De fato, beberam e beijaram. Muito.

A diferença é que Luma beijou muito seu namorado, Isis beijou muito vários garotos diferentes. Que Luma tenha visto, três, isso porque ela raramente a olhava.

A festa estava animada, as pessoas pareciam incansáveis, pois nunca paravam de dançar, como Isis, que dançava e beijava o tempo todo. Luma estava mais quieta, só beijando. O erro foi que, com o passar do tempo, Luma beijava e bebia demais.

O resto da festa fora um borrão. Ela lembrava de todo mundo entrando na casa, para desespero do anfitrião, dançando e beijando para todos os lados. Luma beijava mais raramente agora, dançava mais e continuava bebendo. Em algum momento vira Audrey e Jeff se beijando acaloradamente. Lembrava de procurar o banheiro, bêbada à beça, entrar num quarto por engano e ver umas cinco pessoas lá, tendo um outro tipo de festa. Luma achara o banheiro, vomitara e tentara voltar para a sala, onde a maior parte da festa acontecia. Tropeçava em seus próprios pés e Jeremy apareceu para ajudá-la, com um copo de água na mão. Luma bebeu e sentou-se com ele no sofá. O que acontecera depois era mistério. Ela não lembrava mais absolutamente nada na manhã seguinte. Aonde ela dormiu? Você pode estar se perguntando. Bem, Luma também estava.

Acordou e sentou-se. Pelo menos tentou, pois uma forte dor atacara sua cabeça. Sentiu-se tonta e passou as mãos nos olhos. Quando seus olhos se focaram, seus dedos estavam pretos. Percorreu os olhos pelo lugar. Tinha um grande guarda-roupa de madeira, uma estante com troféus, uma escrivaninha lotada de coisas como cadernos, roupas, livros, um computador e um iPhone jogado. Na cadeira, seu vestido. Havia um espelho ao lado da escrivaninha, Luma estava de calcinha e uma camiseta grande e cinza. Seu cabelo estava todo embaraçado e a maquiagem borrada. Havia batom na camiseta. Espera, que camiseta era aquela? Voltou os olhos para a cama e caiu para trás, no chão. Jeremy estava deitado de costas, sem camisa, voltado para a parede. Havia mais batom vermelho no travesseiro. O que acontecera?

Ele começou a se mexer. Espreguiçou-se, mostrando os músculos e virou-se.

– Ah, bom dia, pinguça. — ele se sentou.

– Jeremy… O que…? — Luma estava muito espantada para terminar de falar

– Nada, fica tranquila. — foi até ela e lhe deu um beijo na testa.

Andou até o guarda-roupa, pegou um short feminino um pouco menor do que o tamanho dela e jogou na cama.

– Pode usar, fica à vontade. Vou tomar banho.

Ele entrou na porta ao lado do espelho. Luma vestiu o short e foi olhar os troféus. Na prateleira de cima, troféus e medalhas de vôlei, e um de esgrima. Nas duas de baixo, balé.

A porta do banheiro estava entreaberta, vapor saía lá de dentro.

– Ei, Jerry – gritou Luma. –, você faz balé?

– Não. – gritou ele de volta – São da minha irmã. Só a primeira prateleira é minha.

Luma não sabia que ele tinha irmã. Isso explicava o short, e pelo jeito ela era mais nova, pois se era menor até que Luma…

Saiu do quarto. A casa era inteira de madeira, como um chalé de acampamento. Parecia estar vazia há semanas. Haviam caixas de pizza vazias na mesa da cozinha, tênis jogados pela sala, o chão estava empoeirado e latinhas de refrigerante era o que mais se via no balcão da cozinha, além de moscas. A fruteira estava podre, a pia cheia de louça, o cabideiro empoeirado, com casacos de inverno pesados, prejudicados pelas traças. Havia uma poça em baixo, devia ter sido neve um dia. O lugar estava escuro. Luma abriu as janelas, que rangiam e soltavam lascas de tinta, revelando a madeira comida por cupins.

