P E R C Y

Quando sua mãe manda você entrar em casa usando a voz que significa isso não é uma discussão, existem algumas respostas possíveis.

Entrar é uma delas, mas perguntar se você está de castigo é outra.

Sair correndo escada abaixo provavelmente não é uma boa escolha, mas eu considerei por uns três segundos.

Harry entrou primeiro. Claro que entrou. Ele tinha aquela mania irritante de andar em direção a mistérios como se o universo tivesse pessoalmente ofendido a inteligência dele.

Eu fui atrás porque alguém precisava impedir meu irmão de interrogar nossa mãe como um policial de cinquenta anos preso no corpo de um garoto quase de onze. Também porque eu queria desesperadamente saber o que era Hogwarts.

Mamãe fechou a porta. Trancou. Olhei para a fechadura. Depois para ela.

— Isso é preocupante — eu disse.

Harry ainda segurava a carta.

— Percy! — meu irmão ralhou.

— O quê? — perguntei. — Ela nunca tranca a porta durante o dia.

Mamãe tirou a bolsa do ombro.

— Eu sempre tranco a porta — ela disse.

— Não quando estamos todos dentro — eu falei em resposta.

Ela olhou para mim.

— Você está tentando me distrair — mamãe acusou.

— Funciona normalmente — disse em explicação.

— Não hoje — ela decidiu.

Isso era ainda mais preocupante.

Harry colocou as compras na cozinha sem tirar os olhos da carta, e eu carreguei o resto.

Nossa mãe ficou parada perto da porta por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir qual incêndio apagar primeiro.

Não havia incêndio de verdade.

Ainda.

Comigo e Harry, parecia importante especificar.

— Sentem — ela ordenou.

Harry sentou à mesa, e eu continuei em pé.

— Percy — mamãe advertiu.

— Estou confortável — argumentei.

— Senta — ela ordenou novamente, num tom mais sério.

Sentei.

A carta ficou entre nós. Eu tinha visto Harry daquele jeito antes. Quieto demais. A maioria das pessoas pensava que, quando Harry ficava quieto, ele estava calmo. Mas essas pessoas não conheciam Harry.

Quando ele estava realmente calmo, fazia coisas normais. Lia. Comia. Mexia na armação dos óculos.

Quando ficava quieto daquele jeito, estava pensando em aproximadamente quinze perguntas ao mesmo tempo e organizando a ordem em que pretendia atacar. E mamãe conhecia a diferença também.

Ela foi até o armário. Pegou três copos, e encheu dois com água, e depois pareceu reconsiderar e fez café para si mesma.

— Isso vai demorar? — perguntei.

Ela parou com a colher no ar.

— Talvez — ela respondeu.

— Então eu também quero café — eu disse.

— Não — mamãe falou em resposta.

— Isso parece discriminação! — eu protestei.

— Você tem dez anos — mamãe relembrou.

— Quase onze — corrigi.

Harry me lançou um olhar.

— Não começa — disse ele.

— Você usa isso o tempo todo — eu rebati.

— Porque eu sou realmente quase onze — Harry argumentou.

— Eu também — eu disse, por fim.

Mamãe colocou o café sobre a mesa.

— Vocês vão fazer isso durante toda a conversa? — ela questionou, levando as mãos até a cintura.

Harry respondeu:

— Provavelmente.

— Com certeza — eu disse.

Ela quase sorriu. Quase.

Aí olhou para a carta de novo. O sorriso morreu. Foi nesse momento que parei de tentar ser engraçado.

Mamãe sentou diante da gente. Por alguns segundos, ninguém falou. Então Harry deslizou a carta pelo tampo da mesa.

— Você conhece isso.

Não foi uma pergunta. Mamãe olhou para ele.

— Conheço.

Harry respirou uma vez pelo nariz. Eu conhecia aquela respiração. Uma pequena vitória. Ele tinha conseguido a primeira resposta. Agora vinha o interrogatório.

— O que é Hogwarts? — Harry perguntou.

Mamãe segurou a caneca com as duas mãos.

— Uma escola — ela respondeu.

Eu pisquei. Harry também.

— Uma escola — repeti.

— Sim — mamãe confirmou.

— Você quase teve um ataque cardíaco por causa de uma escola? — Harry perguntou, cético.

— Eu não tive um ataque cardíaco — mamãe rebateu.

— Você ficou branca! — disse Harry.

Harry apontou para mim.

— Eu vi também — eu disse.

Traidor. Quer dizer, útil. Mamãe soltou o ar.

— Hogwarts é uma escola muito específica — ela começou a explicar.

Harry inclinou-se para frente.

— Específica como? — Harry indagou.

Mamãe olhou primeiro para ele. Depois para mim. E disse:

— É uma escola de magia.

Silêncio. Do lado de fora, alguém buzinou, um cachorro latiu, e o elevador fez um barulho que sugeria que ele finalmente tinha decidido morrer, mas dentro da cozinha, meu cérebro ficou alguns segundos parado.

Então eu disse:

— Certo.

Harry virou lentamente para mim.

“Certo”? — ele questionou. — Essa é a única coisa que você consegue dizer?

— Estou processando — justifiquei.

