Tudo que Luma via era uma colina com um alto pinheiro no topo, até que Isabel a levou até lá. Ela se surpreendeu quando viu a vista do outro lado da colina. Um prédio branco e comprido ficava ao lado de uma quadra de vôlei e um outro prédio. Isabel dissera que eram a Casa Grande e um atelier, para artes e ofícios, na frente de um lago. Mais atrás, um anfiteatro e uma alta montanha, repleta de pedras pequenas que soltava lava. Depois de um tempo a observando, Luma percebeu que era uma parede de escalada. Do outro lado do riacho que desaguava no lago, chalés de tamanhos, cores e formas diferentes e outra construção com colunas altas e brancas, no estilo greco-romano — o pavilhão do refeitório. Mais à esquerda, um bosque cortado por um rio, atrás de três construções que Isabel explicara serem o estábulo, o arsenal e arena de combate. Vastos campos de morangos maduros a deixavam com fome, mesmo logo após o café da manhã com Jeremy. Ao fundo, a praia dos Fogos, no Estreito de Long Island.

Elas desceram a colina e andaram pelo acampamento. Isabel não estava brincando quando disse que muita coisa tinha de ser explicada para Luma. Resumidamente, as histórias que Sr. Brunner contava nas aulas de história, com deuses gregos, heróis, monstros, diversas criaturas e grandes lutas eram reais, de fato existiam e dependendo da pessoa, podia ver e ter contato com tudo isso. Luma era uma delas. A única coisa que a impedia era a Névoa, aquela cortina mágica que camuflava coisas que poderiam ser estranhas para o cérebro humano, o que em parte o dela era. A outra parte, era divina. E era isso que ela estava fazendo num acampamento de férias. O Acampamento Meio-Sangue era dedicado a proteger semideuses, ou meio-sangues, como no nome, ou seja, filhos de deuses com mortais. O lugar tinha uma barreira protetora contra monstros, que farejam e perseguem semideuses com sede de morte. Normalmente, os meio-sangues descobrem sua origem divina aos 12 anos de idade, mas no caso de Luma, o colar deixado por seu pai a protegia, como se emanasse cheiro de mortais, apenas percebido por monstros. E foi por ter deixado de usá-lo na festa e no dia seguinte que monstros conseguiram farejá-la. E também porque ela usara o celular e, de repente, entendera porque nunca fora permitida a ter um. Monstros conseguem achá-lo muito mais fácil quando você usa qualquer tipo de tecnologia humana. Luma não entendera muito bem esta parte, mas ela soube que não poderia usar telefones. Era por isso que Jeremy e sua mãe a repreenderam de usar o iPhone. Ambos sabiam o que ela era: Uma semideusa.

Foi um longo dia. Quando Isabel terminara de explicar tudo já era fim de tarde. O cérebro de Luma latejava e ela tentava processar toda aquela informação. De quem seria filha, então? Qual daqueles deuses seria seu pai, a que chalé pertenceria? O que Jeremy era se conseguia enxergar através da névoa? Ela ouviu um soar, mais suave que um berrante, mais pesado que uma flauta.

– Ok. É hora do jantar, Luma. – disse Isabel, cansada de tanto falar — Mas antes, eu vou te mostrar onde você vai ficar.

Luma a seguiu para um dos chalés, um inteiramente de madeira, como o número 11 estampado acima da porta.

– Este é o chalé de Hermes. Por ser um deus muito simpático, adorado e protetor dos viajantes, todo semideus que chega fica aqui até ser reclamado. Tivemos de fazer uma pequena reforma, com ajuda dos filhos de Hefesto, pois estávamos sem espaço para tanto semideus perdido.

– Reclamado? – o cérebro de Luma parecia ter sido triturado

– É. Você vai entender, eu espero. – Isabel respirou fundo – Agora venha.

As duas entraram. Era um chalé aconchegante e mais de 60 adolescentes estavam ali, distribuídos em beliches. Muitos deles lembravam Isis, com aquelas feições brincalhonas, o que deixou Luma triste. Haviam diversos tipos de pessoa ali, alta, baixa, magra, gorda, loiros, ruivos, morenos, cacheados... Não pareciam ser parentes.

Todos direcionaram seus olhares para a porta. Nenhum deles parecia muito surpreso com a visita, como se todo dia alguém novo aparecesse ali.

