O Filho do Inventor
23 Capítulo 23 - Ângelo & Isis
Isis e Ângelo começaram a seguir em direção à Califórnia andando, pois ele procurava por "material".
– O que você está procurando exatamente? — perguntou ela, impaciente
– Metal. Qualquer tipo de metal em que eu possa trabalhar até virar algum tipo de chapa para meus pés, ou sei lá. — ele olhava em volta, nos cantos das ruas
Alguns metros à frente, um clarão ofuscou-os.
– E aí? — disse um entregador de uma companhia de entrega, encostado na van
– Hum... Oi? — Isis estava confusa
O homem bufou. Ele usava roupa bege e os cabelos grisalhos encaracolados vazavam do boné, tinha uma face brincalhona.
– Vocês não têm ideia do quanto é frustrante ninguém me reconhecer. — ele chegou perto — Nem você? Nada mesmo? — perguntou a Isis
– Hum... Não, nada. Por que eu deveria te reconhecer?
– PORQUE EU SOU SEU PAI! — ele abriu os braços, indignado
A van dizia "Hermes Express".
– Hermes! — Isis o abraçou — Isso é demais, não acredito que estou te vendo. Por que não falou comigo no Olimpo?
– Zeus nos proibiu de falar com vocês. Apolo e eu ficamos muito agoniados com isso, somos apegados aos nossos filhos, mesmo que hajam muitos deles. — ele pigarreou — E é por isso que vim te ajudar.
– Ajudar? Maneiro.
Hermes tirou uma encomenda da van. Era uma caixa de aproximadamente 30 centímetros.
– Aqui. Ah, e para o garoto... — ele o entregou outra caixa, com um metro e meio de comprimento
– Obrigada, pai. — Isis o lançou um sorriso típico de filhos de Hermes e ele sorriu de volta
Os dois abriram as caixas. Na de Isis, uma sandália imitando o estilo grego. Era de bronze e tinha uma bola de enfeite de cada lado.
– É linda, pai. Valeu, mas não entendo como isso vai me ajudar.
Hermes aproximou-se, pegou a sandália com delicadeza e apertou o botão do lado de fora. Imediatamente, asas douradas brotaram dali. Eram inquietas e fortes, de forma que foi difícil segurá-las. Hermes apertou o botão novamente e as asas voltaram a se encolher magicamente dentro de sua respectiva bolinha.
Isis estava pasma e sorriu para ele de uma forma que dispensava palavras.
Na caixa de Ângelo, outro objeto de bronze, um tipo de skate comprido e estilizado. Um longboard.
– Sinto muito, garoto, mas este não voa.
– Tudo bem, as rodas resistentes vão suportar o atrito em alta velocidade com o asfalto. Obrigado.
Hermes piscou e olhou o relógio.
– Agora tenho que ir, — disse, preocupado — as coisas no Olimpo não estão nada bonitas. As outras deusas menores estão começando a tomar partido. Ártemis, Héstia e Nêmesis estão do lado de Atena, Deméter está do lado de Hera trazendo Perséfone ao mesmo lugar. Hécate, Nix e Íris estão do lado de Afrodite e, naturalmente, Nike e Tique também, para ficar contra Nêmesis. Nós, homens, continuamos não tomando partido, mas secretamente, temos nossas preferências. Estamos praticamente todos ao lado de Afrodite, claro, a não ser por Poseidon que sempre foi meio fanático por Atena e Apolo que sempre amou Héstia.
– Bom saber. Valeu, pai.
Hermes sorriu novamente e o clarão voltou. Quando conseguiram abrir os olhos, tanto ele quanto o caminhão de entrega haviam sumido.
Os dois se puseram em seu caminho. Ângelo subiu no novo longboard e Isis abraçou-o pelas costas, calçando as sandálias novas. Ela os ativou, as asas brotaram e começaram a bater freneticamente. Os dois avançaram numa velocidade tão grande quanto um passeio em um centauro e o que demoraria 41 horas de carro, demorou apenas 12 horas. Tiveram algumas paradas para ir ao banheiro, para comer, ou apenas para descansar e conversar.
Lá estavam. Midway Drive, San Diego, Califórnia. Seguiram na calçada até achar o número 3304. Era uma loja muito pequena, um quiosque fechado. A placa acima da porta anunciava: "Aphrodite's Closet". Isis e Ângelo entraram e uma morena sorridente veio atendê-los.