Jeremy a agarrou e a beijou. Ele usava jeans e chinelos, e o colar de sempre, uma plaquinha de metal. Sua pele estava úmida e o cabelo para trás, molhado.

– Bisbilhotando, hã?

– Não, eu só…

Ele riu, ela corou.

– Tudo bem, Luma.

– O que aconteceu aqui? Que lugar é esse? – disse ela passando os olhos pela casa abandonada.

– É minha antiga casa. Quando eu fui embora, minha mãe se mudou com a minha irmã para a Califórnia, ele apoiou o braço esquerdo na parede, ao lado de Luma.

– Ah. Aliás, que história de irmã é essa? E como assim foi embora?

Ele riu novamente.

– Bom, ela é minha meia-irmã, filha da minha mãe. E ambas são longas histórias.

– Tudo bem, você não quer contar.

Então fez-se silêncio. Luma olhou para a direita, para o cabideiro empoeirado. Algo chamou sua atenção no braço de Jeremy, na frente.

– Ei, o que é isso?

Parecia que Luma não sabia muita coisa sobre ele. Jeremy tinha uma tatuagem.

– Hã… Nada. – ele recolheu o braço.

– Deixe-me ver. – Luma pegou seu braço e o esticou.

Era um elmo alado. Um capacete com asinhas laterais. Abaixo, quatro traços, como um código de barras.

– O que significa?

– Nada, só achei legal. — ele não a olhava diretamente

– Fez isso quando foi embora?

– Sim, exato. — disse, hesitante

– Sua mãe sabe?

– Não exatamente.

– E seu pai?

– Deve saber.

– Onde fez?

– Hã… Roma. — concluiu, indeciso

– Você já esteve em Roma?

– Mais ou menos.

– Como assim?

Jeremy bufou.

– Por que o interrogatório, Luma? — ele não estava tão sério quanto parecia

– Ai — ela ergueu as mãos -, desculpa.

– Bom, vou fazer café.

– Ok, te espero no quarto.

Jeremy deu-lhe um selinho e foi para a cozinha. Luma foi para o quarto.

Continuou olhando os troféus, os de Jeremy pareciam mais empoeirados. Sentou-se na cama. Percebeu que o quarto também estava empoeirado, a única parte limpa eram as roupas da noite passada jogadas em cima dos livros e cadernos. Se sua mãe estivesse ali nem repararia na sujeira provavelmente, era super-relaxada. Sua mãe... De repente ficara preocupada com ela. Pegou o celular de Jeremy, em cima das roupas. Eram 9 horas da manhã de um sábado. Provavelmente a mãe ainda estaria dormindo, mas ligou para ela.

"Após o sinal, deixe seu recado. Piii"

– Alô, mãe, oi. Você nem viu que eu fugi né? Puxa, eu podia ter voltado para casa sem te deixar preocupada. Se bem que eu não sei onde estou. Argh, estou estragando tudo. Não se preocupe, estou bem. Estou na casa de Jeremy. M-Mas não aconteceu nada, relaxa. Quer dizer, eu acho. Bom, de qualquer forma, estou bem… Vou tomar café e volto para casa. Quando tiver oportunidade te ligo. – e desligou.

Ela não devia ter tentado ligar. Se sua mãe acordasse e visse que ela não estava lá provavelmente ficaria menos preocupada do que se acordasse, ouvisse a mensagem e soubesse que a menina fugiu, está na casa do namorado mais velho que nunca fora apresentado a ela, não sabe onde fica, não sabe como foi parar lá nem o que aconteceu. Ou não, pois assim saberia que ela está bem.

Jeremy apareceu na porta.

– Vamos, está pronto. — então levou-a pela mão até a cozinha

Luma foi à mesa. Jeremy tinha jogado as caixas de pizza no balcão, com as latinhas e passado um pano na mesa e nas cadeiras. De café da manhã, cheeseburger e Starbucks.

– Uau.

– Eu sei, não é grande coisa. – disse ele, envergonhado.

