O Filho do Inventor
22 Capítulo 22
Sim, caminhada. Eles decidiram não ir com o Pagani Huayra. Semideuses já chamavam atenção anormalmente. Semideuses num carro super veloz, caro, no meio de New York, dirigido por um cara sem carta de habilitação… Muitos fugitivos adolescentes que são tachados de delinquentes, dementes, ladrões e assassinos são apenas jovens semideuses tentando sobreviver. E a suposta vítima é um monstro ou coisa pior. Então, esse foi o motivo para decidirem ir a pé.
Com o Pagani, foram apenas até o Brooklyn. Deviam estar mais ou menos na altura de Melville. Isso não os custou nem 40 minutos.
Diferente da caminhada até o posto de Ângelo, eles estavam animados. Faziam piada, conversavam, trocavam experiências.
Uma vez, Jeff, desesperado de fome, começara a comer uma cadeira, esquecendo-se que estava disfarçado, mas o pior foi perceber (tarde demais) que havia uma velhinha nela.
Na primeira aula de educação física da escola da quinta série de Adam meninas e meninos teriam de se separar, um para cada lado do ginásio. Todos em seus devidos lugares. Ele devia estar com muito sono, pois não percebeu os minutos que passaram enquanto o professor o encarava bravo. Até que gritou "Garotas são daquele lado". Naturalmente, ele estava de costas, e seus cabelos até o ombro enganavam, além de ele ser um magricela total naquela época. Os meninos começaram a rir dele, e quando virou-se, as meninas também. Vida social pra quê?
Falando em vida social, uma vez algumas meninas mexeram com Audrey por gostar do ex-namorado de uma delas. Riram de sua aparência e duvidaram que algum dia qualquer garoto gostaria dela. Ela inventou que tinha um amigo que era louco por ela. Em casa, criou um perfil falso em uma rede social, inventou nome, colocou uma foto achada na internet e tudo pra fazer que era esse garoto. Passou uma semana compartilhando coisas e adicionando pessoas aleatórias até que adicionou a si mesma. Um belo dia, resolveu escrever uma declaração dele para ela. Já estava para o mundo todo ver quando ela percebeu que estava em sua conta pessoal. Era tarde demais quando tentou tirar, as meninas já haviam visto e, pior, o garoto também.
Enfim, já havia passado uma hora e meia de caminhada, então decidiram parar e comer. Com sorte, Ângelo tinha alguns trocados no bolso. Pararam em uma lanchonete e pediram cinco cheeseburgers e Coca-Cola. Comiam vorazes, até que Ângelo percebeu que deixara tudo no Pagani. Gênio. E agora?
– É o seguinte — propôs Isis -: acabamos e corremos.
– Vamos achar um jeito, nem que tenhamos de lavar a louça depois, mas temos de pagar. — disse Audrey
– Há! — debochou Luma — Você fala isso para a filha de Hermes?
– É, eu prefiro a ideia de fugirmos. — manifestou-se Adam — Não temos tempo para gastar com louça.
Todos concordaram.
O sino acima da porta soou. Passos pesados, mas ao mesmo tempo sorrateiros vinham de lá. Luma virou-se. Com uma rápida olhada de baixo à cima, pode perceber que, se tivessem que lutar com aquilo, teriam trabalho. Não era apenas uma quimera, era um sujeito alto e corpulento, mal encarado e todo de couro preto. As correntes em sua calça de motoqueiro faziam barulho com seu andar e o olhar de trás dos pequenos óculos de vermelhas lentes espelhadas podia estar fuzilando qualquer um. O cabelo estava num corte militar, que parecia afunilar o topo de sua cabeça tão grossa quanto o pescoço malhado.
Algum tipo de fúria percorreu o corpo deles. Tudo o que desejavam naquele momento era luta, sangue, morte...
O homem sentou-se com eles. Pararam de comer e o encararam.
Após alguns segundos, ele se tocou.
– Oh, sim. Me desculpem. Sou Ares, deus da guerra. Prazer, semideuses.
A frase pode parecer amigável, mas saída daquela boca era tão agressiva quanto um soco no nariz. Era realmente forte a aura do deus, fazia Luma esquecer a fome e desejar com toda sua força pular em alguém e partir para a luta. Manteve-se calada.
– Vocês estão naquela missãozinha ridícula de separar a briga entre Afrodite, Atena e Hera, hum? — ele riu ferozmente — Esqueçam, pivetes. É assim que deve acontecer, elas têm que brigar de novo. E os deuses odeiam quando alguém tenta mexer com o destino.
– Por que está nos dizendo isso? Você espera que vamos voltar ao Acampamento e dizer que Ares — Audrey disse aquilo com um nojo que Luma nunca havia visto em suas feições — nos disse que parássemos, que os deuses não gostariam, e deixemos que elas destruam toda civilização por uma briguinha boba?