– Olá, sou Jenn. — seus olhos mudaram de cor — Posso ajudá-los?
Sua pele estava nas melhores condições possíveis, seus olhos eram grandes e expressivos, coloridos. Naquele momento, aparentavam estar cor-de-rosa, mas parecia apenas uma ilusão. Às vezes ficavam no castanho mais comum. Névoa. A beleza em seu rosto era sobrenatural e o cabelo perfeitamente arrumado, como se ela estivesse pronta para ir a uma grande festa. Era brilhante e sedoso. Com certeza não era uma mortal qualquer.
Isis e Ângelo se entreolharam. Mentalmente, decidiram ir diretamente ao assunto.
– Pode sim, estamos procurando Afrodite.
A mulher não pareceu surpresa. Na verdade, ela os encarou desconfiada após examina-los de cima a baixo.
– Não posso concede-los esta ajuda. Minha mãe está se preparando para a luta, não pode ter nenhum tipo de distração. E como posso saber que vocês não são espiões de Atena ou Hera?
– Bem... — começou Isis. Eles se entreolharam novamente — Na verdade somos espiões de sua mãe.
– Hum-hum... Provem.
– Bom... Eu sou filha de Hermes, que está totalmente ao seu lado. Viemos apenas receber ordens dela.
– Ok... E você, garoto? — ela não parecia muito convencida
– Sou... Filho de Hefesto... Você sabe, o marido dela. — ele tentava esconder o nervosismo
– Você é bonito demais para ser filho de Hefesto, mas ok... Vou ver com ela.
A mulher foi para trás do balcão da loja. Era difícil andar ali dentro, as araras estavam cheias de mais, amontoadas. Agora eles entendiam o que Zeus queria dizer com fantasias. Era uma loja de strippers. Jenn afastou uma arara e abriu uma porta escondida. Começou a gritar coisas incompreensíveis para o escuro atrás da porta.
– Filho de Hefesto, hã? — disse Isis
– Foi a primeira coisa que veio à minha cabeça.
– Ah, então você não é filho de Hefesto?
– Não. — Ângelo parecia esconder muita coisa sobre si — Só falei para que ela nos liberasse.
– Você é misterioso, cara. — admirou Isis — Gosto disso.
Ele sorriu para ela.
Jenn voltou-se para eles.
– Podem descer. — disse, desconfiada
Os dois seguiram para a porta tão cor-de-rosa quanto os olhos da mulher. Sinalizaram um obrigado com a cabeça e Jenn fechou a porta atrás deles.
As tochas ao longo da comprida escada de mármore acenderam-se automaticamente. A passagem era apertada e assustadora. Apesar da luz que o fogo emanava das tochas, não era possível distinguir a cor da parede. Também não era possível ver o fim da escada. As tochas se acabavam antes que o mesmo ocorresse com a escada. Isis engoliu em seco. Poderia parecer um garota independente e forte, mas naquele momento estava realmente assustada. Ângelo olhou para ela, que se recusou a retribuir o olhar. Em seus expressivos olhos, estava estampado o medo do local. Não sabia porquê. Talvez porque também estivesse com medo, talvez porque se importasse muito com ela, mas ao vê-la daquela forma, rapidamente se aproximou e abraçou-a. Então toda imagem independente e forte construída por ela desapareceu enquanto se afogava em seu peito. Isis tinha um ponto fraco. Um único medo que a fazia desmoronar e esquecer a garota confiante que era. Isis era claustrofóbica. Aquele corredor sem fim e sem espaço a fazia ter a impressão de que as paredes iam se fechar.
Ângelo levantou seu rosto. Seus olhos brilhavam à luz das tochas.
– Está tudo bem? Podemos ir? — ele realmente se importava com ela
Isis balançou a cabeça positivamente. Ângelo sentia como se estivesse abraçando uma criança por quem era responsável. Sentia que tinha de cuidar dela, que protegê-la. No momento em que Isis se afastou e agarrou sua mão, tremendo, ela era sua pequena Sweet Child O'Mine, hit de sua banda preferida.
