O Filho de Ares
3 Capítulo II. O gosto da derrota
Notas iniciais
Foi preciso certo esforço para não arrumar mais confusões no decorrer do meu primeiro dia, já que todos pareciam estar me encarando e fazendo comentários de reprovação em cada canto do acampamento que eu passava.
Eu não os culpava. Realmente, havia sido bem imprudente da minha parte atacar aquele centauro desconhecido. Ainda não havia caído a minha ficha por completo, de que eu não era mais uma grande guerreira. Ali, eu era apenas Bella. Mais uma semideusa e, agora, uma louca psicótica em potencial – era assim que eu era vista, pelo menos.
Fiquei feliz ao perceber que meus irmãos de chalé eram até que parecidos comigo. Eles não falavam muito, então o silêncio reinava no dormitório quase que o tempo todo.
De primeiro momento, foi um choque quando me dei conta de que teria que compartilhar o quarto com homens.
Até cogitei pedir uma transferência para o chalé de Ártemis, mas achei que seria ousadia demais até para mim, dadas as circunstâncias que haviam composto a minha chegada caótica.
Não, seria melhor evitar novos conflitos.
Além disso, tinha também aquele garoto. O semideus veterano que havia conduzido a novata chamada Kyra e a “Gisele Bündchen”, que na verdade se chamava Hazel Petrova. Lembrei-me da ameaça que ele havia feito sobre contar ao Sr. D. caso eu me metesse em encrencas de novo e me senti um pouco perturbada com essa ideia, estremecendo e sacudindo a cabeça para espantá-la de minha mente.
Sr. D., na verdade, era como os campistas chamavam Dionísio, o deus do vinho e das celebrações.
Suspirei ao pensar que o conheceria em algum momento de minha estadia. Nunca havia conhecido nenhum outro deus, somente Ártemis.
Os primeiros raios de sol já invadiam o Chalé XXI e eu me dei conta de que não havia pregado os olhos.
Não me sentia cansada, para ser bem honesta, mas eu tinha uma noção de que minha cara deveria estar horrível. Quase podia sentir as olheiras se aprofundando e, do lado externo, alguns ruídos e vozes davam indícios de vida humana em atividade. As pessoas já estavam se preparando para o café da manhã.
Peguei, debaixo do meu travesseiro, meu maço, meu isqueiro e o presente misterioso de meu pai. Soquei tudo dentro da bolsa, fiz minha higiene matinal e sai andando. Respirei fundo antes de começar o dia.
“Hoje vai ser melhor”, pensei, tentando penetrar aquela ideia no fundo de minha mente.
Pesquei uma unidade do box de cigarros e pressionei a rodinha do isqueiro para tentar acender, mas não havia mais gás. Me sentei, já questionando a minha afirmação positiva anterior, e me permiti tatear o embrulho que Ártemis havia me dado antes de eu ingressar no acampamento.
Abri o envelope sem cerimônias.
Tânatos, além de ser meu pai, era também o deus da morte, então eu esperei que seu presente fosse um chaveiro com o formato de uma lápide ou algo assim, mas não era.
Pela primeira vez na vida, ele havia me dado algo útil, como se tivesse adivinhado que eu iria precisar.
Assim que desembalei, me deparei com um isqueiro zippo que tinha, em sua fronte, a imagem de uma caveira talhada. Era excessivamente elegante e junto com ele havia um bilhete, que acabei deixando cair no chão. Me abaixei para pegá-lo e fui incapaz de impedir que meus olhos se movessem, pegando algumas palavras soltas no meio da carta que foram o suficiente para despertar minha curiosidade adormecida.
Desdobrei e comecei a ler.
“Prezada Isabella,
Sei que você deve ter muita raiva de mim, especialmente agora que pedi a sua suspensão da Caçada para que você receba um treinamento adequado (...)”
“Você não tem ideia do quanto”, pensei ao ler o primeiro verso. Meus olhos se estreitaram e eu rangi os dentes. Continuei.