– Sim. E briga é briga, garota. Briga é sempre bom.
– Esqueça, não deixaremos isso acontecer.
– O que? Vocês não sabem se divertir? Vão dizer que nunca apreciaram uma boa briga de família? — ele parecia indignado, mas ainda assim passava ódio
– Hehehe, sim! — Isis piscou
Luma a deu uma cotovelada e ela se queixou.
– Enfim, não vim atrapalhar vocês, — Ares se levantou e começou a remexer os bolsos — só vim avisá-los de que se quiserem perigo estão no caminho certo.
Ele deixou dinheiro em cima da mesa e saiu com seu andar dramático. Dracmas e dólares que resultavam em vinte dólares.
– Ah! — ele parou a dois metros da porta e voltou-se para a mesa em que estivera — Você sabe se divertir, garota! — ele abaixou os óculos e piscou para Isis
Ela sorriu, mas o resto deles estremeceu e congelou até os ossos. Ele não tinha olhos. Por trás dos óculos avermelhados haviam dois buracos com chamas ardentes.
Ares montou em sua Harley Davidson (o que deixou Ângelo com um pouquinho de inveja) e partiu.
Adam foi pagar enquanto o restante deles esperava do lado de fora, onde Téfra aguardava impaciente, assustada com as pessoas que passavam. Talvez, com a névoa, vissem algum tipo de cachorro gigantesco. Seguiram caminhada.
Uma hora e vinte minutos foi o que bastou para chegar ao Empire States.
– Chegamos. — disse Adam com um suspiro, admirando a altura do prédio
– Espera aí. — Isis se postou na frente deles — Você não disse que o Olimpo fica no 600º andar?
– Sim.
– Mas só há 102, que eu saiba.
– Eu sei, venho pensando nisso desde ontem. Nunca tive de visitar o Olimpo e não faço ideia de como chegar lá, mas sei que há um jeito.
Eles entraram e seguiram para o elevador. Adam apertou o último botão, o 102º.
– Não sei se isso vai funcionar. — disse Luma
– É a única coisa que podemos tentar enquanto isso. — respondeu Adam.
Foi um longo caminho, mas ao chegar lá, o elevador deu uma espécie de tranco, a luz piscou e, ao voltar, Ares estava ao lado deles, sorrindo.
– Olá, semideuses.
Aquela raiva formigava dentro de cada um deles, os fazia querer quebrar tudo em volta, o que só os fazia mais nervosos, pois não havia nada em volta.
– Tentando ir ao Olimpo, hã?
– Olha, você não vai conseguir nos impedir. — disse Luma
– Não estou tentando impedir vocês de nada, garota. Eu estou é gostando que vocês estão se envolvendo, isso só está gerando mais briga e eu adoro isso.
Ares riu e os pelos do corpo de Luma se levantaram.
– Muito bem… Vou ajudar vocês.
Ele tirou um cartão do bolso e o inseriu em uma abertura abaixo de todos os botões. Automaticamente, um botão mágico e grande com o número 600 apareceu abaixo da abertura. Era dourado e majestoso, com certeza mais importante do que todos os outros. Ares o apertou e o elevador deu mais um tranco. Então começou a se mover em alta velocidade. Mais um tranco e ele parou. Silêncio. A porta não abriu.
– Ótimo, mais uma vez essa porcaria quebrou. — disse Ares, como se sempre acontecesse — É um elevador realmente antigo, existe antes mesmo de vocês, mortais, descobrirem o que é um elevador.
A raiva dentro de Luma tomou conta dos pensamentos dela.
– Deixa comigo. — disse, cheia de confiança.
Ela deu um passo à frente, respirou fundo, se concentrou e encarou a porta. Então, começou a empurrar, puxar, chutar a porta, tudo que você possa imaginar para tentar abri-la. Obviamente, nada aconteceu, só pagou de ridícula. Enquanto ela se lançava contra a porta de lado, Ares deu um mínimo toque na lateral da porta. Ela se abriu automaticamente e Luma caiu no chão. Ares simplesmente a pulou e seguiu o caminho. Adam a ajudou a levantar.
– Sim, Ares irrita sem nenhum esforço.
– Ele não deve ser o único. Espero conseguir me controlar e não sair chutando o Olimpo. — Luma limpou os joelhos — Ei, Ângelo, você não vem?
Ele ainda estava no elevador.