— Ela disse magia! — Harry rebateu.

— E eu ouvi — retruquei.

Olhei para mamãe.

— Tipo truques? — perguntei a ela.

— Não.

— Cartola, coelho… — comecei a falar as primeiras coisas que vinham à minha mente quando eu pensava na palavra “magia”.

— Não — mamãe continuava a negar.

— Moeda atrás da orelha?

— Percy… — mamãe advertiu.

— Só estou estabelecendo parâmetros — fiz questão de me explicar.

Harry não tirava os olhos dela.

— Magia de verdade? — meu irmão perguntou.

Mamãe assentiu.

— Sim.

Mais silêncio.

Harry olhou para a carta. Eu olhei para meu copo. A água estava completamente parada.

Traição.

— Isso é impossível — falei.

Mamãe levantou uma sobrancelha.

— O copo desta manhã também? — ela rebateu.

Abri a boca. Fechei.

Harry virou para mim com uma expressão quase insuportavelmente satisfeita.

— Não fala nada — Harry advertiu.

— Eu não falei — respondi.

— Sua cara falou — ele apontou.

— Parece familiar.

Mamãe apoiou os cotovelos sobre a mesa.

— Eu sei que parece absurdo — mamãe falou.

— Não — Harry disse.

Eu olhei para ele. Harry continuou:

— Parece menos absurdo do que deveria.

Era muito a cara dele. Harry recebe a notícia de que magia existe e, em vez de entrar em pânico, começa a reorganizar mentalmente uma década inteira.

— Os meus óculos — ele disse.

Mamãe ficou imóvel.

— Que óculos? — ela perguntou.

Ah. Ótimo.

Harry olhou para mim. Eu olhei para ele. Nós dois tínhamos esquecido essa parte por uns cinco minutos.

— Na mercearia — falei. — Eles caíram. Um cara ia pisar. Aí estavam na mão dele.

Mamãe fechou os olhos.

— Vocês iam me contar isso quando? — ela perguntou.

— Tecnicamente, agora — respondi.

— Percy! — mamãe ralhou.

— Era depois.

Harry ajudou:

— Nós decidimos contar depois — ele explicou.

Ela abriu os olhos.

— E “depois” significava?

— Antes de amanhã — falei.

— Provavelmente — disse Harry.

— Nova regra — Mamãe apontou um dedo para nós. — Se alguma coisa impossível acontecer, vocês me contam.

— Essa regra parece ter chegado uns dez anos atrasada — eu ironizei.

Ela não achou engraçado. Harry também não.

— Então aquilo foi magia — ele falou.

Mamãe assentiu.

— Provavelmente magia acidental.

— E o copo? — indaguei.

Ela olhou para mim. Não respondeu imediatamente. Eu percebi. Harry também. Claro que percebeu.

— Foi magia? — perguntei novamente.

— Em parte.

Franzi a testa.

— O que significa “em parte”?

— Significa que isso é uma conversa um pouco mais complicada — ela respondeu.

— Você disse que ia explicar — relembrei-a.

— E vou — mamãe falou, decidida.

Harry interrompeu:

— Primeiro Hogwarts.

Mamãe olhou para ele. Harry estava segurando a carta com os dedos um pouco fortes demais.

— Por que mandaram isso para mim?

Mamãe respirou fundo.

— Porque você é bruxo.

Harry ficou completamente parado. Eu não.

— Espera… — comecei a falar, e então apontei para Harry. — Ele é o quê?

— Bruxo — mamãe disse, simplesmente.

— Tipo… — procurei uma imagem mental. A pior possível apareceu. — Chapéu pontudo?

Mamãe riu. Foi tão inesperado que Harry piscou. Eu senti uma pequena vitória pessoal.

— Não é obrigatório — ela disse.

— Vassoura? — perguntei.

— Sim — mamãe disse em resposta.

Olhei para Harry.

— Você vai cair.

— Cala a boca! — Harry ralhou comigo.

— Caldeirão? — perguntei de novo para mamãe.

— Sim — mamãe respondeu.

— Varinha?

— Sim.

— Feitiços?

— Sim.

Olhei novamente para Harry.

— Isso é profundamente injusto — resmunguei.

Harry finalmente desviou a atenção da carta.

— Por quê? — perguntou, confuso.

— Você ganha magia e eu ganho dislexia! — exclamei, indignado.

Mamãe ficou muito quieta.

Ah. Não gostei disso. Harry também percebeu.

— Mãe — ele disse.

Ela soltou o ar.

— Percy… — ela me chamou.

— O quê?

— Harry não é o único.

Dessa vez, acho que meu cérebro realmente parou.

— Não?

Ela quase sorriu.

— É — mamãe confirmou.

— Não… — balbuciei.

— Percy…

— Espera — coloquei as duas mãos na mesa. — Eu também sou bruxo?

— Sim.

Olhei para Harry. Ele olhou para mim.

— Então por que só tem uma carta? — Harry perguntou.

— Excelente pergunta — falei.

O universo, que tinha senso de humor péssimo, escolheu aquele momento para alguém bater na porta.

Três batidas.

Todos nós congelamos.

Olhei para mamãe. Harry olhou para a porta.

