O Filho do Mar e o Menino-Que-Sobreviveu
1 Coincidências
Notas iniciais
H A R R Y
A água do copo de Percy se moveu sozinha numa terça-feira de manhã. E sim, essa não foi a coisa mais estranha que já tinha acontecido com meu irmão.
Nem chegou perto.
Ainda assim, eu vi.
Percy estava sentado do outro lado da mesa da cozinha, com o cabelo preto completamente despenteado, uma colher numa mão e a expressão concentrada de alguém tentando decidir se colocar mais açúcar no cereal poderia ser considerado café da manhã.
Pela quantidade que já havia colocado, minha opinião era que ele tinha ultrapassado essa linha uns três minutos antes.
— Mamãe vai perceber — eu disse.
— Não vai — Percy rebateu.
— Você colocou metade do açucareiro — argumentei.
— Exagero.
Olhei para o pote quase vazio.
— Evidência.
Percy estreitou os olhos para mim.
— Você é muito irritante de manhã.
— Sou dezoito dias mais velho — disse em justificativa. — Tenho responsabilidades.
— Você usa isso para tudo.
— Porque funciona para tudo.
— Em dezoito dias, esse argumento morre — ele disse após erguer a colher na minha direção.
— Em dezoito dias eu ainda vou ser dezoito dias mais velho.
Percy abriu a boca, parou e franziu a testa.
— Eu odeio matemática — Percy resmungou.
— Isso não é matemática.
— Então odeio você — concluiu, dramático.
— Você diz isso todo dia.
— Porque você continua aqui todo dia.
A voz da nossa mãe veio do corredor:
— E eu gostaria muito de continuar com os dois aqui depois do café da manhã, então parem de ameaçar fratricídio antes das nove.
Percy se virou na cadeira.
— Ele começou!
— Claro que comecei — respondi. — Sou o mais velho.
Uma meia enrolada veio voando do corredor e acertou minha cabeça. Ouvi Percy rir.
— Violência doméstica — falei.
— Arrume seu quarto — mamãe respondeu.
— Abuso de autoridade — resmunguei.
— Harry! — ralhou minha mãe.
— Já vou.
Foi nesse momento que aconteceu.
Percy esticou a mão distraidamente em direção ao copo de água, sem olhar para ele.
O copo estava fora de alcance. Eu sei porque estava olhando.
Percy não percebeu. Continuava discutindo comigo sobre alguma coisa que provavelmente envolvia minha idade e supostos problemas de personalidade.
A água dentro do copo inclinou. Não o copo. A água.
Ela subiu de um lado, como se uma onda minúscula tivesse surgido ali dentro, e o copo deslizou alguns centímetros pela mesa, parando exatamente ao lado da mão dele.
Percy o pegou, e bebeu. E continuou falando, enquanto eu fiquei olhando.
— ...e outra coisa, você não pode continuar dizendo que é mais sábio só porque nasceu antes.
— Percy — eu o chamei.
— O quê?
Olhei para o copo, e depois para ele.
— Você fez isso? — perguntei.
Ele acompanhou meu olhar.
— Fiz o quê? — disse num tom no qual indicava que ele não percebera nada, algo que a dislexia e o TDAH faziam com ele na maioria das vezes.
— O copo — respondi.
— Bebi água?
— Antes.
— Coloquei açúcar no cereal?
— O copo se mexeu! — eu disse, quase perdendo a paciência. Como podia ser tão lerdo?
Percy olhou para o copo, e depois olhou para mim.
— Você mexeu! — ele acusou, apontando o dedo para mim.
— Eu estou deste lado da mesa — respondi.
— Você chutou.
Olhei para baixo.
— A mesa não se mexeu.
— Então ela é uma mesa muito boa.
— Percy.
— Harry.
Ficamos nos encarando. Era uma coisa que fazíamos com frequência quando alguma coisa estranha acontecia.
Existiam três regras não oficiais na nossa casa sobre acontecimentos impossíveis.