– Não posso entrar! Sou mortal. — Ângelo bateu numa espécie de barreira mágica na porta do elevador
O caminho subia um monte, tudo parecia extremamente limpo e novo. Dourado e branco eram as cores mais vistas, haviam várias construções e todos os pisos e colunas eram de mármore. Fontes de ouro, bronze celestial e néctar estavam distribuídas no caminho até a maior construção, a Sala dos Tronos. Quando chegaram, dava vontade de passar o dia todo olhando o lugar. Cada trono refletia a personalidade e o poder de seu respectivo deus. As paredes apresentavam tapeçaria gigante e divina. Eram verdadeiras obras de arte assinadas por Atena. A disposição dos tronos era igual à dos chalés do Acampamento, mas apenas os deuses maiores estavam ali. No Acampamento, vários chalés foram construídos mais recentemente, atrás dos chalés de Zeus, Hera, Poseidon, Deméter, Ares, Atena, Apolo, Ártemis, Hefesto, Afrodite, Hermes e Dioniso, como os de Hades, Hécate, Íris, Tique, Hipnos, Hebe, Nêmesis e Nike, que quase não eram deuses menores.
Zeus se levantou. Tinha uns oito metros de altura e vestia terno risca de giz azul-marinho. Mostrava poder e com certeza dava medo. Tinha feições sérias, respeitosas, dignas de líder. Cabelos e barba grisalhos e olhos eletricamente azuis, que quase lançavam relâmpagos ao se dirigirem a você.
– Finalmente chegaram. — sua voz era estrondosa como um trovão
– Vocês… Estavam nos esperando? — perguntou Isis
– Ora, vocês são os encarregados de resolver tudo.
– Está certo… E a gente devia… Conversar com elas?
– Sim.
– E… Aonde elas estão? — os tronos de Atena, Hera e Afrodite estavam vazios
– Ah, não as deixei ficar aqui, não admito lutas no Olimpo, ainda mais porque a briga foi mais além agora.
– Como assim? — perguntou Luma
– Vocês não conhecem a história?
Eles fizeram que não com a cabeça.
– Muito bem, vou contar. — Zeus pigarreou — Éris, a deusa da discórdia, não foi convidada para uma festa que houve aqui no Olimpo certa vez, quando ainda ficava na Grécia. Por inveja, resolveu acabar com a alegria de todos nós e entregou anonimamente uma maçã de ouro, com a inscrição “Para a mais bela”. Imediatamente, Hera, Afrodite e Atena começaram a disputar o troféu. Nenhum de nós quis ser o juiz da confusão, então eu escolhi Páris para isso, um mortal que era filho do rei Príamo, de Troia. Vivia tranquilamente como camponês com sua esposa Enone até que as três apareceram para ele. Todas tentaram persuadi-lo com oportunidades infinitamente gloriosas. Atena ofereceu a Páris a chefia de uma histórica e vitoriosa guerra, Hera ofereceu a ele a glória de ser o rei absoluto de toda a Europa e Ásia e Afrodite garantiu a ele o amor da mais bela mulher do mundo. Páris passou um tempo confuso em meio a tantas maravilhas oferecidas a si, mas acabou concedendo o título a Afrodite. E a deusa, ignorando a presença da esposa de Páris, realizou seu desejo. Mas o que veio depois é o que nos preocupa nessa briga. Acontece que a mulher mais bonita de todas era nada menos que Helena, a mulher de Menelau, rei de Esparta. Acho que vocês já conhecem a história da Guerra de Troia, hã?
– Uau! — Luma ficou fascinada — Tudo começou assim?
– Exatamente. E cá entre nós, fiquei bem cansado, pois Hera me fez dizer que ela era a mais bonita de todas e blá blá blá, que Afrodite não merecia o título… — ele abria e fechava a mão em um gesto que fazia com que Hera parecesse a maior tagarela — Imaginem agora! Como eu disse, a briga foi mais além, elas estão discutindo por poder, força, estratégia, inteligência… Além de beleza. Imagine se Hera perde de novo.
– Não se preocupe, nós as pararemos... E se não conseguirmos, daremos um jeito de Hera ganhar. — disse Isis, tentando agradar o Deus
– É bom mesmo! — seus olhos trovejaram
– Mas, é... — disse Luma — Se o senhor me permite a pergunta, o que eu tenho a ver com isso? Claro, se a briga acontecer pode haver uma segunda Guerra de Troia e talvez uma terceira Guerra Mundial... Mas por que eu?
Zeus a olhou e, parecendo entendiado respondeu:
– Quando soubemos que a briga recomeçou, logo pensamos em chamar outro mortal para acabar com isso, mas pensando melhor e lembrando de tudo que aconteceu da primeira vez que tomamos esta decisão, declaramos que era melhor não, e até pensamos em sermos nós mesmo os juízes, ou expulsá-las do Olimpo se não parassem de brigar... Então Apolo disse que tinha uma filha, que tinha acabado de reclamá-la e que a achava estritamente possível de completar uma missão com este objetivo, de separar as três. E é aí que você entra, Luma. Você é a filha que Apolo mencionou.
