O Filho do Inventor
9 Capítulo 9
Semanas se passaram e Luma devia ter aprendido sozinha a não escutar a conversa dos outros, mas não, deixou para aprender do jeito mais difícil. Depois do ocorrido, não conseguia olhar mais para seus pais, eles vinham brigando muito e ela estava desanimada, havia parado de tocar violão. O que aconteceu é que ouvira, em uma noite, seus pais discutindo:
“Eu também sou responsável por ela! Eu tenho direito de opinar sobre o que fazer com a minha filha!” – gritou Bruce.
“Não, Bruce! Você não é o pai dela!” – a mãe de Luma parecia ter tomado uma atitude nessas conversas.
O mundo de Luma desabou, ela imaginava que o de Bruce também. Então crescera chamando a pessoa errada de pai, procurando traços em comum com alguém que provavelmente nem a vira nascer. E quem seria seu pai, afinal? Devia ser um idiota qualquer que atraiu a mãe de Luma enquanto ela era enfermeira, na época em que a menina nascera. Ou isso era mentira também?
Luma simplesmente não conseguia aquietar os pensamentos. Não dormiu naquela noite e, na manhã seguinte, sua atenção nas aulas estava cada vez pior. Já não bastava a dislexia, a hiperatividade, o déficit de atenção, agora não tinha pai também. Passou o intervalo mais fechada, não conversou, não beijou Jeremy. Quando Luma ficava deprimida, não gostava de falar com ninguém e tudo que queria era sumir. Naquele dia se sentia diferente, não queria falar com ninguém, mas não queria sumir, queria quebrar a cara de alguém.
Novamente em casa. Uau. Que vida bela. Quando entrou em casa, Sheri anunciara sorridente:
– Ei, hoje eu não tenho show! Posso passar o dia todo com a minha família favorita!
E tentara abraçar Luma. A garota se esquivou e respondeu:
– Ah, é? Qual delas?
E subiu a escada correndo.
A mãe a seguiu, claro.
– Luma Valentine, o que quer dizer com isso? – estava brava.
– Argh, só me deixa mãe! – disse Luma enquanto se jogava em sua cama.
– Olha esta atitude, mocinha! Eu entendo que você possa estar passando por momentos difíceis... Puberdade, socialização, o namoradinho lá…
Lá vinha ela com seu papo sobre adolescência. Luma revirou os olhos.
– Não, mãe! Não é isso! Aliás, será que eu posso te chamar de mãe, ou essa é outra MENTIRA sua?
Luma gritava. A raiva dentro dela deu uma dissipada quando viu lágrimas se formarem nos olhos da mãe.
– O que? Do que… Do que você está fal…
– É, isso mesmo! – Luma a cortara — Eu ouvi você e papai brigando! Aliás, papai não, né? Como posso chama-lo? Conhecido? Amiguinho da mamãe?
Sheri começara a chorar.
– Eu falo com você sobre isso mais tarde, Luma.
– Isso, vai lá inventar mais mentiras!
A mãe levantou e saiu do quarto, chorando.
Luma se deu conta de que fora muito dura com ela. Não quero me separar dela, ouvira sua mãe dizer uma vez. Ela estava tentando seu bem, mesmo que talvez de um jeito errado. Ela se jogou no travesseiro e pôs-se a chorar também.
Mais ou menos uma hora depois, Sheri bateu na porta.
– Luma, eu vim falar com você. – dizia delicadamente.
Luma estava deitada, virada para a parede, mas não protestou quando a mãe entrou.
– Eu só queria esclarecer as coisas, pedir desculpas. — começara a chorar de novo.
– Tudo bem, mãe. Só me conta toda a verdade. – A menina sentou e olhou para a mãe.
Bruce também estava lá, encolhido no canto do quarto, assistindo a cena.
– Tudo bem. – Ela respirou fundo – Bem, como você já sabe, Bruce não é seu pai. Bruce é meu amigo da faculdade que sempre gostara de mim.
– Eu sei, você já me disse.
– É. Enfim, eu conheci seu pai nos meus tempos de enfermeira. Era um médico que nunca havia visto antes, e já trabalhava lá há um tempo. Ele parecia um galã de novela, escrevia músicas para mim, poesias… — Sheri sorriu — Fomos a alguns shows juntos e começamos a namorar. Algum tempo depois, você nasceu... Uma linda garotinha com os olhos do pai.
Sheri passou a mão pelo rosto dela e o coração de Luma amoleceu. Ela tinha os olhos do pai.
– Mas ele teve de partir. — sua expressão tornou-se séria — Não era culpa dele, ele queria muito ficar, era uma… Uma regra que o impedia de ficar, é complicado, mas ele deixou este pingente para você. – apontou para o colar de Luma — Bom, eu e Bruce nos reencontramos. Começamos a namorar quando você tinha dois anos.
A mãe de Luma voltou a sorrir, mas sua expressão tornou-se sombria quando Bruce disse:
– Conte a ela sobre o trato.
Luma a olhou.
– Eu… — Sheri suspirou — Está bem. Nós começamos a namorar e fizemos um trato. Juramos que nunca a contaríamos sobre sua origem, a não ser que fosse muito necessário, como um caso de vida ou morte.
A garota surpreendeu-se. O que havia de tão terrível com seu passado?
– Por quê? O que há de tão terrível com meu passado?
– Nada, Luma! Nada, eu só… Eu só queria ter uma família feliz, uma de verdade.
– Meu pai é imaginário para você também? – Luma voltava a ficar com raiva – Legal, mãe, algo em comum. Pra mim também é!
– Luma, eu não…
– Chega de desculpas, mãe, você já disse tudo. Pelo menos eu espero que tenha dito.
– Filha…
– Me deixa sozinha, mãe. Por favor.
Bruce a levou para fora do quarto. Luma deitou novamente e ouviu os dois no corredor:
“Viu, Sheri, por isso já devíamos tê-la contado.”
“Eu não posso aguentar isso, ela é tudo pra mim, Bruce.”
“Vai ficar tudo bem, só dê um tempo a ela.”
“Um tempo para quê? Você sabe que tem mais a ser contado!”
Se o coração de Luma estava mole, agora se enrijecera. Não podia aguentar mentiras, não de sua mãe. Toda sua infância fora uma mentira. Levou a mão ao pescoço, arrancou o colar e o jogou no outro canto do quarto, onde Bruce estivera. Já sabia o que fazer.
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