Primeira: se nenhum de nós estivesse sangrando, não entrávamos em pânico. Segunda: se um de nós pudesse ser culpado, culpávamos o outro. Terceira: se nenhuma explicação funcionasse, chamávamos de coincidência.
Coincidências aconteciam bastante conosco.
Quando eu tinha seis anos, a porta do depósito da escola havia se trancado sozinha com um menino dentro depois que ele jogou meus óculos no chão.
Coincidência.
Quando Percy tinha sete, caiu no fundo de uma piscina por quase cinco minutos e voltou dizendo que só estava “pensando”.
Coincidência.
Quando um cachorro enorme correu atrás de nós no Central Park e uma árvore decidiu perder um galho exatamente em cima dele, sem vento nenhum, coincidência.
Quando Percy ficou furioso com um garoto da escola e todos os aspersores do jardim começaram a funcionar ao mesmo tempo num dia em que estavam desligados para manutenção...
Coincidência.
Mamãe gostava dessa palavra, não porque parecesse acreditar muito nela, e essa era a parte interessante, pois ela nunca ficava surpresa.
Preocupada, sim. Irritada, às vezes, especialmente quando o diretor da escola ligava. Mas surpresa? Quase nunca.
— Coincidência — Percy decidiu.
— Claro — iRonyizei.
— Pode ter sido a mesa — Percy deduziu.
— A mesa está parada — eu contra-argumentei.
— A Terra gira — meu irmão rebateu.
— Isso não ajuda sua defesa.
— Você não pode provar que não ajuda.
Mamãe entrou na cozinha carregando uma pilha de roupas dobradas.
Sally Jackson não era uma pessoa grande, e isso enganava muita gente.
Eu já tinha visto nossa mãe fazer um homem duas vezes maior que ela pedir desculpas a uma garçonete simplesmente olhando para ele até o sujeito se sentir desconfortável o bastante para desenvolver consciência.
Ela tinha cabelos castanhos, olhos claros e aquele tipo de rosto que normalmente parecia gentil.
Normalmente.
Quando Percy e eu recebíamos uma ligação da escola, havia outras possibilidades.
Ela deixou as roupas sobre uma cadeira e olhou primeiro para mim, depois para Percy, e na sequência para o açucareiro.
— Perseu.
Ele congelou.
Eu sorri.
— Traidor — ele murmurou.
— Não falei nada — joguei as mãos para o alto, alegando inocência.
— Sua cara falou — disse mamãe, que na sequência pegou o açucareiro, virou, e três grãos caíram.
Percy tentou parecer inocente. Era uma expressão que nunca funcionou nele.
— Você quer cereal com açúcar ou açúcar com cereal? — ela indagou.
— Qual é a diferença?
Ela fechou os olhos e respirou pelo nariz. Eu conhecia aquilo. Era o momento em que nossa mãe lembrava que amava os filhos.
— Come alguma coisa de verdade — mamãe falou.
— Tem cereal embaixo.
— Percy!
— Tá bom.
Ele tirou uma banana da fruteira. Mamãe pareceu decidir que aquilo contava como vitória. Foi até a pia, enquanto eu continuei olhando para ela.
A maioria das pessoas não percebe quando alguém muda de expressão por menos de um segundo.
Eu percebia.
Talvez porque tivesse passado a maior parte da vida observando adultos antes de decidir se devia fazer perguntas. Talvez porque adultos normalmente eram péssimos em esconder as coisas pequenas.
Mamãe olhou para o copo de Percy. Só por um instante. O olhar desceu para a água, depois para a mesa. Então continuou lavando uma caneca como se nada tivesse acontecido.
Eu franzi a testa.
— Mãe?
— Hum?
— Você viu alguma coisa estranha?
Percy me chutou por baixo da mesa. Fingi não sentir. Mamãe não se virou.
— Nesta casa?
— Agora.
— Harry, nesta casa “agora” não diminui muito as possibilidades.
— Justo — Percy riu.
Eu não.
— O copo do Percy se mexeu — eu disse.
Ela virou.
