O Filho de Ares

5 Capítulo IV. A traição de Coeley


Notas iniciais
Espero que apreciem, pessoal ♥ Se estiverem gostando, comentem para eu saber!

A sala era amadeirada e bem hospitaleira. Haviam, espalhadas por ela, diversas camas com lençóis brancos e várias janelas grandes, pelas quais a luz solar se infiltrava no quarto. Do lado de fora, os passarinhos cantavam e o barulho de metais se chocando — provavelmente armas, já que em 60% do tempo os campistas estavam treinando — era constante.

Por um momento, com a visão ainda turva, eu vi tudo girar. Ouvia algumas vozes murmurando coisas entre si, mas não consegui identificar a princípio de quem eram. Vi alguns vultos passarem pela minha cama e esfreguei os olhos na esperança de enxergar mais nitidamente.

— Edward, ela acordou — Coeley disse, debruçando-se nas bordas de minha cama, e eu pude vê-la claramente.

Os olhos de Edward repousaram sobre mim por um momento e ele pareceu estranhamente aliviado.

“Você está em todos os lugares?” pensei. Em seguida, ouvi minha própria voz e percebi que havia verbalizado meu pensamento alto demais. Ele piscou.

— Como? — disse.

— Esquece — falei com a voz um pouco mais baixa, levemente constrangida.

Levantei meu tronco num solavanco e ajeitei minhas costas na cabeceira, inspirando. Varri o perímetro com os olhos mais uma vez, a procura de um relógio, mas não havia nenhum.

— Que horas são? — questionei.

— Quase meio-dia — Coeley me informou, e repentinamente reassumiu sua postura militar, como se a hora lhe fosse um lembrete de que estávamos atrasados para alguma coisa.

Pouco a pouco, minha memória foi se refrescando, e eu me lembrei de como e porque havia ido parar ali.

— Beba isto. — Edward se aproximou e me entregou um frasco com algum líquido estranho.

— Por que? — Afastei meu corpo instintivamente e estreitei os olhos, levemente desconfiada.

Edward bufou e girou os olhos.

— É néctar dos deuses, Isabella. — Ele explicou com impaciência em sua voz.

Hesitei por um instante, mas analisando friamente, ele não tinha razões para querer me matar ou me prejudicar. Afinal, ele era um veterano e eu apenas uma novata. Peguei o frasco de sua mão e tomei um generoso gole.

Nunca havia provado néctar dos deuses antes. Senti, em minha boca, a princípio, um gosto muito familiar, inconfundível: gosto de bolinhos da lua. Algo que cozinhávamos muito na caçada. Senti todo o meu corpo relaxar e minhas energias começaram a se revitalizar.

Pousei os olhos em Edward, e senti um arrepio percorrer minha espinha. O gosto em minha boca mudou, por um momento, e eu senti o sabor de algo que até então desconhecia. Estranhamente, desejei que ele estivesse mais perto de mim.

Questionei se meu subconsciente havia entrado em pane ou se eu mesma havia enlouquecido e estremeci novamente. As Caçadoras já haviam me alertado sobre tentação, mas, por sorte, minha lealdade a Ártemis era mais forte. E eu não a trairia por um garoto. Senti-me enojada com a mera possibilidade e sacudi a cabeça para afastar essa ideia.

— Bella, precisamos ir — Coeley informou, e retirou bravamente a lâmina de suas costas.

Assenti, e dei um pulo da cama, sentindo-me preparada para batalhar. Procurei pela minha foice, mas ela não estava comigo.

— Não vai precisar de armas, novata — Edward me informou.

Pisquei.

— Como?

Eles realmente esperavam que eu lutasse sem nenhum armamento?

E então, Edward, como se estivesse adivinhando meus pensamentos, abriu aquele sorrisinho debochado de canto da boca.

— Não vamos ter atividades hoje. Temos um número consideravelmente grande de novatos, então hoje vocês irão ser designados aos seus mentores. — Ele falou, enquanto já nos encaminhávamos os três para a saída. — Achei que Coeley havia comentado.

Merda, verdade. Ela tinha. Assenti e seguimos a caminhada até o pavilhão-refeitório em silêncio.

Enquanto andávamos, refleti sobre o que estava acontecendo com o meu corpo, sobre a noite anterior, sobre como os campistas se organizavam de uma forma estranha no Acampamento Meio-Sangue e até mesmo sobre Edward, o veterano arrogante e insuportável que não parava de aparecer onde quer que eu estivesse.

Nesse ponto, questionei algo que não havia notado a princípio: pela primeira vez em quase uma semana de acampamento, ele não havia me chamado de novata. Havia me chamado de Isabella.

Como ele sabia meu nome? Teria Coeley contado? Ou será que ele tinha acesso a uma ficha com os dados de todos os campistas?

Meus questionamentos foram interrompidos quando esbarrei em uma pessoa, e a voz de Coeley retumbou na esfera do cenário. Os murmúrios, que faziam-se presentes, mas que até então eu vinha ignorando, instantaneamente pararam.

— Desculpe — sussurrei para a garota em quem eu havia esbarrado.

Ela virou-se para trás e lançou-me um olhar irritadíssimo, e então, pela cor do cabelo ou o semblante emburrado, eu reconheci. Era Hazel.

— Ah, é você.

Ela não parecia muito contente com a minha presença. Girou os olhos e se afastou, prostrando-se do meu lado. Notei a presença de um chicote rosa-choque em sua cintura e abri a boca para perguntar, mas antes que pudesse, Coeley voltou a falar e eu achei melhor prestar atenção, porque quando olhei para trás, todos haviam se afastado.

Diante da mesa em que Edward e Coeley estavam em pé, só estávamos eu, Hazel, Kyara — a menina de nove anos que eu havia feito descer ladeira abaixo acidentalmente em meu primeiro dia -, e mais dois campistas.

