O Filho de Ares

4 Capítulo III. Álcool, Morte e Rock 'n Roll


Notas iniciais
Gente, oi... Eu sei que provavelmente vocês querem me bater, mas o bloqueio criativo havia vindo e me pegado de jeito. Finalmente consegui atualizar, espero que gostem. E, ah, eu atualizei os avisos da fanfiction, então talvez seja útil vocês lerem. Boa leitura!!!

Nos dias seguintes, eu repassava mentalmente cada momento daquela luta extraordinária.

De fato, eu havia lutado pouquíssimas vezes com mortais e outros semideuses, mas aquilo era fisicamente impossível, mesmo num mundo governado pelos olimpianos.

Como ele podia ser tão rápido? Como ele podia ter interceptado meu braço no ar? Estávamos a uma distância mínima, quase inexistente... Como seus olhos faiscavam, me forçando a recuar de um modo que ninguém jamais conseguira fazer comigo?

Ele era tão confiante, tão bem treinado... Será que ele fazia parte de alguma organização unicamente masculina? Talvez estivesse acostumado a lutar contra caçadoras... Mas isso não faria sentido, porque ele era um veterano. Ainda estava no acampamento meio-sangue.

Absorta em meus pensamentos, quando fui tragar novamente meu cigarro, percebi que estava fumando somente espuma. Ele já havia acabado.

Olhei para a cama do lado da minha no chalé escuro, que lembrava literalmente uma sala de velório, e vi Coeley que me assistia com interesse, rindo.

Ela interpretou meu olhar desconfiado como um convite para se aproximar, por alguma razão, porque em instantes, ela deu um salto e se sentou ao meu lado na cama. A primeira coisa que fez foi pegar o isqueiro zippo que eu havia ganhado de Tânatos e analisá-lo.

— Isqueiro bonito — comentou, despretensiosamente.

Arranquei o objeto de suas mãos.

— Obrigada — falei secamente.

Ela riu, de novo.

— Calma, eu vim em missão de paz — ela disse.

Percebi, olhando de relance, que sua jaqueta de couro estilo rebelde estava muito volumosa e franzi o cenho. Ela abriu-a e retirou do meio de seus seios fartos uma garrafa de vodka ainda lacrada.

Abriu-a rapidamente no ar e levou o gargalo à boca, dando uma primeira golada generosa.

Ela inclinou a cabeça para trás e pareceu ter um orgasmo por um momento, ao sentir o álcool descer por sua garganta. Em seguida, seus cabelos negros como a noite caíram diante de seu rosto pálido e sardento e ela fixou as órbitas enigmáticas em mim.

— Você não bebe? — ela perguntou, quase numa retórica.

— Não — menti.

Não estava mesmo muito afim de socializar com ela. E, além disso, todo o chalé já estava dormindo.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Ok.

Ela se locomoveu como se fosse levantar-se para ir embora, mas então...

— Espera! — exclamei, de repente.

Ela virou-se para mim, olhando-me novamente com o cenho franzido.

— Meu cigarro acabou... — Eu falei, levantando o maço vazio. — Será que pode me dar um dos seus?

Ela apertou os olhos, e eu esperei que ela entendesse.

Ok, eu queria conversar com ela.

Na verdade, queria conversar com qualquer um que pudesse me fornecer informações úteis sobre aquele galinheiro infernal. Ela riu de novo, despreocupada, e puxou seu maço de “Marlboro vermelho” do bolso aberto da jaqueta, extraindo duas unidades. Pegou o meu isqueiro e acendeu a sua, depois me emprestou a chama para que eu acendesse a minha.

Fumamos em silêncio durante alguns instantes, e eu pude ouvir os grilos cantarem do lado de fora do chalé.

Ela suspirou de prazer ao expirar a fumaça de sua primeira tragada e eu tomei posse da garrafa de vodka, dando um generoso gole.

O líquido queimou minha garganta enquanto descia e, imediatamente, eu me senti meio chapada. Olhei em volta, meio tonta, e sacudi a cabeça. Notei que ela ainda me observava com interesse.

Sorri, abobada, tomada pelos efeitos iniciais do álcool. Aquela merda era forte

— Everclear — ela disse, simplesmente.

Eu ri.

— Que?

— Everclear — ela repetiu. — É a bebida mais forte produzida no mundo todo, sabia? 95% de álcool.

— Caramba. — Arregalei os olhos, levantando a garrafa no ar sob a luz da lua para conferir as informações.

