O Filho Perdido
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Enquanto todos os Bridgertons reúnem-se na mansão a conversar e gargalhar, alguém observa a movimentação na casa. Está escondido nas sombras, debaixo de uma árvore, com algo nos braços.
Com passos incertos, a pessoa avança até os degraus da mansão, olhos atentos varrem o perímetro em alerta para qualquer movimentação. Apreensiva, a pessoa deposita o embrulho na porta da mansão, de seus olhos escorrem lágrima a muito contidas, então ela bate à porta e corre para longe, para as sombras da rua.
***
―Lady Bridgerton.
Kate vira-se para a governanta da casa, a senhora tem um semblante de preocupação. A intromissão interrompe o diálogo que as mulheres estavam tendo e todas voltam sua atenção para ela.
―O que houve? ― pergunta Kate.
―Senhora... Sinto interromper, mas preciso que acompanhe-me. Há um... assunto urgente e...
O choro de um bebê corta a fala da governanta e agora todos os nobres da sala de visitas ficam em silêncio.
― É Isabela? ― pergunta Hyacinth que havia tido segundo filho há alguns meses e ainda era um bebê a ser amamentado.
―Não, Lady St. Clair. Na verdade, não sabemos de quem é o bebê. ― diz a governanta segurando a saia do vestido demonstrando sua apreensão e nervosismo.
―Como assim? Tragam-no! ― exigi Kate.
―Sim, senhora. ― cumprimenta a governanta enquanto sai rapidamente e retorna segundos depois segurando uma cesta a qual continha um bebê envolto de mantas.
―O que significa isso? ― pergunta a anfitriã enquanto encara a criança que remexe-se na cesta.
―Lady Bridgerton, ouvimos uma batida na porta e ao abrirmos nos deparamos com bebê na cesta somente. Há um envelope. ― esclarece a governanta.
Os homens olhavam curiosos e se aproximaram cautelosos do círculo de mulheres as quais também encaram a cena com surpresa.
Kate pegou o envelope, abriu sem demonstrar elegância ou paciência, seus olhos transcorreram pela pequena carta e sua mandíbula comprimiu fortemente em seu maxilar.
―Parabéns, Anthony. Você ganhou seu presente de aniversário. ― disse Kate com acidez, a raiva contida fez com que ela cerrasse os pulsos a ponto das unhas cravarem na pele.
Todos ali presente voltaram seu olhar para o Visconde o qual tinha o olhar fixado no bebê e a boca aberta em surpresa, mas com o comentário da esposa, ele virou a cabeça lentamente e a olhou como se não acreditasse no que ouvira.
―Que? ― perguntou ele incrédulo.
―Não se faça de desentendido, Anthony Bridgerton! ― gritou Kate levantando-se da poltrona e encarando marido.
―Acha mesmo que esse bebê é meu? Percebe o absurdo que cogitou? ― pergunta Anthony encarando a esposa ainda sem acreditar. ― O que a faz pensar que sou o pai dessa criança?
―A carta diz que esse bebê é um Bridgerton! ― esclarece Kate amassando o papel em mãos.
O silêncio reina no local por alguns segundos, todos estão chocados e nervosos, apreensivos com tais acontecimentos. Kate e Anthony encaram-se, a raiva subindo-lhes a cabeça, pois ela não admite traição e nem mesmo a ideia de um filho bastardo, já o visconde não entende como sua mulher pode cogitar que alguma vez ele já tenha traído, afinal, ele a ama incondicionalmente.
―A carta diz especificamente que é filho de Anthony? ― pergunta Penelope quebrando o silêncio.
―Diz que a criança é um Bridgerton! ― diz Kate tentando conter a raiva e as lágrimas que começam a se acumular no canto dos olhos.
―Então pode ser filho de qualquer um dos quatro. ― diz Hyacinth seguindo a linha de raciocínio da cunhada.
Todos direcionam o olhar para Benedict, Colin e Gregory os quais permanecem quietos e aterrorizados.
―Gregory? ― pergunta Lucy olhando para seu marido.
―Não! Nunca a trairia! ― esclarece o mais jovem agitando suas mãos.
―Não é meu. ― diz Benedict encarando a criança.
―Nem meu. ― nega Colin também.
―Será que não percebem que essa criança é filho de... de Anthony! ― as palavras pesam para Kate, há um bolo na garganta dela que a faz quase desabar em lágrimas.
