O Filho do Inventor
3 Capítulo 3
Luma foi para casa. Saía da escola às 14h e chegava às 14h30 — isso se sua mãe não se atrasasse, o que era difícil. Ao chegar em casa, almoçou, foi para o seu quarto treinar violão e conversar com as novas amigas por computador. Às 18h, estava com fome novamente. Desceu as estreitas escadas do sobrado, sua mãe estava rodeando a sala, apressada.
– Cadê seu pai? – disse ela, preocupada, olhando o relógio de pulso sem parar – Já devia ter chegado do trabalho!
Ela segurava a bolsa com o baixo dentro, estava “arrumada”, pois precisava ir se apresentar na boate com sua banda.
Você pode estar se perguntando “Mas se ela está com o carro, e o pai de ônibus, por que não vai trabalhar?”. Pois é, Luma se perguntava isso todos os dias, mas não adiantava insistir, seus pais não a deixavam sozinha nem um minuto, até para deixa-la na escola eles eram relutantes. Ela já estava acostumada com a superproteção, que era mais por parte de sua mãe, mesmo que não entendesse e achasse um absurdo, afinal, a garota tinha 15 anos, era hora de sair sozinha, não!?
Luma foi preparar algo para comer. Alguns minutos depois, Bruce Valentine adentrou a casa.
–Até que enfim, Bruce! – disse Sheri, indo em direção a ele apressada.
Deu-lhe um beijo rápido e saiu.
– Oi, Luma, tudo bem? Como foi a escola nova? – perguntou ele, com um sorriso.
– Bem, até agora. – disse Luma entre uma mordida e outra em seu sanduíche de atum — Até já tenho amigos.
– Sério? – ele parecia surpreso e excitado com a notícia.
– Sim. Audrey e Isis.
– Uau! Traga-as um dia aqui. – Bruce passou por ela, deu-lhe um beijo na testa e subiu as escadas.
Bruce era um cara muito legal. O pai de Luma sempre fora simpático e bem humorado. Era ele quem animava todos ao redor, livrava mãe e filha de sofrimentos e notícias ruins com aquele grande sorriso.
Ele tinha cabelos médios, grisalhos, que caíam casualmente de cada lado da testa. Usava óculos pequenos e retangulares, de armação fina. Estava sempre um milhão de vezes mais formal que Sheri, pois era professor, então estava sempre de camisa social, um blazer, calça risca de giz e sapatos pontudos. Nem sempre usava gravata, mas vez ou outra ele alternava entre suas gravatas de bolinhas e listras. Era um cara muito divertido. Todos no mesmo ambiente que ele o adoravam sempre. Em todas as diferentes escolas e universidades em que já lecionara, ele arranjava milhares de amigos. Não tinha como Luma ser filha dele olhando por esse lado.
Era professor de história. Apesar de sempre ter tido um pouco de dificuldade em tal matéria, era a preferida de Luma, pois ela gostava de chegar em casa e sentar-se no sofá abraçada com ele, ouvindo explicações e piadas.
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– Não aguento mais esconder dela! – disse Bruce, estressado.
– Não insista nisso! – Ela estava nervosa
– Eu a amo, Sheri, não quero afasta-la de nós, mas não é justo!
– Você tem que entender, Bruce! – Sheri começou a chorar – É para a segurança dela.
– Um dia você não vai mais conseguir, você sabe! – disse ele, apontando para ela.
– Não diga isso! – ela se jogou sentada na borda da cama, tampando o rosto com as mãos.
– Não fique assim, Sheri – ele parecia ter se acalmado um pouco – Aquele… outro jeito talvez pudesse ser melhor para ela.
Ele pronunciou “outro jeito” como se Sheri não gostasse de falar sobre isso.
– Mas eu não quero me separar dela.
Ele sentou-se ao lado dela e a abraçou, torcendo para que Luma não tivesse ouvido nada.
– É por ela que temos que fazer isso.
Sheri afundava a cabeça no peito de Bruce.