Verdade. 95% do volume.

— Como a gente não morre tomando isso? — indaguei, já me servindo mais um gole.

Coeley deu de ombros e esticou os braços, se espreguiçando.

— Acho que é coisa de semideusa — sugeriu.

— É, deve ser — concordei, e ela deu mais uma golada.

Curtimos os efeitos do álcool em silêncio por alguns minutos, que passaram-se como se fossem milésimos.

— Mas me conta — ela disse. — Qual sua história?

Eu estava com o gargalo na boca, quando ela perguntou, e eu arregalei os olhos, desistindo de beber de novo.

Mesmo chapada, como estava, percebi de imediato que aquele era o tipo de pergunta que eu não deveria responder. Pigarreei, desviei o olhar.

— Nada muito interessante. Meus pais são contadores, eu queria ser médica... — fui inventando; álcool realmente libertava a criatividade.

— Legal. — Ela disse, e tragou novamente seu cigarro.

Esperei alguns instantes, sorrindo abobada, e então puxei-me de volta à realidade.

— E você? — perguntei.

— Eu o que?

— Qual a sua história?

Ela riu.

Minha história? — Pisquei, e ela estava se servindo de outro gole da bebida chamada Everclear. — Não é muito interessante. Fui resgatada cedo, tinha dez anos, e treino desde então. Mas às vezes me deixam ir passar as férias com os meus pais.

— Uau, isso é bom — presumi.

Ela me olhou como se eu fosse louca.

— Não. Odeio meus pais.

Eu pisquei. Para alguém que havia crescido em um orfanato e que sempre desejara mais que tudo ter uma família, como eu, aquilo era absurdo de se ouvir.

— Por quê? — não pude evitar perguntar.

— Minha mãe me odeia e meu pai, de criação, claro, faz o possível pra contornar a situação quando eu vou lá. Não costumamos ter reuniões de família agradáveis.

— Caramba, sinto muito. — Ergui as sobrancelhas e apalpei sua mão com solidariedade.

— Nah, foda-se eles — ela disse, e riu.

Comecei a rir, também, sem razão alguma. Bebemos mais alguns goles da Everclear.

— Ei, gosta de rock? — ela me perguntou após alguns instantes, e tirou um celular da jaqueta.

Arregalei os olhos, e abaixei suas mãos com rapidez.

— Sua doida! Que jaqueta é essa, a bolsa mágica da Hermione de Harry Potter? — questionei, e olhei para os lados para me certificar de que ninguém havia visto.

Ela riu.

— Por que o desespero?

— Porque isso é proibido! — lembrei, lívida. — Acha que quero ser expulsa e...

Me calei, contendo meu desejo de falar mais.

— Ah, relaxa — tranquilizou-me ela. — Aqui ninguém liga para nada.

Eu pisquei. Ela deveria saber do que estava falando.

Coeley levantou o celular e abriu sua playlist, colocando uma música específica.

— Escuta esse som! — Ela disse, fritando na batida enquanto viajava na calmaria do álcool.

Daughters of Darkness — Halestorm

Me envolvi na batida, me deixando levar. Remexi os ombros abobadamente. Em seguida, estávamos rindo escandalosamente sem nos preocupar com o sono de nossos meio-irmãos.

Ela gritava quase tanto quanto a vocalista da banda, e eu tentava acompanhar. Em seguida, mais gargalhadas.

— Ei, será que dá pra calar a boca aí? — gritou alguém no fundo do chalé.

— Ah, vai se foder — gritei entre risos, com meus olhos lacrimejando e meus rins doendo.

Coeley abria a boca, mas mal conseguia falar. Ela deu mais um gole, e eu dei outro. Quando nos demos conta, metade da garrafa já havia ido embora.

Continuamos rindo desesperadamente durante alguns instantes e, de repente, paramos. Suspiramos, com os olhos lacrimejando e olhamos uma para a outra. Ela pescou o maço e retirou um cigarro diferente. Maconha.

— Você quer? — ela perguntou, oferecendo-me no ar. — É bom.

A bebida me deixou tentada. Quis fumar, mas neguei.

— Não, obrigada.

Eu já estava chapada demais por uma noite.

Coeley deu de ombros e acendeu, dando uma boa tragada e soltando a névoa espessa no ar.

Após alguns segundos de reflexões silenciosas, ela finalmente voltou-se para mim, com os olhos levemente caídos e avermelhados.