“(...), mas, acredite, faço isso pelo seu bem.
Quero que você tenha a chance de se descobrir como humana, e não só como guerreira.
Os seres humanos nascem, vivem e morrem. É por isso que vocês são chamados de mortais.
E você é uma filha do deus da morte. Quero que você perceba o quão absurda é a ideia de fugir disso juntando-se a uma Caçada que te torna imortal.
Mas, mais que isso, pela primeira vez, estou agindo como um verdadeiro pai para você e fazendo algo sensato.
Dê uma chance ao acampamento, a uma vida mais tranquila... A tudo.
Ártemis me contou sobre seu vício, então achei que você iria gostar do presente.
Se estiver em perigo – sabemos que isso é pouco provável, já que o acampamento é muito seguro –, agite o isqueiro três vezes, se afaste e jogue-o o mais longe que puder.
Não use o presente sem necessidade. (...)”
Essa parte estava frisada. Prossegui com a leitura, franzindo o cenho.
“(...) Faço votos de que esteja bem.
Respeitosamente,
Seu pai”
Rasguei o bilhete em uns quinze pedaços, irritada. Quem ele pensava que era para agir daquela maneira? Depois de todo aquele tempo...
Coloquei de volta meu cigarro na boca, acendi-o com o isqueiro novo e sai andando.
Encontrei certa dificuldade para achar o pavilhão do refeitório, já que eu não tinha tido muito tempo – ou melhor dizendo, interesse – em explorar o acampamento, portanto não seria difícil me perder em meio ao trajeto.
Suspirei de alívio quando cheguei em segurança e encontrei algumas mesas já preenchidas. Os campistas já estavam se servindo e fazendo oferendas aos deuses. Varri os olhos por toda a extensão do perímetro.
Havia, na mesa mais próxima da lixeira, bem no cantinho daquele espaço, uma garota ruiva emburrada, cujas órbitas cor de mel fixaram-se nas minhas logo que ela me viu. Ela pareceu se animar por um momento, já que seus olhos se arregalaram e seu braço direito estendeu-se na minha direção. Entendi que ela estava me chamando para me sentar com ela. Era Hazel.
Bufei. Seria melhor isso do que ficar sozinha e expandir a ideia de que eu era maluca na cabeça dos outros campistas.
— Oi, Hazel — cumprimentei conforme fui me aproximando. Me assentei de frente para ela.
Não tínhamos tido tempo de conversar no dia anterior, já que eu havia me isolado de tudo e todos logo após minha humilhação pública de estréia, mas eu esperava que ela não me fizesse nenhuma pergunta sobre aquele estranho incidente. Eu estava tentando esquecê-lo.
— O que foi aquilo ontem? — Ela me perguntou com um meio-sorriso; o entusiasmo era evidente em sua voz.
Suspirei.
— Me desesperei — expliquei, simplesmente. — Não vai acontecer de novo.
— TÁ BRINCANDO?! — A voz dela saiu aparentemente mais alta do que ela planejava e agora ela gesticulava, representando movimentos de batalha no ar animadamente. — Você deu uma surra nele! Parecia até que você já sabia lutar... Você treinava? Digo, algum tipo de luta... Antes de vir para cá, sabe?
Corei e olhei para trás, encontrando um ou dois grupos que pareciam olhar para mim e cochichar algo. Alguns dos semideuses que compunham estes grupos simplesmente desviaram o olhar logo que os encarei. Não que eu tivesse a intenção de parecer mais intimidadora, mas era inevitável, simplesmente.
— Na verdade, não...
— Porque aquilo foi demais! — Hazel falava muito. Comecei a não me sentir mais tão à vontade com sua companhia. — Aliás, espera... Eu e a Kyra fomos colocadas no chalé de Hermes. Aparentemente, todos os não-reclamados estavam dormindo lá. Onde foi que você passou a noite?
A curiosidade e a empolgação em sua voz eram gritantes. E desconcertantes, também. Apertei os olhos e movi as órbitas para os dois lados, tentando pensar em alguma coisa que pudesse servir de pretexto para eu fugir dali.