— Se isso for outro bruxo, eu quero registrar que o timing é suspeito — comentei.

Mamãe se levantou.

— Fiquem aqui.

— Definitivamente vou seguir você agora — eu disse.

— Percy! — ela advertiu.

Harry já estava levantando também. Mamãe percebeu que tinha perdido a batalha antes de começar.

— Atrás de mim.

Fomos. Ela abriu a porta. Não havia ninguém, só o corredor, e no chão: um envelope. Meu nome estava nele.

Perseu Jackson.

O endereço. Nosso apartamento. Mesmo papel amarelado. Mesmo selo vermelho. Mesmo H.

Eu fiquei olhando. Harry cruzou os braços.

— Parece que o correio mágico ouviu você reclamar — constatou Harry.

— Eu não reclamei — retruquei.

“Profundamente injusto.” — meu irmão relembrou.

— Observação legítima — argumentei.

Peguei a carta. Era pesada de um jeito estranho. Não fisicamente. Mais como se o envelope soubesse que estava prestes a arruinar meu verão inteiro.

— Abre — Harry disse.

— Você quase teve uma crise quando eu quis abrir a sua — falei para meu irmão.

— Agora tenho a minha — retrucou Harry.

— Hipócrita — resmunguei.

Voltamos à cozinha. Colocamos as cartas lado a lado.

Harry abriu a carta dele primeiro. O papel dentro era grosso. Ele leu. Eu assisti à expressão dele mudar.

— O quê? — questionei.

Ele me entregou.

No topo:

ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA DE HOGWARTS

Depois dizia que Harry tinha uma vaga para o próximo ano letivo.

Havia lista de livros, uniformes, equipamentos, um caldeirão, uma varinha e, de maneira muito importante, uma informação crucial: alunos do primeiro ano não podiam ter vassouras próprias.

— Covardia institucional — eu apontei.

— Você nem sabe voar — Harry pegou o papel de volta.

— Ainda — acrescentei.

Abri minha carta. Igual. Meu nome. Minha vaga. Meu futuro aparentemente envolvia caldeirões. Li duas vezes. Talvez três.

As letras fizeram aquela coisa que as letras gostavam de fazer comigo, mas dessa vez eu não me importei.

Eu conhecia o que importava.

Percy Jackson. Hogwarts.

— Então é real — falei.

— É — mamãe assentiu.

— Como eles sabem? — Harry colocou a carta na mesa.

— Hogwarts mantém registros de crianças mágicas — mamãe explicou.

— Desde quando? — Harry tornou a perguntar.

— Desde cedo — mamãe respondeu.

— Eles sabiam onde moramos? — meu irmão perguntou novamente.

— Sim — ela confirmou.

Harry não gostou disso. Eu também não, mas por motivos diferentes.

— Isso é extremamente assustador — falei.

— Existem proteções envolvidas — ela explicou.

— Isso não torna menos assustador — concluí.

— Você sabia que essas cartas viriam — Harry apontou para nossa mamãe.

Ela assentiu.

Aí aconteceu aquela coisa. A mudança no rosto de Harry. Não era raiva ainda. Só uma porta se fechando.

— Desde quando? — ele perguntou.

— Desde que vocês eram bebês — mamãe respondeu imediatamente.

Pronto.

Raiva.

— E você nunca falou — continuou Harry.

— Não — mamãe confirmou.

— Nem uma vez.

— Não.

— Você sabia que nós fazíamos magia.

— Sim.

Eu olhei para ela.

— O copo? — eu comecei.

— Sim — nossa mãe confirmou, novamente, sem importar-se com o interrogatório nosso.

— A piscina?

— Sim.

— Os aspersores.

— Sim.

— O hidrante que explodiu quando aquele garoto chamou Harry de...

— Percy! — mamãe advertiu.

— Certo.

Parei, mas Harry não:

— Por quê? — A pergunta do meu irmão saiu baixa, mas não era acusadora. O que era pior.

— Porque eu queria que vocês tivessem uma infância — mamãe ficou olhando para ele.

Harry franziu a testa.

— Saber não impediria isso — ele retrucou.

— Talvez não.

— Então?

Ela passou a mão pela caneca.

— Porque o mundo mágico não é apenas escola, feitiços e coisas bonitas.

— Nenhum mundo é — Harry respondeu.

Eu virei para ele. Isso soou muito adulto. Odiei. Mamãe também pareceu sentir.

— Eu sei.

— Então por que esconder?

Ela demorou.

— Porque, quando vocês soubessem que esse mundo existia, outras perguntas viriam.

Harry não piscou. Eu entendi antes que ela dissesse.

Os pais dele.

Tiago.

Lilian.

O jeito como mamãe nunca falava muito.

Harry perguntou:

— Perguntas sobre meus pais.

Mamãe assentiu. Eu olhei para ele. Ele não olhou para mim. Mamãe continuou:

— E sobre mim, sobre vocês dois... sobre pessoas que conheci e coisas que aconteceram antes de vocês nascerem.

— E você decidiu que era melhor não contar nada — Harry disse.

— Decidi que era melhor esperar.

— Até a escola contar por você — a frase de Harry acertou. Mamãe fechou os olhos por um segundo.

