O Filho do Inventor
7 Capítulo 7 - Jeremy
Ele mal podia acreditar.
Desde o nono ano não se sentia bem daquela forma perto de uma garota. Ele gostava de Luma e já sabia disso. Desde o começo, quando teve aquela impressão e começou a observá-la, sabia que a conexão entre eles não era só amizade, mesmo que essa fosse apenas a segunda ou terceira vez em que se falavam. Desde que a vira sabia que ela iria significar algo para ele, e de fato, significava. Mas agora, por tudo que passou nas mãos de Annie, tinha medo de se jogar no sentimento, mesmo com a certeza de que aquela menina era melhor que Annie.
Naquele momento, com Luma em seus braços, sentados na grama, percebeu que começava a gostar das meninas assim, as observando pela impressão que tinha delas. Fora assim com Annie, agora com Luma. E tudo que ele sentia quando chegava perto de ambas, era uma vontade enorme de beijá-las, por isso andava afastado de Annie, não queria cair no sentimento de novo, então a evitar era uma saída. Outra saída era sentir o mesmo por outra garota, o que não acontecia em anos, até que conhecera Luma, quando observava suas “habilidades”.
Depois de alguns minutos eles se afastaram. Luma estava corada, como sempre que ele a olhava nos olhos, sendo assim, ele fazia questão de olhá-la, pois ele amava quando ela ficava vermelha. Não economizava nos elogios e no carisma, já que ela ficava envergonhada e ele achava que era muito bonitinha sua reação a isso.
Luma era uma garota incrível. Desde o primeiro dia, quando a vira se aproximar de Isis e Audrey — as únicas duas meninas que ele já vinha observando e não sentira nada – via algo de estranho em sua beleza, era quase sobrenatural. O jeito como se movia, como seus cabelos eram lisos, mas caíam em cachos por seus ombros, como uma cascata, a pele aveludada e branca, mas principalmente seus olhos. Ao reparar em seus olhos dourados, teve certeza de que tinha que “averiguar a situação”. Claro, ele não estava na escola para isso, afinal não era como Hedge, mas não resistia quando achava que alguém era especial lá dentro.
A partir do primeiro dia, ele a seguia às vezes, tomando cuidado para não ser notado, o que era um pouco difícil, pela popularidade. Foi percebendo sua dificuldade em ler – como a dele -, sua hiperatividade – como a dele -, a qual ela trabalhara muito bem. Foi o mais difícil traço em comum que ele conseguira achar, mas sempre que ela sentava, balançava a perna freneticamente, e nunca parava com as mãos, estava sempre brincando com algo, o zíper da blusa, a grama, as pedrinhas, o cabelo, os próprios dedos, enfim, sempre. E essas coisas pareciam ótimas nela. Ele duvidava que ficasse bem com sua hiperatividade e déficit de atenção, assim como a dislexia. Ela franzia a cara de um jeito encantador quando tentava ler algo, e seus dedos se moviam graciosamente enquanto brincavam com algo. Também era bonitinho quando ele falava com ela e algo atrás dele a chamava atenção. Ela perdia totalmente o foco da conversa, seus olhos ficavam vidrados e quando se dava conta de que Jeremy continuava falando, ria, tocava seu ombro, pedia desculpas e pedia para que ele repetisse.
Seus dedos continuavam brincando enquanto eles se abraçavam. Faziam carinho em sua camiseta, em suas costas, e ele sentia cócegas. Mais um motivo para sorrir com aquele abraço.
Sua certeza de que ela era melhor do que Annie em vários aspectos também estava naqueles pequenos momentos. Com Annie, ele não se aproximara tão rápido, não gostara dela tão rápido e nunca, mesmo depois de tanto tempo pagando de bobo para ela, conseguira dar-lhe um abraço como aquele, que, mesmo que amigável, o trazia sensações diferentes, que o aqueciam por dentro.
Depois que se afastaram, o assunto morreu. Nem quando os amigos voltaram os dois continuaram a conversar direito. Tudo o que Jeremy fazia era observá-la. Estava sentada, abraçando os joelhos com a mão direita e, claro, brincava com a grama com a outra mão. Seus olhos vidravam-se na mão esquerda, ela ainda estava corada e sorria às vezes. Jeremy sorria junto. Os outros devem ter percebido, pois não os chamaram, ou tentaram tirar-lhes do transe pós-abraço. Quer dizer, Isis e Audrey não, mas às vezes Jeffrey puxava assunto com ele, e tentava mantê-lo focado na conversa. Jeremy sabia que ele também gostava de Luma, por isso ficava ao máximo falando com ele, resistindo à tentação de olhá-la. Ele não era muito próximo de Jeffrey, acabara de conhecê-lo e sabia sua origem, mas esse não era o motivo. O motivo era que Jeffrey tinha quase que uma barreira contra ele, não o olhava, não ria com ele, não prestava atenção no que ele falava, e quando ele contava algum tipo de piada, ou falava com Luma, o lançava olhares que diziam “Cara, você se acha demais, certo?”, revirava os olhos e cruzava os braços. Ele fazia Jeremy se sentir um idiota. Mesmo que Jeff não tivesse muitas garotas atrás dele, loucas por uma sequer troca de olhares. Jeremy odiava isso, tanto o fato das garotas ficarem atrás dele, tanto o fato de Jeffrey não querer se aproximar dele, tanto o fato dele gostar de Luma também. Mas ele o entendia de várias maneiras.