— Dormi com meus meio-irmãos — fui sincera.
Talvez, se ela achasse que eu já vim para o acampamento reclamada, isso a aquietasse. Era melhor evitar suspeitas de que eu pertencia a alguma organização externa. Seu queixo caiu.
— Não acredito! Você já foi reclamada? Pelos deuses! — Definitivamente, era muita empolgação envolvida. Fixei minhas órbitas em seu pescoço por um momento, desejando estrangulá-la. — Literalmente, pelos deuses! Ou, melhor, pelo deus! Qual deus? Quem é seu parente divino, Bella?
Girei os olhos e me preparei para responder, mas, antes que pudesse, uma garota de maquiagem pesada e cabelos escuros assentou-se do meu lado sem dizer uma palavra sequer e Hazel imediatamente se calou. Ela era intimidadora. Reconheci seu rosto. Havia a visto no chalé de Tânatos.
Sua pele era pálida e sardenta, ela usava meia-calça preta rasgada, botas lúgubres tipo coturno e os cabelos amarrados num coque frouxo. Seu olhar era gélido e assustador.
— Vaza daqui — Ela falou, simplesmente, retirando uma foice longa do suspensório amarrado às suas costas e colocando-a na mesa de maneira ameaçadora.
Achei que ela estivesse falando comigo.
— Desculpe? — questionei.
— Você não — esclareceu. — Ela. Vaza daqui, Gisele Bündchen.
Pelo visto, o apelido havia se espalhado rápido.
Os olhos de Hazel se arregalaram e ela pareceu prestes a chorar por um momento. Ela começou a se levantar, com a cabeça baixa, mas antes de sair lançou-me um olhar profundamente sentido, que me cobrava uma atitude. Retribui com um de solidariedade e senti uma pontinha de culpa, mas não havia muito que eu pudesse fazer. Não sem arrumar mais problemas para mim mesma e de quebra tomar uma boa surra. Afinal, os poderes mágicos com os quais eu estava acostumada a lidar haviam sido suspensos.
Fiquei encarando a veterana, esperando que ela dissesse alguma coisa, explicasse porque havia se sentado comigo, mas ela não disse nada. Pelo contrário, começou a desenrolar alguns guardanapos em sua bandeja e mordeu uma maçã naturalmente, ignorando a minha presença por completo.
— Vai ficar aí me olhando ou vai pegar alguma coisa para comer? — Ela disse, sem nem olhar para minha cara. — Temos pique-bandeira em meia-hora. É melhor se alimentar se não quiser morrer ainda hoje.
Ela era estranha. Retirou, do interior do sutiã totalmente coberto pela camiseta alaranjada, um maço de cigarros da mesma marca que o meu e acendeu-o, dando a primeira tragada.
Certo... Gentileza não era bem o forte das pessoas por ali. Me levantei e sai andando, preparando uma bandeja pouco recheada. Eu não estava com muita fome, mas, realmente, ser mortal tinha dessas. Eu iria precisar de bastante energia. Uma tigela de granola natural misturada com um pouco de leite e açúcar deveria resolver. Misturei tudo e me sentei em outra mesa. Aquela menina não me parecia ser uma companhia agradável.
Dei três colheradas no meu café da manhã e rejeitei-o, incapaz de concluir a refeição. Só de pensar nas minhas expectativas para aquela atividade que eu desconhecia, meu estômago inteiro se revirou em náuseas.
Eu não tinha levado nenhuma arma comigo, mas imaginei que eles deveriam me fornecer alguma, emprestada. Não deu nem tempo de eu fumar outro cigarro por inteiro. Quando vi, os campistas já estavam levantando de suas mesas e se locomovendo para o lado sul do acampamento. Acompanhei a multidão sem muito ânimo.
Surpreendi-me ao ver que os jovens começaram a se juntar em volta de um rapaz que eu já conhecia. Era ele. O garoto do dia anterior, que havia me repreendido por atacar Quíron.