– Eu normalmente não tomo café, então está ótimo. Obrigada – e beijou-o.

– Então sente-se, vou te contar tudo.

Ambos se sentaram. Jeremy era adorável contando sobre a festa entre uma mordida e outra.

– …Mas você aproveitou minha ausência para beber mais. Eu voltei, te coloquei no sofá novamente e você desmaiou. Então eu te trouxe para cá. – ele mordeu seu cheeseburger, nervoso.

– Não foi só isso… Foi? – Luma adivinhara.

Jeremy engoliu.

– Não.

E mordeu de novo. Não a olhava diretamente nos olhos novamente.

– E então… O que foi? — ela tinha medo de perguntar

– Olha, você estava bêbada, e…

Luma arregalou os olhos e deixou o cheeseburger cair no prato.

– A gente entrou se beijando e você começou a tirar o vestido na sala.

– Na sala?

– É. Aí eu parei de te beijar, disse algo que eu não me lembro e fui ali para o fundo, – ele apontou uma mala aberta jogada perto do cabideiro – peguei essa camiseta que você está vestindo e te ajudei a ir pro quarto. Você colocou a camiseta, eu te beijei a testa e você dormiu.

O rosto de Luma estava esfriando e ela começava a conseguir se mexer e respirar de novo.

– Ah… Então a gente não… — ela fez um gesto, dando a entender o resto da frase

– Não, Luma! Deuses, você estava bêbada.

– E daí? Eu sou quente bêbada.

Jeremy riu.

– É mesmo, mas eu não podia. – ele baixou os olhos.

– Você é um doce. – Luma se levantou, pegou seu café, deu-lhe um beijo na testa e sentou-se em seu colo. – Aliás, usei seu celular.

– Ah. — disse desinteressado, mordendo seu cheeseburger — Espera! O que? – ele se desesperou

– É, precisava acalmar minha mãe… Não tenho certeza que tenha dado certo.

– Você ligou pra sua mãe?

– Sim, relaxa, vocês são da mesma operadora.

– Luma… – ele parecia bravo, afastou-a e se levantou.

– Está tudo bem, Jeremy, eu não uso mais, ok? Desculpa. – Luma levantou a mão livre, em defesa.

O garoto correu para a mala, vasculhou-a e tirou algo dourado e comprido.

– Esse não é o problema, Luma.

– O que está acon… – Luma se assustou – Meu Deus, isso é uma espada?

Jeremy tinha uma espada de ouro na mão e correu para fora da casa.

– Veja! – apontou – Aquele é o problema!

Luma ia em sua direção, mas o celular de Jeremy começou a tocar no quarto. Dane-se, ela precisava falar com sua mãe. Atendeu.

– Alô?

– Luma! Você não devia estar me ligando! – a mãe atendeu irritada.

– Ai, porque todos brigam comigo por isso? O que há de tão errado? – Luma simplesmente não compreendia.

– Rápido, deixe-me falar com seu namorado.

– Melhor não, ele surtou e saiu correndo com uma espada de ouro. E você conhece Jer…

– SIM, LUMA! CONHEÇO! DEIXE-ME FALAR COM ELE!

– Está bem, calma.

– Quer saber? Esquece, tenho uma outra ligação pra fazer. NÃO SAIA DAÍ, LUMA!

– Ta booom!!!

– A não ser que seja cavalgando!

– Hã? Cavalgando? Mas o que…?

Sheri desligou.

Luma foi para a janela aberta. Devia estar sonhando. Que diabos eram aquelas coisas?

Jeremy lutava ágil contra algum tipo de mulher-cobra. Do quadril à cabeça eram mulheres armadas e bonitas, com armaduras gregas e olhos amarelos. Não como os de Luma, olhos de cobra. Usavam elmos de guerra e orelhas pontudas saíam deles, envoltas por cabelo preto e liso, até o quadril. Quadril abaixo, no lugar de pernas saíam seis caudas grossas de cobra verdes, como tentáculos. Elas carregavam um escudo e uma lança. Eram sete. Luma queria ajudar, mas estava paralisada perguntando-se se aquilo fazia parte da ressaca.

