O Filho De Uma Traição
4 Um encontro inesperado
Notas iniciais
Demorou alguns minutos até Rick encontrar uma loja de material de construção, e mais alguns para conseguir alguém que os atendesse em inglês. Finalmente, compraram uma chave de fenda e voltaram para o carro, em completo silêncio. Rick parafusou a placa de trás, a que havia sido retirada, enquanto Grover se apoiava no capô do carro.
– Pronto — Rick disse, se levantando e espanando a calça jeans — agora podemos seguir viagem.
Grover não deu atenção. Já há algum tempo olhava de um lado para o outro, como que procurando por algo ou alguém.
– O que você tem? — Rick perguntou, franzindo a testa e cutucando no braço de Grover.
– Nada — ele respondeu, como que acordando de um transe — só estou avaliando o local. A placa já está no lugar?
– Sim — Rick disse, colocando a chave de fenda no bolso da calça. — Já podemos seguir viagem.
Ele deu a volta no carro para o lado do motorista e abriu a porta enquanto Grover entrava no lado do passageiro.
Porém, antes que Rick entrasse, ele avistou um carro de polícia, provavelmente, o mesmo que haviam despistado.
– Droga! — Ele gritou e entrou rápido no carro. Fechou a porta com força e tentou ligar a chave. Mas, por algum motivo, o carro não pegou.
A Ranger policial parou ao lado, e dois policiais saíram, indo em direção a eles. Um deles, o que estava dirigindo, era alto, forte, musculoso e com óculos escuros. Ele se aproximou da janela do motorista, que estava aberta. Rick respirou fundo.
– Posso ver a sua habilitação, rapaz?
Rick passou a mão pelos cabelos castanhos, enquanto Grover olhava fixamente para a frente.
– E então? — o policial perguntou novamente — Não vão me dizer que vocês não têm? Que vocês estão dirigindo esse carro e nenhum dos dois tem habilitação? Bem, já que vocês não vão me dizer nada, os dois vêm comigo pra delegacia.
Rick e Grover se entreolharam antes de saírem do carro. O policial mandou que eles entrassem na Ranger, o que eles fizeram com muita relutância.
****************************************************************
– Não pode ser! Não pode ser! — Grover começou a murmurar, já dentro da Ranger.
– O que foi, cara? — Rick perguntou. — Eles só vão nos levar pra delegacia, rapidinho a gente fica livre.
Grover não respondeu, mas fazia gestos com as mãos que Rick não conseguia entender.
Os policiais que, até então, estavam do lado de fora, entraram. O motorista colocou as duas mãos no volante.
– Você não faz ideia de como foi difícil encontrar você.
Rick revirou os olhos enquanto Grover balbuciava, com os olhos fechados.
– Se soubessem o quanto é importante — o policial continuou, tirando os óculos escuros — não teriam mandado um simples sátiro te buscar. Mas não fazem ideia de como você é poderoso.
Então ele olhou pelo pára-brisa, e seu olhar se cruzou com o de Rick. Seus olhos eram grandes, um era vermelho sangue, e o outro, amarelo. Ele sorriu e, no lugar de dentes, estavam caninos afiados, que lembraram a Rick os dentes de um tubarão, que vira uma vez em um museu. Seus dedos no volante se esticaram, e nas pontas surgiram garras de ferro. Seu corpo começou a inchar, encher de pêlos e mudar a tonalidade, ficando da cor de bronze.
– Mas duvido que seja mais poderoso do que eu — a criatura falou, com uma voz trovejante e extremamente assustadora. O policial ao lado se transformou também, porém seus pêlos eram amarelos. Rick ofegava e Grover estava completamente estático.
Rick tentou abrir a porta, mas o monstro travou antes que conseguisse. Ele olhou pra todos os lados, procurando alguma maneira de sair, mas parou de repente, esboçando um sorriso.
– E agora, filho de uma traição? — o monstro riu — Sua única saída é a morte. E eu terei esse prazer.
– Sinto muito — Rick respondeu enfiando a mão no bolso e tirando a chave de fenda — mas você não vai ter esse gostinho.
Rick segurou a chave de fenda com as duas mãos e partiu o vidro. Antes que o monstro reagisse, ele se levantou e se jogou pela janela, quebrando o vidro e caindo do lado de fora. Ele passou a mão pelo cabelo, tirando os cacos, e saiu correndo em direção a Corvette.
O monstro ruivo saiu do carro. Ele tinha a cabeça humana presa em um corpo de leão. E, como se não fosse assustador o suficiente, possuia uma longa cauda de escorpião, com espinhos de aço pontiagudo na ponta. O outro monstro também saiu, arrancou a porta do passageiro e puxou Grover pra fora.
– O que faço com o sátiro? — ele gritou para o colega, e sua voz ecoou pela rua.
– Ele não é importante — o outro respondeu — Precisamos do garoto. Faça com o sátiro o que você quiser.
A criatura então agarrou Grover pela cintura e o levantou do chão. Apontou os espinhos na ponta de sua cauda para o peito dele, e se preparou para lançá-los. Mas, antes que fizesse qualquer coisa, uma flecha cortou o ar e o acertou no meio dos olhos. Ele se dissolveu instantâneamente, e Grover caiu no chão.
O outro monstro virou a cabeça para o local de onde veio a flecha, e o que viu foi um rapaz ofegante, segurando um arco em uma das mãos, e a outra em posição para pegar a flecha na aljava em suas costas.
– Você é mais inteligente do que eu imaginava — o monstro riu — mas isso logo se nota quando sabemos qual a sua descendência.
– Você sabe quem é o meu pai? — Rick gritou.
– Há! — O monstro gritou de volta — Eu e meus mestres sabemos de sua existência desde que seu cheiro começou a ficar mais forte. E logo, logo todos os deuses do Olimpo também saberão que seus pais não honraram a promessa pelo rio Estige.
Enquanto o monstro falava, Grover tentou se aproximar para ataca-lo por trás, mas este o percebeu e o agarrou pelo pescoço, levantando-o do chão.
– Solta ele! É a mim que você quer! — Rick gritou enquanto Grover se debatia, dando socos no ar.
– Se tem uma coisa que eu detesto é deixar testemunhas pra trás — ele debochou, apertando ainda mais.
Rick sentiu o sangue ferver. Uma adrenalina que nunca sentiu antes tomou conta dele. Antes que percebesse, Rick já estava correndo em direção ao monstro. Ele pegou uma flecha da aljava enquanto corria, e atirou, errando o alvo propositalmente. A flecha atingiu o braço do monstro, que urrou de dor e jogou Grover no chão. Rick pegou mais uma flecha e mirou outra vez.
– Sabe qual a sua maior fraqueza? — o monstro gritou, depois de arrancar a flecha do braço e a quebrar no meio — Acreditar que pode resolver todos os problemas sozinho. E se posso te dar um aviso, será justamente isso que irá te derrotar.
E, dizendo essas palavras, o monstro desapareceu bem diante dos seus olhos, enquanto Rick tentava fingir que aquelas palavras não retorciam em sua mente.
Fale com o autor