Na semana seguinte, algo estranho aconteceu. Não tão estranho quanto algumas coisas que já haviam ocorrido com Luma, mas foi bem estranho. Um nome, Jeffrey, de repente aparecera na chamada. O garoto que respondia a esse nome tinha cabelo bagunçado até a nuca, castanho, a pele bronzeada e o porte não muito atlético, mas ele tinha um rosto muito bonito. Luma achava que teria reparado nele se ele estivesse lá nos primeiros dias de aula, ainda mais pelo fato de usar muletas e ser desengonçado. Não era o tipo que passava despercebido.

Jeffrey Murine era amigável e se aproximou rápido das garotas. Apesar da dificuldade, ele era bem ágil e conseguia correr mais rápido do que muita gente.

Luma conheceu outras pessoas naquele dia: o professor de história, por quem ela estava tão ansiosa, Sr. Brunner, o treinador Hedge, um cara baixinho e invocado, sempre gritando e querendo bater em alguém que chamava os alunos de cupcakes, e sua estagiária, Isabel Green, uma mulher bonita, alta e musculosa, ainda que delicada, como uma mãe-soldado de no máximo 30 anos, que dizia estudar anatomia humana e acompanhava as aulas de educação física.

Falando em educação física, a aula daquele dia foi bem peculiar. Luma já experimentara nove escolas diferentes e em nenhuma delas teve aula de arco e flecha.

Todos os alunos do primeiro ano seguiram para o ginásio, que ficava no Bloco B. Chegando lá, encontraram mais dezenas de alunos mais comportados, pareciam mais velhos. Se havia algo de que Luma tinha medo eram os veteranos, por isso torcia para não serem do terceiro ano. Logo descobriu que era o segundo ano e que, como teriam a mesma modalidade que eles em educação física, as duas salas teriam aulas juntos.

Seis filas se formaram. Cada uma à frente de um alvo, um arco e uma aljava cheia de flechas.

Após um tempo, muita gente quase acertara o treinador e a estagiária, o triplo dessas pessoas acertara a parede e alguns poucos acertaram o alvo e comemorara, mesmo que acertassem por um triz, no canto externo, ou até perto do centro, por sorte ou experiência. Luma era a primeira da fila. Ao seu lado, também em primeiro, Annie Claire. Quando estava prestes a tentar, o treinador anunciou:

– Ok, cupcakes, é o seguinte: Se vocês deixarem de ser molengas, estará valendo uma pequena competição, sem prêmio.

Luma ficou nervosa. Annie atirou primeiro, em cheio no centro do alvo. Todos já estavam acostumados demais com suas vitórias para comemorar, inclusive ela, que deu meia volta casualmente e voltou para o fim da fila, lançando um olhar desafiador para Luma, acompanhado de um sorriso cínico. Por outro lado, expressões surpresas formaram-se no rosto de vários alunos quando Luma acertara um exato centímetro do centro do alvo à frente de sua fila. Queria devolver o olhar desafiador para Annie, mas ela mesma estava muito surpresa para isso. Nunca tocara em um arco antes, e a experiência da primeira vez passara como um borrão para ela, como se fosse automático e instintivo pegar um arco, uma flecha e atirar. Voltou para o fim da fila.

Depois de um tempo, o treinador liberou os alunos para uma pausa para beber água ou ir ao banheiro. Luma não se sentia apertada ou com sede, mas queria sair do mesmo ambiente que Annie. Ao passar pela porta, ouviu às suas costas:

– Ei, aquilo foi incrível!

A pessoa tocou seu braço. Quando Luma se virou, ficou mais vermelha do que achava possível, era ninguém menos que Jeremy Skies. Jeremy Skies estava falando com ela, e seus pensamentos eram como um liquidificador ligado na máxima velocidade, misturando coisas como “Ai, meu Deus! Será que meu cabelo está muito bagunçado?”, “Cara, ele é muito mais bonito de perto, e que sorriso!”, “Esperando Annie vir me dar uma voadora...”, “Que diabos esse garoto quer dizer com isso? Por que ele veio me elogiar?”, “Então ele reparou em mim? AI, DEUS!”, o que Luma odiava, mas ela não tinha controle sobre seus pensamentos.

Ela permaneceu quieta por conta do nervosismo, e o sorriso no rosto bronzeado de Jeremy começou a desaparecer, dando lugar a uma expressão preocupada.

– Você está bem?

Luma devia estar mesmo vermelha.

– Hm… Eu… Estou… E… Hm… Obrigada.

Ótimo, agora ela tinha acabado de estragar todas as chances que tinha de conversar com ele.

– Ok, hã… Belos braços, haha – seu sorriso era mil vezes mais bonito acompanhado de uma risada.

Luma tentou rir, mas não tinha certeza de que estava conseguindo, então parou.

O treinador Hedge chamou todos para dentro.

– Hã… Eu… Vou… Entrar lá. – Luma sorriu e entrara apressada.

Isis e Audrey já estavam esperando por ela. Quando ela se aproximou as três disfarçaram bem, mas por dentro estavam praticamente gritando.

– Ele elogiou seu tiro? – perguntou Audrey, discreta.

– Sim! – As três se olharam sorrindo, surpresas.

– Ai, Deus, Luma! – disse Isis, com a mão na testa. – Você percebeu que ele nem trocou um mísero olhar com Annie?

– Não... Não tinha percebido.

– Vocês vão se casar! É simples. – Isis brincou.

Elas continuaram sorrindo até o intervalo, quando Isis pediu todos os detalhes. Ela não fazia o tipo fofoqueira, mas adorava saber das coisas, não necessariamente para contar ou usar contra as pessoas. Só curtia estar informada.

Ao chegar em casa, Luma subiu para seu quarto, largou a mochila em um extremo da cama e recostou-se no outro, apertou o pingente dourado em forma de colcheia em seu pescoço. A nota musical em forma de colar que seu pai lhe dera quando nasceu, escolhendo seu nome, que estava gravado no verso e que, segundo ele, significava música em latim. Fazia bastante sentido o fato do nome, pois ele sempre fora de fazer pesquisa, sempre fora estudioso. Mas não fazia sentido ele ter escolhido esse pingente ou significado, talvez por homenagem à mãe, mas Bruce não era muito ligado no mundo na música. Não tanto quanto elas, mas ele gostava de Beatles, claro.

Ela ficou lembrando o ocorrido. Os expressivos olhos verdes dele, diretamente direcionados aos dela, o grande sorriso brilhante em seu rosto, que lembrava muito o de Isis, brincalhão e divertido, aconchegante. O cabelo loiro colocado para trás, talvez para afastar o suor, pois segundo as meninas, ele estava pulando e correndo, fazendo brincadeiras bobas com seus amigos enquanto não chegava a sua vez de atirar.

Luma sorriu, rindo de si mesma por ter sido tão boba. Agora podia ter conseguido um amigo novo. Mas não seria só um amigo, mas Jeremy Skies andando com ela, Isis, Audrey e Jeff — que se juntara ao grupo. Talvez estivesse sonhando demais, mas ela sabia que essa história voltaria à tona. Podia imaginar a surpresa nas caras de Isis e Audrey quando, de repente, ele se sentasse com elas e dissesse que elas têm belos braços. Por que Luma gostara tanto de ter seus braços admirados, afinal? Era muito boba mesmo.

Continuou rindo de si mesma, brincando com o pingente, recostada no travesseiro de sua cama.