Jeremy percebeu que ela estava ali. Era lindo vê-lo lutar sem camisa, com um olhar feroz. Ele olhou para o fim da rua. Luma seguiu seu olhar. A mais ou menos um quilômetro dali, algo vinha. Ela achava que era mais uma… sei lá, criatura?

– Luma! Eu quero que você preste atenção. – gritou Jerry – É complicado, mas quando ele chegar, eu quero que vá com ele!

– Ele quem? – gritou Luma de volta.

– No fim da rua! Não tenha medo! Ele está do nos… Do seu lado.

A distância entre eles e aquela coisa que vinha era de um quilômetro, mas chegou tão rápido que parecia impossível. Já não bastavam as mulheres-cobra, agora Luma estava vendo uma mulher-cavalo. Já assistira filmes e lera livros o suficiente para saber que aquilo era um centauro. Ou uma centaura, ela não sabia. Enfim, tinha o corpo de um belo cavalo castanho e corpulento, mas só até que chegasse aonde começaria o pescoço dele, pois aí na verdade vinha o quadril da mulher. Não era qualquer mulher, era Isabel Green, estagiária de Bridget High. A mulher bonita, alta e forte, com cabelos cacheados cor de mel e olhos verdes escuros, como se estivessem desgastados pelo tempo, mesmo que Isabel não parecesse ter mais de 30 anos.

– Isabel? — Que diabos estava acontecendo?

– Sim, Luma! Agora, anda, sobe! – ela estendeu uma mão para Luma.

A garota segurou-se, atordoada, enquanto Isabel a ajudava a subir em suas costas.

Ela começou a correr, era realmente rápida, como 400 k/h e aumentava com a distância. Em questão de minutos chegaram em Bridgeport, e cavalgaram ao longo do litoral até o Queens, onde pararam por alguns minutos, para tomar um milk shake. Quando Luma desceu das costas dela, a parte equina dela se transformou em pernas humanas, as que Luma estava acostumada a ver.

– Wow! Como você fez isso?

– Ah, isso. – ela balançou a mão, com insignificância — É um pequeno truque que usamos para não esbarrarmos nas coisas e ficar mais fácil de enganar os humanos. Centauros mais velhos não conseguem. Tecnologia nova, sabe?

– Ah, então… Você é um centauro.

– Sim. Muita coisa tem que ser esclarecida para você ainda.

– Tipo… Muita coisa?

– Sim. Muuuuita coisa.

Luma tomou um gole de seu milk shake de morango.

– Você está pensando em Jeremy, hã? – disse Isabel, lendo seus pensamentos.

– Sim. Ele… Tinha uma espada. Será que ele está bem? Quer dizer, ele estava lutando com aquelas… aquelas coisas.

– São dracaenai. Você viu, mulheres-cobra. E não se preocupe com ele, se isso fosse um vídeo game, digamos que aquele é o último nível antes do primeiro chefão. Isso só porque estão em sete contra um, porque são adversários fáceis.

– Ah… – tomou outro gole – E por que ninguém achou estranho essa sua…

– Bunda de cavalo? Ah, é a névoa.

Luma a olhou, esperando que explicasse.

– Como eu disse, muito há de ser esclarecido pra você. A névoa é como uma cortina mágica que engana o cérebro dos mortais.

– Mortais?

– É, humanos. O cérebro deles só os deixam ver o que podem processar sem surtar.

Luma continuou tomando o milk shake de morango, como se aquela fosse uma conversa normal. Quando acabaram, seguiram viagem. Se Luma não se enganava, de Connecticut até Long Island demorava umas duas horas, a não ser que você monte me um centauro, pois elas chegaram em meia hora, com parada para milk shake. Ela não fazia ideia do porquê de elas estarem em um acampamento de verão.

– Bem vida ao Acampamento Meio-Sangue, Luma. – disse Isabel, ajudando-a a descer de suas costas – Seu novo lar.