– Mas não agora, eu tenho medo. – chorava cada vez mais.
– Não fique assim. – ele a abraçou mais forte — Eu te amo.
Ele beijou a testa de Sheri. Eles se deitaram e dormiram abraçados.
No quarto ao lado, Luma dormia como toda santa noite: com a música alta o suficiente para não ouvir o barulho que fazia lá fora. Ela achava mais fácil dormir assim.
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No dia seguinte, as meninas estavam comentando mais sobre meninos do que qualquer outra coisa. Estavam sentadas perto das quadras.
– O quão gato é aquele? – disse Isis, apontando indiscretamente.
As meninas riram.
– Para com isso, Isis. – disse Luma, abaixando o braço da amiga.
– Desde que entrei nesta escola admiro aquele cara. – Audrey dizia apontando mais discretamente o menino com a bola de basquete.
Por elas, passou um cara alto, bronzeado, atlético, com cabelos loiros, como os de Isis, só que mais brilhantes e amarelados, não como areia. Ele passou rápido, mas mandou um olhar diretamente dentro dos olhos de Luma. Ela enrubesceu. Tinha olhos verdes e feições do típico popular dos filmes, com cara de líder, amigável e super disputado.
– Ah… Esse foi sempre o melhor – disse Isis, suspirando.
– Quem é? – perguntou Luma.
– Jeremy Skies, 16, segundo ano, atleta consagrado, capitão do time de vôlei, bom senso de humor, notas boas em tudo, menos química, o que é irônico, pois posso sentir a química de longe.
Audrey deu-lhe um tapinha amigável no ombro, rindo.
– O que? – indagou Isis, em meio a risos — O garoto é perfeito.
– Como sabe tanto sobre ele? – perguntou Luma.
– Todos sabem, ele é tipo, superpopular.
Quem passava por elas agora era uma garota quase tão alta quanto ele, um pouco menos bronzeada, com longos cabelos cor de mel, muito lisos, mas todos podiam ver de longe que eram naturais. Ela era magra, mas não tanto quanto as meninas bulímicas que a acompanhavam, tinha o corpo perfeito, não vestia uniforme, mas ninguém parecia perceber ou ligar. Também olhou direto para Luma. Um olhar declarando inimizade. Devia ser namorada dele. Levava bastante maquiagem no rosto, mas apesar do exagero, estava linda.
Isis bufou.
– E essa mala aí, é Annie Claire, 16, segundo ano, apenas conhecida por sua beleza e por seu passado.
– Passado? – Audrey parecia curiosa.
– Sim. Quando estavam no 9º ano, Jeremy fazia de tudo por ela. Ela o humilhava direto, o fazia fazer coisas para “provar seu amor” por ela, era assim que as pessoas ficaram conhecendo ela e começaram a reparar em quanto a vaca é bonita. Ele pagava de ridículo. Até que um dia, ele se esqueceu dela. Ela começou a sentir falta e desde mais ou menos um semestre depois, até hoje só o persegue. Mas era muito tarde, ele nunca mais olhou para ela. E ela é motivo tanto de riso quanto admiração.
– Uau! – disse Luma, irônica – O que não fazer por atenção?
Em casa, Luma percebeu que seus pais pareciam um pouco abatidos. Não saberia como melhorar a situação sem seu pai. Quando a mãe saiu para o trabalho, sentou-se no sofá, bateu a mão no espaço ao seu lado, convidando seu pai a sentar e, quando ele o fez, Luma o abraçou forte, olhou fundo em seus olhos, mas não quis perguntar nada, só esperava não ser o motivo. Deitou-se em seu colo e eles assistiram à televisão juntos até que a mãe chegasse e Luma, com a ajuda de Bruce, a animassem.
Mais tarde, o plano de animar Sheri funcionou bem, mas ela ainda lançava alguns olhares para Luma como se tivesse que fazer algo contra sua vontade, como se nunca mais fosse vê-la, como se algo grande fosse acontecer.
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