— Muito bem, muito bem — começou ele. — Vamos escolher os times. Onde está Coeley?
Pessoas iam se achegando e quando percebi, eu já estava imersa em uma pequena multidão de semideuses. A minha meia-irmã estranha do almoço se espremia entre as pessoas. Ela assumiu sua posição ao lado do outro veterano, levantando o braço para ser enxergada durante o trajeto.
— Aqui. Serei o azul, como sempre — informou ela, e um dos semideuses lhe entregou o capacete com o detalhe mencionado.
— Muito bem, isso significa que o meu time será o vermelho, de novo. — Outro rapaz lhe entregava um capacete da cor oposta. — Certo. Acho que é você quem começa escolhendo essa semana, certo, Coeley?
— Certo — a voz da veterana era rouca, quase mórbida. — Escolho a encrenqueirinha ali na frente para começar.
Ela me apontou com o queixo pálido. Conclui que a “encrenqueirinha” era eu. Eles realmente pareciam gostar de apelidos por ali. Gelei e dei alguns passos a frente. Um menino baixinho me entregou o capacete azul e fez sinal para que eu o vestisse. Obedeci.
— Escolho a Leah, de Hécate — chamou o veterano pálido que já preparava o time rival.
Não demorou tanto assim para que os times terminassem de ser formados. Em quinze minutos, tudo já estava organizado. As últimas a serem escolhidas foram Kyra e Hazel. Aparentemente, a menina chamada Coeley realmente tinha algum problema com a Petrova, pois preferiu escolher Kyra, miudinha como era com seus oito anos, do que ela.
A ruiva suspirou e foi para a equipe do outro veterano, batendo as pernas com insatisfação.
Em seguida, os grupos se dividiram. Nós fomos para o lado Oeste do acampamento e a equipe do outro veterano foi para Leste.
Havia, no nosso lado da atividade, uma bandeira azul bem grande estirada em uma pequena clareira em meio ao verde das matas. Era um lugar mal iluminado, cujas árvores eram tão altas que nem se podia enxergar direito o céu.
Algumas armas estavam espalhadas pelo chão e os campistas foram se munindo, cada um daquela com que tinha mais afinidade. Pelo menos, foi isso que eu supus, mas quando fui pegar um arco e uma bolsa de flechas, a garota chamada Coeley me interceptou pelo braço.
— Não pode usar isso, é para os filhos de Apolo — seu tom de voz e seu olhar eram de censura. — Nós, de Tânatos, usamos a foice.
— Não sei usar uma foice — protestei.
Ela riu, pegando uma das armas exóticas, bem parecida com a que ela portava e me entregando.
— É claro que sabe, está no seu sangue — me aconselhou ela, séria. — Não use. Simplesmente deixe que ela use você.
Me parecia uma péssima ideia, mas ela deveria saber o que estava falando. Com certeza, ela tinha mais experiência em ser uma filha de Tânatos do que eu, e com certeza ela não iria me prejudicar, já que estávamos na mesma equipe.
— Muito bem, muito bem! — Ela acentuou o nuance vocálico para ser ouvida e os jovens começaram a se juntar em volta dela, atentos. — Conhecem o jogo, rapazes. Uma parte de nós ficará aqui para proteger a nossa bandeira. A outra estará no ataque, se organizando da melhor maneira possível para capturar a bandeira do time vermelho. Perguntas?
Kyra se aproximou com as pernas bambas e o rostinho angelical avermelhado. Ela parecia prestes a chorar.
— Eu tenho uma pergunta. — Sua voz era extremamente aguda e baixa, retraída. Todos se viraram na direção dela. — Vou ficar no ataque ou na defesa?
Coeley suspirou, girando os olhos.
— Você vai ficar na defesa, certo, garotinha? — O tom de simpatia em sua voz era forçado. Muito forçado. Simplesmente não combinava com ela. Ela era uma legítima filha de Tânatos. Fria, perigosa e intimidadora. — Tudo que você precisa fazer é ficar sentadinha do lado da bandeira e se alguém se aproximar, você levanta os braços e não faz nada, certo?