―Por que acredita tanto que o pai seja eu? ― pergunta Anthony.
―Por que será que esse bebê chegou justo em seu aniversário? É claro que a mãe quis dar-lhe seu presente de aniversário e... Quem é ela? Quem é a mãe desse bebê? ― grita Kate.
―Não sei quem é e mãe! Não sou o pai dele! Katharine, nunca a trairia! Nunca! ― grita Anthony encarando a mulher, quase arrepende-se ao notar que suas palavras ferozes fizeram-na desabar na poltrona e começar a chorar, ele queria aproximar-se dela, beijá-la e consolá-la, mas o visconde também estava ferido diante das acusações da esposa.
―Kate, calma. ― Francesca aproxima-se da cunhada e tenta consolá-la.
―Muito bem, já chega. ― Violet Bridgerton, que ficara calada observando a cena se desenrolar, ergue-se do sofá, põe as mãos na cintura e encara seus quatro filhos homem. ― Agora digam-me, quem é o pai?
―Já disse que não sou eu. ― diz Colin levantando as mãos mostrando-se inocente.
―Também não sou eu. ― afirma Gregory.
―Nem eu. ― nega Benedict sentando-se em uma cadeira e encarando o bebê.
Anthony, que mantinha seu olhar sobre a criança dentro do cesto, tentava pensar como aquilo poderia estar acontecendo. Como aquele bebê pode ser um Bridgerton se todos os homens negam tal possibilidade? Será que um de seus irmãos estaria mentindo? Será que havia traído a esposa que amam?
―Anthony? ― pergunta Lady Bridgerton e encarar o filho.
―Até a senhora, mamãe. ― resmunga o visconde sentindo o peso do mundo em cima dos ombros. ―Não sou eu, já disse.
O silêncio volta a se instalar na sala, todos chocados tentam procurar alguma explicação para a origem daquele bebê. O menino, que tinha apenas alguns dias de nascido, agitou-se com a confusão dos adultos e começou a chorar, Eloise que estava mais próxima pegou-o no colo e começou a acalentá-lo, tentando sessar o choro.
―Está com fome. ― alegou a baronesa Crane.
―Dei-me. Tenho leite de sobra, irei amamenta-lo. ― disse Penelope estendendo o braço.
―Penelope. ― recriminou Colin.
―Colin, se ele é seu filho ou não, não importa no momento. Ele ainda é um bebê e está faminto, um pouco de leite não fará falta a Jane. ― argumentou Penelope pegando o menino no colo.
―Eu acompanharei você. ― disse Eloise.
E as amigas saíram da sala de visita rumo a ala infantil.
―Kate, posso ver a carta. ― pediu Hyacinth com a mão estendida.
A viscondessa entregou o papel amassado a cunhada e voltou a chorar, recebeu um lenço de Gregory e agora tentava secar as lágrimas.
Hyacinth e Daphne juntaram-se a ler a carta, analisando minuciosamente cada palavra ali escrito.
―Em nenhum momento especifica quem é o pai. ― diz Daphne ainda a encarar a carta.
― Não identifica a mãe, o que é óbvio que não colocaria. ― comenta Hyacinth revirando os olhos. ― Diz que o primeiro nome pode ser escolhido, mas pede que o segundo dele seja Daniel.
―Então Daniel era o nome que colocaria no menino. ― deduz Benedict chamando a atenção de todos.
―Benedict! ― grita Sophie pondo as mãos na boca e olhando surpresa para o marido.
―Não, não é nada disso. ― nega o homem andando até a mulher, ajoelhando-se no chão e beijando sua testa. ― Mas se a carta, provavelmente escrita pela mãe, pede para o segundo nome do bebê ser Daniel, é porque iria chama-lo assim.
―Benedict tem razão. ― concorda Francesca.
―Desculpe. ― pede Sophie aos sussurros.
―Tudo bem. Estamos todos nervosos. ― acalma ele fazendo carinho no braço da amada.
Anthony assistiu à cena do irmão com inveja, queria fazer o mesmo com sua esposa, mas não ousaria aproximar-se dela com seu orgulho ferido. Olhou para Kate e seu coração apertou, a mulher estava pálida, não chorava mais, porém estava desolada e olhava fixamente para a janela. Ao direcionar também o seu olhar para o céu noturno, pode ver um dos motivos das apreensões da amada, havia parado de chover, mas o céu com nuvens alaranjadas prenunciava uma tempestade. O visconde suspirou, seria uma longa noite...