— Eu queria contar antes da carta — ela justificou.

— Mas não contou.

— Não.

Silêncio.

Eu odiava quando os dois faziam isso.

Mamãe e Harry tinham um jeito específico de discutir. Eu gritava, mas eles ficavam mais quietos, o que era muito pior.

— Harry — eu o chamei.

Ele finalmente olhou para mim.

— O quê?

— Ela está contando agora — eu falei, simplesmente.

Não era uma defesa completa, nossa mãe sabia disso, e Harry também, mas às vezes você precisava impedir as pessoas que amava de cavar trincheiras antes de descobrirem se estavam realmente em lados diferentes.

Harry olhou para a carta.

— Tem mais.

Mamãe assentiu.

— Muito.

— Sobre meus pais?

— Sim.

— Você vai contar?

Mais uma pausa.

— Vou.

Harry levantou os olhos. Mamãe acrescentou:

— Mas não tudo hoje.

Pronto. Péssima escolha de palavras.

— Por quê? — Harry perguntou. E lá vamos nós, tudo de novo.

— Porque algumas partes pertencem a uma conversa que merece mais do que ser despejada sobre você dez minutos depois de descobrir que magia existe.

— É minha história — Harry argumentou.

— Eu sei.

— Então eu deveria poder decidir.

Mamãe não desviou o olhar.

— E vai.

Aquilo fez Harry parar.

Ela continuou:

— Eu não estou dizendo “um dia” como antes. Estou dizendo: nós vamos conversar. Em breve. Antes de Hogwarts. Antes de vocês entrarem naquele mundo sem saber quem são.

Harry ficou quieto, eu percebi a diferença, e também que ele não gostou, mas acreditou um pouco mais.

— Promete? — perguntou.

Mamãe respondeu sem hesitar:

— Prometo.

Harry assentiu. Uma vez. Não era perdão. Mas também não era guerra. Eu decidi que aquele era um ótimo momento para fazer a pergunta óbvia:

— Então você é bruxa?

Mamãe piscou. Harry virou para mim.

— Percy! — meu irmão exclamou, incrédulo.

— O quê? Se nós dois somos e ela sabia de tudo… — olhei para nossa mãe. — Você é, não é?

Ela sorriu. Finalmente.

— Sim.

Eu fiquei ofendido. Profundamente.

— Você é bruxa.

— Sou — ela confirmou, novamente.

— Há quanto tempo? — Se já não bastasse uma pergunta óbvia, acabei fazendo outra.

Harry fez um barulho entre tosse e risada. Mamãe também.

— Percy, eu nasci bruxa.

— Certo, pergunta ruim — admiti. — E você pode fazer magia agora?

— Posso.

— Tem varinha?

— Tenho.

— Onde?

— Guardada.

— Na casa?

— Sim.

— ESTE TEMPO TODO?

— Percy! — ralhou mamãe.

— Não, isso é importante — eu me levantei. — Temos uma varinha mágica escondida no apartamento e você nunca mencionou?

— Você tinha quatro anos quando tentou desmontar a torradeira para ver “onde o pão ficava quente”.

— Isso é irrelevante.

— É extremamente relevante — Harry contrapôs, e obviamente eu o ignorei.

— Mostra.

Mamãe me encarou.

— Por favor.

— Melhor.

Ela se levantou. Foi até a estante da sala. Havia uma caixa de madeira que eu tinha visto mil vezes. Sempre achei que guardava documentos. Mamãe abriu. Tirou uma peça longa e fina de madeira.

Uma varinha.

Era decepcionantemente normal. Até ela segurá-la.

Alguma coisa mudou.

Não era luz, não era vento. Era só... presença. Como se eu tivesse passado a vida olhando para mamãe e de repente houvesse uma palavra nova escrita por cima dela.

Bruxa.

Harry se aproximou.

— Essa é sua — ele perguntou.

— Sim.

— De Hogwarts?

— Não — mamãe balançou a cabeça. — Minha primeira varinha comprei aqui nos Estados Unidos.

Eu franzi a testa.

— Primeira? — indaguei.

— Você estudou em outro lugar — Harry disse antes de mim.

Claro. Ele já estava montando o quebra-cabeça. Mamãe sorriu um pouco.

— Sim — ela confirmou.

— Onde? — Harry tornou a perguntar.

— Ilvermorny.

A palavra parecia feita para alguém espirrar no meio.

Ilver-o-quê? — eu disse.

— Ilvermorny — mamãe repetiu.

— Isso é nome de escola? — perguntei, cético.

— Sim.

— Hogwarts também não é muito melhor — Harry comentou.

— Obrigado — mamãe riu. — Ilvermorny fica em Massachusetts.

— Tem escolas mágicas diferentes? — perguntei.

— Muitas.

— E você estudou lá — disse Harry.

— Nos primeiros anos — mamãe falou.

— Depois Hogwarts — ele concluiu.

— Transferência — mamãe assentiu.

— Então você estudou em Hogwarts? — perguntei olhando para ela.

— Estudei.

— Na escola dessa carta — novamente questionei.

— Sim.

— E nunca falou.

— Tecnicamente, nunca disse que não estudei.