Kyra moldou um biquinho com os lábios e abaixou os olhinhos infantis. Percebi que sua voz era manhosa ao natural.
— O-Ok. — Ela respondeu simplesmente, colocando-se na posição ordenada por Coeley.
— Quanto aos outros... — recomeçou Coeley, recuperando sua postura ditatorial. — Os meus meio-irmãos vem comigo, na defesa. Filhos de Apolo, se escondam nos arbustos e preparem seus arcos. Ataquem de surpresa se precisar. Os filhos de Atena vem com a gente também. Tem alguém de Afrodite por aqui?
Ninguém se manifestou.
— Ótimo — ela parecia aliviada. — Ares e Hefesto, conosco. O restante de vocês vai ficar na defesa. Vamos andando!
Coeley era excessivamente agitada no que dizia respeito a competições. Pensei em questionar minha posição – eu realmente preferia ficar na defesa –, mas achei que isso podia gerar um desentendimento desnecessário, então só fui seguindo em seu encalço, mal sabendo como segurar meu armamento.
Naquela altura, já havíamos nos vestido corretamente para a atividade. O colete de bronze não me incomodava, tampouco ter que segurar o escudo pesado, pois eu já estava acostumada, mas minha ansiedade era minha pior inimiga naquele momento de tensão.
“Pelo menos, poderei extravasar todo o meu ódio nessa atividade” pensei. Até que um nível saudável de ódio me seria útil durante aqueles doze meses infernais.
Enquanto eu caminhava, meus olhos corriam para todos os lados, esperando por algum tipo de ataque-surpresa a qualquer minuto. Vimos um grupo grande se aproximar a nossa frente. Os olhos de Coeley se arregalaram.
— SE PREPAREM, PESSOAL. ESTAMOS SENDO ATACADOS! — anunciou.
Um dos filhos de Ares avançou bravamente na direção do grupo e atacou um deles, aparentemente comprometendo toda a estratégia que Coeley estava maquinando.
— PENSANDO MELHOR, NÃO SE PREPAREM — ralhou ela, corrigindo-se. — SIMPLESMENTE ATAQUEM!
Isso eu podia fazer.
Comecei a correr na direção do grupo e driblei alguns dos garotos, colocando-me diante de uma das meninas em posição de guerra. Ela apontou sua espada na minha direção e eu rodopiei a foice no ar, pedindo mentalmente que meu pai me ajudasse – já que eu estava naquela enrascada por culpa dele.
Não adiantou de muita coisa. Meu primeiro golpe fracassou e eu recuei alguns passos para trás. Ela me acompanhou me olhando perigosamente, com a ponta de sua espada se aproximando cada vez mais de meu pescoço conforme ela avançava em passos sutis.
Peguei-a de surpresa e girei a foice no ar, acertando seu ombro de raspão. A espada caiu e ela levantou os braços em um sinal de rendimento. Chutei-a na barriga só para me certificar de que ela não retornaria à posição de ataque traiçoeiramente e ela tombou no chão, deslizando alguns metros para trás.
Um outro menino materializou-se na minha frente com um chicote. Ele era encantador, realmente muito elegante, do tipo que chamava a atenção de longe. Conclui, pelo seu armamento e pelos traços delicados de seu rosto, de que se tratava de um filho de Afrodite.
Experimentei uma sensação que era nova para mim: eu quase pude ver uma aura se materializar acima de sua cabeça quando me senti desmotivada a prosseguir no ataque, estranhamente atraída.
Sacudi a cabeça, despertando do transe mágico bem na hora em que ele arriscou um golpe com seu chicote para frente. Passei a lâmina em seu joelho. Ele caiu no chão, mas investiu em um novo ataque, que repeli ao colocar meu escudo diante do meu ventre.