— Se mexeu? — ela perguntou. Era boa. Muito boa. Mas não parecia surpresa.
— A água também — acrescentei.
— Ele está dramatizando! — disse Percy apontando para mim.
— Eu não estou — eu falei em autodefesa.
Mamãe olhou para nós dois.
— Alguém se machucou? — ela perguntou.
— Não — respondemos um uníssono.
— O copo quebrou?
— Não — dissemos juntos.
— A água tentou afogar alguém?
Percy pareceu ofendido.
— Água não tenta afogar pessoas! — Percy rebateu, como se tivesse sido uma pergunta discriminatória.
Eu olhei para ele.
— Como você sabe? — indaguei.
— Porque não tenta? — ele desafiou.
— Excelente argumento — bufei, revirando os olhos.
Mamãe apertou os lábios. Por um segundo, achei que estava tentando não sorrir.
— Então terminem o café — ela ordenou.
— Isso não responde — falei.
Ela me olhou, e ali estava de novo. Aquela pausa minúscula, como se existisse uma resposta. Só não fosse uma resposta que ela pretendia me dar.
— Às vezes coisas estranhas acontecem — ela disse.
— Isso acontece bastante com a gente — respondi.
Percy mordeu a banana.
— Talvez sejamos azarados — o meu irmão falou.
— Você fez água subir por um escorregador no ano passado — eu acusei Percy.
Ele quase engasgou.
— Foi pressão hidráulica — Percy se justificou.
— Era uma mangueira desconectada — constatei.
— Pressão hidráulica misteriosa — Percy tentou contornar.
Mamãe apoiou as duas mãos na bancada.
— Harry — ela me chamou.
— O quê?
— Você tem dez anos — ela alertou.
— Quase onze — corrigi.
— Três semanas ainda contam — minha mãe corrigiu a minha correção.
— Duas semanas e cinco dias — novamente corrigi.
Percy apontou para mim com a banana.
— Isso! Isso é o que eu aguento! — meu irmão exclamou de forma dramática.
Mamãe ignorou.
— Você não precisa encontrar uma explicação para tudo imediatamente — ela disse.
— Mas existe uma — eu falei.
— Provavelmente — minha mãe não discordou.
— Você sabe? — perguntei.
Essa pergunta ficou no ar um pouco mais do que devia.
Percy parou de mastigar, e mamãe sustentou meu olhar. Tinha algo nos olhos dela que eu não consegui identificar. Não era medo exatamente. Também não era culpa. Talvez fosse uma daquelas emoções de adulto que exigiam vinte anos e uma hipoteca para entender.
Ela deu um sorriso, pequeno.
— Termina o café, Harry.
Não era resposta. Eu conhecia quando uma pergunta tinha acabado. Também conhecia quando alguém apenas fechava uma porta.
Não eram a mesma coisa.
***
O verão em Manhattan tinha três estados naturais.
Quente.
Muito quente.
E tão quente que andar do lado de fora parecia uma punição inventada por alguém com problemas pessoais.
Naquela manhã estávamos na terceira categoria.
Mamãe precisava trabalhar algumas horas, e Percy e eu tínhamos sido enviados para buscar algumas coisas na mercearia da esquina antes que ela saísse.
“Enviados” era uma palavra educada.
“Expulsos de casa depois que Percy quase colocou manteiga de amendoim na torradeira” era mais preciso.
— Eu não ia ligar — ele disse enquanto descíamos a rua.
— Você já tinha colocado o pão — eu o acusei.
— Isso é como torradas funcionam — Percy se justificou.
— Com manteiga depois.
— Limitações criadas por covardes.
— Um dia você vai morrer de uma coisa muito idiota.
Percy colocou as mãos nos bolsos.
— Se acontecer, vou assombrar você — meu irmão ameaçou;
— Fantasmas não existem — constatei.
— Você não sabe.
Olhei para ele.
— Isso vindo de você não ajuda.
Percy deu de ombros.
Éramos quase da mesma altura, o que ele usava como prova de que meus dezoito dias extras não tinham produzido vantagem biológica significativa.