Eu fiquei olhando.

— Isso foi uma resposta de advogado — eu reclamei.

— Aprendi com vocês — ela disse.

Harry se aproximou da varinha.

— O que você consegue fazer? — ele perguntou.

— Muitas coisas.

— Mostra — eu pedi.

Mamãe apontou a varinha. Eu instintivamente me abaixei. Harry riu.

— Você pediu — ela disse.

— Não significa que quero ser transformado em alguma coisa.

— Eu não vou transformar você.

— Isso é possível?

— Percy! — mamãe brigou.

— Certo. Depois.

Mamãe apontou para a pilha de roupas que tinha deixado sobre a cadeira. Ela fez um movimento pequeno e as roupas levantaram. Eu parei de respirar. Literalmente.

As camisas dobradas flutuaram pelo ar, passaram por Harry e viraram no corredor, desaparecendo em direção aos quartos. Uma meia ficou para trás. Mamãe fez outro movimento e a meia disparou, provavelmente para meu quarto.

Eu fiquei olhando para o corredor, depois para a varinha, depois para ela.

— De novo — eu pedi.

— Não sou entretenimento — mamãe retrucou.

— Você fez roupas voarem — argumentei.

Harry parecia igualmente fascinado, só que tentava disfarçar melhor.

— Como funciona? — ele perguntou.

— Essa é uma pergunta melhor — mamãe apontou para ele.

Eu coloquei a mão no peito.

— Estou sendo atacado na minha própria casa — dramatizei.

Ela sentou de novo. A varinha ficou sobre a mesa. Eu não conseguia parar de olhar.

— Magia é... parte de algumas pessoas — ela explicou. — Bruxos e bruxas nascem com capacidade para realizá-la. A varinha ajuda a concentrar, dirigir, tornar certas formas de magia mais precisas.

Harry olhou para os próprios dedos.

— Mas crianças fazem sem varinha — Harry observou.

— Sim. Magia acidental.

— Como os óculos.

— Sim.

Harry começou a listar mentalmente. Eu conhecia a cara.

— O depósito da escola.

— Provavelmente — mamãe assentiu.

— Meu cabelo crescer de volta depois daquele corte.

— Definitivamente.

Eu me virei para o meu irmão:

— Espera, isso foi você?

— Eu tinha sete anos.

— Você chorou por duas horas porque achou que tinha uma doença.

— Cala a boca.

— Isso muda tudo.

Mamãe apontou para mim:

— Você também tem vários exemplos.

— Quais?

Ela ficou me olhando.

— Certo, pergunta ruim de novo.

Harry começou a sorrir, e mamãe passou a contar nos dedos.

— A piscina.

— Eu sei nadar!

— Você ficou debaixo d’água tempo demais.

— Eu estava pensando.

— Por cinco minutos.

— Sou pensativo.

Harry quase caiu da cadeira. Mamãe continuou:

— Aspersores.

— Coincidência.

— Um cano explodindo na escola quando você estava irritado.

— Infraestrutura americana.

— A fonte no zoológico.

Parei.

— Aquilo foi estranho.

— A banheira transbordando sem a torneira aberta.

— Eu tinha seis anos.

— O aquário rachando sem quebrar.

Harry ergueu a mão.

— Eu lembro desse — disse ele.

— Ninguém perguntou sua opinião — resmunguei de volta.

Mamãe ficou mais séria.

— Algumas dessas coisas provavelmente são magia bruxa acidental.

“Algumas.”

Harry ouviu.

Eu ouvi.

— E as outras? — ele perguntou.

Ela olhou para mim, e o meu estômago deu uma coisa estranha.

— As outras... podem ter outra explicação.

— Qual?

Ela guardou a varinha.

— Essa parte ainda não.

Levantei as mãos.

— Ah, não. Você não pode fazer isso depois de dizer magia.

— Percy…

— Você acabou de dizer que tem outra coisa acontecendo comigo.

— Sim.

— E não vai explicar.

— Não hoje.

— Isso é muito irritante.

— Eu sei.

— Harry está certo — eu admiti.

Harry levantou uma sobrancelha.

— Sobre o quê?

— Adultos escondendo coisas — respondi.

Mamãe inclinou a cabeça.

— Eu não disse que vocês estavam errados em ficar frustrados.

Isso tirou um pouco do vento da minha vela. Era difícil brigar quando a outra pessoa se recusava a fingir que você não tinha motivo.

— Isso é coisa ruim? — perguntei.

Ela respondeu rápido demais:

— Não.

Observei.

— Perigosa?

A resposta demorou.

— Pode ser.

Ótimo.

— Excelente.

Harry então disse:

— Você sabia.

— Sim.

— Desde quando? — perguntei.

— Desde antes de você conseguir andar, Percy — ela me respondeu.

Olhei para meu copo, a água continuava quieta, e de repente, todas aquelas coincidências pareciam menos engraçadas.

— Tem alguma coisa errada comigo?

Mamãe se levantou tão rápido que a cadeira arrastou.

— Não.

Foi a resposta mais firme daquele dia. Ela veio até mim. Abaixou-se até ficarmos quase na mesma altura.

— Escuta.