Lentamente, os dois desceram juntos. Ao chegarem na parte escura, Isis agarrou os grandes braços de Ângelo. Ela estava em choque. O pior que conseguir ver as paredes se fechando, era não conseguir ver, mas sentir o ar abafado da falta de espaço. Eles já não sabiam quando ou se a escada acabaria, mas tinham a esperança de não ser longe, pelo fato de que Jenn conseguiu se comunicar com a mãe aparentemente sem esforço.
Isis tremia e suava. Era difícil andar. Ângelo foi na frente, esticando o braço para prever o fim na escada. Em momento algum largou dela, deixou-a para trás, ou a desamparou. Após um minuto, encostou em algo. Uma barreira.
– O que foi? Por que parou? — perguntou Isis, horrorizada
– Há algo aqui.
Isis chegou mais perto. Soltou sua mão e segurou-se apenas em seus braços. Fechava os olhos e tentava pensar em coisas boas, ser positiva. Ficava imaginando os olhos preocupados de Ângelo para ela enquanto ele tateava a tal barreira.
– É uma porta. — anunciou
– Abre. — suplicou Isis, assustada
Uma de suas mãos foi parar nos ombros dela e com a outra abriu a porta. Uma luz o ofuscou, e uma fragrância de rosas inundou suas narinas. Após seus olhos voltarem a se acostumar com a luz, puderam ver um quarto completamente rosa. Parecia a suíte presidencial de um motel 5 estrelas. Uma grande cama de lençóis vermelhos, champanhe para todo lado, um jazz sensual passando constantemente. Isis e Ângelo estavam deslocados do local. Sujos, suados, aterrorizados e cansados. Magicamente, o lugar tinha sacada, com vista, luz solar e vento, o que os deixou atordoados. Era lá que Afrodite estava, tomando uma taça de champanhe cheia de classe e pose.
– Até que enfim chegaram. — disse, virando-se
A deusa era inexplicavelmente bonita. Aparentemente, a beleza seguia o ideal de quem quer que a olhasse. Mas para todos, seus cabelos, a cor de seus olhos e de sua pele mudava, pois era impossível imaginar apenas um ideal de beleza.
Afrodite usava um longo vestido cor-de-rosa, claramente caro, digno de uma princesa da antiguidade. Diamantes e ouro o adornavam. Seu perfume de jasmim não era nada enjoativo, pelo contrário, era ótimo e dava ao ambiente ares de amor e beleza.
– Ora, que belo casal! — entoou a deusa
Isis e Ângelo notaram que ainda se abraçavam. Ângelo corou e retirou o braço das costas dela, colocando as mãos nos bolsos, sem graça. Isis nunca imaginara se sentir bem fazendo parte de um belo casal. Talvez um belo par de "peguetes"... Mas naquele momento, estava feliz com o elogio.
Recompondo-se, Isis começou a dizer:
– Hã... Bom, estamos aqui porq...
A deusa balançou a cabeça negativamente enquanto seus olhos se tornavam castanhos.
– Não falarei com vocês desta forma. — disse examinando as roupas dos dois
Graciosa, Afrodite balançou uma mão à frente do tronco, em direção a eles. Pode parecer clichê, coisa de contos de fadas, mas um bando de borboletas surgiu da janela e os tomou em um tornado de insetos cor-de-laranja.
Após o turbilhão de asas passar, ambos estavam arrumados e lindos.
Isis vestia um longo vestido prateado, com mínimos brilhantes e um grande decote nas costas. Seu cabelo loiro estava preso por tranças que levavam a um grande coque lateral. Pedras negras o adornavam e, para a maquiagem, delineador fininho e batom vermelho. Se sentia uma verdadeira estrela de cinema dos anos 40.
Ângelo estava tão bonito quanto ela. Vestia smoking muito preto e limpo. Mais bem passado impossível. Nunca vestira aquele tipo de roupa, mas sempre ouvira que machucava, apertava. Talvez fizesse parte do poder de Afrodite, mas se sentia muito confortável. Inclusive com os sapatos italianos de couro (estava feliz de voltar a calçar um sapato). A gravata era vermelha e seu cabelo estava arrumado. O perfume era fraco perto do de Afrodite, mas ainda era possível sentir.
Os dois se olharam. por um momento, tudo parou. Seus olhos não se desgrudavam um do outro. Também não paravam de sorrir. Lá no fundo, ambos sabiam que era apenas o poder de Afrodite, mas no resto, não conseguiam fugir dele.