Eu usava óculos. Ele não. Ele dizia que isso era vantagem dele. Eu dizia que conseguia ler. Ele dizia que aquilo era golpe baixo porque letras tinham uma conspiração pessoal contra ele. Nós dois tínhamos cabelo preto. O meu nunca aceitava pente. O dele aceitava por aproximadamente seis segundos antes de desistir. Não parecíamos exatamente irmãos. Não da forma como algumas famílias pareciam cópias umas das outras.
Mesmo assim, quase ninguém perguntava.
Talvez fosse porque Percy e eu já tínhamos aperfeiçoado aquela capacidade especial de irmãos de discutir sobre absolutamente tudo enquanto caminhávamos na mesma direção.
— Você ainda está pensando no copo — ele disse.
— Não — eu disse em resposta.
— Está — Percy insistiu.
— Como sabe? — retorqui.
— Sua testa faz uma coisa.
— Minha testa não faz uma coisa — eu rebati, odiando que ele me conhecia tão profundamente.
Percy apontou.
— Está fazendo agora.
Afastei a mão dele.
— Para — ordenei.
— É aquela cara de “adultos estão escondendo coisas de mim”.
Parei por meio segundo. Percy continuou andando, mas depois percebeu, e voltou dois passos.
— Acertei?
— Não.
— Harry.
— É só...
Olhei para a rua: Táxis, pessoas, um entregador gritando com alguém e um cachorro tentando decidir se odiava um hidrante.
Tudo perfeitamente normal.
Era estranho como o mundo conseguia parecer tão normal quando nossa casa frequentemente não era.
— Mamãe sabia alguma coisa — falei.
Percy suspirou.
— Você acha que mamãe sabe alguma coisa sobre tudo.
— Porque normalmente sabe.
— Ela é nossa mãe. É meio que o trabalho.
— Ela não ficou surpresa.
— Ela nunca fica surpresa.
— Exatamente.
Percy me estudou.
Eu podia praticamente assistir aos pensamentos tentando passar por obstáculos antes de chegar à linha de chegada.
— Você acha que ela sabe por que coisas estranhas acontecem — Percy deu um palpite. Bem certeiro, por sinal.
— Talvez.
— Tipo o quê?
— Não sei.
— Então sua teoria é que existe uma coisa que você não sabe, mamãe sabe, e você não sabe que coisa é.
— Resumindo muito mal, sim.
Percy sorriu.
— Posso chamar isso de teoria do Harry?
— Não.
— Já chamei.
Voltamos a andar.
Ele ficou quieto por quase vinte segundos.
Um recorde pessoal.
— Você acha que tem alguma coisa a ver com seus pais?
Eu olhei para ele.
Percy perdeu o sorriso.
Essa era outra coisa que existia na nossa casa. Assuntos sobre os quais podíamos fazer piada. E assuntos sobre os quais não fazíamos.
Tiago e Lilian estavam na segunda categoria.
Eu sabia algumas coisas. Sabia seus nomes. Sabia que meu pai tinha cabelo preto. Sabia que meus olhos eram iguais aos da minha mãe. Sabia que eles tinham morrido quando eu era bebê. Sabia que foram assassinados. Essa palavra, especificamente.
Mamãe nunca tinha tentado suavizar para “acidente”. Mas também nunca dizia muito além. Quando eu era menor, tinha aceitado. Quando fiz oito, comecei a perguntar. Aos nove, percebi que nossas conversas sempre chegavam ao mesmo lugar.
Eles eram bons. Eles me amavam. Mamãe amava Lilian como irmã. Falar sobre aquilo doía. Um dia ela contaria mais. Era impressionante como “um dia” podia durar anos.
— Talvez — respondi.
Percy olhou para frente.
— Se você quiser perguntar de novo, eu fico junto.
Aquilo me pegou desprevenido.
Então fiz o que qualquer irmão sensato faria quando outro irmão dizia alguma coisa emocionalmente honesta.