Jeff fora enviado à escola só para observá-la, quando chega, já tem um cara fazendo isso, se intrometendo em seu trabalho. Com certeza Jeremy já sentiria raiva só com isso, mas não era só isso. Luma era uma garota muito fácil de gostar, era linda, inteligente, tinha um bom senso de humor, parecia bonita até quando expressava seus “defeitos”, então, observando-a de perto, era quase que impossível não gostar dela. Entendia que Jeff se sentia intimidado pelo garoto popular, e ficava nessa constante rixa para saber quem conquistaria Luma.
Jeremy achava que seria difícil beijá-la, mesmo nas melhores oportunidades, pois sempre se lembraria de Jeff e se sentiria culpado. Era um bom amigo, até com quem não era seu amigo e não tinha interesse nenhum em ser.
Na última aula, esperara ansiosamente para sair da sala, correr para o Bloco D e recebê-la na saída com um sorriso, fazendo-a corar. Só essa imagem, em sua cabeça, fazia seu estômago revirar. Ele ficava nervoso, e, sendo hiperativo, não conseguia parar quieto na certeira. Olhava o relógio.
5… 4… 3… 2… 1. O sinal tocou. Jeremy enfiou suas coisas na mochila, fechou-a pela metade, jogou-a nas costas e saiu em disparada da sala, pelo corredor. Foi o primeiro a sair, então era fácil correr, não tinha que se esquivar de ninguém. Desceu as escadas, correu pelo jardim circular, atropelando plantas e tropeçando nas placas de “Não Pise na Grama!” com um desenho de um gnomo zangado. Subiu as escadas do Bloco D correndo, três degraus por passo, era ágil, não tropeçara, e era rápido, como seus semelhantes. Virou-se à esquerda para a segunda metade da escada, quando trombou com alguém, quase caindo novamente na primeira metade e rolando escada abaixo. Segurou-se no corrimão, e enquanto abria a boca para xingar, esqueceu-se de tudo e se viu olhando para Luma, caída no chão. Sentiu-se mal na hora, tentou ajudá-la, mas seu caminho foi interrompido por dezenas de adolescentes afobados, correndo para a saída. Quando a multidão se dissipou, Luma se encolhia no chão, com medo de ser pisada. O silêncio era total. Levantou a cabeça devagar, apenas seus olhos arregalados apareciam. Ela os arregalou mais ainda e levantou a cabeça totalmente quando o vira.
– J-Je… Jeremy? – gaguejava.
Isso o fez sorrir, não era como ele esperava, mas ela estava sem graça, isso bastava. Acenou com a cabeça e sorriu.
– Luma. – disse, estendendo-lhe a mão.
Ela segurou forte em sua mão e ele a puxou.
Ok, aquilo não era mesmo o que ele esperava, mas era perfeito, pois agora estavam de mãos dadas e muito próximos. Não podia dizer cara a cara, pois ela era mais baixa do que ele, mas olhava para cima, olhando-o com aqueles grandes olhos amarelos e uma expressão de surpresa, as bochechas coradas. Era tudo que ele queria: Surpreende-la, e conseguira. Mas queria fazer melhor.
– Você está bem? – podia tê-la beijado, mas queria fazê-la gaguejar novamente, era muito fofo.
– E-Eu… – Luma engoliu saliva, piscou duas vezes, rapidamente e ensaiou um sorriso – Estou.
Ele sorriu mais. A mão livre levantou-se, a um centímetro de distância das coxas dela e parou em sua cintura, tocando-a com delicadeza.
Àquela altura, o plano estava totalmente refeito. Ele a beijaria. Então lembrou-se de Jeff, sentiu-se inseguro, parou de sorrir aos poucos. Continuava olhando nos olhos dela, que o olhava com a mesma expressão. Não sabia se conseguiria. Qual seria a reação de Jeff? Ele não queria que o odiasse ainda mais.
Então o plano foi desfeito. Luma soltou a mão de Jeremy, e rapidamente o puxou pela nuca e o beijou, na ponta dos pés. Todo seu corpo se arrepiava durante o beijo, os dedos de Luma brincavam em sua nuca, acariciando-a, fazendo cócegas quando mexia nas pontas de seu cabelo. Ele se sentia totalmente indefeso. Luma virara o jogo. Antes, ele se sentia no controle, ela era a tímida da história, agora quem fora surpreendido era ele. E ele amava isso.
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