Atrás dele, um rapaz musculoso, sem camisa e de pele levemente escura golpeou-o com o cabo de sua espada na cabeça, desacordando-o. Suspirei de alívio e olhei para os lados. Todos já haviam caído, alguns dos nossos, alguns dos deles.
A minha frente, nosso grupo já avançava na direção da equipe rival.
— Vamos! — Chamou o rapaz que havia me ajudado, com um tom de voz frenético.
Ele começou a se deslocar freneticamente, num salto, e eu segui em seu encalço, apressada.
Alcançamos Coeley e os outros de nossa equipe, mas haviam novos adversários a serem enfrentados.
Uma delas, uma garota loira, avançou perigosamente na minha direção, me olhando com um semblante desafiador. Comecei a recuar, encarando-a de volta.
Eu quase podia ouvir meu coração batendo mais forte, completamente desligada das batalhas que eram travadas a minha volta.
Ela pôs um fim repentino a distância que nos separava e tentou realizar alguns golpes com sua adaga na direção de meu rosto no ar. Me esquivei em um salvo e sustentei meu corpo no solo pela mão direita, esticando a perna esquerda e realizando um movimento rotatório na direção de seus calcanhares que a fez cair no chão.
Levantei-me de supetão, sem lhe dar tempo para outro ataque e pisei com minhas botas em sua mão armada, sentindo os ossos de seus dedos estalarem – e talvez se romperem. Ela emitiu um muxoxo de dor, mas eu ignorei e comecei a correr de novo, seguindo na direção de minha equipe. Podia sentir minha testa gotejar.
— Chegamos — sussurrou Coeley, baixinho. — Mas sejam cuidadosos. Avancem bem devagar. Agora é a parte decisiva. Quando eu ordenar. Fiquem em suas posições...
Ela não teve tempo de concluir a estratégia. Vários campistas começaram a saltar das árvores e nos cercaram.
— ATAQUEM! — bradou minha meia-irmã.
Levantei minha foice na direção do menino que estava mais próximo de mim, mas a lâmina de sua espada chocou-se com o cabo de minha arma, repelindo o golpe. Em seguida, ele apontou a parte mais afiada de seu armamento para o meu pescoço e eu me abaixei, combatendo-o com um choque de meu joelho com sua virilha. Sempre funcionava.
Ele caiu no chão, imediatamente, com os olhos arregalados e a cara vermelha de dor. Comecei a moldar um sorrisinho de satisfação, mas fui surpreendida por Hazel, que grudou-se em minhas costas e tentou utilizar a mesma estratégia que me vira orquestrando no dia anterior contra Quíron.
Suas unhas arrastavam-se pelas minhas córneas e eu imediatamente fechei os olhos, mas suas garras eram bem mais afiadas do que as minhas. Dei-lhe uma cotovelada e pude ouvi-la cair no chão depois de cambalear um pouco para trás.
— Boa, garota! — comemorou Coeley, chutando a mão armada de Petrova.
Levei um tempo até recuperar minha visão e recuei alguns passos. Todos já estavam bem próximos da bandeira vermelha quando mais semideuses se aproximaram para combatê-los e eu achei que estava segura, dada a minha posição vulnerável que era visível de longe, mas não fui poupada.
Assim que recuperei parcialmente minha visão, o rosto do veterano que liderava a equipe rival se materializou diante de mim. Hesitei.
Dei alguns passos para trás, tentando não mostrar-me acuada, mas ele me fitava com interesse. Fechou a cara de repente.
— Sabe, para uma novata você até que luta muito bem... — analisou ele com os olhos apertados, meio desconfiado.
— Pois é! Muito bem mesmo! — rebati, avançando subitamente contra ele.
Eu havia aprendido muitas lutas exóticas na Caçada com Ártemis, mas nada que se comparasse com a agilidade e a força daquele garoto. Tudo isso sem desmanchar o semblante arrogantemente confiante. Ele estava praticamente impassível enquanto lutávamos.