— Você provavelmente só quer descobrir se eles eram tão irritantes quanto eu.
— É uma possibilidade científica importante.
Melhor.
***
A mercearia estava com o ar-condicionado tão forte que fiquei com vontade de morar ali.
Pegamos leite, pão, e o café específico que mamãe gostava e que Percy quase trocou por outro só para descobrir se ela realmente notaria.
Eu tirei da mão dele.
— Ela vai notar — eu disse.
— Você não sabe — Percy respondeu.
— Ela percebeu quando você colocou uma colher diferente no porta-talheres — eu o lembrei.
— Aquilo foi assustador.
— Exatamente — concordei.
Estávamos indo para o caixa quando aconteceu a segunda coisa estranha do dia, mas desta vez comigo.
Um homem virou rápido demais no corredor e bateu no meu ombro.
Meus óculos caíram. O pé dele desceu. Ou teria descido.
Por um segundo, vi a sola do sapato vindo diretamente para a lente.
Então meus óculos não estavam mais no chão. Estavam na minha mão. Eu não os peguei. Não podia ter pegado. Minhas duas mãos estavam segurando a cesta. Percy ficou imóvel.
O homem continuou andando sem perceber. Olhei para os óculos. Percy olhou para os óculos.
— Você fez isso — ele disse.
— Cala a boca — resmunguei em resposta.
— Você definitivamente fez isso — Percy insistiu.
— Eu não fiz nada — tentei me defender.
— Eles estavam no chão! — constatou Percy.
— Eu sei onde estavam.
— Agora estão na sua mão.
— Eu também sei onde estão agora.
Percy começou a sorrir.
— Coincidência?
Olhei para ele.
— Eu odeio você.
— Dezoito dias mais velho e ainda não entende física misteriosa.
— Não existe física misteriosa.
— Você acabou de teletransportar seus óculos.
— Não teletransportei.
— O que aconteceu?
Olhei para os óculos.
Inteiros.
— Não sei — eu admiti.
Percy perdeu um pouco do sorriso.
Porque essa era sempre a parte. Era divertido quando acontecia com o outro. Menos divertido quando você realmente parava para pensar. Ele olhou ao redor. Ninguém tinha visto.
Ou ninguém parecia ter visto.
— A gente conta pra mamãe?
Meu primeiro impulso foi dizer não. O segundo também. Não porque achasse que ela ficaria brava. Mamãe nunca ficava brava com coisas assim. Esse era justamente o problema. Ela não ficava surpresa.
— Depois — respondi.
Percy assentiu, e então acrescentou:
— Se você começar a desaparecer inteiro, me avisa.
— Vou colocar numa lista — eu disse.
— Bom.
Pagamos.
Saímos.
Nenhum de nós falou sobre isso no caminho de volta.
***
Nosso prédio não era enorme, nem elegante do jeito que os edifícios algumas ruas para oeste tentavam ser.
Era antigo, e tinha um elevador que fazia barulhos suspeitos. Havia uma senhora no terceiro andar que sabia absolutamente tudo que acontecia antes de todo mundo.
Um porteiro chamado Miguel que tratava Percy e eu como se fôssemos responsáveis pessoais por qualquer problema estrutural no quarteirão. Não totalmente sem razão.
Miguel estava atrás do balcão quando entramos.
— Jacksons!
Percy levantou a sacola.
— Trouxemos leite — o meu irmão disse. — A civilização está salva.
Miguel apontou para nós.
— Sem futebol no corredor — Miguel avisou.
— Foi uma vez — eu disse em resposta.
— A lâmpada ainda está quebrada — o porteiro relembrou.
— Isso parece falha da lâmpada — disse Percy.
Miguel ignorou Percy.
— Tem correio — o porteiro falou.
Ele pegou algumas coisas atrás do balcão.
Propaganda. Uma conta. Um catálogo. E um envelope.
Foi o envelope que chamou minha atenção.
Era grosso. Papel de verdade. Não branco. Alguma coisa entre creme e amarelo. Tinha meu nome escrito à mão.