Eu olhei para ela.

— Não tem nada errado com você.

— Mas...

— Nada.

A mão dela ficou no meu ombro.

— Há coisas sobre você que eu ainda preciso explicar. Coisas que podem tornar sua vida mais complicada. Talvez perigosa. Mas não errada.

Eu engoli.

— E Harry?

Ela olhou para ele.

— O mesmo vale para Harry.

Harry baixou os olhos, e mamãe continuou:

— Vocês não são problemas que eu estou tentando consertar.

Isso foi uma coisa muito Sally de dizer. Eu não sabia que precisava ouvir. Provavelmente Harry também não, então fiz o favor de impedir que o momento ficasse emocional demais.

— Mesmo quando eu quase coloquei manteiga de amendoim na torradeira?

Mamãe fechou os olhos.

— Esse caso ainda está em análise.

Harry riu, e eu também.

Melhor.

Depois disso, recebemos uma aula acelerada sobre magia. Na verdade, “aula” talvez fosse generoso.

Foi mais: Harry fazendo perguntas. Eu fazendo outras perguntas. Mamãe tentando impedir que uma conversa sobre escola se transformasse em um catálogo de maneiras como podíamos explodir o apartamento.

Descobrimos que Hogwarts tinha quatro casas. Isso pareceu importante. Mamãe não quis dizer em qual achava que iríamos.

— Você teve uma casa — disse Harry.

— Sim.

— Qual? — perguntei.

— Grifinória.

Eu gostei do nome. Soava como alguém misturando animais e esperando o melhor.

— E isso significa? — indaguei de novo.

— A casa possui uma tradição de valorizar coragem, ousadia, iniciativa.

Olhei para Harry. Ele olhou para mim.

— Você era problemática — falei.

Mamãe apontou para mim.

— Eu posso retirar a sobremesa mesmo sendo bruxa.

— Abuso mágico — acusei.

Harry ignorou.

— Quais as outras? — ele perguntou.

Mamãe explicou:

Corvinal. Lufa-Lufa. Sonserina. Quando disse o último nome, alguma coisa passou pelo rosto dela. Muito pequena. Harry viu. Eu também.

— Você não gosta dessa — ele disse.

— Não foi isso que eu disse.

— Sua cara disse.

Eu apontei para Harry.

— Minha técnica — observei.

Mamãe apoiou o queixo na mão.

— Sonserina tem uma reputação complicada.

— Má? — perguntei.

— Não — a resposta dela foi imediata. — Algumas pessoas de lá fizeram coisas terríveis. Algumas pessoas das outras casas também.

— Então porque reputação? — Harry perguntou.

— Porque as casas podem criar culturas. E culturas podem reforçar as piores ou melhores partes de uma pessoa.

Eu não entendi completamente. Harry provavelmente entendeu demais. Mamãe continuou:

— Nunca deixem alguém dizer que um nome, uma família ou uma casa decide quem vocês são.

Aquilo pareceu menos uma explicação sobre a escola e mais uma coisa que ela já tinha dito para alguém antes. Talvez muitas vezes.

— Como eles escolhem? — perguntei.

Ela sorriu.

— Um chapéu.

Eu fiquei olhando.

— Finalmente chegamos na parte idiota.

Harry riu.

— Você acreditou em escola mágica, varinhas e roupas voando. O chapéu que escolhe a Casa é o limite? — ele questionou, indignado comigo.

— Exatamente — confirmei.

Mamãe explicou o Chapéu Seletor.

Eu mantive minha posição de que era ridículo. Mas queria muito ver. Depois vieram: quadribol, fantasmas, retratos que falam e scadas móveis. Harry ficou cada vez mais interessado.

Eu fiquei cada vez mais convencido de que britânicos mágicos não conheciam conceitos básicos de segurança.

— As escadas se mexem? — perguntei.

— Algumas.

— Por quê?

— Porque Hogwarts é antiga.

— Isso não é explicação.

Harry apontou para mim.

— Concordo — ele disse.

— E tem fantasmas? — perguntei.

— Sim.

— De verdade? — ela falou.

— Sim.

Eu olhei para Harry.

— Eu falei — falei em tom vitorioso.

— Você disse que me assombraria — ele disse.

— Agora sei que é um plano viável.

Mamãe esfregou a testa.

— Vou me arrepender de mandar vocês — ela disse.

— Você pode impedir? — Harry perguntou.

Silêncio. Mamãe olhou para ele.

— Poderia.

Eu fiquei surpreso. Harry também.

— Mas não vai — ele concluiu.

— Não.

— Por quê?

— Porque a magia faz parte de vocês. Vocês precisam aprender a controlá-la.

Harry olhou para a carta.

— E você confia em Hogwarts.

Mamãe demorou.

— Em partes — ela admitiu.

Isso foi interessante.

— Você confia na escola, mas não em todo mundo lá — eu constatei, e ela sorriu sem humor.

— Agora você está aprendendo.

— Quem não devemos confiar? — perguntei.

— Percy — mamãe advertiu.

— Estou tentando evitar problemas — eu justifiquei.

Harry tossiu.

— Mentira.

— Estou tentando identificar problemas antes que encontrem a gente.