O silêncio voltou a se estabelecer na casa. Foi interrompido quando Eloise e Penelope retornaram trazendo o frágil bebê a adormecido.
―Pronto, está alimentado. ― disse Eloise pondo o bebê novamente no cesto.
―Decidiram algo? ― perguntou Penelope sentando-se novamente no sofá.
―Não. ― respondeu Daphne que suspirou. ― Preciso de chá.
―Peça a empregada fazer um novo bule, este já está frio. ― pediu Violet.
Daphne assentiu, levantou da sala e foi providenciar mais chá. Naquela tensão, uma boa bebida quente viria a calhar. Eloise logo senta-se no lugar da irmã que acabara de sair e puxa das mãos de Hyacinth a carta.
―Deixe-me ver isso. ― resmunga Lady Crane.
Hyacinth enfurece-se com tal falta de educação, mas respira fundo e ignora o fato. Já lera a carta ml vezes e não achou nada de excepcional.
Penelope junta-se a Eloise e analisam as palavras do papel.
Família Bridgerton,
Venho por esta carta pedir para que cuide de meu filho, pois não tenho condições para cria-lo. O bebê poderia ser um Bridgerton, mesmo não sendo legítimo.
Atrevo-me a pedir que o segundo nome dele possa ser Daniel, o primeiro é de vossa escolha.
―É alguém com estudo, pois escreve com coesão e coerência. ― comenta Penelope.
―E teve aulas de caligrafia, as letras são bem formadas e legíveis. ― observa Eloise.
―Mas não dá para saber se foi um homem ou uma mulher que escreveu.
―Curioso que pede para que a família cria-lo, ao invés de pedir dinheiro.
―Sim, ainda mais curioso porque usa o vocativo “Família Bridgerton”, ao contrário de Visconde ou Lorde.
―Talvez seja porque Anthony não seja o pai.
―Talvez seja porque queria a atenção de todos os filhos de Lady Bridgerton, e não apenas do visconde.
―Porque poderia ser filho de Benedict, Colin ou Gregory.
―Mas nenhum admite que seja o pai, nem ao menos que tiveram um caso com alguma mulher e...
―Talvez porque esse menino não seja um bastardo! ― interrompe Eloise com os olhos a brilhar em suas maquinações mentais.
Todos os presentes da sala encararam a mulher, Daphne nesse instante retorna a sala de visita trazendo ela mesma uma bandeja contendo um novo bule de chá, xícaras limpas e biscoitos. Colin imediatamente pega metade das guloseimas e começa a digerir.
―O que quer dizer, Eloise? ― pergunta Philip pela primeira vez depois de todo o rebuliço.
―A carta diz que o bebê poderia ser um Bridgerton, mesmo sendo ilegítimo. Quem escreveu usou o verbo “poderia”, mas em nenhum momento afirmou que o menino “é” um Bridgerton. ― explica a baronesa. ― Além disso, a carta é direcionado a toda a família, não especificamente ao Anthony. Talvez a mãe só quisesse que o filho seja... adotado.
―Adotado? ― pergunta Kate, incrédula.
― É a única solução que ele deixa para nós abandonando o bebê em nossa porta. Não podemos desamparar a criança. Já que Anthony, Benedict, Colin e Gregory afirmam não serem o pai, a família Bridgerton terá que adotá-lo, mesmo não sendo um membro legítimo.
Ninguém soube mais o que dizer diante da interpretação de Eloise. Era uma observação alternativa que tinha fundamento, mas muitos naquela sala ainda duvidavam que tal tese fosse o fato real. Duvidas de fidelidade ainda pairava sobre todos.
―Eloise tem razão, teremos que... fazer algo com a criança. Mas quem ficará responsável? ― pergunta Gregory.
Anthony suspirou, estava prestes a anunciar que arcaria com a responsabilidade, afinal, ele era o Visconde Bridgerton, o responsável pela família. Se alguém haveria de sustentar e tutelar o menino, este alguém tinha que ser ele.
Porém, o visconde mal teve tempo de abrir a boca e pronunciar seu ato de responsabilidade quando Francesca surpreende a todos anunciando:
―Eu o adoto.
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