Não impresso. Não datilografado.
Escrito.
Miguel ergueu uma sobrancelha.
— Chique — ele disse.
Eu coloquei a sacola no chão e peguei.
Na frente dizia:
Harry Tiago Potter.
E embaixo: o endereço do prédio. Nosso andar. Nosso apartamento. Nada especialmente estranho.
Ainda.
— Quem manda carta? — Percy perguntou.
— Pessoas antigas — eu disse em resposta.
— Talvez seja cobrança — Percy sugeriu.
— Para mim? — arqueei a sobrancelha, divertido com essa possibilidade.
— Talvez você tenha dívidas secretas — disse Percy, me fazendo revirar os olhos.
Virei o envelope. Havia um selo de cera. Era vermelho escuro, com um brasão. Um grande H cercado por quatro animais.
Franzi a testa.
— Você conhece isso?
Percy aproximou o rosto.
— Leão — disse ele.
— Esse eu reconheci.
— Cobra.
— Também.
— Uma coisa que parece uma águia.
— Percy!
— E um texugo.
Olhei para ele.
— Como você reconheceu o texugo?
— Não sei. Parece bravo.
Miguel riu.
— Vão subir antes que eu cobre aluguel do corredor.
Pegamos as sacolas.
Entrei no elevador.
O envelope continuou na minha mão. A sensação era estranha. Não de perigo. Mais como aquela sensação alguns segundos antes de uma tempestade. Quando o ar muda, mas ninguém consegue dizer exatamente como.
Percy apertou o botão do nosso andar.
— Vai abrir? — ele perguntou.
— Quando chegar — respondi.
— Por quê?
— Porque estou carregando as compras.
— Mas eu posso carregar.
— Você vai abrir minha carta — retorqui.
— Eu jamais faria isso — disse Percy, se fazendo de inocente.
Olhei para ele.
— Você abriu meu cartão de aniversário no ano passado! — eu o relembrei.
— Eu precisava saber se tinha dinheiro.
— Era meu cartão.
— Informação relevante para o planejamento familiar.
As portas abriram. Eu saí primeiro.
— Não toca — eu adverti.
— Nem pensei.
— Está pensando agora.
— Isso não é crime.
Nossa porta ficava quase no fim do corredor. Coloquei a chave. Antes de conseguir girar, ela abriu por dentro. Mamãe estava com a bolsa no ombro e um lápis preso no cabelo.
— Ótimo, chegaram. Eu estava...
Ela parou. Não olhava para mim.
Olhava para minha mão.
Para o envelope.
Foi tão rápido que Percy talvez não tivesse percebido.
Eu percebi.
O rosto dela perdeu a cor. A mão apertou a maçaneta. Os olhos foram diretamente para o selo.
O H.
O leão.
A cobra.
A águia.
O texugo.
Então ela olhou para mim.
E pela primeira vez naquela manhã — talvez pela primeira vez que eu conseguia lembrar diante de alguma coisa estranha —minha mãe parecia realmente surpresa.
Não.
Não surpresa.
Ela parecia reconhecer.
Percy olhou de mim para ela. Depois para a carta.
— Mãe?
Ela não respondeu.
Meu coração começou a bater um pouco mais rápido. Olhei novamente para o envelope. No alto da parte de trás, impresso discretamente junto ao brasão, havia palavras que eu não tinha notado no saguão.
Li.
ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA DE HOGWARTS.
Eu não fazia ideia do que era Hogwarts. Mas Sally Jackson fazia. Eu tinha certeza.
— Mãe — falei devagar. — O que é Hogwarts?
Ela fechou os olhos. Por apenas um segundo.
Quando abriu novamente, alguma decisão tinha sido tomada.
— Entrem.
Percy e eu não nos mexemos.
Ela respirou fundo.
— Os dois.
Entramos.
Mamãe fechou a porta.
E, pela primeira vez na minha vida, tive a sensação muito clara de que todas aquelas coincidências estavam prestes a ganhar um nome.
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