— Melhor.

Mamãe ficou séria.

— Vocês vão conhecer pessoas boas — ela começou. — Pessoas ruins. Pessoas complicadas. Professores excelentes e outros nem tanto. Não presumam que adulto significa certo.

Harry soltou um pequeno som que podia significar obviamente.

Mamãe olhou diretamente para ele, e continuou:

— Mas também não presumam que esconder alguma coisa significa automaticamente que alguém não se importa.

Isso era para ele. Harry percebeu, e não respondeu. Eu também fiquei quieto.

Mamãe continuou:

— Algumas decisões que tomei sobre vocês foram certas.

Uma pausa.

— Algumas talvez não tenham sido.

Aquilo me surpreendeu. Adultos normalmente odiavam admitir isso.

— Mas foram minhas — ela disse. — E se vocês estiverem zangados comigo quando souberem de tudo, eu vou aceitar.

Harry finalmente levantou a cabeça.

— Tudo?

Mamãe assentiu.

— Tudo que é meu para contar.

Outra frase estranha. “Meu para contar.”

Harry guardou, e eu também.

À tarde, nossas cartas tinham tomado conta da mesa.

Listas. Prazos. Livros com nomes ridículos. Harry lia tudo. Eu fingia ler e perguntava o que as palavras eram quando elas começavam a dançar.

Mamãe não comentou. Ela nunca comentava desse jeito. Só sentou do meu lado e começou a passar a lista comigo.

— Feitiços padrão — ela disse.

— Parece entediante.

— Você ainda não sabe nenhum — ela disse.

— Exatamente. Devia chamar “feitiços incríveis para iniciantes”.

— Eu teria recusado comprar.

Harry tinha outra folha.

“Mil Ervas e Fungos Mágicos”.

Fiz uma careta.

— Isso é livro ou ameaça? — perguntei.

“História da Magia.”

— Pior.

“Animais Fantásticos e Onde Habitam.”

— Esse parece bom.

Mamãe me olhou.

— Claro que você escolheu criaturas perigosas.

— Não diz perigosas.

Harry encontrou outra linha.

“As Forças das Trevas: Um Guia de Autoproteção.”

Mamãe ficou imóvel por meio segundo. Muito pequena, mas eu vi, e Harry também. Lá estava de novo. O mundo mágico não era só escola.

— Vamos precisar disso? — Harry perguntou.

— Espero que não muito — mamãe respondeu:

Ninguém comentou o jeito como ela disse.

No fim da tarde, o apartamento parecia igual, e isso me irritava. Depois que você descobre que magia existe, parece razoável esperar que as paredes mudem de cor ou um dragão apareça na escada de incêndio.

Mas nada aconteceu. O telefone tocou. A televisão continuou ruim. O vizinho de cima continuou arrastando móveis por motivos conhecidos apenas por ele e talvez por Deus.

Harry estava sentado no sofá com a carta. Eu estava deitado no chão. Mamãe fazia jantar. Era quase normal.

— Harry.

— Hum?

— Você acha que ela vai contar hoje?

Ele sabia do que eu falava.

— Sobre meus pais?

— É.

Ele demorou.

— Não.

— Vai perguntar?

— Não.

Virei a cabeça.

— Não?

— Ela prometeu antes de Hogwarts.

— E você acredita?

Ele ficou quieto.

— Acredito que ela vai tentar.

Isso era provavelmente a coisa mais honesta que ele podia dizer, e com isso eu fiquei olhando para o teto.

— Você está bravo? — perguntei.

— Um pouco.

— Com ela? — procurei confirmar.

— Sim.

Mais alguns segundos.

— Mas também não.

— Isso parece inconveniente.

— É.

Sorri.

— Quer que eu fique quando ela contar? —

Ele me olhou.

— Claro.

Foi uma resposta rápida, e boa.

— Certo… — voltei a olhar para o teto. — Se seus pais eram bruxos...

Harry ficou imediatamente atento.

— Você acha que eram?

— Mamãe conhecia Hogwarts. Você é bruxo. Parece provável.

Ele pensou.

— Talvez.

— Então sua história fica ainda mais estranha.

— Obrigado.

— Estou ajudando.

— Não está.

— Faço o possível.

Mamãe apareceu na porta.

— Jantar.

Levantamos. Harry passou por ela. Eu parei.

— Mãe?

— Sim?

— Quando você falou que tem coisas diferentes acontecendo comigo...

Ela ficou atenta.

— Sim.

— Tem a ver com meu pai?

A cozinha ficou muito quieta. Mamãe não era boa o suficiente para esconder aquilo. Não de mim.

Alguma coisa passou no rosto dela, Dor talvez, ou saudade, quem sabe carinho. E outra coisa que eu não conhecia. Ela colocou a mão no meu cabelo. Eu normalmente reclamaria. Não reclamei.

— Sim — disse.

Meu estômago virou.

— Ele era bruxo?

— Não.

Franzi a testa.

— Então o quê?

Ela quase respondeu, eu vi. A palavra chegou até algum lugar atrás dos olhos dela, mas depois voltou.

— Essa história é minha para contar — disse. — E eu vou contar.

— Antes de Hogwarts?