Luma não sabia o que responder, portanto fechou a boca, que estava aberta em surpresa, engoliu saliva e recuou um passo. Percebendo que o silêncio ficaria constrangedor, Jeff perguntou, sem graça:
– Mas… É… Será que o senhor poderia nos ajudar a encontrá-las?
– Tudo bem — ele se sentou — Atena está se preparando para a batalha na cidade de Athena, em Oregon.
– Oregon!!? — espantou-se Adam — Isso é do outro lado do país!
– Mais precisamente nos fundos da igreja cristã de Athena. Eu sei, é irônico. — disse o deus, ignorando Adam — Hera está em Hera Hub em Sorrento Mesa, Scranton Road, San Diego, Califórnia. Ela gosta de se disfarçar e provar seus “valores femininos” assim.
– Cara, por que elas estão todas tão longe? — disse Isis
– E, por último — continuou Zeus — Afrodite está em Aphrodite’s Closet, uma pequena loja de — ele pigarreou — fantasias em Midway Drive, em San Diego também. Boa sorte, semideuses.
– Obrigado, senhor Zeus, voltamos quando pudermos. — agradeceu Adam
– Se puderem. — enfatizou
Os semideuses desceram o elevador de volta, que desta vez não parou. Do lado de fora, na rua, discutiram sobre o que fariam em seguida.
– Acho que devemos nos separar. — disse Luma
– Concordo. — disse Isis
– Então está bem, hum… — Luma começou a pensar — Qual é o mais longe?
– Hera Hub Sorrento Mesa, em San Diego. — Isis respondeu automaticamente — São 2.764 milhas, ou 4.449 quilômetros daqui até lá. No tráfego atual, demoraríamos exatamente 41 horas de carro, mas como não temos carro, o trajeto levaria 910 horas.
Depois de dizer aquilo, sua expressão se fechou em confusão. Não fazia ideia de como sabia daquilo. Os outros a olharam, surpresos.
– Ah, sim. — uma ideia a ocorreu — Hermes é deus dos viajantes e abençoa as estradas.
– Esse é um poder muuuito maneiro. — disse Jeff. Aparentemente, ele era todo complexado por não ter poderes além de canções mágicas.
– Sim… Enfim, — continuou Luma — então eu vou atrás de Hera, já que posso montar em Téfra.
A fênix piou.
– Eu posso viajar pelas sombras — disse Adam — , posso te acompanhar.
Luma tentou conter um sorriso. Por que tanta felicidade?
– Eu também viajo pelas sombras. — lembrou Audrey — Qual o segundo destino mais longe, Isis?
– Afrodite em Midway Drive. 4.445 quilômetros, 907 horas à pé. Pelas sombras, não sei quanto tempo levaria, mas é quase o mesmo que Hera Hub.
– Ou então eu podia buscar um carro, certo? — disse Ângelo
– Poderia tentar te levar na fênix até onde deixamos o Pagani. — disse Luma — Mas não creio que você possa encostar nela sem virar um montinho de cinzas.
– Ou posso tentar te levar pelas sombras — propôs Audrey
Ela deu a mão para ele e aproveitou estar na sombra do Empire States. Em poucos segundos, Audrey apareceu do outro lado da rua, sem ele.
– Não funcionou. — lamentou ele
– Isis, seu pai também é conhecido por ser o mais veloz do Olimpo, acha que pode correr com ele? — sugeriu Adam
Isis também deu a mão para ele, se concentrou e começou a correr. Um rastro quente marcou o chão e em menos tempo que Audrey levara, os dois estavam no fim do quarteirão. Eles voltaram e os tênis de Ângelo haviam queimado, de forma que só restava a parte do tornozelo.
– Posso trabalhar nisso, herdei algumas habilidades de meu pai. — disse Ângelo para si mesmo
– Ótimo, — disse Luma — então eu e Adam iremos buscar Hera, Isis e Ângelo vão atrás de Afrodite e Audrey e Jeff vão atrás de Atena?
– Sim. — disse Isis — A propósito, Atena está a 4.240 quilômetros daqui, o que levaria 846 horas à pé, mas com os meus pés…
– Ok, Isis, você já está se gabando. — disse Jeff, cortando-a
Ela riu.
– Desculpe, mas eu achei isso incrível! — exclamou ela, em resposta
– Ok, então lembrem-se: a estratégia é dizer que estamos do lado delas e que elas são melhores que as outras mesmo sem lutar.
– Bajular-las na cara dura?
– Sim. Bem… A gente se vê. — despediu-se Luma
E cada um seguiu seu caminho.
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