Alguns anos haviam passado, a empresa estava cada vez crescendo mais sob a tutela de Beatriz, assistida por seu doutor e mestre. Ela continuava tomando lições dele, embora não precisasse, mas tinha-lhe um imenso respeito por tudo que havia dedicado a ela. Ainda mais era a única pessoa com quem podia conversar sobre os segredos de Ecomoda. O que a intrigava é que contava muito de sua vida familiar, profissional e seus anseios, mas o homem continuava misterioso. Não falava nada sobre sua vida, sua família, sua história, apenas sobre a empresa, o mundo da moda, a Fashion Week em Paris, Milão e o Plano de Negócios que as colocaria em contato com o Fashion Group, as modelos que contratariam e etc. Ele era bem reservado, quase não sorria, ah não ser quando via o entusiasmo que ela expunha suas ideias. Como a ideia de um baile para o aniversário de 30 anos da empresa coincidindo com o desfile de lançamento coberto pela imprensa especializada de moda, revistas de fofoca, imprensa local , resultando em um documentário, que serviria para incrementar o portifólio da empresa para futuros clientes.

—Você é maravilhosa! Sempre com maravilhosas ideias!

—Graças a você, doutor! O único que sempre me incentivou e confiou em mim!

—Você sempre foi um gênio, Beatriz!

—O senhor é um gênio, doutor!

—Obrigado! Obrigado! –disse, abraçando-a. — A pessoa certa para dirigir Ecomoda! Prometa que nunca deixará Ecomoda!

—Aqui aprendi tudo! Sempre estarei agradecida! Não a largaria, sempre estarei com Ecomoda e o senhor!

—Grato, Beatriz! -disse, segurando seu queixo.

Era agora uma executiva de renome. Muitos lhe ofereciam o que quisesse para deixar a empresa, mas ela continuava fiel à Ecomoda e trabalhando febrilmente. O Fantasma nunca se arrependeu de ensinar-lhe tudo que sabia. Seu único arrependimento é um dia ter tido a ideia de transformar seu look. Ele levou-a ao antigo showroom onde se escondia, o iluminou especialmente para ela e deu-lhe um tratamento de beleza digno de uma modelo e desde aquele dia, não teve mais sossego. Todos os homens da cidade passaram a admirá-la e lhe convidar para sair. Aí descobriu que o que parecia improvável aconteceu: havia se apaixonado por aquela menina-mulher. E passou a fazer de tudo para espantar todos os homens que lhe cruzavam o caminho dela, ninguém podia ousar tocá-la.

—Beatriz Christine Pinzón é só minha! Só minha! Meu anjo da moda, minha bela -dizia acariciando a foto que ele conservava quando ainda era feia -Você é minha, Beatriz! Ninguém vai amá-la como eu! –beijou seus lábios de papel. Uma pena que agora eu seja este ser repugnante, este homem horrível deste rosto derretido! Impossível que possa me amar e me desejar como a amo e desejo. –dizia com lágrimas –Queria tomá-la em meus braços e amá-la, te ensinar a amar como ensinei-lhe tudo. Mas sei que jamais me amaria!

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Espantar as moscas de sua amava Dra. Pinzón

Apesar dos esforços de Armando, os homens continuavam a se acercar a Beatriz e ele como podia tratava de assombrá-los um por um. O primeiro foi seu antigo amigo de farra Mário, quem conhecia e sabia como era supersticioso. Depois de assombrá-lo o convenceu a largar Ecomoda e ir cuidar das franquias bem longe dali e que nunca mais voltasse a ver sua amada novamente.

—Sim, sim. Mas quem é você?

—Não te interessa! Faça o que mando, Mário Calderón! Vá para bem longe!

—Sim, mas não faça nada comigo, por favor! Seu Fantasma!

—Feche os olhos!

—Sim.

—Vai fazer o que digo?

—Sim. Mas não faça nada comigo! –dizia com os olhos fechados, ajoelhado.

—Não abra os olhos!

—Prometo que não abrirei!

—Vai embora!

—Sim, o que o senhor quiser!

Assim como Daniel Valencia que, após ganhar a presidência, passou poucos dias sendo presidente e também andou atrás de sua amada, após ela se revelou em todo o seu esplendor e do nada renunciou por ter recebido uma misteriosa proposta milionária e nunca mais foi visto por Ecomoda. Por pouco não aconteceu nada com Nicolás, economista da empresa e amigo de infância de Betty, pois percebeu que os dois tinham carinho de irmãos um pelo outro e agora ele tampouco tinha ciúmes deste relacionamento, já que não queria o mesmo. Não queria ser seu irmão, seu tio, queria ser seu homem, o tutor que lhe ensinou tudo que sabia e também lhe ensinaria a amar. Em seus sonhos nunca havia ficado deformado e era amado por ela e viviam juntos para sempre felizes.