Tentei, de primeira, acertá-lo com um soco na cara, mas ele ergueu o braço musculoso no ar e interceptou-me, esperando pelo meu próximo ataque sem partir para a ofensiva. Não esperei mais do que meio segundo, já tentei atingir seu diafragma, atirando meu escudo longe. Ele colocou o seu e minha frente e senti uma leve dor nos punhos, mas nada muito gritante ao ponto de me fazer hesitar. Adrenalina era realmente uma droga muito poderosa, e meu corpo estava inundada dela naquele momento.
Ele agarrou meu pescoço com uma de suas mãos fortes e me levantou no ar. Arregalei os olhos, sufocada e chocada com sua força incomum. Num ato de desespero, ginguei o corpo de uma só vez para o alto em uma manobra digna de um artista trapézio e enrosquei meus tornozelos em seu pescoço, jogando-o contra o chão ao comprimir sua cabeça com as coxas.
Me afastei em um pulo para trás e ele se levantou com a mesma expressão fria, sem esboçar nenhuma reação, de choque ou algo parecido. Tentei socá-lo no rosto novamente e ele simplesmente jogou o busto forte e definido para trás, desviando no ar. Meus olhos cresceram.
— Como... — tentei questionar, um luxo que não deveria ter me dado, pois a fala exerceu o papel de uma distração temporária, deixando-me vulnerável.
Ele derrubou-me com um soco na lateral da testa, mas, antes que meus joelhos tocassem o solo, eu levantei meu busto com tudo e outro soco dele me atingiu antes que eu pudesse fazer qualquer coisa. Foi difícil não tombar com aquele, mas eu me lembrei da foice.
O desejo de vencer fez com que a arma me guiasse e eu desisti da luta corporal, tentando atingi-lo com a lâmina bem no ombro armado. A estratégia infalível não funcionou daquela vez.
A lâmina pontiaguda de sua espada encontrou o cabo de minha foice de uma só vez no ar, interceptando o ataque. Tentei chutá-lo na virilha, mas ele recuou num salto e logo reassumiu a postura ameaçadora de antes.
Não tinha sido uma boa ideia. Conversamos numa bizarra transmissão de pensamento, só com o olhar.
“Eu recuo se você recuar”, eu disse, dando a entender com movimentos corporais sutis que estava disposta a abandonar minha foice se ele também largasse sua espada. Ele assentiu.
Joguei meu armamento longe e investi contra ele uma última vez.
Meus braços se ergueram no ar e foram de encontro ao seu que pôs-se de pé também em um solavanco, interceptando meu golpe. Ele agarrou a minha mão no ar e puxou-me na sua direção.
Meu corpo se comprimiu ao dele em um giro, que transformou, por um instante, a batalha em algum tipo bizarro de dança. Seu olhar permanecia gélido, como estava desde o início de nosso confronto.
Ele fixou as órbitas amendoadas nas minhas e me encarou de um jeito assustador. Seus olhos faiscaram novamente, como em meu primeiro dia, mas, daquela vez, eu em sentia corajosa o suficiente para não recuar. Encarei-o de volta e ficamos nos olhando. Eu podia sentir o suor de seu corpo passar pela camiseta e penetrar nas minhas vestes. Ele não recuou também, mas eu estava decidida a não desviar o olhar.
Por fim, uma voz desconhecida colocou fim à nossa competição.
— O jogo acabou. Vocês perderam.
Nós dois olhamos para o lado ao mesmo tempo, em busca da voz, e um garoto do time rival ao meu trazia consigo a bandeira azul. Atrás dele, um grupo de rapazes e garotas que usavam um capacete com um detalhe vermelho sorriam vitoriosos, quase que desafiadores para nós.
Encerraram-se os duelos que eram travados em nossa retaguarda, também.
— É assim que se vence, novata — disse o rapaz com quem eu havia acabado de batalhar, saindo sem nem mesmo olhar para minha cara.
Assisti-o se afastar, sem nem conseguir piscar os olhos. Me perguntei incessantemente, pelo restante do dia, quem era aquele garoto e onde é que ele havia aprendido a lutar daquela maneira.
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