onde uma gota de água subia lentamente pelo lado de fora da janela. Não descendo. Subindo.
Percy arregalou os olhos.
A gota chegou até a altura do rosto dele, tremulou e caiu. Nós olhamos para nossa mãe. Ela tinha visto, é claro que tinha.
— Nem começa — disse.
Percy sorriu.
— Eu não falei nada.
— Seu rosto falou.
Ele virou para mim.
— Viu? É de família.
Eu ri. Depois olhei outra vez pela janela.
Manhattan se afastava.
No meu bolso, havia uma carta dizendo que eu era bruxo. Ao meu lado, meu irmão tinha recebido outra igual, embora nem toda coisa estranha sobre ele parecesse caber naquela explicação. Entre nós, nossa mãe carregava uma varinha, um passado inteiro e mais segredos do que eu estava disposto a aceitar por muito mais tempo.
Eu ainda não sabia quem tinha matado James e Lily, não sabia por que tinham precisado morrer me protegendo. Não sabia o que Sirius Black tinha feito para transformar seu nome num silêncio.
Não sabia por que a água às vezes parecia reconhecer Percy.
Mas, pela primeira vez, as respostas não estavam guardadas num “algum dia” sem forma.
Estavam do outro lado de um oceano.
O táxi seguiu para fora de Manhattan.
E nós fomos com ele.
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