Uma delas, uma garota, tinha a pele escura e usava óculos fundo de garrafa. Ela tinha o cabelo todo preto e trançado, e ao lado dela havia um garoto, loiro e cuja pele lembrava muito cor de ouro. Seu bronzeado era encantador. Imediatamente pude identificá-lo como um filho de Apolo.

— Muito bem, — Edward começou, e bateu palmas para chamar novamente a atenção dos campistas. — como todos sabem, perdemos um de nossos veteranos em uma missão no ano passado e o outro foi liberado de suas atividades aqui no Acampamento Meio-Sangue. — Ele pigarreou e extraiu uma espécie de pergaminho enrolado do interior de sua jaqueta de couro que recobria a camiseta alaranjada. — Sendo assim, eis os novos veteranos. Quero deixar claro que a escolha foi tomada por mim, Coeley e Quíron, e outros fatores além do número de contas foram considerados. Muito bem, Coeley, você faz as honras?

Coeley pigarreou e assentiu, tomando posse do pergaminho.

— Nosso primeiro novo veterano é Andrew, do chalé de Atena.

O grupo atrás de nós explodiu de vivas e palmas animadas. Alguns deles assoviaram, também, e alguns gritos de entusiasmo puderam ser ouvidos na multidão. A balbúrdia estendeu-se durante alguns minutos.

— Muito bem, muito bem, já chega — pediu Edward — Por favor, Coeley, continue.

Coeley pigarreou novamente.

— A outra pessoa que irá se juntar a nós na organização do acampamento será Samantha, de Afrodite.

Ao meu lado, Hazel cruzou os braços, fechou ainda mais a cara, girou os olhos e bufou.

— Ótimo — resmungou, irritada.

Mais “vivas” puderam ser ouvidos e uma garota de olhos puxados e aparência deslumbrante caminhou, sorrindo como se estivesse se encaminhando para o tapete vermelho do Oscar enquanto se dirigia à mesa dos veteranos. Lá, apertou a mão de Edward, que retribuiu o cumprimento sem muito entusiasmo e abraçou Andrew, o outro recém-nomeado veterano. Estranhamente, quando ela fez menção de cumprimentar Coeley, ela maneou a cabeça negativamente e voltou os olhos para a multidão, ignorando completamente a nova companheira de organização.

— Agora, como vocês perceberam, temos um número desproporcional de novatos e veteranos, então um de nós terá que pegar um novato a mais — pontuou Edward. — Alguém se oferece?

Andrew e Samantha cochicharam entre si e os outros campistas observaram em silêncio. Até mesmo os olhos de Edward e Coeley voltaram-se para eles. Coeley ia abrir a boca, após alguns minutos de discussão entre os dois novos veteranos, mas antes que pudesse dizer algo, a mão entusiasmada de Samantha se ergueu no ar, e ela falou com sua voz adocicada e seu sorriso galante:

— Ficarei encantada em treinar mais de um campista.

Os olhos de Coeley novamente se estreitaram.

— Muito bem — disse Edward, batendo palmas para chamar a atenção dos campistas novamente, como se isso decidisse a questão. — Sendo assim, Samantha, pode escolher os seus pupilos.

— Escolho o bonitinho e a chatinha — disse Samantha, olhando para o filho de Apolo, e depois para Hazel.

— Muito bem, James de Apolo e Giselle Bündchen, com Samantha, por favor.

— Já disse que meu nome não é esse! — ralhou Hazel, espumando de raiva.

Samantha abafou risadinhas debochadas e Edward bufou com impaciência.

— Muito bem, muito bem. Andrew, pode escolher seu pupilo.

O filho de Atena deu um passo a frente e passou os olhos por nós três.

— Fico com a filha de Hécate.

A garota de óculos de fundo de garrafa deu um passo a frente, parecendo estranhamente confiante, e se prostrou ao lado de seu novo mentor.

— Certo, certo. E com isso, parece que sobraram para mim e Coeley... Isabella e Kyara. Faz as honras, Coeley? — Os olhos amendoados de Edward voltaram-se para minha meia-irmã.

Naquele momento, relaxei por completo. Era óbvio que Coeley me escolheria, então eu estava salva. Não teria que conviver com aquele garoto arrogante e insuportável todos os dias, treinando. Endireitei a postura, mais à vontade e aguardei pelo chamado de Coeley, mas o que veio em seguida fez com que minha cara partisse-se em mil pedaços.

Eu devia estar tendo algum tipo de alucinação auditiva, só podia ser. Era isso, com certeza.

Só podia ser brincadeira, Coeley não podia ter feito aquilo comigo... Como podia ter escolhido Kyara, sabendo que eu detestava Edward mais do que tudo? Como podia ter me obrigado a conviver com aquele... Aquele homem?

Desejei estrangulá-la com minhas próprias mãos, mentalmente. Surtei, senti vontade de gritar. De quebrar tudo, ir embora do acampamento e depois chorar, chorar muito.

Mas eu sabia que não podia fazer isso.

Logo quando achava que finalmente estava me adaptando àquele galinheiro, me veio essa rasteira.

A voz implacável de Edward confirmou aquilo que eu já sabia, e temia.

— Bom, então parece que ficarei com Isabella, de Tânatos. Reunião encerrada.

Os veteranos desceram da mesa e os grupos se dispersaram. Desejei morrer, internamente, mas essa não era uma alternativa.

Mais tarde, naquele mesmo dia, resolvi reagir. Precisava de ajuda. Precisava que alguém fosse intervir em meu favor, precisava que alguém colocasse um fim naquela palhaçada.

Eu precisava da ajuda de Ártemis. E falaria com ela o mais rápido possível.

Notas finais
E então, o que vocês acharam?