Mas aquilo eram apenas sonhos, pois a realidade é que continuava a ser o mesmo monstro e Beatriz um belo anjo. E naquela noite, sentiu que um punhal atravessava seu peito ao vê-la no carro ao lado de um homem bonito como Michel Raoul Doinell.

—Maldito sea!

Sabia quanto o francês era sedutor e sabia usar do charme e do cavalheirismo para ter as mulheres que quisesse. Conhecia-o muito bem, de sua vida passada quando na juventude ele e Mário haviam passado férias em Paris, conhecido Michel, que apesar de ser mais novo que os dois, já era um sedutor nato e o loiro levou-os para conhecer os melhores lugares para caçar mulheres. Estava na sua cara como desejava Beatriz e ela podia ser muita esperta em administrar empresa, mas em relação a homens era pura e inocente. Michel não precisaria muito para seduzi-la, tinha as armas certas do charme e beleza, as que um dia ele também teve.

O que o fantasma desconhecia é que Michel estava perdidamente louco pela doçura de Beatriz. Tudo nela o encantava: a inteligência, a beleza, a simplicidade e a doçura, tal como encantava o Doutor Fantasma. Por isso, com ela, apesar de sedutor, agia verdadeiramente como cavalheiro. A encontrando “por acaso” em coquetéis, restaurantes, jantares de negócios, lhe apresentava clientes. Aos poucos os convites se tornaram mais comuns para tomar um café, ir ao cinema e mesmo assistir a óperas.

—Posso te pegar em Ecomoda depois do expediente?

—Sim, claro que sim.

—Ou melhor, poderia te pegar em sua casa para tomarmos um café juntos.

—Michel, chego muito cedo à Ecomoda!

—Estarei lá, esperando-a para tomarmos café!

E sim estava completamente encantado pela aquela bela jovem executiva e disposto a esperar o tempo que fosse necessário para conquistá-la desde que não levasse tanto tempo assim.

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O fantasma não estava gostando nada daquela amizade entre sua aprendiz Beatriz e Michel Raoul, embora ela sempre dizia que só havia entre eles a amizade e companheirismo, como com seu amigo Nicolás. Mas ele sentia que de certa forma, isto a estava desconcentrando do propósito da empresa.

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Certa noite, Michel a acompanharia ao desfile de lançamento da Semana de Moda de Bogotá.

—Não creio eu seja bom ir a este lançamento, Beatriz! Amanhã teremos reunião de diretoria bem cedo e a quero descansada e preparada! –disse ele bem desgostoso.

—Sabe quão importante é para Ecomoda!

—Entendo. Só não entendo que tenha que ir acompanhada de... Michel Raoul Doinell! –dizia cheio de ciúmes.

—Er, ele se ofereceu a acompanhar-me.

—Sabe que não gosto!

—Não há porque se preocupar! –disse acariciando seu queixo.

—Não deixe que ele se aproveite de você.

—Nada vai acontecer, Michel é um cavalheiro!

—Estou falando sério, Beatriz! -disse segurando seu pescoço, de um modo que ela se arrepiou.

—Somos apenas bons amigos, doutor. –dizia acariciando o lado descoberto de seu rosto. -Não há porque se preocupar. Se te tranquiliza assisto ao primeiro desfile e peço que Michel me traga à empresa para que possamos estudar o que deve ser falado amanhã.

—Melhor!

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Mas já eram 3 horas da manhã e Beatriz não chegava. Fantasma esperava impaciente, até que viu-a chegar no carro de Michel

—O que foi? O que a preocupa? Não entendo que tenha que voltar tarde da noite. –disse Michel

—Tenho coisas para fazer, te disse!

—Sim, mas era melhor que fosse para casa.

—Tenho muita coisa para fazer! –disse olhando para os lados e procurando-o.

—Me preocupo. Como vai voltar para casa?

—Aqui é como se fosse minha casa. Não se preocupe!

—Não creio ser uma boa ideia! Olha, fique tranquilo. Muitas vezes fiquei na empresa. Tenho um quarto aqui dentro de minha sala.

-Está bem! Mas vou vê-la entrar. Vocês não tem segurança aqui à noite? Todas as empresas tem!

—Ecomoda é muito bem protegida! Ojojo! “Pelo fantasma. Quem ousaria vir aqui estas horas?” –pensou

Michel queria beijá-la para se despedir, mas se contentou em beijar-lhe as mãos. Esta levaria tempo para conquistar e apressar as coisas colocaria tudo a perder.

Ao abrir a porta, Beatriz viu tudo às escuras e uma música ao fundo. Foi quando uma voz calou o silêncio.

—O desfile só terminou agora?

—Que susto! –disse Beatriz com a mão no coração.

—Pensei que já tinha se acostumado a mim!

—Sim, mas pensei que dormias!
—Fantasmas não dormem, Beatriz! Como foi na Fashion Week?