A deusa estalou os dedos. Rapidamente, Isis e Ângelo saíram do transe.
– Ok, agora sim. — ela sorriu
– Então, é... — Isis tentava pensar claramente
– Eu começo se você quiser. — disse Afrodite — Vocês vieram para me impedir e...
Ela fez um gesto, demonstrando que continuasse
– Não! Não, nós não viemos para impedi-la! Estamos do seu lado, na verdade.
– Sério? Então são espiões do outro lado?
– Hum... Também não. — Isis deu um passo à frente e percebeu que ainda estava com as sandálias do pai, talvez fossem encantadas
– Vieram para que, afinal?
– Viemos deixar claro que a guerra é desnecessária.
– Então não estão do meu lado. — ela se dirigiu à mesa para mais champanhe
– Estamos sim! — tentou Ângelo — Mas olha só, outros deuses estão se juntado à guerra, você já tem o seu título, será que não é melhor deixar tudo do jeito que está?
A deusa soltou a garrafa ainda enquanto enchia o copo e virou-se. A garrafa simplesmente continuou o trabalho.
– Está duvidando do meu poder? — ela cerrou os olhos — Se acha que qualquer uma como Perséfone pode me vencer... Não pode estar do meu lado.
– Seu poder é inquestionável, senhora. Nós só estamos prezando pela paz no mundo. Da outra vez, uma grande guerra acontecera. Imagine desta vez que poder e força estão em jogo também.
– Tem razão... — ela pareceu entender, a taça girava à frente dela — Seria ótimo!
– O que!? — indignou-se Isis
– Ora, acha que tenho um caso com Ares por que? Também sou fã da guerra.
Isis e Ângelo se entreolharam. Suas mentes conversavam "ela é louca!". Rapidamente, Isis bolou um novo argumento.
– Então vocês três vão lutar, você, obviamente ganhará de novo, seu poder e beleza permanecerão inquestionáveis, mas não haverá ninguém para testemunhar tua grandeza. De que isso valerá?
Afrodite pareceu pensativa. Olhou para o horizonte através da janela, agarrou a taça no ar e deu um gole.
– Sabe que você tem razão!?
– É!!? — Isis animou-se
– Sim. Porém– sempre há de haver um porém -, eu não posso desistir da luta agora. Primeiro, minha dignidade. Segundo, meu amante.
Ângelo teve uma ideia.
– Mas da outra vez vocês não lutaram. Vocês escolheram um mortal para julgar.
– E que mortal... — Afrodite suspirou
– Bem... Eu poderia julgar, e como já declarei estar do seu lado, então é vitória certa, rápida, indolor. — ele sorriu — Simples.
Isis sorriu também e os dois esperaram uma decisão da deusa.
– Vocês têm razão. Vou ser caridosa e salvar seu mundinho mortal. — Afrodite sorriu, mudando de assunto — Agora, por favor, se beijem.
Ambos coraram.
– Estou só brincando. Deem o fora que eu vou treinar meu novo discurso. Discurso para fazer minhas inimigas desistirem da luta e aceitarem a derrota.
Ela piscou e eles obedeceram. Desta vez, a porta deu direto na loja, o que os deixou tontos.
Se despediram de Jenn, sentaram-se no meio-fio e se perguntaram o que fariam a seguir.
– Acho que devíamos nos comunicar com os outros. — decidiu Ângelo
– Como? Não temos celulares. — lembrou-se a filha de Hermes
– Não é preciso. Passamos uma mensagem de Íris.
– Hã? — Isis nunca havia ouvido falar de mensagens de Íris
– Vi acontecer uma vez. — ele se levantou, pegou a mão dela e os dois se dirigiram à um hidrante.
Ângelo olhou para os lados, procurando algum fiscal, policial, segurança... Qualquer cidadão da lei. Midway Drive estava extremamente vazia. Ele meteu o pé na tampa que facilmente se soltou. Isis amou a cena.
Água começou a jorrar dali. Ângelo pôs a mão no bolso, pegou um dracma, entoou algum tipo de feitiço ou maldição e jogou-o na água. O dia estava quente, havia um arco-íris fraco aparecendo ali. Quando o dracma dourado se chocou com ele, magicamente o arco-íris brilhou como numa explosão e abriu-se numa bolha de sabão colorida e plana. A paisagem de Oregon apareceu ali no meio.
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