— Antes de você precisar saber.

Não era a mesma promessa que tinha feito a Harry. Eu percebi. Talvez Harry também, do sofá.

— Isso parece suspeito — falei.

Mamãe sorriu triste.

— É uma história suspeita.

— Ele está vivo?

Dessa vez, a pergunta saiu antes que eu pudesse impedir. Mamãe ficou imóvel.

— Sim — ela disse depois de um tempo.

Eu não esperava. Talvez devesse. Nunca tínhamos dito que meu pai estava morto. Só não falávamos dele.

— Ele sabe de mim?

— Sabe.

Aquilo doeu de um jeito meio estúpido. Se sabia, onde estava? Acho que ela viu.

— Percy...

— Não.

Levantei a mão.

— Tudo bem.

Não estava. Mas também não queria ouvir uma explicação pela metade.

— Depois — falei.

Mamãe assentiu em concordância, respeitando o meu espaço. Eu passei por ela. Harry me olhou e não perguntou, por isso ele era meu irmão.

O jantar foi macarrão, e mamãe colocou comida demais no meu prato. Provavelmente culpa. Eu comi tudo porque, se você vai usar culpa materna, o mínimo que pode fazer é aproveitar. Depois discutimos sobre quando iríamos comprar o material.

Aparentemente, nos Estados Unidos existiam maneiras de conseguir coisas mágicas, mas a lista de Hogwarts tinha itens específicos britânicos.

Mamãe decidiu: iríamos até Londres.

Essa foi outra bomba.

— Inglaterra? — perguntei.

— Sim.

— De avião?

— Provavelmente.

“Provavelmente”?

Harry levantou os olhos.

— Existe outro jeito? — ele perguntou.

Mamãe tomou água.

— Alguns.

Harry largou o garfo.

— Quais?

Mamãe sorriu.

— Depois.

Nós dois reclamamos. Ela claramente se divertiu.

Talvez contar segredos aos poucos fosse a forma adulta de vingança.

Quando fui dormir, coloquei a carta de Hogwarts na mesa ao lado da cama. Harry estava no quarto dele do outro lado do corredor. As portas ficaram abertas. Como quase sempre.

Fiquei olhando para o teto.

Bruxo. A palavra parecia idiota.

Grande demais.

Pequena demais.

Eu era Percy.

Continuava sendo Percy, só que aparentemente também conseguia fazer magia, e havia outra coisa.

Algo que mamãe ainda não tinha explicado. Algo ligado ao meu pai.

Um pai vivo, que sabia de mim.

Isso era mais difícil de engolir do que uma escola de magia.

Levantei.

Fui até a cozinha buscar água. Mamãe estava sentada sozinha à mesa. As luzes quase apagadas. Havia uma fotografia diante dela.

Quando entrei, ela virou rápido demais.

Não rápido o suficiente. Consegui ver cinco pessoas. Mamãe muito mais jovem, uma mulher ruiva, dois homens, outro homem de cabelo preto, e dois bebês.

Um deles tinha de ser eu. O outro com certeza era Harry.

Parei, e mamãe também.

— Quem são? — perguntei.

Ela olhou para a foto, e depois para mim.

— Pessoas que eu amava.

— Harry está lá?

— Está.

Aproximei. Ela não escondeu, e assim peguei a foto.

A mulher ruiva segurava um bebê. Eu. Não sei como sabia, só… soube. Mamãe segurava Harry. Um homem de cabelo bagunçado fazia uma expressão ridícula. Outro estava inclinado na foto, sorrindo de um jeito que parecia problema. O terceiro, mais magro, estava ao fundo.

— Essa é a mãe do Harry.

Mamãe assentiu.

— Lilian.

— E o pai dele?

Apontou para o homem de cabelo bagunçado.

— Tiago.

Olhei para o cara sorrindo de lado.

— E ele?

A mão da mamãe parou. Só por um momento.

— Sirius.

Eu guardei o nome.

— E o outro?

— Remo.

— Você conhecia todos.

— Conhecia.

— Harry sabe dessa foto?

— Não.

Olhei para ela.

— Por quê?

Mamãe ficou cansada de repente, não fisicamente, mais velha.

— Porque às vezes eu achei que proteger vocês significava deixar certas portas fechadas.

Olhei para a fotografia.

— E funcionou?

— Pergunta difícil — ela sorriu sem alegria.

Entreguei a foto.

— Você devia mostrar para ele.

— Eu sei.

Fui pegar água. Quando voltei para o corredor, ouvi:

— Percy.

Olhei. Mamãe ainda estava sentada.

— Sim?

— Eu sinto muito por não ter contado antes.

Dei de ombros. Não porque não importasse. Porque importava demais.

— Então conta direito quando contar.

Ela assentiu.

— Combinado.

Voltei para o quarto. Antes de entrar, olhei para a porta de Harry. Aberta. A luz apagada. Provavelmente dormindo. Talvez não.

Agora nós tínhamos uma palavra para várias coisas impossíveis.

Magia.

Mas eu estava começando a suspeitar que isso só tinha criado muito mais perguntas. E, conhecendo nossa família, provavelmente as respostas seriam ainda mais estranhas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.