– Essa é Luma Valentine, pessoal. Sejam legais com ela. E, filhos de Hermes, isso é pra vocês: Lembrem-se do combinado! – A centauro os advertia.

Dois caras esguios e atléticos saíram apressados da multidão, em direção à porta.

– Pode deixar, Isabel.

– Lembramos muito bem!

Eram gêmeos, de mais de 20 anos. Eram altos, tinham cabelo castanho e meio cacheado.

– Seja bem-vinda, Luma, ao chalé de Hermes. – disse o da direita, pousando um braço nos ombros dela e fazendo um vasto movimento com o outro, apresentando o lugar. – Sou Travis Stoll e este é o meu irmão Connor.

O outro acenou.

Eles a conduziram a uma beliche no fundo, com a parte de baixo vazia.

– É aqui que você vai ficar até que seu papai ou mamãe resolva aparecer. – disse Connor.

– Hã... Obrigada.

– Não se preocupe, nós seremos legais. Nosso pai pode nos abençoar com boa criatividade para pegadinhas e truques que você nunca irá descobrir se não quisermos... Mas relaxe, o tal combinado é que não podemos usar nossas habilidades com novatos.

– É uma pena, novatos são sempre os melhores.

Os dois trocaram um sorriso levado.

– Bom, vejo que você não tem bagagem, então nos acompanhe, vamos jantar.

Os gêmeos a levaram até uma das construções, o refeitório. Luma não se sentia à vontade andando em meio a tanta gente com aquela camiseta velha enorme e descalça, ainda mais porque os olhares a seguiam, compreendendo ser uma nova semideusa. Os adolescentes usavam camiseta laranja, com o desenho de um centauro atirando com arco e flecha. Acima dele, as palavras "ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE". Estavam sentados conversando nas mesas do refeitório. Pratos flutuavam e copos se enchiam com o que você imaginasse. Alguns deles jogavam comida ao fogo, com expressões sérias.

Travis disse a Luma que as mesas eram separadas por chalés. Três mesas compridas formavam o chalé de Hermes, com semideuses sorridentes, jogando comida um no outro, pregando peças embaixo da mesa, roubando comida do prato dos desavisados. Ela se sentou e um prato de pizza de calabresa pousou em sua frente, enquanto o copo se enchia de Coca. Quando ela pegou a pizza e ia levando-a até a boca, Connor disse:

– Você devia fazer uma oferenda.

Luma fechou a boca e colocou a pizza de volta.

– Como assim?

– Você joga um pouco da sua comida na fogueira e reza para seu pai/mãe. Mesmo que você não saiba quem é, isso pode te ajudar na relação com ele ou ela, e a ser reclamada.

Reclamada... Aquela palavra novamente.

Luma foi até a fogueira. 1/3 da pizza queimava.

"Eu não sei quem é você, pai, pensou Luma, mas eu queria que soubesse que não te culpo por ter deixado a mim e minha mãe sozinhas.". Ela ia andando, mas voltou. "Ah, eu nem sei se você gosta de pizza, mas isso aqui é pra você e eu ficaria bem agradecida se você aparecesse qualquer dia." Luma jogou o que restou, afinal, ela podia pegar outro prato. Voltou para a mesa.

– Nossa, os deuses não precisam comer tanto! — brincou um dos filhos de Hermes.

O prato saiu voando e foi substituído por um prato de cheeseburger triplo e seu copo se encheu novamente.

Luma se enturmou rápido. Gostava das piadas e brincadeiras dos filhos de Hermes, eram tão divertidos que a fez não se importar com todas aquelas dúvidas e informações misturadas tentando serem processadas que tinha antes.

Quando todos acabaram de comer e iam para o anfiteatro, Travis a chamou num canto. Ele lhe deu uma camiseta laranja daquela e a mandou se vestir no chalé agora que ninguém sabia onde ela estava, pois os filhos de Hermes eram realmente bons com pegadinhas.

Luma se trocou. Quando vinha saindo do chalé, viu dois semideuses saindo de trás do chalé 10, o de Afrodite. Iam de mãos dadas na direção do anfiteatro. Luma os seguiu, como ia para o mesmo lugar. Os dois devem ter percebido que estavam sendo seguidos, pois sussurraram e a garota olhou para trás.

A surpresa tomou conta da expressão da garota loira, que logo depois sorriu, ao reconhecer Luma.