— Então, me conta. O que foi aquilo entre você e o Edward Cullen?

Pisquei, sem entender. Talvez estivesse demasiado bêbada, porque realmente não conseguia me lembrar de ninguém que se chamasse Edward Cullen.

— Quem?

— Edward, o filho de Ares.

Pisquei de novo.

— Aquele que lutou com você no pique-bandeira! Que te deu umas broncas no seu primeiro dia — ela disse. — Nunca vi ele dar tanta atenção pra uma novata, mesmo que negativa. Acho que ele gosta de você.

Gelei.

Então esse era o nome dele.

— Pior pra ele — respondi, desinteressada.

Definitivamente, eu não queria ter nenhum nível de relação com um idiota daquele naipe.

— Hummm, sei... — Coeley me mediu, desconfiada.

— É sério! — fiz questão de reafirmar.

— Claro, claro! — ela parecia pouco convencida pelo seu tom de voz. — Sua amiga gosta dele.

Pisquei.

— Que amiga?

Eu não tinha amigas. Não que eu soubesse, pelo menos.

— A Giselle Bündchen, não tá na cara? Ela fica toda derretida quando fala com ele. Mas, como eu te disse, ele tá cagando pras novatas. Ainda mais agora! Ele só tem olhos pra você. — E ela riu novamente.

— Não é verdade! — protestei.

— Como você sabe?

— Ué, simplesmente sei.

— Sei, sei...

Ela me lançou um último olhar de desconfiança e, por fim, ligou o celular novamente, arregalando os olhos ao consultar o horário da tela.

— Droga, Bella, já é quase de manhã! — Ela enfiou a garrafa no meio dos peitos e guardou o maço no bolso da jaqueta.

Arregalei os olhos.

— Não, não pode ser... Começamos a conversar faz, sei lá... Uma hora?

Ela virou o visor na minha direção. Putz. Eram 4:35 AM.

— Acho melhor irmos dormir — ela concluiu, e eu assenti.

De repente, ela se virou e deitou-se na sua cama ao lado da minha.

— Boa noite — ela disse.

— Boa noite — correspondi de maneira cortês.

Fiquei ali, admirando o céu e viajando nas minhas ideias com o amparo do álcool, até adormecer.

Eu tive a impressão de acabar de fechar os olhos quando a sineta tocou e todos começaram a se levantar.

Sempre tive o sono pesado. Fui a última a acordar.

Quando Coeley levantou para me chamar, o dormitório já estava vazio e todo o acampamento já tinha dado início às suas atividades cotidianas.

Ela me cutucou e me chamou algumas vezes, até que abri os olhos, com a cabeça doendo e ainda girando um pouco.

Me levantei com calma e fui até o espelho no banheiro feminino que havia no lado de dentro do chalé, fitando meu reflexo enquanto Coeley se despia e entrava no chuveiro.

Arregalei os olhos, ao me deparar com uma garota muito parecida comigo dentro do espelho, mas que sem dúvidas tinha diferenças gritantes entre seu corpo e o meu.

Os seios dela eram maiores, ela era pelo menos uns vinte centímetros mais alta, e seu rosto tinha traços mais definidos, ainda que femininos. Virei de costas, e realmente, havia esticado.

Estava acontecendo. Todas as mudanças que deveriam ter ocorrido com meu corpo durante os últimos quatro anos estavam começando a mostrar as caras, do dia para a noite.

Entrei em choque, fiquei olhando lívida para o meu reflexo e assisti-me passar do branco para todas as cores possíveis. Eu não me sentia mais eu mesma.

Achando que meu dia não poderia ficar mais estranho, ou pior, Coeley desligou o chuveiro e voltou-se para mim dizendo algo que eu quis muito interpretar como uma alucinação auditiva. Será que eu havia fumado a maconha que ela tinha me oferecido e me lembrado? Só podia ser isso.

— C-Como? — perguntei, incrédula.

— É. Melhor se arrumar logo, Bella. Hoje é o dia em que os novatos serão designados para seus veteranos.

Eu seria subordinada a outro semideus.

Possivelmente, até mesmo um homem.

Cambaleei para trás, como se fosse cair, mas Coeley me segurou as pressas, assustada.

Não sei se pelo álcool ou pelo efeito da informação repentina, apaguei.

E quando acordei, eu já não estava mais no Chalé de Tânatos.

Notas finais
E aí, gente?