—Bem, fizemos alguns negócios!

—Fizemos? Quer dizer que Michel a acompanhou a todos os lugares?

—Para isto foi, não?

O fantasma franziu a testa.

—O que foi?

—Sabe que não gosto muito desta história.

—Não há porque se preocupar, voltei como disse, não?

—Sim, mas...

—Não fiquei para o baile, como te prometi!

—Tampouco chegou cedo!

—Michel achou estranho que voltasse à empresa esta hora! –disse desamarrando sua capa vermelha de veludo. O mascarado se aproximou dela e prontamente tirou-lhe a capa por inteiro.
—Que me importa o que pensa este francês?

Ele a tomou pela cintura, por trás, segurando-a.

—Podemos fazer o baile aqui. –disse dentro de seu ouvido. –Dando-lhe uma flor vermelha.

—Sabe que nunca dancei bem! –disse cheirando a flor.

—Deixe-se ir em meus braços. Te ensino! -disse, aproximando-se de seu corpo. Praticamente a levava nos ares, devido à diferença de altura. A jovem tremia um pouco, mas procurava relaxar-se.

Beatriz relaxou, envolvendo seus braços ao redor de seu pescoço. Ele não poderia fazer-lhe mal, pois tem lhe cuidado todo este tempo. Sentia algo no ar, algo que nunca havia sentido antes. Aquele homem misterioso lhe provocava admiração, carinho, companheirismo, proteção, mas também medo e curiosidade, coisas que conhecia, mas o restante não conhecia.

O fantasma suspirava, estava totalmente apaixonado por aquela menina. Se não tivesse aquela marca enorme a cruzar-lhe seu rosto, confessaria seu amor em seu ouvido com sua voz quente e melodiosa. Betty sentia-se tonta.

—Não queria que voltasse cedo para me ensinar sobre a reunião amanhã? -disse Betty séria interrompendo a magia.

—Creio que saberá bem o que dizer! –sem soltar sua cintura.

—Por que precisava voltar cedo, então?

—Precisava de você aqui contigo! -dizia dando-lhe a volta.

—Er... creio que estou cansada.

—Só mais essa e vou deixá-la descansar, meu anjo. –disse dando-lhe outra volta e tornando a segurá-la sedutoramente, de modo que nem um papel passava entre eles, tamanha era a tensão.

Ao terminar a música, Armando a conduziu até o quartinho dentro da sala de presidência, onde havia reformado e instalado um quarto de princesa para ela.

Quando a deitou, estava sonolenta. Mas antes que apagasse a luz, viu que dormia e era tão linda. Assim que começou a acariciá-la, com a rosa vermelha, primeiro no rosto, depois nos braços. Deitada, o vestido encolheu e pôde ver aquelas belas pernas pela primeira vez.

—Tão linda!

Não podia resistir de acariciá-la com a rosa, sentindo-a dormida suspirar.

—Ah!

—Te amo, Beatriz Christine! Estou aqui contigo! -dizia tocando-a delicadamente, com a parte detrás da mão. Sentia-se culpado, ela era tão pura e ele era um homem com um passado.

—Ah!

Ela podia sentir aquele toque em seus sonhos.

—Estou aqui, Christine! -dizia, tocando-a com a rosa, delicadamente e sussurrando em seus ouvidos -Como queria senti-la, como queria que me visse tal como era antes sem deformidade, sem esta máscara!

Via como sua fina e sedosa pele ficava arrepiada com seu toque e ela abria sua carnuda boca para suspirar.

—Ah!

—Beatriz, assim morro!
Saiu correndo dali ou enlouqueceria. Desceu as escadas na escuridão. Não precisava de luzes, conhecia todos os caminhos, depois de morar anos ali. Só lhe restavam as lágrimas e um copo de whisky em sua sala escura, e manequim que era cópia de Beatriz.

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Na salinha que servia de quarto, a moça acordou assustada e excitada, havia sonhado que a tocavam por todo o corpo. Estava molhada de excitação.

—Ah! Apenas um sonho.

Olhou para os lados, lembrou-se da dança com seu tutor no que diziam ser o antigo showrrom, o subterrâneo da empresa. A última pessoa que havia visto antes de adormecer.

—Mas ele... não. O doutor é tão sério, o máximo que se atreve é dançar e segurar-me firme com suas mãos enormes. É tão misterioso. Como será seu rosto? Vou pedir que me mostre. Ele não pode me negar! O que tem para esconder se me revelou tudo até que é o Fantasma de Ecomoda!

Do lado de fora, Michel de dentro do carro ainda olhava para aquela empresa às escuras. Havia ouvido sussurros e também música. Não podia entender o que acontecia com aquela menina e porque tinha que voltar à empresa assim tarde da noite. Precisava entender o que passava com a jovem. (Ele é intrometido, metido, chato ou cavalheiro? O que pensam?)

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